Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Arquivos: junho/2009

Autopsicofonia

Por Eva | 23/06/2009, 12h09

O ator é fingidor,

finge tão completamente

que convence o espectador

que sente aquilo que não sente.

(Paráfrase boba do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa)

Representar ou interpretar?, me perguntaram. 

Representar é…hum. Pense na tarefa de um representante. Ele comparece a um evento substituindo alguém que não foi. Ele representa aquela pessoa. Representar é isso: estar no lugar de outra pessoa.

Interpretar é diferente. Quem interpreta observa, analisa, reflete. Interpretação significa, de certo modo, formar e emitir opinião.

No palco também. Representar é estar lá, apenas. Substituindo uma pessoa que não pode falar por si (por ser obra de ficção, como Romeu; por já ter falecido, como Cazuza; por não ter interesse em ser ator, como Patch Adams). Quem representa, está como substituto de alguém.

Interpretar é criar. Extrair significados de cada frase do texto, de cada marcação. O ator que interpreta sabe as motivações da personagem, sabe o passado dela e o contexto social onde ela viveu. Sabe a razão de cada gesto das mãos, de cada passo. Sabe o significado por trás de um passo para o fundo do palco, ou de três passos na direção do outro personagem. Interpretar é criar os tiques, o andar, o ritmo da respiração. 

Representar é trabalho mecânico; interpretar é trabalho criativo.

Interpretar é o trabalho do ator.

Causo de Sexta – Hoje é dia de X-Mico

Por Eva | 19/06/2009, 11h25

Em 2001, nosso grupo se sentia atado à necessidade de seguir o calendário de festas. E o dia das crianças sempre foi nosso prato principal do ano. É o nosso público mais numeroso, e há taaaaaaantos eventos beneficentes que precisam de um grupo de teatro que trabalhe gratuitamente, composto por voluntários adolescentes que vão pros bairros mais distantes num sábado de manhã… Éramos tão jovens e tão fascinados pelo “fazer teatro”, pra nós não tinha dificuldade nem preguiça.

Mas, eu dizia que íamos fazer uma peça no dia das crianças. E nosso coordenador, que também é nosso diretor e dramaturgo, o Paulo, escreveu uma peça chamadas “As Aventuras de Maria Xereta”.  A peça é ÓTIMA. Parece um filme da sessão da tarde de épocas melhores.

A peça gira em torno de três órfãs personagens centrais, que moram no “Orfanato Bom Jesus”, gerenciado por uma mulher muito braba e estranha. Elas fogem do orfanato para procurar os pais da Maria Xereta, que é protegida por uma fada meio maternal que diz que a mãe dela já morreu, mas o pai ainda está vivo e procura por ela. São assaltadas e perdem as mochilas, os tênias e até as meias. Mas, decidem seguir em frente procurando o endereço dos pais da Maria Xereta. Quando chegam, a casa está pegando fogo, e elas ficam sabendo que o viúvo que morava na casa havia viajado na véspera. Voltam para o orfanato meio tristes, mas no dia das crianças, tudo pode acontecer!

Tínhamos bastante gente no grupo (tempos de fartura), e dividimos o contingente em duas equipes. Havia um circuito de apresentações a realizar. Dois finais de semana, duas apresentações por dia; oito apresentações para cada equipe. 

Eu fiquei em uma equipe mais experiente. Amable fazia o papel da Maria Xereta, eu como a Júlia Sapeca e Larissinha como Ana Banana ( personagem elétrica que fala bobagens sem parar e é viciada em banana-nanica, favorita do público, sempre) ; a Dete como Fada/espírito da mãe da Xereta; o Seu Roberto como Dona Cinturão (hilário), bombeiro e pai da Xereta; e o Ives como ladrão. Quem ficou como maquiadora e sonoplasta foi a Lyvia, filha do Seu Roberto.  A Dete e o Seu Roberto eram os únicos adultos dignos desse nome.

Chegou o dia da primeira apresentação: foi no Abrigo Moacir Alves, uma entidade de apoio à crianças deficientes ou em risco social. Foi mágica, foi maravilhosa. Elas sentaram bem pertinho de nós; a Dete entrava jogando purpurina (uma fada tem que ter pó mágico, não é?) e elas esticavam as mãozinhas pra pegar. Delícia.

Fomos almoçar na casa da Dete, fazendo piadas com bananas, e as milhares de coisas que se pode fazer com banana. Bolo de banana, banana frita, purê de banana, pudim de banana, mingau de banana, sorvete de banana, pavê de banana, vitaminada, bananada… A Dete inventou um sanduíche maluco, que consistia em um pão cortado ao meio, recheado com uma banana INTEIRA. A criação culinária ganhou o adequado nome de X-Mico - e nós fizemos dez X-micos para levar de lanche na apresentação da tarde.

A apresentação da tarde foi no bairro do Zumbi (não lembro se I, II ou III). Era LONGE, e difícil de achar.  Era numa igreja católica, mas a atividade era organizada por um grupo ecumênico, que tinha evangélicos de várias denominações, católicos, espíritas, representantes de religiões de origem africana. Além disso, dezenas de voluntários não-religiosos. Lamento imensamente não saber o nome do projeto.

Quando chegamos, nos mostraram o palco. Nos desesperamos. O palco era bem alto, daquela madeira cheia de farpas. A céu aberto. E o espaço onde ficaria o público era…imenso! Um campo de futebol de várzea!

Perguntamos qual era a previsão de público. “Mais ou menos umas três mil crianças.” “TRÊS MIL PESSOAS?!” “Não, três mil CRIANÇAS. As mães vêm junto.”

Deu vontade de chorar. Seu Roberto, o Mestre dos Magos, foi quem nos botou em ordem: “Agora já viemos aqui, vamos fazer direito o que sabemos fazer.”

Foi uma loucura. A Maria Xereta começa a peça sozinha no palco. Nós, do camarim, ouvíamos a Amable gritando o texto como se pedisse socorro. A Júlia Sapeca era a segunda personagem em cena, e entrava correndo e fingindo um desmaio. Eu entrei em cena correndo e por um triz não desmaiei de verdade. Aquilo não era um público, era a população de Liechtenstein. Eu olhava, e não via o FIM do público. Nós íamos jogando o texto que sabíamos, sem muita esperança. 

 (Jogar o texto, no jargão do teatro, é falar o texto sem muita emoção, corrido, querendo acabar logo. O contrário de jogar o texto é saborear o texto.)

De repente, lá embaixo, no meio do público, vem a filha do Seu Roberto com um microfone na mão. Microfone com fio. O fio não chegava até nós. Ela ficou lá embaixo, com o braço esticado, durante 40 minutos. E, logicamente, o microfone captava apenas alguns ecos do que nós gritávamos no palco.

A peça foi transcorrendo, aos atropelos. O povo das primeiras “filas” ria muito, principalmente do Seu Roberto usando sutiã de enchimento e interpretando a Dona Cinturão. Essas risadas me faziam crer que, ora, nem tudo estava perdido, afinal.

Até que, no meio da cena em que as três são assaltadas, a gente escuta um zumzumzumzum, e enxerga, lá longe, o deslocamento de uma placa tectônica de público. Eu e Amable estávamos abraçadas, enquanto a Larissinha e o Ives faziam graça do outro lado do palco.  Nós duas assistimos, estupefatas, ao estouro da platéia.

Amable – Eles tão indo embora?

Eva – Eles tão…indo pra lá. (Olhamos na direção do público) Tão distribuindo cachorro quente lá!

Amable – Durante a peça, tão dando kikão. E eles estão…indo embora!

Foi horrível. Levamos a peça adiante na marra, gritando na direção do microfone que a Lyvia, heróica, continuava segurando. Ainda não tínhamos experiência de teatro suficiente pra saber como acelerar a peça.

A peça terminou, Maria Xereta encontra o pai (vocês tinham alguma dúvida?), e nós três, exaustas, fomos para o camarim que nos arrumaram, uma salinha do centro paroquial. Eu comecei a chorar de nervoso (ai, meus 16 anos emotivos), decepcionada. A Lyvia veio me chacoalhar. Disse que o que nós tínhamos vivido não era um fracasso, e sim uma aula de teatro. “Uma aula, Eva, uma aula!”, ela dizia com a palavra em negrito mesmo. E disse que nós três, provavelmente, éramos as órfãs mais emperiquitadas do orfanato Bom Jesus .

E éramos mesmo. A Maria Xereta se vestia de vermelho e rosa, a Júlia Sapeca de Azul e verde, a Ana Banana, como vocês devem imaginar, de amarelo. Tínhamos uma verba no caixa do grupo (como eu disse, tempos de fartura), que foi suficiente pra comprar umas bijuterias bem coloridas, xuquinhas de cabelo, meias coloridas.   A gente começou a rir, e comemos x-mico com refrigerante.

E foi aí que entraram três meninas, que com certeza tinham menos de seis anos, com uma caneta e uns pedaços de papel. Vieram pedir nosso autógrafo, pois elas tinham ficado vendo a peça até o fim, e queriam um autógrafo da Ana Banana.  Só isso valeu toda a apresentação, pra nós.

Si! Fu! Xi! Pá!

Por Eva | 15/06/2009, 09h48

A voz. O ator precisa atentar para a voz. Ele precisa ter boa pronúncia, ter facilidade de fazer qualquer sotaque (ou de falar sem sotaque algum), precisa se fazer ouvir em um auditório com mais de 500 pessoas. Uma frase que todo ator em formação escuta milhares de vezes é “você precisa ser escutado pela última pessoa da última fileira do público”.

“Então, Eva, o ator tem que falar gritando?” Não. O ator precisa projetar a voz.

Projeção de voz é um conceito chave em interpretação. Porém, não é muito fácil de explicar por escrito.  É como se sua boca, crânio, ossos da face, se transformassem em um megafone e ampliassem sua voz – que não sai da garganta, sai da barriga.

Eu recomendo aos atores em formação que comecem treinando a respiração apoiada no diafragma. Dê um tempo para a musculatura abdominal se acostumar. Reserve um momento diário para ficar deitado no chão, com um livro maiorzinho (mas não muito pesado) sobre o diafragma (que fica quatro dedos acima do umbigo, bem mais fácil de localizar que o ponto g). Inspire pelo nariz enquanto a barriga estufa e o livro sobe; solte o ar soprando suavemente pela boca, murchando a barriga e descendo o livro. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Mais uma vez. (Eu ficaria horas fazendo isso, mas um iniciante dormiria. Comece com trinta minutos.)

Quando você já estiver craque em respiração diafragmática, é hora de exercícios para projeção.

De pé, inspire estufando a barriga e retenha o fôlego por alguns momentos; solte o ar fazendo um esforço consciente no diafragma (a barriga fica durinha), fazendo o som “sssssssss”. Muitas vezes,  muitas vezes. Coloque a mão espalmada sobre o diafragma.

Depois, a mesma sequência; inspirar -> reter -> expirar. Desta vez, emita o som “ffffffffff”. Infinitas vezes.

Mais uma vez, a mesma sequência já conhecida, “Inspirar -> Reter -> Soltar”, emitindo no final o som “Xi”. Tente não pronunciar a sílaba “xi”, mas sim imitar o barulho da água caindo na chapa quente. SHHHHHH! Setenta vezes sete vezes.

Na última sequência, uma mudança. Continuamos com o “Inspirar -> Reter -> Soltar”, mas ao soltarmos o ar, vamos explodir. Não ao pé da letra, claro :D . Contraindo o diafragma num movimento único, forte e rápido, emitindo o som “PÁ”! A idéia é que esse pá seja REALMENTE uma explosão, emitido BEM ALTO. Pra ajudar os mais tímidos, é legal fazer um movimento de abrir os braços simultâneo ao “PÁ”. É como se você estivesse “empurrando” o som, com as mãos, espalhando o “PÁ” por todo o recinto.  (Nossa, como é difícil explicar isso por escrito. Preciso me filmar e Youtubar.) Repetir o “pá” infinitas vezes.

Quando você já estiver com câimbra no diafragma, é um excelente momento para  dar uma pausa, beber uma água em temperatura ambiente (quem realmente quer trabalhar com a voz pode começar dando adeus à água gelada), para passar ao segundo momento.

“Mas Eva, isso tudo era só o primeiro momento?” Pois é.

Depois da pausa, vamos fazer sequências mais rápidas, de acordo com o esquema abaixo:

Inspirar -> Reter -> SSSSSii

Inspirar -> Reter -> FFFFFuu

Inspirar -> Reter -> XXXXXii

Inspirar -> Reter -> PÁ!

O próximo passo é martelar o diafragma (novamente, não leve isso ao pé da letra). Eliminando a parte de reter o fôlego, vamos inspirar e soltar dando uma contração RÁPIDA E FORTE no diafragma. Sabe aquelas dançarinas de dança do ventre, fazendo movimentos de tunc-tunc-tunc na barriga? É o que você vai fazer.

Inspira -> Si! -> Inspira -> Fu! Inspira -> Xi! Inspira -> Pá!

Vários dias repetindo essa sequência, e a voz vai estar mais próxima da projeção desejada.  Mas, querido ator, não se iluda: nunca vai estar perfeita. Você nunca vai estar “pronto”. No dia que o ator diz “ah, isso eu já sei fazer”, morreu um ator e nasceu um idiota. Marília Pêra tem aulas de canto semanais, e de balé clássico. E ela é Marília Pêra.

Agora, vale dizer que para falar melhor, sem sobrecarregar os órgãos fonadores, conseguir falar alto mesmo gripado, superar problemas de dicção e manter a voz sempre em forma, é recomendável ter o acompanhamento de um fonoaudiólogo.  Taí a que não me deixa mentir. :)

Respirando pelo diafragma… ou pelo nariz?

Por Eva | 14/06/2009, 13h12

No grupo de teatro do qual eu participo, atualmente vinculado à Federação Espírita Amazonense, houve um tempo em que nosso coordenador (que é ator profissional) ministrou para nós um curso livre de formação de atores.

Não passamos da terceira aula, pois sempre tínhamos ensaios atrasados, apresentações pra fazer em Centro Espíritas BEM afastados, figurino pra confeccionar…  E o curso foi ficando pra depois.

Mas as primeiras aulas, eu me lembro bem, foram sobre respiração e projeção da voz. Nós primeiro tivemos de descobrir onde ficava o diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome e controla a respiração. Até que não foi difícil: quatro dedos acima do umbigo, lá estava o diafragma.

Segunda lição: ao inspirar, a barriguinha estufa. Ao expirar, a barriguinha murcha. Nada de ombros pra cima nem peito arfando.

Foi um pouco complicado, depois de tantos anos agindo segundo um conceito de que é necessário “encher o peito de ar”, respirar com o peito imóvel e a barriga pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora.  Dava uma sensação de estar morrendo afogada – além da dor muscular na barriga.

Fícávamos com a palma da mão encostada na barriga do colega ao lado, sentindo a utilização do diafragma ao respirar. Era engraçadíssimo: tem gente que MEXE A BARRIGA, mas não respira, fica sem ar e então enche o peito. Tem gente que não consegue mexer a barriga no mesmo ritmo da respiração.  É uma prática cansativa, porém é o jeito natural de respirar. “Basta observar um bebê dormindo”, o diretor dizia. “A barriguinha dele sobe e desce, ritmada. Nós, com ombros tensos, coluna torta, sentados o dia inteiro, estressados, ficamos com a respiração curta, aqui no alto” – e ele batia no próprio colo. 

Nós do grupo sonhávamos em trabalhar com teatro oito horas por dia, com pausa de duas horas pro almoço. E sonhávamos em passar uma hora inteirinha, sessenta minutos, deitados no chão, respirando, respirando, a barriga descendo e subindo, respirando, exercitando os diafragmas sedentários.

Dessas três aulas do curso de teatro que tivemos, além das dores abdominais, ficou uma piada interna. Toda vez que alguém diz “Respira pelo diafragma!”, a pessoa responde “Não seria melhor pelo nariz?”

Não-Blogagem Coletiva do Dia dos Namorados

Por Eva | 12/06/2009, 11h25

Vocês vão me dar licença, mas eu aderi à idéia da Luciana. Vou bem ali, andar de mão dada no chuvisco, trocar presentes feitos à mão e conversar sobre filmes, novelas, atrizes dos anos 40. Hoje não tem post não.

Feliz sexta-feira pra todo mundo.

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