Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Aula de Cenario

Por Eva | 20/09/2012, 13h09

Estou cursando uma materia aqui na Appalachian State University que se chama “The Stage Environment”.
Nao sei dizer se tem alguma equivalencia direta, pois me parece uma mescla de Analise Critica e Elementos Visuais do Espetaculo. Pois vamos estudar os principios basicos de Cenario, figurino, maquiagem, Iluminacao e som, e tambem vamos analisar estes mesmos elementos em producoes, apresentando criticas dos espetaculos.
A disciplina e pre-requisito para todas as disciplinas da grande area “Tecnologia do Teatro”. Tres professores dividem a disciplina.

Hoje, a aula foi sobre Scenic Design. Apos nos apresentar diversos tipos de palco (Proscenium Stage, Thrust Stage, Arena e Black Box), pudemos observar como funciona o teatro do Department of Theatre and Dance.

Durante este ano letivo, o Departamento tera duas montagens teatrais, dois festivais de danca e duas performances convidadas. Pelo que percebi, os professores se dividem de acordo com suas habilidades para realizar a producao. Entao, minha professora de figurino ficou responsabel pelo Guarda-roupa, assim como os professores de cenario e iluminacao. Os professores de Direcao serao os Diretores, e os alunos fizeram audicoes para compor o elenco.

Ate onde percebi, os calouros (freshman) que nao estao no elenco podem ajudar como contra-regras (stagehands), ou senso assistentes em Figurino, Luz, Som, ou Maquiagem. Os alunos mais experientes, que optaram pela grande area (Major) de Tecnologia do Teatro, coordenam as atividades e delineiam a agenda.

Em suma, se voce estuda aqui, vai ser quase impossivel nao estar envolvido em pelo menos uma das apresentacoes. Voce precisa pelo menos estar na plateia, visto que tera que apresentar uma critica dos espetaculos. Estou matriculada em oito disciplinas, e 4 delas pedem criticas dos espetaculos.
Ha cobranca de ingressos para os espetaculos (com descontos para os estudantes), mas caso voce nao possa pagar MESMO, ha a possibilidade de ser voluntario em noite de espetaculo (por exemplo, na bilheteria, dando informacoes para o publico, dizendo onde fica o banheiro…) e, desta forma, assistir ao espetaculo sem precisar de ingresso.

Pois bem, nosso professor de cenario e iluminacao esta responsavel pelo Design do cenario de “Noises Off!“. Noises Off! e um exemplo de meta-teatro: os personagens sao atores que estao ensaiando uma peca-dentro-da-peca, que se chama Nothing On. O primeiro ato e Nothing On, o segundo ato sao os bastidores de Nothing On.

Dada esta dualidade, ele concebeu um cenario giratorio. Esta eh a parte da “frente”, o cenario da peca-dentro-da-peca.

Cenario de Noises Off, frente
Cenario de noises OFF, Frente

Essa eh a parte do “fundo”, o cenario do segundo ato, onde vemos os bastidores da companhia.

Cenario de Noises Off, fundo

E aqui, o cenario completo de perfil, na minha mao.

Cenario de Noises OFF na minha mao

Cenario de Noises OFF na minha mao

A peca estreia no finalzinho de setembro, entao a construcao do cenario ja esta bastante adiantada. Fomos visitar a carpintaria (igualmente com professor responsavel e alunos trabalhando, sendo que alguns sao remunerados por bolsas), e meu queixo caiu. O cenario esta quase pronto.

Ele mostrou ainda outros modelos de cenarios de producoes passadas do Departamento, mas o que me deixou mais impressionada foi o cenario de Perseguicao e Assassinato de Jean-Paul Marat apresentada pelos internos do Hospicio de Charenton sob a direcao do Marques de Sade (mais conhecida pelo apelido de MARAT/SADE).Eu li essa peca na UEA, durante um curso de Ferias de Literatura Dramatica, e fiquei com ela na cabeca por meses. Adorei a concepcao deste cenario.

Cenario de MARAT/SADE

Cenario de MARAT/SADE

Teatro nos Estados Unidos

Por Eva | 23/08/2012, 09h40

Queridos, eu nao apareco aqui ha meses, mas por um bom motivo: fui aprovada para estudar durante um semestre nos Estados Unidos, atraves de um convenio entre a UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e a Appalachian State University (Boone, Carolina do Norte).

Estou aqui no alojamento, enfrentando alguns desafios, como o frio, a dificuldade com o idioma, a saudade da familia, a diferenca nos metodos de ensino. Mas quero voltar a escrever no blog pra registrar melhor essa minha aventura.

Voces querem vir comigo? :D

A encrenca dos meus sonhos

Por Eva | 20/11/2011, 21h19

Eu ando cansada, sabe. Não tenho tempo de almoçar, estou montando três textos diferentes pra três discipinas da faculdade, ensaiando uma peça, e ainda trabalho em uma repartição pela manhã. Saio cedo, volto depois das nove da noite, não tenho carro. Fiquei dois meses sem tirar a sobrancelha, por absoluta falta de tempo.

Arrumo minha mochila e tenho que colocar agasalho, guarda-chuva, remédios, escova de dente, pois nunca volto em casa e posso precisar de alguma coisa.

Mas, sabe de uma coisa? Eu estou estudando Ibsen. Brecht. Finalmente pude ler “Eles não usam black-tie”, peça da qual só ouvi falar. Na hora do intervalo, sentamos na lanchonete e conversamos sobre iluminação e cenário, sobre trabalho de voz. Sábado tive que explicar pra minha mãe o que era “fazer aula de corpo”. Estamos planejando uma montagem experimental de Sarah Kane em janeiro.

E eu nunca estive tão próxima do que eu sou de verdade, do que eu sempre quis ser, do que eu imagino pra mim mesma.

Debaixo das sobrancelhas tortas, meus olhos brilham. E é só isso que me salva.

Moldar, Flutuar, Voar, Irradiar

Por Eva | 19/10/2011, 11h17

“Sinto que meu coração é um sol, e dentro dele habita outro sol muito maior, querendo irradiar-se do meu peito.”
São Francisco de Assis

Desde o segundo período aguardávamos o momento de cursar a disciplina Interpretação I, convidada para ministrar a disciplina de Interpretação I. Melissa.

Ela estava ensinando pra nos umas técnicas de mimese corpórea, ainda estamos no início, nem sei conceituar.

Ela passou quatro ações do Tchécov para fazermos. A primeira é moldar: é como se o corpo estivesse mergulhado no barro, e a energia fluia do centro do quadril, e o corpo ia moldando o barro ao redor. A segunda é Flutuar: é como se o ponto entre os olhos fosse “inflável”, e nós estivéssemos imersos na água, flutuando. O terceiro é voar: a energia nasce do meio dos (das?) omoplatas, e os movimentos são de cortar o ar, riscar o céu. A turma tava numa sintonia ótima, nenhuma esbarrão, muita velocidade e movimentos bonitos. Eu estava exaurida, com aquele suor que escorre dentro do olho, molha a gola da camiseta, ensopa o cabelo, sabem? Indo sempre dentro do limite.

Aí ela disse que o quarto movimento é Irradiar. E que é o mais difícil, pois não tem movimento base ou ponto de foco. “É como se o coração irradiasse e saísse pela ponta dos dedos, pelos olhos, e você só consegue ficar na posição do homem vitruviano”.

Eu pensei: “Fodeu, esse não consigo fazer.” Passando mal de suar, comecei a tentar concentrar na irradiação. Sempre tive inveja dos meus amigos artistas/espíritas, que faziam visualizações loucas, flutuavam sobre manaus, atingiam o universo, mergulhavam nos fluidos e coisa assim. Eu sempre fazia uma imaginação do cenário, mas nunca VIVI uma viagem astral, apenas mentalizava imagens, o que é relaxante e gostoso, porém não é máááááágico e tal. E eu não bebo nem “viajo”, né? :D

Três vezes eu pensei: vou sentar e ficar observando, esse eu não vou conseguir fazer. Quando pensei a terceira vez, olha que loucura, ela falou pro grupo “Segura, segura, não desiste não, tem que tentar!”

E não sei o que foi, eu imaginei meu coração ficando incandescente, e de repente saiu uma coisa de dentro de mim, que, PUTZ, irradiava pros braços, eu não conseguia mais deixar os braços penderem relaxados. Eles foram esticando, como se voooooshhhhh jorrasse uma coisa do meu coração e NOSSA eu fiquei na posição do homem vitruviano e eu irradiava, os olhos irradiavam, eu estava tão feliz e me movendo como se fosse mestra naquilo, sem esbarrar em ninguém, como uma dança de espantalhozinhos felizes.

Quando o exercício parou, eu sentei no chão e chorei tanto que o pessoal veio perguntar se eu tava passando bem.

Eu esperava sentir essa plenitude há doze anos, quando entrei no grupo de teatro. E nem lembrava mais que era isso que eu queria.

Stanislavski

Por Eva | 14/09/2011, 17h50

Estou de férias da Faculdade de Teatro. Nossas aulas recomeçam segunda feira, dia 19 de setembro.

A professora de interpretação nos recomendou a leitura de dois livros: “Minha vida na arte”, do Constantin Stanislavski, e a peça “A Gaivota”, de Tchécov.

Tentamos encontrar o Stanislavski pra baixar. Não encontramos em português nem em inglês – achei apenas uma versão em um idioma que pode ser romeno ou esperanto, não faz diferença: Mea Veata en arta.

Tentamos comprar em livrarias. O livro não existe mais; a editora fechou há alguns anos, estava esgotado em todas as livrarias online.

Partimos para os sebos. O Estante Virtual só dispunha de dois exemplares: um custava 160, o outro, 150 reais. A coordenadora do curso arrematou o de 150 antes que fosse tarde.

Pegamos o livro e fomos tirar cópias, perfeitamente justificadas ante a raridade do exemplar. Com encadernação, cada cópia saiu por dezesseis reais. Nada mal.

Comecei a ler nas férias. E fiquei surpresa: o Stanislavsi era um menino rico, que recebeu finíssima educação intelectual e artística: ele relata que era habitual a família ir ao balé, à ópera e ao circo.

Eles montavam peças na “residência de verão” da família. Com figurino e música, gente. É muito diferente da Eva brincando no quintal de casa – embora eu também elaborasse meus figurinos, hehehe.

E, o que me deixou mais surpresa: o Stanislavski foi contemporâneo do Tolstói, do Tchécov, trabalhou lado a lado com Tchaikovski. É como se um monte de gênios houvesse combinado de nascer no mesmo lugar e época!

Gente, o que é que colocavam na comida desse pessoal? O mesmo pra mim, por favor!

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