Crianças em cursos de teatro

Posted by Eva on agosto 08th, 2010

08
ago

A Lainny colocou um comentário neste texto meu, e ela pergunta qual seria uma idade adequada para fazer curso de teatro. Vejam só:

quantos anos precisa para poder fazer um curso de teatro?assim por que eu ja penso no meu futuro e ja pretendo fazer teatro desde pequena! por favor me responda.

Eu suponho que ela seja bem novinha, dez a doze anos; e também suponho que ainda não esteja muito claro para ela se quer fazer “Teatro” ou se quer “interpretar”,ou ainda, se quer ser “famosa”; então enviei uma resposta pessoal. Infelizmente, o e-mail voltou. Então, publico aqui, na esperança de que ela volte e veja a resposta que escrevi.

Em todo caso, espero que essa resposta seja útil pra outras pessoas que tenham o mesmo tipo de dúvida.

Oi, Lainny!
Você mandou um comentário no meu blog Camarim. Nele, você pergunta qual a idade mínima para fazer curso de teatro.

Olha, Lainny, eu acho possível cursar interpretação desde pequena. Acho mesmo. Temos atores que começaram bem novinhos e se tornaram adultos reconhecidos em sua profissão: Glória Pires, Deborah Secco, Leandra Leal, Selton Mello, no Brasil; internacionalmente, eu poderia citar Dakota Fanning, Daniel Radcliffe (dos filmes Harry Potter), e ainda muitos outros.

Porém, antes de buscar um curso na sua cidade (você não disse onde mora, nem quantos anos tem. É em Manaus? Você é muito criança?), eu recomendo que você seja uma boa espectadora. Assista a espetáculos de teatro. Veja filmes, filmes antigos, filmes recentes, filmes brasileiros. Veja televisão, sim, veja televisão. E também tente apreciar pintura, fotografia, música, dança, esportes. Quem é muito novo se beneficia tanto com a diversidade de experiências! (E quem não é muito novo, também.) Leia a parte cultural do jornal. Leia livros sobre teatro, cinema, biografias de atrizes que você goste. Converse com o professor de artes da sua escola.

(Estou supondo que você tenha onze ou doze anos, mas pode ser que você tenha mais ou menos do que isso.)

Aííí, quando você tiver um pequeno repertório de experiências, você vai começar a conviver com a cena cultural da sua cidade. Talvez tenha algum grupo de teatro infantil, não sei. Se tiver, você fica um pouquinho depois do espetáculo, e conversa com o elenco. Conversa mesmo, pergunta se algum deles dá aula, ou se participa de algum curso que aceite menores de idade.

Já ouvi falar de cursos de interpretação pra crianças, mas são mais voltados pra Televisão, publicidade, sabe? A presença de crianças no teatro profissional não é tão comum assim.

Sabe, interpretar tem seu lado divertido, claro que tem; mas também é um trabalho, que requer empenho, disciplina, dedicação e tempo, ao menos algumas horas semanais. Ensaios são normalmente repetitivos, às vezes frustantes. E não é muito fácil para crianças muito pequenas se concentrarem durante muito tempo em uma mesma tarefa.

Em todo caso, torne-se antes um apreciadora da arte de interpretar. Aos poucos, você vai achando seu caminho. E não tenha pressa: o teatro não é como a ginástica artística, ou o balé, que exigem que você comece muito criança para conseguir ser um profissional. Você pode começar no seu tempo.

O que vocês acham?

Complexo de Wikédipo

Posted by Eva on abril 27th, 2010

27
abr

Édipo, by Arnaldo Branco

Como sói acontecer na vida, uma coincidência me fez ler Édipo duas vezes na mesma semana. Na faculdade de Teatro, o professor de Literatura Dramática analisou em sala de aula a tragédia Édipo Rei, de Sófocles. E no laboratório de sábado, o Michel também procedeu à leitura de Édipo Rei.

Primeiro comentário: apesar do tal “Complexo de Édipo” ser até um lugar-comum, sendo mencionado por muita gente, eu nunca havia lido a peça. O que nos leva ao

Segundo comentário: QUE PEÇA. Nossa. Que texto, que situação, que palavras. Eu (que sou burra assumida) não imaginava que o flash-back já fosse utilizado na Grécia Antiga como recurso de narrativa. Comecei a ler esperando ver o nascimento do Édipo, a profecia, a entrega do bebê para a morte, etc etc. Mas não. A peça começa com o Édipo já rei de Tebas, casado com a Jocasta, muitos anos após o assasssinato do Laio.

(Contar quem são os personagens é considerado spoiler? Não posso acreditar que alguém com mais de quinze anos não saiba a história do Édipo. Ou posso?)

Pois bem: no laboratório, lemos o texto integral da peça, numa tradução em versos livres e brancos. Na sala de aula da UEA, lemos um trecho pequeno de uma tradução em prosa.

Mordida pelo bichinho da tragédia grega, fui procurar mais informações sobre montagens mais recentes de Édipo, nessa internet véia sem porteira. E sabem onde eu cheguei?Na wikipedia, claro.

O artigo da wikipedia em português sobre Édipo Rei é de tamanho médio, razoavelmente bem ilustrado. Mas quando fui ler, notei umas coisas estranhas. Por exemplo:

“uma tragédia, escrita por Sófocles por volta de 427 a.C., com a ajuda de Ranieri Mazzilli, grande colega de Sófocles.”

Ranieri Mazzilli? Aquele senhor que foi presidente do Brasil em duas ocasiões, durante cerca de quarenta dias? COLEGA DO SÓFOCLES?

“Trata de uma parte do mito de Édipo, especificamente sua investigação sobre o assassinato de Mari Onnete, sua madrasta.”

Mari Onnete? Além da informação estar errada, esse nome é uma tolice.

Além disso, na versão em português há umas citações completamente sem sentido, desconectadas do texto e sem notinhas de rodapé.

Algum vândalo gaiatinho resolveu deturpar o artigo, e como a wikipedia em Português tem poucos editores (ou talvez ninguém se interesse em ser editor nos artigos sobre teatro), esses absurdos ficam lá, servindo de material de consulta. (E, tenho certeza, sendo copiados em centenas de trabalhos escolares e, valei-me pai do céu, acadêmicos.)

Para tirar a dúvida, consultei o mesmo artigo na wikipedia em inglês. A qualidade é bastante superior, o que confirma a minha percepção geral de que a Wikipedia em inglês é, sim, uma boa fonte de consulta. Lá não tem nada de Ranieri Mazzilli nem Mari Onnete. Tem trechos em grego (em grego antigo e moderno!), interpretação da profecia do Oráculo de Delfos, análise dos temas abordados na peça. E ainda tem a lista das peças de Sófocles que chegaram ao nosso conhecimento. E tem links pra lugares onde se pode ler o texto integral da peça, on-line… em inglês, né.

Caso um dia eu tenha tempo, internet e paciência, tudo ao mesmo tempo, eu dou uma editada lá na Wikipedia em português. Um dia.

(A charge do Édipo Stand-up é do Arnaldo Branco, e me fez rolar de rir.)

Atualização: A Darlana, horrorizada com os absurdos, corrigiu o texto da Wikipedia. :D Compare aqui a versão absurda com a versão corrigida por ela.

Teatro UEA – Recepção aos calouros

Posted by Eva on março 30th, 2010

30
mar

Ontem, dia 29, foi o primeiro dia na UEA, depois de uma separação estranha – as aulas dos veteranos começaram dia 8 de março, e as dos calouros estavam marcadas pra começar dia 22, mas só começamos ontem, o que me levou a cogitar se os veteranos precisam estudar três semanas a mais do que nós porque somos menos importantes, mas tergiverso…

O processo de matrícula foi bem emocionante: eu procurava TODO DIA no site da UEA pela grade de disciplinas, por algum concurso para professores de Teatro, por uma chamada de processo seletivo simplicifcado e…NÃO VIA NADA.

Considerando que a UEA publica no site aviso de que vai ter festa junina, aviso de que o ano foi muito bom, aviso que vai passar filme, achei que bem poderiam publicar aviso de que estavam selecionando (por concurso ou por seleção simplificada) professores para o curso de Teatro.

Mas, nenhum aviso houve, e tudo o que soubemos foram por boatos. DIZIAM que uma professora de Pernambuco veio, fez um projeto de curso e foi embora por “dificuldade de adaptação à instituição”. Diziam que não tínhamos nenhum professor. Depois, disseram que só faltavam dois professores. Depois, disseram que esperássemos. E esperamos.

E ontem, chegou o fim da nossa espera.Os cinquenta pioneiros do curso de Teatro, o primeiro curso superior de Teatro de Manaus, juntinhos, sentadinhos na sala 12, quinto andar – nossa casa, nosso QG.
A coordenadora do curso, a doce professora Gigi (não é demais chamar uma coordenadora desse jeito?) matou nossa ansiedade, falando sobre a grade de disciplinas, aêêêê!

O curso vai ter três habilitações: Licenciatura em Teatro, Bacharelado em Direção e Bacharelado em Interpretação. A opção por Licenciatura ou Bacharelado ocorrerá no final do quarto semestre, e por um dos dois Bacharelados, no final do sexto semestre. A professora Gigi ainda quer incluir futuramente uma habilitação em Cinema e TV. Ai, ai, parece um sonho.

Depois da conversa com a coordenação, o ex-presidente do Centro Acadêmico de Turismo nos levou pra um tour (turismo, tour…sacou?) pelo prédio. Subimos e descemos várias vezes os dez lances de escadas, conhecendo o ambiente. CPD, NUTEC, Pastoral, Cantina, Sala dos Professores, Mini-Auditório. Achei superdelicado, explicar onde ficam as coisas pros calouros. Todos os funcionários nos dando as boas-vindas, e a gente percebeu que todos no prédio esperavam por nós. (Minhas lembranças da primeira graduação na UFAM incluem veteranos ensinando calouros a pegar ônibus errado, mandando gente do Campus pro MiniCampus, uma grosseria tola.)

Depois, a Big Band do IFAM (antigo CEFET, antiga ETFAM), fez um show pra gente, muito bom, com músicas de Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Kleiton e Kledir e uma do próprio maestro, chamada “Feriado em Manaus”. Terminaram com “In the Mood”, claaaaaaro. :D

Depois, fomos pra Biblioteca, e nos apresentamos. Tem gente de 17 a 50 anos, tem gente que trabalha com teatro, tem gente que largou outro curso no meio, tem gente (como eu) que já está na segunda graduação. Todo mundo cheio de expectativa e sonhos.

Queridos, eu estou TOTALMENTE deslumbrada. :) Não consigo ver essas coisas com cinismo, eu nasci pra ser feliz e otimista.

Hoje, tenho aula. Quando der, conto pra vocês das matérias e professores.

P.S.: A recepção aos calouros teve notinha no site da UEA, aqui. O curso de Teatro nem aparece na lista de cursos de graduação… Ai, ai… Isso porque o curso já estava previsto desde AGOSTO

Algo certo eu fiz!

Posted by Eva on fevereiro 26th, 2010

26
fev

Aí, eu no meu trabalho, atendo a moça do Banco do Logotipo da Casinha, e ela:

- Você fez um teatro por aí,não é?
- Faço, faço um trabalho voluntário.
- Ah! O meu banco ajudou uma instituição no Natal, eu acho que você foi a Cinderela….
- Fui, fui eu sim.
- Menina, a minha filha só fala em ti. “Mamãe, a cinderela gosta de salgadinho” “mamãe, a cinderela lava roupa com VANISH!” “mamãe, a cinderela calça 39 que nem a senhora!”
- ….puxa, ela lembra das piadas que eu fiz durante a peça?
- Não tô dizendo? Cinco aninhos, e ela não esquece! Principalmente o vanish, que a vó dela usa. Ela adora ficar repetindo, “a Cinderela lava roupa com Vanish!”

Essa peça, a gente fez no Natal de 2008. Bicho, a menina tinha TRÊS ANOS, e ainda repete as minhas piadas de cena. Fiquei toda mole por dentro.

A piada do vanish foi assim: a Cinderela fez uma roupa pra usar no baile, e as irmãs invejosas rasgam tudo. Como o figurino era todo “recortado” com pedaços de velcro, era horroroso, tosco. E nunca tinha sido lavado e passado, após umas oito apresentações. Estava com uma NÓDOA de algo marrom que eu tento acreditar que fosse café. Depois da roupa toda rasgada, as irmãs e a madrasta saem rindo, e eu: “Talvez ainda dê pra consertar! Eu tenho um rolo de fita crepe…e se eu lavar com Vanish, talvez…” As crianças adoravam. E, aparentemente, não esquecem!

P.S.: O Vanish não patrocinou esse post, nem a peça, nem me conhece, etc etc. :D

Estar pronto é tudo (Hamlet, ato V cena II)

Posted by Eva on fevereiro 21st, 2010

21
fev

Passei na UEA, pra Teatro, e fui a primeira do meu grupo de seleção (pessoas que já tem curso superior completo).

Segunda é a matrícula. Aguardem, amados e queridos, muito teatro por aqui. Feliz 2010.

E segue a frase completa do Hamlet:

“Há uma especial Providência na queda de um pardal. Se há de ser agora, não será depois; se não for depois, há de ser agora; se não for agora, há de ser, todavia. Estar pronto é tudo. Uma vez que ninguém sabe o que virá, que
importa que seja logo? Assim seja!”

Trabalho de figurinista

Posted by Eva on janeiro 26th, 2010

26
jan

No teatro, o figurino deve ajudar a contar a história. Auxiliar o ator a compor o personagem. Ser fácil de tirar e vestir. Exprimir uma identidade visual e estética. Correponder à idéia do diretor. E (claro) custar pouco.

A realidade das montagens teatrais brasileiras costuma reforçar o “custar pouco”. A maioria esmagadora das montagens no Brasil não entram em temporada – o que quer dizer que uma peça é produzida, ensaiada, sonorizada e VESTIDA para ser apresentada duas ou três vezes, em um final de semana ou dois, em um festival ou mostra de teatro, em uma data especial (Natal, Paixão de Cristo, vocês sabem muito bem).

Meu grupo de teatro (que passa por uma grave crise de elenco e de frequência) está montando (não sem sacrifícios) uma peça que tem cenas passadas na atualidade e em 1850, numa fazenda do interior de Minas Gerais cheia de fantasmas. E eu fiquei de figurinista. Tenho de pesquisar, tenho de conversar com o diretor sobre as idéias dele. Tenho que observar a interpretação dos atores e ver como é o personagem que eles estão construindo, para que a roupa expresse isso. Tenho que bater perna escolhendo os tecidos mais furrequinhas e que sejam vendidos a quilo, PORÉM que sejam vistosos ainda assim.  E tenho que pensar nas peças de roupa, né. É muito difícil, muito importante (o diretor valoriza bastante a verossimilhança) e eu não tenho experiência nem fiz cursos sobre o assunto.

Eu preciso dizer que, neste trabalho de fazer as roupas aparecerem no papel, eu não seria NINGUÉM se não fosse o Alex Lima.

O Alex tem uma facilidade de entender as minhas viagens na maionese que me impressiona. Eu falo, falo, falo, mostro uma foto aqui, um texto ali, pego livros na biblioteca, falo, falo, falo. E ele me aparece com o modelo que eu imaginei – mas não tenho capacidade de desenhar.

Antonia - Cena 2

Eu digo pra ele que se o Brasil fosse um país sério, ele ganharia dinheiro com isso. Quando eu assisti ao filme As Brumas de Avalon (não assistam, leiam os quatro livros!), nos extras do DVD tinha os storyboards do filme. Storyboards são – ora – desenhos das cenas, que ajudam a pensar no ângulo da câmera, posição de aparelhos para que não apareçam na filmagem, recursos necessários, acessórios e roupas. E alguém tem que desenhá-los, certo?

Pérola - Cena 2

Em outro filme, O mundo em duas voltas – a história da família Schürmann, os desenhos ocupam papel primordial. O filme é meio que um documentário, explicando como foi a viagem de volta ao mundo que a família de navegadores fez para comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil. E o roteiro da viagem deles foi elaborado para seguir o roteiro da viagem de Fernão de Magalhães. E um jeito que o diretor do filme – David Schürmann, filho mais velho - encontrou para tornar a narrativa interessante foi traçar um paralelo da viagem de Fernão de Magalhães com a da família. Ele diz nos extras (eu AMO os extras dos DVD´s!) que pensou em fazer as cenas de época encenadas, com atores e tudo, mas isso ia gerar um custo estratosférico. Então, que fizeram? Chamaram um ilustrador, Laurent Cardon, francês radicado no Brasil, pra fazer as cenas de época em gravuras. O resultado ficou lindo, e muito eficaz.

Mas eu falava do Alex Lima. Ele não fez as gravuras de nenhum documentário, não desenhou storyboards para superproduções de Hollywood. Mas está fazendo croquis muito bons e adequados para a nossa peça.

Negreiros - Cena 2

O que vocês acham? Gostaram?

Especiais de Natal da Globo

Posted by Eva on dezembro 27th, 2009

27
dez

Eu penso que a TV, o cinema e o teatro são meios igualmente legítimos para o ator exercer duas arte. Diferentes, é certo, e esbarrando-se de vez em quando em exercícios interessantes. Lembro-me de Hoje é Dia de Maria, maravilhosa série brasileira que levou teatro, circo, folclore e poesia pra frente das câmeras de TV. Também dos filmes do Kenneth Brannagh (escreve-se assim?), que filmou obras de Shakespeare (seu Hamlet é a versão COMPLETA, com todas as palavras do Shakespeare. Dura mais de quatro horas!). Filmes baseados em peças de teatro tem um saborzinho que pode ser fácil de identificar: Divã, filme brasileiro com a Lília Cabral, e Closer – Perto Demais, aquele filme com o Jude Law e o Clive Bonitão Owen e a Natalie Portman e a Julia Roberts, são bons exemplos. Percebemos o foco no que se FALA e não no que se FAZ, a pouca mudança de cenário (longos diálogos no mesmo ambiente), poucos personagens…

*****

Dito isto, devo dizer que a TV me decepcionou imensamente neste fim de ano. A TV Globo, que normalmente apresenta bons especiais de dramaturgia nesta época, foi de uma pobreza, uma superficialidade absurdas.

Eu esperei muito do especial “Dó-Ré-Mi-Fábrica”. Meu Deus, Lázaro Ramos, um dos melhores atores do país. João Falcão, o diretor de “A Máquina”, que revelou Lázaro, Wagner Moura… Tinha como dar errado?

Deu. Horrivelmente errado. O roteiro tinha uma proposta muito interessante :uma fábrica mágica, que inventou todos os instrumentos musicais do mundo, vivendo uma crise de poder por ser dirigida por dois irmãos BEM diferentes. Mas escorregou feio quando colocou uma história paralela (piegas até dizer chega), de uma família pobre que vive num lixão, e tem um menininho nordestino que tem sonhos de ser músico e artista e cantor, e os sonhos são solapados pela cruel realidade da vida dura, e ó meu Deus ele foge no Trenzinho do Caipira  (SÉRIO) em busca de seu ideal e encontra um explorador de crianças talentosas (Dois Filhos de Francisco feelings) e chega até a fábrica mágica onde ajuda a salvar o empreendimento da falência. Ufa!

A interpretação do Làzaro não foi adequada pra TV, nem parecia com bom teatro. Ficou parecendo teatro infantil da igreja do bairro. O menino que interpretou o Tom, nossa. Tem uma longa estrada pela frente. Não interpretou bem, nem cantou bem (aliás, cantou muito mal e gritando). Pena, porque o Maicom é de Rondônia, e eu realmente queria que ele arrasasse (eu sempre torço por quem é do Norte).Li na internet que ele foi escolhido por um vídeo no Youtube e que é um ótimo instrumentista. E fica uma pergunta solta no ar: se ele é bom TOCANDO, porque não deixaram que ele tocasse nenhum instrumento?

Os arranjos musicais estavam pobres e irritantes, o que me deixa triste quando penso que já tivemos especiais como Pirlimpimpim, Plunct-Plact Zum, Balão Mágico, Arca de Noé…

Um horror, uma decepção, uma pobreza. Quem se saiu mellhor foi a Natália Dill, no papel da assistente da Fábrica, Viola. Inclusive, foi quem cantou melhor, tendo o melhor número musical do especial: “Bem vindos a Dó-Ré-Mi-Fábrica! Inventamos instrumentos desde o tempo do ronca…do Bandolim de Jacob do Bandolim, até o pandeiro de Jackson do Pandeiro!”

****

No dia seguinte, véspera de Natal, passou o especial da Xuxa. Eu devo admitir que sempre assisto ao especial dela no fim do ano, porque a) aparentemente, ela gosta de Natal tanto quanto eu, e sempre coloca luzinhas, papai noel, mágica, musiquinhas de Natal b) lembro-me da minha infancia, que a única coisa divertida que tinha pra fazer na véspera de Natal era ver TV e esperar a ceia e c) todo mundo merece uma segunda chance.

Fiquei passada. A Xuxa conseguiria fazer arte – grande arte – se simplesmente reconhecesse que não sabe cantar nem interpretar e se retirasse da frente da câmera, tornando uma produtora poderosíssima com foco no público infantil. Nossa, se ela não estivesse no especial, ele seria bem bonzinho. Figurinos lindos, cenários muito bem feitos, idéia divertida (uma terra em que é sempre Natal tem sua rotina quebrada)…Cissa Guimarães fez uma Mamãe Noel muito honesta, com bordão excelente (Uôu, Uôu, Uôu), Eri Johnson estava mesmo engraçado, os detetives estavam no tom certo pra crianças assistirem e gostarem. Porém, ah, porém, a Xuxa tinha a maioria das falas. E ainda cantava (sic) entre uma cena e outra. Assim não há elenco, figurino, produção que segure.

Não sei dizer se o problema da Xuxa é falta de talento ou se nenhum diretor tem coragem de ser mais firme com ela, extraindo mais. Afinal, ela é mesmo a rainha, tem a grana e a marca, é a dona da bola. Se ela te chamasse pra dirigir um projeto dela, você faria com que ela ensaiasse exaustivamente, regravasse até ficar perfeito, fizesse uns laboratórios pra pegar melhor o jeitinho da coisa? Eu não faria nada disso!

Vestibular UEA – notícias

Posted by Eva on dezembro 08th, 2009

08
dez

Fiz a prova em um bairro tão tão afastado, que pra chegar lá tive de atravessar a barreira rodoviária que fica na AM-010. Fui de mototáxi, pois tive de sair do meu trabalho (que fica na Oceania) ir almoçar em casa (moro na África) e chegar ao local de prova (Júpiter) com antecedência suficiente. Valeu a pena: meu mototaxista é do clube dos cem por hora, e quando cheguei ainda faltavam quarenta minutos para a abertura dos portões.

Todos os meus colegas estavam lá. Meu colegas do curso de teatro do SESC com o Chico Cardoso, meu atuais colegas dos laboratórios com o Michel Guerrero. Meus colegas com quem já trabalhei em peças empresariais. Todo mundo prestando vestibular pra Teatro, e todo mundo com medo de Química.

Fiz a prova de segunda, com 84 questões. Gostei muito da prova, bem elaborada e bem regional (tinha uma pergunta sobre formigas ao molho de tucupi que me fez sorrir). A prova de História incluiu conteúdos de Filosofia (Aristóteles e Rousseau!), e a prova de literatura estava DE-LI-CI-O-SA, com Gregório de Matos sempre atual.

Logicamente, não sabia nada de química – o que me fez refletir sobre currículos, educação, falência do ensino, e eu quase deprimi – e desesperei ao ver uma questão de Física que era de Movimento Uniformemente Variado, eu sabia que era, mas esqueci a porcaria da maldita fórmula S é igual a S0 v0 alfa t ao quadrado sobre dois. Três anos morrendo por causa dessa fórmula fuleira, e quando eu ACHO UMA OCASIÃO PERFEITA PARA USÁ-LA, eu não lembro!

No mais, fiquei feliz. Gabaritei Português, História, Geografia e Inglês, acertei dez de matemática (até eu fiquei surpresa com isso), acertei duas de Física e quatro de Química, e sete de Biologia. De 84 questões, acertei 59.

Hoje, foi a segunda prova, de Conhecimentos Específicos. A prova estava mais pesada, as questões me deixaram em dúvida, mas o resultado foi melhor ainda: de 36, acertei trinta!

O tema da redação era “Infância, Infâncias”, e a proposta era fazer uma dissertação sobre a ideia geral de infância como algo inocente, belo, alegre, tranquilo, e a constatação que cada experiencia de infancia é definida por diversos fatores (sociedade, educação, traumas). Suei pra ter uma ideia de desenvolvimento de texto, e terminei por abordar a evolucao do conceito de infancia (sentir ternura por crianças e amor materno é coisa meio recente, e a avalanche de produtos voltados pra crianças pode ser reflexo que nós só respeitamos a criança enquanto ela se manifesta como CONSUMIDORA). Acho que falei besteira e minha letra é muito feia, mas cá entre nós: redação eu sei fazer… :D Vocês não acham?

Então, torço pra que com essa pontuação, uma das dez vagas do meu restrito grupo de cotas (pessoas que já têm diploma de ensino superior) seja minha. É torcer pra que o povo CDF de 17 anos, que o papai chamava de “Os Cobras do Cursinho”, queira fazer coisas mais lucrativas como Medicina ou Odonto, e me deixe em paz com minha vaguinha.

(Estou torcendo loucamente pra ser coleguinha de sala do Michel Guerrero, da Héveni, da Ana Cláudia, do Douglas, do Ives… e dos meus parceiros de vida de artista.)

[Para quem tiver interesse, as provas e gabaritos do Vestibular 2009 UEA estão no site da Vunesp, www.vunesp.com.br]

Michel Guerrero

Posted by Eva on novembro 29th, 2009

29
nov

Há cinco semanas, estou participando dos Laboratórios de Teatro coordenados pelo Michel Guerrero (ator e diretor influente e consagrado de Manaus).

Divulgado no jornal como um curso gratuito, no pimeiro dia apareceram mais de cem pessoas. Jovens, jovens, tão jovens. Uma revoada de adolescentes de onze até dezoito anos, com aquele discurso que eu conheço tão de perto, “eu amo teatro, minha vida é teatro, minha família não sabe de nada”. Alguns adultos, alguns já experientes.

Os laboratórios não são novidade pra mim. Fazer massagem no outro, segurar o olhar, desenvolver emoção, exercícios de fala e respiração, alongamentos, cenas improvisadas, criar um personagem e apresentar.

O que eu ganhei  – inegavelmente – com estes laboratórios, foi ver o Michel interpretando. Nossa, o Michel é uma força da natureza.

Uma vez, ele estava explicando em qual situação é possível interpretar de costas para o público. “Por exemplo”, ele disse, “se eu sou um sacerdote e faço assim”  e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, virou de costas pra nós, ergueu os braços para o céu e os abriu lentamente, e de repente o palco se tornou um altar sagrado, o ar se encheu de suspiros, e nós todos viramos membros daquela seita, silenciosos, completamente admirados. “Então eu posso ficar de costas, e até mesmo falar de costas, desde que caiba na proposta, entenderam?” E a mística se desfez, o mundo voltou ao normal, era apenas o Teatro Jorge Bonates e suas cadeiras antigas.

Cada vez que ele demonstra uma técnica de interpretação, eu fico maravilhada. Cutuco o meu namorado (que faz parte do mesmo povo do teatro), e fico vibrando: “NOSSA! NOSSA! Ele é muito bom, muito bom, muito bom!”

Com o passar das semanas, a quantidade de participantes diminuiu um pouco. Ontem, ele perguntou: “Tem alguém vindo pela primeira vez?” E ninguém levantou a mão. “Ai, GRAÇAS A DEUS!”

Em um dia que as apresentações se alongaram, passando do horário previsto para término (17h), alguns meninos perguntaram: “Podemos sair antes do final? Temos compromisso…” e o Michel respondeu, com tom leve e divertido e ao mesmo tempo ameaçador: “Podem ir, mas terão meu ÓDIO ETERNO!”

Por isso e por muita coisa que não conseguirei explicar, esses laboratórios me fizeram um bem imenso, e torço pra que se tornem um projeto permanente. Obrigada, Michel.

Cursos de Graduação de Teatro no ENADE

Posted by Eva on outubro 20th, 2009

20
out

O ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) é uma prova aplicada pelo Ministério da Educação a estudantes ingressantes e finalistas da graduação, escolhidos por amostragem. Eles fazem uma prova sobre seu curso e preenchem um questionário sobre a estrutura da Instituição na qual estudam, e os resultados são utilizados para avaliar as instituições. Se um aluno for selecionado para fazer o ENADE e não fizer, ele se ferra em verde e amarelo, não podendo receber diploma.

(Paira no ar a ameaça de fechamento dos cursos com piores notas. Eu realmente acho isso injusto. Eu compreendo que onde os cursos têm piores notas, os alunos têm mais dificuldades, a estrutura é PIOR, é exatamente onde este curso é mais necessário. O curso de Medicina da UFAM está por um triz, dizem. E vão fechar uma faculdade de Medicina no Amazonas, gente? NO AMAZONAS, onde há défice de profissionais de saúde? Mas, este não é o foco do texto, e eu nem tenho embasamento suficiente pra ter opinião sólida.)

Eu fiz o ENADE 2006. Era finalista do curso de Administração, e fui selecionada por azareio. Tive uma nota relativamente alta, igual à nota mais alta dos finalistas da minha instituição, o que não quer dizer que eu seja brilhante. Deixei três questões discursivas em branco por absoluta ignorância sobe o que deveria ser escrito ali, errei uma porção de questões de Administração Financeira, Contabilidade e Estatística, que sempre foram meu ponto fraco. Eu e todos os meus colegas achamos a prova relativamente fácil, e ninguém em momento algum cogitou fazer boicote e entregar a prova em branco, como alguns outros estudantes de outros estados, cursos e instituições fizeram.

Há um rodízio das áreas a serem avaliadas a cada ano. Temos então em 2004 os cursos de Agronomia, Zootecnia, Serviço Social, e um mix da área de saúde (Enfermagem, Educação Física, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Med. Veterinária, Nutrição, Odonto, Terapia Ocupacional). O que Serviço Social faz aí nesse meio?

Em 2005, temos Física, Química, Biologia, Pedagogia, Arquitetura e Urbanismo, História, Geografia, Filosofia, Ciências Sociais, Matemática, Letras, e um mix de Engenharias(dezenas) e Coisas de Computador. Uma baita salada de humanas e exatas, onde a Arquitetura deve ter se sentido muito à vontade e a Biologia deve ter ficado no cantinho sem falar com ninguém.

Em 2006, o meu ano, tivemos uma relativa uniformidade. Administração, Arquivologia, Biblioteconomia, Biomedicina, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Comunicação Social, Design, Direito, Normal Superior, Música, Psicologia, Secretariado executivo, TEATRO e Turismo. A Biomedicina está bastante deslocada entre uma porção de cursos de Sociais Aplicadas (eu posso dizer Humanas II, ou isso não se usa mais?). Eu sei que neste ano houve uma quantidade imensa de alunos sendo avaliados, porque Administração é um curso populoso. Qualquer faculdade abre curso de administração, porque o mercado pede apertadores de parafuso com diploma e anel. (Sou crítica pra caramba dessa exigência universal de curso superior. Tem muito cargo que não utiliza tal habilidade, e tem muita gente MAIS REALIZADA se cursasse algum curso técnico. Nem todo mundo precisa/ gosta da Academia.)

A tendência é repetir esta sequência, pois nenhuma área deve ficar mais de três anos sem ser avaliada.

*******

Mas vamos ao tema do post. Tive vontade de falar disso porque, como disse no post anterior, agora sou vestibulanda de um curso superior em Teatro, e resolvi verificar em quais outros lugares do Brasil há essa graduação. Em 2006, foram avaliados 34 cursos de teatro, em 14 Estados. Tirei os dados e o gráfico daqui: [http://www.inep.gov.br/download/enade/2006/relatorios/teatro_relatoriofinal.pdf] O documento é um belo relatório de 177 páginas sobre como o ENADE foi pensado, realizado, tabulado, com análise dos resultados dos alunos.

Tabela Cursos de Teatro ENADE 2006

Tabela Cursos de Teatro ENADE 2006

Então, vejamos as cidades e instituições que ofereciam o curso superior em Teatro no ano de 2006. Onze cursos em São Paulo, sendo: Ribeirão Preto (Centro Universitário Barão de Mauá), Santo André (Faculdades Integrada Sagrado Coração de Jesus), Sorocaba (Universidade de Sorocaba), Bauru (Universidade do Sagrado Coração), Campinas (UNICAMP), Pindamonhangaba (Faculdade Santa Cecília). Na capital, temos a Faculdade Paulista de Artes, a particular PUC, a Faculdade Anhembi-Morumbi, a estadual UNESP e a Universidade São Judas Tadeu.

Quatro cursos em Minas Gerais, sendo: Montes Claros (Universidade Estadual de Montes Claros), Ouro Preto (Universidade Federal de Ouro Preto), Uberlândia (Universidade Federal de Uberlândia), e na capital, a Universidade Federal de Minas Gerais.

Três cursos no Rio Grande do Sul, sendo: Santa Maria (Universidade Federal de Santa Maria), Montenegro (Universidade Estadual do RS), e na capital, a Universidade Federal do RS.

Dois cursos na Bahia, sendo ambos na capital: Faculdade Social da Bahia e Universidade Federal da Bahia.

Dois cursos no Distrito Federal, em Brasília, a capital por excelência. Na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, e na UNB. (Eu me lembro muito claramente de mim mesma, em 2004, prometendo voltar a Brasília para fazer este curso, ainda que eu tivesse 60 anos ou mais. Você lembra, Poeta? poetamatematico.wordpress.com)

Dois cursos no Paraná, um em Londrina, na Universidade Estadual de Londrina, e outro na capital, na Faculdade de Artes do Paraná.

Dois no Rio de Janeiro, ambos na capital. Um na UniRio e um na UFRJ. (Eu acho o nome da Uni Rio tão estranho. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e o apelido é UNIRIO? Parece sigla de particular, não? E como pode ser, Federal do Estado? É engraçado pra quem vê de fora.)

Mais dois em Santa Catarina, em Blumenau (Universidade Regional de Blumenau, FURB), e em Florianópolis na UDESC.

E aí vêm seis estados que oferecem o curso na capital, por Universidades Federais: Alagoas, Goiás, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Pra manter o padrão: Maceió (UFAL), Goiânia (UFG), São Luís (UFMA), João Pessoa (UFPB), Recife (UFPE) e Natal(UFRN).

Esses foram os cursos avaliados em 2006. E depois de juntar esses dados, eu me perguntei: e em 2009, será que entrou algum curso novo? E achei a resposta.

Mas como esse post já está gigantesco, eu continuo no próximo.

Newer Posts »