Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Arquivos: A arte imita a vida

A encrenca dos meus sonhos

Por Eva | 20/11/2011, 21h19

Eu ando cansada, sabe. Não tenho tempo de almoçar, estou montando três textos diferentes pra três discipinas da faculdade, ensaiando uma peça, e ainda trabalho em uma repartição pela manhã. Saio cedo, volto depois das nove da noite, não tenho carro. Fiquei dois meses sem tirar a sobrancelha, por absoluta falta de tempo.

Arrumo minha mochila e tenho que colocar agasalho, guarda-chuva, remédios, escova de dente, pois nunca volto em casa e posso precisar de alguma coisa.

Mas, sabe de uma coisa? Eu estou estudando Ibsen. Brecht. Finalmente pude ler “Eles não usam black-tie”, peça da qual só ouvi falar. Na hora do intervalo, sentamos na lanchonete e conversamos sobre iluminação e cenário, sobre trabalho de voz. Sábado tive que explicar pra minha mãe o que era “fazer aula de corpo”. Estamos planejando uma montagem experimental de Sarah Kane em janeiro.

E eu nunca estive tão próxima do que eu sou de verdade, do que eu sempre quis ser, do que eu imagino pra mim mesma.

Debaixo das sobrancelhas tortas, meus olhos brilham. E é só isso que me salva.

Michel Guerrero

Por Eva | 29/11/2009, 14h09

Há cinco semanas, estou participando dos Laboratórios de Teatro coordenados pelo Michel Guerrero (ator e diretor influente e consagrado de Manaus).

Divulgado no jornal como um curso gratuito, no pimeiro dia apareceram mais de cem pessoas. Jovens, jovens, tão jovens. Uma revoada de adolescentes de onze até dezoito anos, com aquele discurso que eu conheço tão de perto, “eu amo teatro, minha vida é teatro, minha família não sabe de nada”. Alguns adultos, alguns já experientes.

Os laboratórios não são novidade pra mim. Fazer massagem no outro, segurar o olhar, desenvolver emoção, exercícios de fala e respiração, alongamentos, cenas improvisadas, criar um personagem e apresentar.

O que eu ganhei  – inegavelmente – com estes laboratórios, foi ver o Michel interpretando. Nossa, o Michel é uma força da natureza.

Uma vez, ele estava explicando em qual situação é possível interpretar de costas para o público. “Por exemplo”, ele disse, “se eu sou um sacerdote e faço assim”  e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, virou de costas pra nós, ergueu os braços para o céu e os abriu lentamente, e de repente o palco se tornou um altar sagrado, o ar se encheu de suspiros, e nós todos viramos membros daquela seita, silenciosos, completamente admirados. “Então eu posso ficar de costas, e até mesmo falar de costas, desde que caiba na proposta, entenderam?” E a mística se desfez, o mundo voltou ao normal, era apenas o Teatro Jorge Bonates e suas cadeiras antigas.

Cada vez que ele demonstra uma técnica de interpretação, eu fico maravilhada. Cutuco o meu namorado (que faz parte do mesmo povo do teatro), e fico vibrando: “NOSSA! NOSSA! Ele é muito bom, muito bom, muito bom!”

Com o passar das semanas, a quantidade de participantes diminuiu um pouco. Ontem, ele perguntou: “Tem alguém vindo pela primeira vez?” E ninguém levantou a mão. “Ai, GRAÇAS A DEUS!”

Em um dia que as apresentações se alongaram, passando do horário previsto para término (17h), alguns meninos perguntaram: “Podemos sair antes do final? Temos compromisso…” e o Michel respondeu, com tom leve e divertido e ao mesmo tempo ameaçador: “Podem ir, mas terão meu ÓDIO ETERNO!”

Por isso e por muita coisa que não conseguirei explicar, esses laboratórios me fizeram um bem imenso, e torço pra que se tornem um projeto permanente. Obrigada, Michel.

Órfã de Som & Fúria

Por Eva | 27/07/2009, 10h44

Estou morrendo de saudade de Som & Fúria. Como a Luciana disse (em um post que eu não posso lincar senão destrói meu post, e eu, burra, não sei consertar), é a melhor coisa da TV em 2009 – muito mais que Maysa.

Foram três semanas que passei em expectativa. Nas segundas, eu ia dormir pensando: “Amanhã tem Som & Fúria”. Às terças, eu ia trabalhar feliz: “Hoje tem Som & Fúria”. Às quartas, eu me aborrecia com o Futebol: “Droga, estou morrendo de sono e esses pernas-de-pau ficam atrasando o início de Som & Fúria!” Às quintas, eu trocava o DVD no gravador, para não correr o risco de ficar sem gravar nenhum pedacinho de Som & Fúria. Às sextas, eu apertava o stop melancólica, pensando que ainda faltavam três dias inteirinhos para continuar a história…

Sexta passada, eu apertei o stop muito mais melancólica. Porque era o último capítulo. Eu não poderia mais acompanhar os conflitos de direção do Dante, o nervosismo da Ana (que não era secretária, era diretora administrativa!), os engraçadíssimos lances do Henrique (Dan Stulbach, que roubou a cena todas as vezes, tornando-se meu favorito).

E, mais que tudo, não veria mais Shakespeare passando na TV. Essa série teve momentos sublimes, brilhantes mesmo. Ver a Débora Falabella (de quem continuo com antipatia, porque todas as personagens dela saem Lisbelas) e o Leonardo Miggiorin (bonzinho no papel de gay que transa com mulher) dizendo as falas de Romeu e Julieta (que todo mundo DIZ que conhece, mas pouca gente leu de verdade). Eu (que nunca li de verdade a peça), me surpreendi. Com a simplicidade das palavras, com a fácil compreensão do significado, com a passionalidade dos gestos. Como Romeu e Julieta é universal! Por isso que não cessamos de ver Romeu e Julieta em milhares de versões, no cinema, nas novelas, noslivros, e todo ano de um jeito diferente na Malhação. Amor impossível, amor proibido, amor com dificuldades.

Eu também gostei da delicadíssima participação do Paulo Goulart. Para fazer o contraponto com o empresário que patrocinou Sonho de uma Noite de Verão no primeiro capítulo, fazendo o constragedor discurso “Eu vejo Shakespeare como o pônei no telhado”, o Paulo Goulart (não sei o nome do personagem) criou um momento muito bonito, do empresário que, além de patrocinar a peça, tem uma história com a peça – Romeu e Julieta é a favorita da esposa dele, que está no hospital e não pôde se fazer presente à encenação. Derrubou todo mundo no teatro – e, obviamente, derrubou a Eva, essa telespectadora teatral, que tem o coração fraquinho pra histórias de amor difícil. A Ellen chorava nos bastidores: “Eu odeio essa peça. Porque na vida real ninguém consegue amar assim. E como não conseguimos amar desse jeito, achamos que não sabemos amar…” E o Dante: “A peça é igualzinha à vida real. Eles se apaixonam, tudo dá errado, e no fim dá merda.”

Quando Jacques (Daniel de Oliveira) fez o solilóquio de Hamlet, o mais famoso, o “Ser ou não ser”, aquele trecho que todo mundo DIZ que sabe, mas que na verdade pouquíssima gente já leu ou escutou por inteiro, eu fiquei de queixo caído. Primeiro: “Ué, o crânio não é nessa hora, não?” Segundo: “Puxa, é mais fácil de entender do que eu imaginei.” Terceiro: “Ai, caramba, tem milhares de pessoas assistindo isso, é Hamlet! Shakespeare Superstar!”

Outro momento excelente foi na montagem de Hamlet. Era a última apresentação da temporada, um monte de crianças de escola na platéia, jogando aviõezinhos nos Caras do Telecurso (Wandi Doratioto e Arthur Kohl, cujo nome jamais esquecerei :D ). Elenco meio desmotivado. Dante, o diretor mais cricri de todos os tempos, entra no camarim da Ellen, a Andréa mais Beltrão de todos os tempos, e pergunta qual a motivação da personagem Gertrudes quando assiste a morte de Ofélia e permite que ela se afogue. Ela, displicente, responde: “Sei lá, eu não queria molhar o meu vestido.” Após um pouco de pressão do diretor, ela elabora mais: “A Ofélia estava sofrendo, louca, e a morte traria paz a ela.” O Dante explica melhor: “A Ofélia se matou. Você vai mentir dizendo que ela se afogou para que ela possa ter um enterro cristão. Deixa isso bem claro na cena.” A Ellen revira os olhos: “Ah, Dante, por favor, hoje é a última apresentação!” E ele: “Então, é a última chance de você fazer bem a cena.” E ela entrou no palco; e arrebentou.

Agora, toda vez que eu entrar em cena, eu vou pensar nisso: que pode ser minha última chance de fazer bem a cena.

Ai, que saudade de Som & Fúria.

Eu preciso falar de “Som e Fúria”

Por Eva | 11/07/2009, 17h29

A série Som e fúria está em exibição pela Globo. Uma série dirigida pelo Fernando Cidade-de-Deus Meirelles. Uma série que fala dos bastidores de montagem teatral, e dia-a-dia dos atores e diretores e
toda a equipe por trás. Uma série de tv que conta com um elenco cheio de atores excelentes (de televisão e teatro), com tratamento de cinema. Eu preciso falar de Som e Fúria.

Começo falando das chamadas de Som & Fúria. Eu já me interessei quando vi que o tema da série era teatro. Quando escutei a música feita pela dupla Tangos e Tragédias, eu comecei a rir.

“Shakespeare escreveu/atores vão encenar/como precisava um canal/a Globo vai apresentar!

Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!/Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!”

Isso é TÃO engraçado. Sou só eu quem acho? Em uma chamada de uma série de TV fazer piada com a própria televisionação (existe uma palavra pra isso?) da dramaturgia? “Precisávamos de um canal pra exibir nosso trabalho para o Brasil todo, mas o que queremos mesmo é fazer teatro, viu?”

(Quem trabalha com teatro sabe que rola uma rixa com outras formas de arte – em especial a TV, claro,  ”a grande inimiga, deformadora do público, rasa, comercial, força do mal”. Não vou debater isso agora. Fica o registro que o teatro é local, e a TV é global (com todos os trocadilhos que vocês puderem imaginar). Grupos de teatro têm mais possibilidades de regionalizar a coisa, fazer referências ao cotidiano e cultura de seu lugar. A TV necessariamente centraliza tudo, e por isso temos uma novela no Leblon, seguida por outra em Copacabana, depois uma falando de uma favela carioca que tem uma escola de samba, uma no interior de São Paulo (pra variar um pouquinho), seguida por uma na conexão Lapa/Índia. E isso não é necessariamente ruim – apenas acontece. O grande centro produtor de teledramaturgia do Brasil (claro que estou falando do PROJAC) FICA NO RIO, ora essa. Os profissionais são de lá ou moram lá; as locações são lá; a centralização é reflexo disso. Eu, francamente, não acredito no DiscursoDoContra que diz que a Globo pretende uniformizar o Brasil, tranformando-nos em uma nação RiodeJaneirocêntrica, e é por isso que ela não exibe os jogos de São Raimundo (AM) X Payssandu (PA), e é por isso que não temos uma novela se passando nas ruas de Boa Vista. Ora, tenhamos um pouco de racionalidade: a Globo é apenas uma empresa, que precisa gerar dividendos, e precisa de bons resultados junto à maior parte do público. Eu não consigo ver a Globo como uma força do mal. E para aqueles que dizem que a Globo é um lixo, eu gostaria de fazer uma pergunta: vocês acham mesmo que a TV do Bispo ou a TV do Baú são melhores e devem assumir a liderança na tv aberta? Mas, eu disse que não iria debater isso agora. :D )

Terça, assisti ao primeiro episódio de Som & Fúria. Ah, caras, é tão maravilhoso quando voce se sente PARTE de algo.

O drama da companhia do Dante Viana, interpretado por Felipe Camargo (companhia que ensaia no Teatro Sans Argent, hahaha), que tem que lidar com lâmpadas incendiando-se e aluguel atrasado, me parece tão familiar. A companhia que não tem lugar adequado pra ensaiar, que não tem dinheiro, que precisa da bilheteria para pagar as contas. Podia ser a minha.

E também o drama da companhia do Estado, que ensaia no Teatro Municipal de São Paulo. Nessa hora, eu (que já tive o privilégio de me apresentar no Teatro Amazonas), também me identifiquei. Gostei particularmente da Ellen (Andréa Beltrão, ótima), no papel da atriz experiente e dada a estrelismos. Uma fala que eu adorei: “Olha, eu não estou querendo dizer que sou melhor que ninguém, tá bom, com licença, por favor, obrigada, mas digamos que, Sonhos de uma noite de Verão, segundo ato, as invenções do ciúme, Titânia, a Rainha das Fadas falando, eu acho que neste momento, ao menos neste momento, eu SOU a pessoa mais importante em cena, e o público não pode me ver nem me ouvir porque eu estou de COSTAS!”

(Alguns diretores dizem que a tal proibição dizendo que o ator nunca deve ficar de costas para o público está defasada. Hoje em dia, o ator poderia ficar de costas em cena, dependendo da intenção do diretor, sabe? Eu nao sei se concordo. Ainda acho que, na maioria das produções, um ator de costas prejudica mais do que ajuda… E na série, foi exatamente o que aconteceu!)

Além disso, foi um prazer enorme ver coisinhas sobre as quais eu escrevi aqui no Camarim pparecendo nos episódios. Quando a Ellen está no camarim se maquiando, e vai aquecendo a voz: Si, fu, xi, pá. Quando o Oliveira (Pedro Paulo Rangel, misturando escárnio com cansaço, tristeza e irreverência, excelente) passa com as atrizes e os atores desejando “Boa sorte, Merda, essas coisas”.

Ou no quarto episódio, de sexta. Uma piada que pode ter passado batida para quem não sabe jargão de teatro. Dante (Felipe Camargo, de quem eu ainda não consegui decidir se gosto ou não) pergunta se o ensaio ainda não começou por causa da Elen. Ela responde, escondida atrás das cadeiras, lá no final da platéia: “Eu tô aqui.” Ele a convida pra chegar mas perto. Ela diz que está bem ali mesmo, que prefere ficar ali. E ele: “Então PROJETA!”

Outras piadas são mais sutis. O fato de o principal crítico se chamar Bárbaro (numa citação claríssima à Barbara Heliodora); a Elen nunca saber se deve entrar pela esquerda ou pela direita (exatamente como Marieta Severo, grande amiga da Andréa Beltrão); e a Ana (Cecília Homem de Mello, que eu não conhecia e está perfeita!), a secretária da companhia, sempre dando umas indiretas sobre o mundo artístico. Quando Dante perguntou: “o que eu devo falar na entrevista coletiva?” ela respondeu: “Que tal a verdade? A gente anda precisando de inovação por aqui.”

No mais, Daniel de Oliveira muito bem, Maria Flor encantadora; Gero Camilo ÓTIMO, tende a roubar a cena; e os caras do Telecurso, né. Eu fiquei tão feliz quando vi os dois caras do telecurso, servindo como crítica interna, dos próprios colegas de elenco. Aparentemente, eles formam um casal.

No mais, um horário melhor do que o de outras minisséries, que nos concede a benção de ficar três semanas sem o horroroso Toma Lá, dá cá. Mas às quartas, fica difícil segurar o sono. Eu perdi o episódio de quarta: dormi aos quinze do segundo tempo daquele jogo insuportável, e acordei assustada, com o controle remoto na mão, com a tela dividida ao meio, mostrando as cenas do capítulo seguinte. Ai, ódio.

Causo de Sexta – Hoje é dia de X-Mico

Por Eva | 19/06/2009, 11h25

Em 2001, nosso grupo se sentia atado à necessidade de seguir o calendário de festas. E o dia das crianças sempre foi nosso prato principal do ano. É o nosso público mais numeroso, e há taaaaaaantos eventos beneficentes que precisam de um grupo de teatro que trabalhe gratuitamente, composto por voluntários adolescentes que vão pros bairros mais distantes num sábado de manhã… Éramos tão jovens e tão fascinados pelo “fazer teatro”, pra nós não tinha dificuldade nem preguiça.

Mas, eu dizia que íamos fazer uma peça no dia das crianças. E nosso coordenador, que também é nosso diretor e dramaturgo, o Paulo, escreveu uma peça chamadas “As Aventuras de Maria Xereta”.  A peça é ÓTIMA. Parece um filme da sessão da tarde de épocas melhores.

A peça gira em torno de três órfãs personagens centrais, que moram no “Orfanato Bom Jesus”, gerenciado por uma mulher muito braba e estranha. Elas fogem do orfanato para procurar os pais da Maria Xereta, que é protegida por uma fada meio maternal que diz que a mãe dela já morreu, mas o pai ainda está vivo e procura por ela. São assaltadas e perdem as mochilas, os tênias e até as meias. Mas, decidem seguir em frente procurando o endereço dos pais da Maria Xereta. Quando chegam, a casa está pegando fogo, e elas ficam sabendo que o viúvo que morava na casa havia viajado na véspera. Voltam para o orfanato meio tristes, mas no dia das crianças, tudo pode acontecer!

Tínhamos bastante gente no grupo (tempos de fartura), e dividimos o contingente em duas equipes. Havia um circuito de apresentações a realizar. Dois finais de semana, duas apresentações por dia; oito apresentações para cada equipe. 

Eu fiquei em uma equipe mais experiente. Amable fazia o papel da Maria Xereta, eu como a Júlia Sapeca e Larissinha como Ana Banana ( personagem elétrica que fala bobagens sem parar e é viciada em banana-nanica, favorita do público, sempre) ; a Dete como Fada/espírito da mãe da Xereta; o Seu Roberto como Dona Cinturão (hilário), bombeiro e pai da Xereta; e o Ives como ladrão. Quem ficou como maquiadora e sonoplasta foi a Lyvia, filha do Seu Roberto.  A Dete e o Seu Roberto eram os únicos adultos dignos desse nome.

Chegou o dia da primeira apresentação: foi no Abrigo Moacir Alves, uma entidade de apoio à crianças deficientes ou em risco social. Foi mágica, foi maravilhosa. Elas sentaram bem pertinho de nós; a Dete entrava jogando purpurina (uma fada tem que ter pó mágico, não é?) e elas esticavam as mãozinhas pra pegar. Delícia.

Fomos almoçar na casa da Dete, fazendo piadas com bananas, e as milhares de coisas que se pode fazer com banana. Bolo de banana, banana frita, purê de banana, pudim de banana, mingau de banana, sorvete de banana, pavê de banana, vitaminada, bananada… A Dete inventou um sanduíche maluco, que consistia em um pão cortado ao meio, recheado com uma banana INTEIRA. A criação culinária ganhou o adequado nome de X-Mico - e nós fizemos dez X-micos para levar de lanche na apresentação da tarde.

A apresentação da tarde foi no bairro do Zumbi (não lembro se I, II ou III). Era LONGE, e difícil de achar.  Era numa igreja católica, mas a atividade era organizada por um grupo ecumênico, que tinha evangélicos de várias denominações, católicos, espíritas, representantes de religiões de origem africana. Além disso, dezenas de voluntários não-religiosos. Lamento imensamente não saber o nome do projeto.

Quando chegamos, nos mostraram o palco. Nos desesperamos. O palco era bem alto, daquela madeira cheia de farpas. A céu aberto. E o espaço onde ficaria o público era…imenso! Um campo de futebol de várzea!

Perguntamos qual era a previsão de público. “Mais ou menos umas três mil crianças.” “TRÊS MIL PESSOAS?!” “Não, três mil CRIANÇAS. As mães vêm junto.”

Deu vontade de chorar. Seu Roberto, o Mestre dos Magos, foi quem nos botou em ordem: “Agora já viemos aqui, vamos fazer direito o que sabemos fazer.”

Foi uma loucura. A Maria Xereta começa a peça sozinha no palco. Nós, do camarim, ouvíamos a Amable gritando o texto como se pedisse socorro. A Júlia Sapeca era a segunda personagem em cena, e entrava correndo e fingindo um desmaio. Eu entrei em cena correndo e por um triz não desmaiei de verdade. Aquilo não era um público, era a população de Liechtenstein. Eu olhava, e não via o FIM do público. Nós íamos jogando o texto que sabíamos, sem muita esperança. 

 (Jogar o texto, no jargão do teatro, é falar o texto sem muita emoção, corrido, querendo acabar logo. O contrário de jogar o texto é saborear o texto.)

De repente, lá embaixo, no meio do público, vem a filha do Seu Roberto com um microfone na mão. Microfone com fio. O fio não chegava até nós. Ela ficou lá embaixo, com o braço esticado, durante 40 minutos. E, logicamente, o microfone captava apenas alguns ecos do que nós gritávamos no palco.

A peça foi transcorrendo, aos atropelos. O povo das primeiras “filas” ria muito, principalmente do Seu Roberto usando sutiã de enchimento e interpretando a Dona Cinturão. Essas risadas me faziam crer que, ora, nem tudo estava perdido, afinal.

Até que, no meio da cena em que as três são assaltadas, a gente escuta um zumzumzumzum, e enxerga, lá longe, o deslocamento de uma placa tectônica de público. Eu e Amable estávamos abraçadas, enquanto a Larissinha e o Ives faziam graça do outro lado do palco.  Nós duas assistimos, estupefatas, ao estouro da platéia.

Amable – Eles tão indo embora?

Eva – Eles tão…indo pra lá. (Olhamos na direção do público) Tão distribuindo cachorro quente lá!

Amable – Durante a peça, tão dando kikão. E eles estão…indo embora!

Foi horrível. Levamos a peça adiante na marra, gritando na direção do microfone que a Lyvia, heróica, continuava segurando. Ainda não tínhamos experiência de teatro suficiente pra saber como acelerar a peça.

A peça terminou, Maria Xereta encontra o pai (vocês tinham alguma dúvida?), e nós três, exaustas, fomos para o camarim que nos arrumaram, uma salinha do centro paroquial. Eu comecei a chorar de nervoso (ai, meus 16 anos emotivos), decepcionada. A Lyvia veio me chacoalhar. Disse que o que nós tínhamos vivido não era um fracasso, e sim uma aula de teatro. “Uma aula, Eva, uma aula!”, ela dizia com a palavra em negrito mesmo. E disse que nós três, provavelmente, éramos as órfãs mais emperiquitadas do orfanato Bom Jesus .

E éramos mesmo. A Maria Xereta se vestia de vermelho e rosa, a Júlia Sapeca de Azul e verde, a Ana Banana, como vocês devem imaginar, de amarelo. Tínhamos uma verba no caixa do grupo (como eu disse, tempos de fartura), que foi suficiente pra comprar umas bijuterias bem coloridas, xuquinhas de cabelo, meias coloridas.   A gente começou a rir, e comemos x-mico com refrigerante.

E foi aí que entraram três meninas, que com certeza tinham menos de seis anos, com uma caneta e uns pedaços de papel. Vieram pedir nosso autógrafo, pois elas tinham ficado vendo a peça até o fim, e queriam um autógrafo da Ana Banana.  Só isso valeu toda a apresentação, pra nós.

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