Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Arquivos: Interpretação

Moldar, Flutuar, Voar, Irradiar

Por Eva | 19/10/2011, 11h17

“Sinto que meu coração é um sol, e dentro dele habita outro sol muito maior, querendo irradiar-se do meu peito.”
São Francisco de Assis

Desde o segundo período aguardávamos o momento de cursar a disciplina Interpretação I, convidada para ministrar a disciplina de Interpretação I. Melissa.

Ela estava ensinando pra nos umas técnicas de mimese corpórea, ainda estamos no início, nem sei conceituar.

Ela passou quatro ações do Tchécov para fazermos. A primeira é moldar: é como se o corpo estivesse mergulhado no barro, e a energia fluia do centro do quadril, e o corpo ia moldando o barro ao redor. A segunda é Flutuar: é como se o ponto entre os olhos fosse “inflável”, e nós estivéssemos imersos na água, flutuando. O terceiro é voar: a energia nasce do meio dos (das?) omoplatas, e os movimentos são de cortar o ar, riscar o céu. A turma tava numa sintonia ótima, nenhuma esbarrão, muita velocidade e movimentos bonitos. Eu estava exaurida, com aquele suor que escorre dentro do olho, molha a gola da camiseta, ensopa o cabelo, sabem? Indo sempre dentro do limite.

Aí ela disse que o quarto movimento é Irradiar. E que é o mais difícil, pois não tem movimento base ou ponto de foco. “É como se o coração irradiasse e saísse pela ponta dos dedos, pelos olhos, e você só consegue ficar na posição do homem vitruviano”.

Eu pensei: “Fodeu, esse não consigo fazer.” Passando mal de suar, comecei a tentar concentrar na irradiação. Sempre tive inveja dos meus amigos artistas/espíritas, que faziam visualizações loucas, flutuavam sobre manaus, atingiam o universo, mergulhavam nos fluidos e coisa assim. Eu sempre fazia uma imaginação do cenário, mas nunca VIVI uma viagem astral, apenas mentalizava imagens, o que é relaxante e gostoso, porém não é máááááágico e tal. E eu não bebo nem “viajo”, né? :D

Três vezes eu pensei: vou sentar e ficar observando, esse eu não vou conseguir fazer. Quando pensei a terceira vez, olha que loucura, ela falou pro grupo “Segura, segura, não desiste não, tem que tentar!”

E não sei o que foi, eu imaginei meu coração ficando incandescente, e de repente saiu uma coisa de dentro de mim, que, PUTZ, irradiava pros braços, eu não conseguia mais deixar os braços penderem relaxados. Eles foram esticando, como se voooooshhhhh jorrasse uma coisa do meu coração e NOSSA eu fiquei na posição do homem vitruviano e eu irradiava, os olhos irradiavam, eu estava tão feliz e me movendo como se fosse mestra naquilo, sem esbarrar em ninguém, como uma dança de espantalhozinhos felizes.

Quando o exercício parou, eu sentei no chão e chorei tanto que o pessoal veio perguntar se eu tava passando bem.

Eu esperava sentir essa plenitude há doze anos, quando entrei no grupo de teatro. E nem lembrava mais que era isso que eu queria.

Autopsicofonia

Por Eva | 23/06/2009, 12h09

O ator é fingidor,

finge tão completamente

que convence o espectador

que sente aquilo que não sente.

(Paráfrase boba do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa)

Representar ou interpretar?, me perguntaram. 

Representar é…hum. Pense na tarefa de um representante. Ele comparece a um evento substituindo alguém que não foi. Ele representa aquela pessoa. Representar é isso: estar no lugar de outra pessoa.

Interpretar é diferente. Quem interpreta observa, analisa, reflete. Interpretação significa, de certo modo, formar e emitir opinião.

No palco também. Representar é estar lá, apenas. Substituindo uma pessoa que não pode falar por si (por ser obra de ficção, como Romeu; por já ter falecido, como Cazuza; por não ter interesse em ser ator, como Patch Adams). Quem representa, está como substituto de alguém.

Interpretar é criar. Extrair significados de cada frase do texto, de cada marcação. O ator que interpreta sabe as motivações da personagem, sabe o passado dela e o contexto social onde ela viveu. Sabe a razão de cada gesto das mãos, de cada passo. Sabe o significado por trás de um passo para o fundo do palco, ou de três passos na direção do outro personagem. Interpretar é criar os tiques, o andar, o ritmo da respiração. 

Representar é trabalho mecânico; interpretar é trabalho criativo.

Interpretar é o trabalho do ator.

Si! Fu! Xi! Pá!

Por Eva | 15/06/2009, 09h48

A voz. O ator precisa atentar para a voz. Ele precisa ter boa pronúncia, ter facilidade de fazer qualquer sotaque (ou de falar sem sotaque algum), precisa se fazer ouvir em um auditório com mais de 500 pessoas. Uma frase que todo ator em formação escuta milhares de vezes é “você precisa ser escutado pela última pessoa da última fileira do público”.

“Então, Eva, o ator tem que falar gritando?” Não. O ator precisa projetar a voz.

Projeção de voz é um conceito chave em interpretação. Porém, não é muito fácil de explicar por escrito.  É como se sua boca, crânio, ossos da face, se transformassem em um megafone e ampliassem sua voz – que não sai da garganta, sai da barriga.

Eu recomendo aos atores em formação que comecem treinando a respiração apoiada no diafragma. Dê um tempo para a musculatura abdominal se acostumar. Reserve um momento diário para ficar deitado no chão, com um livro maiorzinho (mas não muito pesado) sobre o diafragma (que fica quatro dedos acima do umbigo, bem mais fácil de localizar que o ponto g). Inspire pelo nariz enquanto a barriga estufa e o livro sobe; solte o ar soprando suavemente pela boca, murchando a barriga e descendo o livro. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Mais uma vez. (Eu ficaria horas fazendo isso, mas um iniciante dormiria. Comece com trinta minutos.)

Quando você já estiver craque em respiração diafragmática, é hora de exercícios para projeção.

De pé, inspire estufando a barriga e retenha o fôlego por alguns momentos; solte o ar fazendo um esforço consciente no diafragma (a barriga fica durinha), fazendo o som “sssssssss”. Muitas vezes,  muitas vezes. Coloque a mão espalmada sobre o diafragma.

Depois, a mesma sequência; inspirar -> reter -> expirar. Desta vez, emita o som “ffffffffff”. Infinitas vezes.

Mais uma vez, a mesma sequência já conhecida, “Inspirar -> Reter -> Soltar”, emitindo no final o som “Xi”. Tente não pronunciar a sílaba “xi”, mas sim imitar o barulho da água caindo na chapa quente. SHHHHHH! Setenta vezes sete vezes.

Na última sequência, uma mudança. Continuamos com o “Inspirar -> Reter -> Soltar”, mas ao soltarmos o ar, vamos explodir. Não ao pé da letra, claro :D . Contraindo o diafragma num movimento único, forte e rápido, emitindo o som “PÁ”! A idéia é que esse pá seja REALMENTE uma explosão, emitido BEM ALTO. Pra ajudar os mais tímidos, é legal fazer um movimento de abrir os braços simultâneo ao “PÁ”. É como se você estivesse “empurrando” o som, com as mãos, espalhando o “PÁ” por todo o recinto.  (Nossa, como é difícil explicar isso por escrito. Preciso me filmar e Youtubar.) Repetir o “pá” infinitas vezes.

Quando você já estiver com câimbra no diafragma, é um excelente momento para  dar uma pausa, beber uma água em temperatura ambiente (quem realmente quer trabalhar com a voz pode começar dando adeus à água gelada), para passar ao segundo momento.

“Mas Eva, isso tudo era só o primeiro momento?” Pois é.

Depois da pausa, vamos fazer sequências mais rápidas, de acordo com o esquema abaixo:

Inspirar -> Reter -> SSSSSii

Inspirar -> Reter -> FFFFFuu

Inspirar -> Reter -> XXXXXii

Inspirar -> Reter -> PÁ!

O próximo passo é martelar o diafragma (novamente, não leve isso ao pé da letra). Eliminando a parte de reter o fôlego, vamos inspirar e soltar dando uma contração RÁPIDA E FORTE no diafragma. Sabe aquelas dançarinas de dança do ventre, fazendo movimentos de tunc-tunc-tunc na barriga? É o que você vai fazer.

Inspira -> Si! -> Inspira -> Fu! Inspira -> Xi! Inspira -> Pá!

Vários dias repetindo essa sequência, e a voz vai estar mais próxima da projeção desejada.  Mas, querido ator, não se iluda: nunca vai estar perfeita. Você nunca vai estar “pronto”. No dia que o ator diz “ah, isso eu já sei fazer”, morreu um ator e nasceu um idiota. Marília Pêra tem aulas de canto semanais, e de balé clássico. E ela é Marília Pêra.

Agora, vale dizer que para falar melhor, sem sobrecarregar os órgãos fonadores, conseguir falar alto mesmo gripado, superar problemas de dicção e manter a voz sempre em forma, é recomendável ter o acompanhamento de um fonoaudiólogo.  Taí a que não me deixa mentir. :)

Respirando pelo diafragma… ou pelo nariz?

Por Eva | 14/06/2009, 13h12

No grupo de teatro do qual eu participo, atualmente vinculado à Federação Espírita Amazonense, houve um tempo em que nosso coordenador (que é ator profissional) ministrou para nós um curso livre de formação de atores.

Não passamos da terceira aula, pois sempre tínhamos ensaios atrasados, apresentações pra fazer em Centro Espíritas BEM afastados, figurino pra confeccionar…  E o curso foi ficando pra depois.

Mas as primeiras aulas, eu me lembro bem, foram sobre respiração e projeção da voz. Nós primeiro tivemos de descobrir onde ficava o diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome e controla a respiração. Até que não foi difícil: quatro dedos acima do umbigo, lá estava o diafragma.

Segunda lição: ao inspirar, a barriguinha estufa. Ao expirar, a barriguinha murcha. Nada de ombros pra cima nem peito arfando.

Foi um pouco complicado, depois de tantos anos agindo segundo um conceito de que é necessário “encher o peito de ar”, respirar com o peito imóvel e a barriga pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora.  Dava uma sensação de estar morrendo afogada – além da dor muscular na barriga.

Fícávamos com a palma da mão encostada na barriga do colega ao lado, sentindo a utilização do diafragma ao respirar. Era engraçadíssimo: tem gente que MEXE A BARRIGA, mas não respira, fica sem ar e então enche o peito. Tem gente que não consegue mexer a barriga no mesmo ritmo da respiração.  É uma prática cansativa, porém é o jeito natural de respirar. “Basta observar um bebê dormindo”, o diretor dizia. “A barriguinha dele sobe e desce, ritmada. Nós, com ombros tensos, coluna torta, sentados o dia inteiro, estressados, ficamos com a respiração curta, aqui no alto” – e ele batia no próprio colo. 

Nós do grupo sonhávamos em trabalhar com teatro oito horas por dia, com pausa de duas horas pro almoço. E sonhávamos em passar uma hora inteirinha, sessenta minutos, deitados no chão, respirando, respirando, a barriga descendo e subindo, respirando, exercitando os diafragmas sedentários.

Dessas três aulas do curso de teatro que tivemos, além das dores abdominais, ficou uma piada interna. Toda vez que alguém diz “Respira pelo diafragma!”, a pessoa responde “Não seria melhor pelo nariz?”

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