Uma rosa, um trevo e bons anos
Por Dragão Gordo | 13/03/2012, 22h43
Outro dia, estava a fazer uma faxina em minhas coisas e encontrei uma velha pasta, cheia de anotações e textos.
Basicamente, lembranças da época do colégio. Muitas poesias,algumas crônicas e uma porção de rascunhos.
Após reler algumas poesias e lembrar o quanto a juventude está sujeita à pieguice (imagine o que aconteceria se Charlie Brown ouvisse muito axé), me pus a rasgar aquelas folhas. Já passava da hora de deixar o pó voltar ao pó.
Mas, um texto me chamou a atenção.
Era um conto. Escrito nas aulas de redação do quarto ano (à época, o curso técnico que fiz durava quatro anos), lá pelos idos de 1995.
De todas aqueles devaneios mal traçados, é a única coisa razoável e, por coincidência, o único texto escrito fora dos pensamentos deprimentes sobre garotas.
É, o continho escapou do lixo.
Para aplacar a sua curiosidade, ele segue abaixo. Perdoem os erros e vícios. Foi escrito do “alto da sebedoria” dos meus quinze anos.
Também serve para, digamos, abrir as comemorações pelos 20 anos de Federal. Às amizades que permanecem desde então.
A rosa do orquidário
Um dia desses, eu estava a admirar o orquidário de minha avó. Modéstia à parte, vovó tem exemplares de beleza incomparável, orquídeas de tudo o que são cores: azuis, vermelhas, roxas, brancas, amarelas, etc.
Admirando as orquídeas. percebi que haviam outras variedades de flores plantadas separadamente, em outro canto: rosas, margaridas, tulipas, azaléas, lírios, copos-de-leite, entre outras.
Diante das orquídeas, aquelas flores me pareciam inexpressivas, de tal forma que acabei por soltar um comentário:
- Que insignificantes…
- Quem é você para julgar as flores? – perguntou uma suave voz feminina.
Ao me virar na direção da voz, me deparei com uma cena inusitada: uma bela moça de longos cabelos, completamente nua, me indagava sobre meu comentário. Meu rosto enrubesceu-se.
- Então…não me responde? – insistiu a moça.
- B-bem…e-elas p-parecem t-tão fe-feias p-perto das… Das orquídeas…
- Enagana-se. Cada flor tem a sua específica beleza. Por exemplo, não creio que já tenha visto uma orquídea tão vermelha quanto esta rosa ou uma outra de brancura tão pura quanto a deste copo-de-leite – e indicava as ditas flores.
A bela moça falava com tamanha convicção, que acabou por me encantar. Por horas e horas, conversamos sobre as flores.
- Preciso lhe perguntar uma coisa… Não se incomoda de andar nua por aí? – perguntei, de costas para ela.
- Todos nós estamos nus ante os olhos de Deus, não?
- Sim, mas…
Ao me virar novamente, ela tinha sumido. Olhei em todas as direções e nem sinal dela. Por fim, gritei:
- Aonde você foi? Quero conversar mais.
- Amanhã, ao primeiro raio de sol. – a voz dela ecoou de uma direção que eu não soube precisar. Só então percebi que já era tarde, o sol já estava para se pôr.
Não pude dormir muito bem naquela noite, a imagem daquela linda moça não me saía da mente.
No dia seguinte, acordei cedinho e fui correnddo ao orquidário. Timidamente, perguntei:
- Onde você está?
- Aqui fora, venha aqui. – a voz dela veio do jardim oriental construído por meu avô.
Ela estava na beira do laguinho das carpas. Desta vez, usava um vestido de pétalas brancas e uma coroa de margaridas. Me contou que adorava ver as carpas nadando.
Seu nome era Lígia e tinha uma idade não muito maior que a minha, segundo ela mesma.
- Gosta de flores brancas, não? – perguntei.
- Sim, gosto muito.
Por seguidos dias, conversei com Lígia. Ela tinha um inexplicável encanto, que me fascinava.
Não sei ao certo como aconteceu mas, de uma hora para outra, me vi completamente apaixonado por ela. Cada dia a amava mais.
Passaram-se os meses. Sempre acompanhava Lígia nos seus passeios pelo jardim. Curiosamente, ela se vestia com flores diferentes a cada estação do ano, sempre com toques de branco.
- Como são belas essas rosas brancas! – suas preferidas.
Minha paixão foi correspondida e, num claro dia de primavera, nos casamos.
Compramos uma casa pertinho da de meus avós, para que ela sempre pudesse visitar o orquidário e o jardim.
Sempre que meu trabalho permitia, estávamos juntos. Vivíamos intensamente cada momento.
Certo dia, ao voltar do trabalho, um choro de criança me chamou a atenção. Entrei correndo em casa e o que vi me apavorou a princípio. Nos braços de Lígia estava um bebê. Era lindo e saudável. Mas de onde diabos ele tinha vindo?
- Ela chora porque sente a falta do pai.- disse Lígia, entregando-me a criança.
- P-Pai?!
- Sim, ela é nossa filha.
Pai? Mas como? Não tinha visto sequer o ventre de Lígia crescer, como poderia ser pai daquela criança?
Percebendo minha perplexidade, Lígia fez uma cara triste e depois falou:
- Depois de tantos anos, ainda não percebeu que sou diferente?
- Claro que é diferente, especial. Por isso me apaixonei por você.
- Você não compreende… Não sou humana.
Minha cabeça estava dando rodopios. Não podia entender.
- Na verdade, sou uma flor.
Por instantes, julguei estar louco. Havia perdido a razão e tudo o que acontecia era fruto de minha fantasia. Mas depois… Depois tudo se encaixava. A aparição de Lígia no orquidário, seu profundo conhecimento das flores, a leveza com que falava… Tudo isso não era próprio de um ser humano comum.
- Jamais poderia imaginar.
- Você está asustado?
- Até posso estar mas, no momento, só quero curtir você e nossa filhinha.
Aquela menina havia nascido sob a estrela da sorte. Naquele ano, a primavera tinha se prolongado e ela poderia se fortalecer, antes da chegada do outono. Era o nosso pequeno trevo de quatro folhas, como gostava de dizer a orgulhosa mãe.
Quando meus avós morreram, fomos morar na casa deles. Sandrinha – como batizamos nossa filha – parecia ter herdado de Lígia, a serenidade e o gosto pelo jardim. A esta altura, Lígia se dedicava a cuidar de suas companheiras no orquidário.
Alguns anos depois, tive que passar três meses a serviço, no exterior.
Retornei louco para rever as duas.Mas, logo que cheguei em casa, notei algo errado.
Chamei pelas duas, não obtive resposta. Fui até os fundos, onde ficavam o jardim e o orquidário. O vento frio de outono soprava. De repente, gritei, aterrorizado.
Na beira do laguinho, estavam Lígia e Sandrinha, abraçadas e deitadas no chão. Suas estavam enegrecendo. Naquele instante, o vento parecia soprar mais violentamente.
Corri até elas, chorando. Agarrei mãe e filha nos braços. As duas abriram os olhos vagarosamente.
- Querido, que bom que voltou. – sua voz estava fraca.
- Pa…pai. – minha filha parecia ter sono.
- Não, por favor, não!
- Tentamos te esperar mas, não conseguimos…
- Que bom que nos vimos amis uma vez, papai…
- Não chore querido. Estaremos sempre aqui, te esperando…
Num derradeiro suspiro, Lígia sorriu e logo depois, morreu, junto com Sandrinha.
Berrei o mais alto que pude, pedindo socorro.
- Não adianta. O ciclo de vida delas se encerrou. – disse uma voz mansa. De dentro do orquidário, surgiu uma senhora vestida de amarelo. Era uma das orquídeas de vovó.
- Tem que trazê-las de volta, por favor!
- Não pode mudar o ciclo da vida. Uma flor deve precer para que uma nova possa florescer em seu lugar.
- Nãão! Nãão! Tem que haver um jeito! – berrei, desconsolado.
- Você fez delas as mais belas e felizes flores deste jardim. Agora, deixe que descansem em paz.
Sem alternativas, enterrei as duas ali mesmo, na beira ddo laguinho.
Depois, acompanhado da velha orquídea, fui até o orquidário, onde acabei adormecendo.
Quando abri os olhos novamente, o sol da tarde iluminava o teto de vidro do orquidário. Me dirigi para o jardim, onde vovô e vovó davam comida aos peixes. Olhei em volta, como se estivesse procurando algo.
E no canto oposto aonde meus avós estavam, no lugar onde havia enterrado Lígia e Sandrinha, floresciam uma rosa branca e um trevo de quatro folhas.


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