Camarim

Menina Eva vai ao teatro

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Oficina com adolescentes

Por Eva | 26/06/2011, 12h54

Eu mando eles ficarem na ponta dos pés, eles começam a dizer que dói. Eu digo para eles se alongarem com cuidado, para não machucar ou distender algum músculo, eles se contorcem como minhoquinhas.

Eu digo para que eles se concentrem, evitem falar, e eles cutucam o amigo do lado. Riem o tempo todo, histericamente. Eu peço silêncio, eles me olham de lado e continuam rindo, pois – ora, ora – eu sou ridícula.

Eu explico como é o corpo em plano baixo, e eles me chamam de aranha. Sugiro que façam movimentos mais rápidos, e eles imitam um ataque epiléptico. Puxam o cabelo de meu parceiro, batem nas paredes, conversam sem parar ao mesmo tempo que realizam momvimentos difíceis.

Eu e meus colegas ministrantes da oficina variamos as intenções: suplicamos, depois imploramos, depois ralhamos, depois pedimos por favor, depois pegamos o menino pelo ombro e dizemos “PÁRA AGORA com isso”.
Rimos também, porque para nós eles são transparentes como bolhas de sabão, e nós conseguimos enxergar todas as relações que eles pensam ser segredo: a menina que gosta do melhor amigo, e por não saber lidar com isso, dá tapas violentos nas costas dele (fico pensando se um dia os tapas serão beijos!); o rapaz que é tão tímido e envergonhado que ri sem parar e nos fala, esperando que acreditemos “não consigo, tia, não consigo ficar sem rir, não consigo me alongar, não consigo obedecer” – no fundo, ele é o que mais tem vontade de fazer teatro; a líder natural que tenta ser mãe dos colegas, berrando para que eles nos obedeçam “fica quieto, Fulano, te manca”.

Sinto as energias deles vindo pra mim, numa escaldante manhã de sábado de feriadão, quando eles poderiam estar em casa, se quisessem: não vale nota! Sinto-me perdida, fora de controle, frustrada, animada, esperançosa, tudo ao mesmo tempo.

E, ainda assim, eles me obedecem. Fazem os exercícios, se alongam, pulam na ponta do pé, e viram pra mim e perguntam: “Plano médio pode ser assim, Tia Eva?”

Amor é assim mesmo, complicado.

Crianças em cursos de teatro

Por Eva | 08/08/2010, 20h15

A Lainny colocou um comentário neste texto meu, e ela pergunta qual seria uma idade adequada para fazer curso de teatro. Vejam só:

quantos anos precisa para poder fazer um curso de teatro?assim por que eu ja penso no meu futuro e ja pretendo fazer teatro desde pequena! por favor me responda.

Eu suponho que ela seja bem novinha, dez a doze anos; e também suponho que ainda não esteja muito claro para ela se quer fazer “Teatro” ou se quer “interpretar”,ou ainda, se quer ser “famosa”; então enviei uma resposta pessoal. Infelizmente, o e-mail voltou. Então, publico aqui, na esperança de que ela volte e veja a resposta que escrevi.

Em todo caso, espero que essa resposta seja útil pra outras pessoas que tenham o mesmo tipo de dúvida.

Oi, Lainny!
Você mandou um comentário no meu blog Camarim. Nele, você pergunta qual a idade mínima para fazer curso de teatro.

Olha, Lainny, eu acho possível cursar interpretação desde pequena. Acho mesmo. Temos atores que começaram bem novinhos e se tornaram adultos reconhecidos em sua profissão: Glória Pires, Deborah Secco, Leandra Leal, Selton Mello, no Brasil; internacionalmente, eu poderia citar Dakota Fanning, Daniel Radcliffe (dos filmes Harry Potter), e ainda muitos outros.

Porém, antes de buscar um curso na sua cidade (você não disse onde mora, nem quantos anos tem. É em Manaus? Você é muito criança?), eu recomendo que você seja uma boa espectadora. Assista a espetáculos de teatro. Veja filmes, filmes antigos, filmes recentes, filmes brasileiros. Veja televisão, sim, veja televisão. E também tente apreciar pintura, fotografia, música, dança, esportes. Quem é muito novo se beneficia tanto com a diversidade de experiências! (E quem não é muito novo, também.) Leia a parte cultural do jornal. Leia livros sobre teatro, cinema, biografias de atrizes que você goste. Converse com o professor de artes da sua escola.

(Estou supondo que você tenha onze ou doze anos, mas pode ser que você tenha mais ou menos do que isso.)

Aííí, quando você tiver um pequeno repertório de experiências, você vai começar a conviver com a cena cultural da sua cidade. Talvez tenha algum grupo de teatro infantil, não sei. Se tiver, você fica um pouquinho depois do espetáculo, e conversa com o elenco. Conversa mesmo, pergunta se algum deles dá aula, ou se participa de algum curso que aceite menores de idade.

Já ouvi falar de cursos de interpretação pra crianças, mas são mais voltados pra Televisão, publicidade, sabe? A presença de crianças no teatro profissional não é tão comum assim.

Sabe, interpretar tem seu lado divertido, claro que tem; mas também é um trabalho, que requer empenho, disciplina, dedicação e tempo, ao menos algumas horas semanais. Ensaios são normalmente repetitivos, às vezes frustantes. E não é muito fácil para crianças muito pequenas se concentrarem durante muito tempo em uma mesma tarefa.

Em todo caso, torne-se antes um apreciadora da arte de interpretar. Aos poucos, você vai achando seu caminho. E não tenha pressa: o teatro não é como a ginástica artística, ou o balé, que exigem que você comece muito criança para conseguir ser um profissional. Você pode começar no seu tempo.

O que vocês acham?

Algo certo eu fiz!

Por Eva | 26/02/2010, 14h01

Aí, eu no meu trabalho, atendo a moça do Banco do Logotipo da Casinha, e ela:

- Você fez um teatro por aí,não é?
- Faço, faço um trabalho voluntário.
- Ah! O meu banco ajudou uma instituição no Natal, eu acho que você foi a Cinderela….
- Fui, fui eu sim.
- Menina, a minha filha só fala em ti. “Mamãe, a cinderela gosta de salgadinho” “mamãe, a cinderela lava roupa com VANISH!” “mamãe, a cinderela calça 39 que nem a senhora!”
- ….puxa, ela lembra das piadas que eu fiz durante a peça?
- Não tô dizendo? Cinco aninhos, e ela não esquece! Principalmente o vanish, que a vó dela usa. Ela adora ficar repetindo, “a Cinderela lava roupa com Vanish!”

Essa peça, a gente fez no Natal de 2008. Bicho, a menina tinha TRÊS ANOS, e ainda repete as minhas piadas de cena. Fiquei toda mole por dentro.

A piada do vanish foi assim: a Cinderela fez uma roupa pra usar no baile, e as irmãs invejosas rasgam tudo. Como o figurino era todo “recortado” com pedaços de velcro, era horroroso, tosco. E nunca tinha sido lavado e passado, após umas oito apresentações. Estava com uma NÓDOA de algo marrom que eu tento acreditar que fosse café. Depois da roupa toda rasgada, as irmãs e a madrasta saem rindo, e eu: “Talvez ainda dê pra consertar! Eu tenho um rolo de fita crepe…e se eu lavar com Vanish, talvez…” As crianças adoravam. E, aparentemente, não esquecem!

P.S.: O Vanish não patrocinou esse post, nem a peça, nem me conhece, etc etc. :D

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