Violência nas escolas – a visão da imprensa, a visão do aluno, a visão do professor
Por Luciana | 16/04/2010, 15h15
Aos meus alunos.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
(Thiago de Mello)
RESUMO
Esta monografia, inserida no núcleo temático Comunicação, Cultura e Sociedade, vem analisar, passo a passo, a relação que os estudantes e professores, passivos de violência nas escolas, têm com a forma como o assunto é abordado pela imprensa.
O tema escolhido foi “Violência nas escolas – o que os estudantes e professores pensam sobre o que o jornal noticia”.
Matérias do jornal paraense O Liberal sobre violência nas escolas de Belém – matérias feitas pelo jornal O Liberal e matérias feitas pela Agência Unama e publicadas em O Liberal –, assim como uma entrevista qualitativa com um grupo formado por estudantes e professores de Ensino Fundamental e Ensino Médio de uma escola pública do Estado são o objeto de estudo da pesquisa sobre o fenômeno da violência nas escolas da rede pública de ensino de Belém, a forma como ela é retratada na imprensa e o modo como os alunos e professores próximos a ela a enxergam.
Palavras-chaves: violência, escola, jornalismo.
PROPOSIÇÃO
Em 2008, a violência nas escolas foi assunto recorrente nas manchetes do Brasil, inclusive no Pará.
Além da relevância jornalística, a violência nas escolas também tem representação pessoal no meu trabalho como professora da rede pública paraense. Essa vivência particular fez com que meu acompanhamento das matérias publicadas nos jornais locais no ano passado tivesse um filtro e gerou o interesse em saber como os meus alunos fizeram/fariam a análise desse material.
Para nortear a pesquisa, matérias de jornais de 2007 e 2008 sobre violência nas escolas serão levantadas e expostas a um grupo bem próximo da realidade que a monografia pretende analisar: os alunos e professores de rede pública que convivem de perto com a violência tanto dentro quanto fora das escolas.
Os problemas levantados para a pesquisa são: O estudante e o professor se vêem retratados no que a imprensa publica sobre eles? O que os estudantes e professores pensam sobre o que o jornal noticia? Eles se sentem representados séria e dignamente? Os outros tipos de violência, além da física, que esses estudantes e professores enfrentam no dia-a-dia são abordados também? O jornal consegue resultados junto às instituições (accountability) – cumpre seu papel de prestador de serviços à sociedade? Quem são esses estudantes e professores e de onde vem essa violência que os envolve?
As hipóteses para responder esses problemas são muitas, como: Os jornais só noticiam sobre violência nas escolas, sem preocupação em fazer matérias de alerta, de prevenção, de orientação para que essa violência não aconteça.
Os casos de violência nas escolas são retratados de forma isolada, sem levar em conta o histórico sócio-psicológico dos alunos e professores, assim como as condições em que a escola os abriga.
As violências fora do âmbito escolar não são retratadas amplamente em prol de uma contextualização maior dos casos: violência doméstica, trabalho infantil, envolvimento com drogas, situações de fome e miséria, falta de educação sexual e planejamento familiar, etc.
Os jornais só dão a notícia, sem assumir de fato um compromisso de buscar resultados junto às instituições responsáveis.
O trabalho terá um lado literário e/ou artístico e um lado social, que ajude pessoas.
Proponho um trabalho feito a partir de entrevistas qualitativas em sala de aula – sou professora de Português e Literatura – sobre como os jornais locais retratam a questão da violência nas escolas.
Como meus alunos e colegas professores, que vivem em um contexto semelhante ao retratado nos jornais, analisam a abordagem feita pelas matérias sobre violência no ambiente escolar.
A entrevista em sala de aula fará a conexão do que eles entendem nas matérias com o cotidiano deles.
A literatura, por sua vez, entra no trabalho a partir do romance Capitães da Areia, de Jorge Amado, que inicia com manchetes fictícias de jornais, mostrando como a sociedade enxerga os meninos a partir da lente da imprensa, e depois mostra como eles são, com defeitos e qualidades.
É um trabalho de questionamento sobre se realmente o que o jornal retrata faz com que as pessoas envolvidas se sintam representadas e uma produção jornalística que retrate essas pessoas do ponto de vista delas.
1 OBJETIVOS
1.1 OBJETIVO GERAL
O objetivo geral da monografia é dialogar sobre a abordagem da questão da violência das escolas na mídia impressa e a percepção de professores e alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Manoel de Jesus Moraes quanto a essa abordagem.
1.2 OBJETIVO ESPECÍFICO
Os objetivos específicos é demonstrar como alunos e professores percebem a imagem deles na abordagem que a mídia faz da violência escolar.
2 OS “CAPITÃES DA AREIA” DE BELÉM (JUSTIFICATIVA)
“Um mínimo de literatura para um máximo de honestidade”
Jorge Amado
A história dessa monografia começa nove anos atrás, no meu primeiro trabalho de conclusão de curso, em Letras.
Como os estudos de Literatura Brasileira sempre foram uma das minhas paixões, me propus a analisar as personagens femininas dos livros de cunho social de Jorge Amado.
O trabalho ficaria extenso demais – nas palavras de minha primeira orientadora: uma tese e não uma monografia! – então fechamos a pesquisa em torno de Dora, a única menina do bando dos Capitães da Areia, um dos romances sociais que eu queria abordar.
Quando comecei a pensar em uma monografia para o curso de Comunicação Social, o leque se apresentou bem aberto, repleto daquilo tudo que me agrada: blogs, futebol, kitsch, social.
Mais uma vez o social.
Depois de anos, passei de novo a vista em minha primeira monografia e a pergunta que veio muito forte foi: Que “capitães da areia” eu vou estudar agora?
E dentro do contexto onde vivo e trabalho a resposta veio fácil e desafiadora: meus alunos da rede pública de ensino.
Meus alunos não roubam ninguém nem vivem na rua como as personagens de Jorge Amado – pelo menos não até onde eu sei –, mas são “capitães da areia” no sentido gauche da vida, como diria Drummond. E, de acordo com Zumthor (1993), “uma anomalia é um fato em busca de interpretação” – anomalia no sentido de marginal, de gauche, enfim. E é em busca da interpretação do cotidiano violento desses “capitães da areia” tão particulares do meu convívio que vou sair.
São crianças e adolescentes que convivem com a violência dentro de casa, no bairro onde moram, na escola onde estudam; que têm corpos e mentes violentados pela fome, pela ignorância, pela miséria; que estão indo para a vida adulta em uma velocidade cada vez mais vertiginosa e, por que não dizer, perigosa.
A resposta veio fácil por conta do convívio diário que tenho com meus alunos e da percepção de que, assim como o eu-lírico fez com os Capitães da Areia, também eles, precisam ser conhecidos mais de perto, não apenas pelas notícias de jornal, pelas “cartas à redação”.
E veio desafiadora porque, ao mesmo tempo em que me proponho a retratá-los em meus estudos, também veio de imediato a preocupação desse debate ter duas mãos, de não sugá-los apenas e, sim, promover uma troca saudável e inspiradora de esperança.
Se meu primeiro trabalho foi dedicado às minhas três professoras mais queridas, de influência determinante na pessoa que sou hoje, como um ciclo que se fecha, meu segundo trabalho é dedicado aos meus alunos – que me influenciam cotidianamente em minhas ações – para que esse trabalho seja um sopro (forte) de esperança para eles.
“Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta.” (AMADO, 1982, p. 202) – era esse o pensamento de Pedro Bala, o chefe dos Capitães da Areia e é também o pensamento que norteará esse trabalho. O de que não adianta maldizer tampouco apaziguar o problema da violência nas escolas – adianta sim, lutar para que essa realidade mude. Lutar não com armas como a própria violência dita, mas com o estudo, o debate, o pensar, o relatar, o escrever; com o poder da palavra enfim.
É de extrema necessidade ressaltar a importância tanto da palavra dita (dos debates) quanto da palavra escrita (dos relatos). De acordo com Zumthor (1993),
“ser ‘moderno’ é julgar homens e coisas em virtude do que eles têm ou do que lhes falta; é conhecer seus atributos a fim de domar-lhes o uso. Ser ‘antigo’ (os dois termos se opõe no jargão escolar da época) é conhecer e julgar em virtude do ser e do nada. Pelo que concerne à poesia, a escritura parece moderna; a voz, antiga. Mas a voz ‘moderniza-se’ pouco a pouco: ela atestará um dia, em plena ‘sociedade do ter’, a permanência de uma ‘sociedade do ser.’” (ZUMTHOR, 1993, p. 26).
Então, antes de ter os textos em mãos, essa pesquisa ouvirá o(s) ser(es), sem a perspectiva de domar-lhe(s).
O romance Capitães da Areia é o mote desse trabalho, pois reconstruo a estrutura do livro em minha monografia.
Essa reconstrução é feita a partir dos três momentos pontuais do livro: o modo como a imprensa vê (e faz ver) os Capitães da Areia; a forma como os Capitães da Areia vivem, como eles são, como se vêem e como se fazem ver; e a maneira como a esperança deles em um futuro melhor se torna (ou não) realidade. É como se as matérias do Jornal da Tarde, da cidade da Bahia, fossem parar nas mãos dos meninos do Trapiche e eles tivessem voz para dizer a versão deles dos fatos.
A questão da voz é emblemática no caso do Jornal da Tarde, do livro Capitães da Areia, que dá voz a todos – tanto aos que acusam quanto aos que defendem o grupo de meninos – mas com distinção de espaço: aos que acusam, destaque, primeira página, foto; aos que defendem, um se perder entre anúncios.
Trazendo para o dia-a-dia dos meus alunos, a pesquisa inicialmente aborda como as matérias de O Liberal Assassina diz que não era respeitada (18/06/2008); Escolas vivem com medo da violência (02/09/2008); e Violência na escola “reflete a família” (10/09/2008); e da Agência Unama Bullying preocupa professor e alunos (24/08/2007); e Crianças também lidam com drogas (20/10/2008) debateram o tema da violência nas escolas em 2008, promovendo uma entrevista acerca delas com alunos do Ensino Fundamental e Médio da escola onde trabalho – a entrevista também será feita com professores. Dentro da entrevista vamos cotejar a visão dos acontecimentos que a imprensa tem com a que os alunos e professores têm; e, por fim, ouvir os relatos pessoais de cada um dos alunos e professores, sobre o que é a violência para eles, como ela já se manifestou próxima ou dentro da vida deles.
Gosto muito da ideia de extrair o máximo de poesia desses relatos, mesmo que eles por muitas vezes sejam bem duros. É sempre válido lembrar que:
“a voz poética é, ao mesmo tempo, profecia e memória. (…) A memória, por sua vez, é dupla: coletivamente, fonte de saber; para o indivíduo, aptidão de esgotá-la e enriquecê-la. Dessas duas maneiras, a voz poética é memória.” (ZUMTHOR, 1993, p. 139).
A ação não termina no ouvir os alunos e professores, mas no transcrever os relatos deles, tornando-os documentos da realidade onde vivem, que nem sempre é profunda e corretamente colocada nos jornais que lemos.
Apesar desse esforço, tenho a consciência de que muito da improvisação da oralidade citada por Zumthor acaba sendo perdida, já que:
“As vozes cotidianas dispersam as palavras no leito do tempo, ali esmigalham o real; a voz poética os reúne num instante único – o da performance –, tão cedo desvanecido que se cala; ao menos, produz-se essa maravilha de uma presença fugidia mas total. Essa é a função primária da poesia; função de que a escritura, por seu excesso de fixidez, mal dá conta.” (ZUMTHOR, 1993, p.139).
As matérias do jornal O Liberal que serviram de embasamento para os diálogos são: Assassina diz que não era respeitada: Edilene Gonçalves revelou que vinha sendo perturbada por Soraya Marinho. O Liberal, Belém, 18 jun. 2008. Caderno Polícia, p. 04-05; Escolas vivem com medo da violência: assaltos, invasões e até morte viraram realidade para alunos da rede pública. O Liberal, Belém, 02 set. 2008. Caderno Atualidades, p. 04; e Violência na escola reflete a família: cientistas sociais divergem sobre a origem do problema, que cresce no Estado. O Liberal, Belém, 10 set. 2008. Caderno Atualidades, p. 04.
Além das matérias do jornal O Liberal, matérias feitas pela Agência Unama e publicadas em O Liberal também fizeram parte do embasamento do debate: Crianças também lidam com drogas. O Liberal, Belém, 20 out. 2008. Caderno Polícia, p. 04; e Bullying preocupa professor e alunos. O Liberal, Belém, 24 ago. 2007. Caderno Polícia, p. 06.
Tanto as matérias de O Liberal quanto as da Agência Unama estão anexadas no fim dessa monografia.
A entrevista gira em torno da análise qualitativa das matérias selecionadas. Para essa avaliação, foi usado como modelo (adaptado) o folheto Infância e adolescência na pauta da mídia: uma análise da cobertura dos jornais do Pará sobre a criança e o adolescente feito pela Agência Unama, onde temos como objetivos:
“entender as razões da produção, principais limitações dos jornalistas e sua macrovisão; observar conceitos utilizados; analisar pré-concepções; concluir por que a matéria está inadequada aos conhecimentos mais modernos; observar relações latentes, não manifestas; e mapear as falhas do ensino universitário, que resultaram nos vícios.” (2005, p. 8).
A adaptação do modelo consistiu em tornar simples sem ser simplório o entendimento dos alunos, até porque o foco dos objetivos da pesquisa feita pela Agência Unama foi investigar a fundo o papel do jornalista diante do assunto da infância e da adolescência, sendo que o aluno não precisará se aprofundar tanto em determinadas questões por eles levantadas como, por exemplo, as falhas do ensino universitário de onde os vícios são oriundos.
Dentro da análise das matérias, um dos aspectos a se investigar é a questão da accountability.
Em uma definição simples de dicionário escolar, accountability é a responsabilidade da qual se deve prestar contas.
Confrontar as matérias analisadas com o conceito de accountability foi o que pretendi, vislumbrando as maneiras e os percalços que a mídia – especificamente nesse caso a impressa – tem para promover a accountability dentro da multiplicidade – política, legal, profissional – interacional na qual ela floresce.
O viés das matérias vem para observarmos como o jornalismo pode dar voz e visibilidade aos atores sociais e também instigar o debate, levando os dirigentes a se posicionarem diante do público.
É necessário destacar que nem sempre a accountability tem êxito, entretanto, quanto a isso, Maia é contundente ao afirmar que:
“mesmo quando o procedimento da accountability falha, a prática de trocar pontos de vista publicamente, para alcançar soluções corretas em circunstâncias de conflito, é importante para expandir debates públicos e abrir o caminho para a inovação institucional.” (MAIA, 2006).
Por mais que haja falhas no processo de accountability, não podemos deixá-la de lado e cessar as cobranças em cima do que acreditamos ser o melhor e mais justo para a sociedade em que vivemos – sociedade governada por pessoas por ela mesma escolhidas.
Infelizmente, não vivemos dias em que os governantes vêm por livre e espontânea vontade prestar contas do serviço deles à comunidade. Quando acontece algo que nos choca dentro de nosso cotidiano, “o jornalismo permite tanto confrontos diretos ou virtuais entre os atores sociais quanto uma troca de pontos de vista no espaço de visibilidade midiática.” (MAIA, 2006). Então, se o governo não se apresentar accountable, pelo menos a mídia estará cumprindo seu papel como “cão de guarda”.
A accountability é um reforço, um lembrete aos governantes de que eles devem se guiar pelas necessidades e anseios dos cidadãos neles representados. Pritchard, citado por Maia (2006), afirma que “o primeiro passo para desencadear accountability é nomear algo como um problema. O segundo passo (…) é apurar responsabilidades, identificando os responsáveis pelas falhas cometidas”. Se não nomearmos a violência nas escolas como um problema, o que mais poderemos considerar como tal?
Quando Maia nos fala da accountability como controle, sendo “o uso de vários mecanismos e métodos de ‘checks and balances’, destinados a regular e supervisionar o desempenho de organizações públicas e os atos de seus agentes” (MAIA, 2006), o conceito também se aproxima efetivamente das matérias sobre violência nas escolas, merecendo perpassar por esse tipo de controle.
O Observatório de Violências nas Escolas – UNAMA / Núcleo Pará também ajudou a compor o trabalho, a partir da pesquisa Diagnóstico da Qualidade das Relações Sociais na Comunidade Escolar em Escolas da Rede Estadual de Ensino na Região Metropolitana de Belém, do livro Relações sociais e violências nas escolas – escrito pelos três pesquisadores do projeto –, que traz apontamentos acerca da necessidade de uma equipe técnica multiprofissional nas escolas, contendo pedagogos, assistentes sociais e psicólogos que, juntos, teriam maiores condições estratégicas para a prevenção e o combate do fenômeno.
Será que o aluno tem ciência dessa necessidade? E os jornais, prestam o serviço de informar a comunidade estudantil dessa necessidade?
De acordo com Pontes, Cruz e Melo (2007), não podemos ignorar o contexto sócio-econômico em que a escola está inserida, em um momento de – por conta do abrandamento da rigidez do passado e da democratização das relações – perda da autoridade dos professores com os alunos.
Paralelo a isso – ou em função também disso –, a violência dentro das escolas toma corpo, das mais variadas formas e tipos, como abuso sexual, agressões verbais, brigas, discriminação, pichação, etc.
É importante destacar que:
“dados revelam uma coincidência com a visão predominante no senso comum sobre o que vem a ser violência, ou seja, identificam-se mais aquelas cujos danos são mais visíveis como a praticada diretamente contra a pessoa (agressões, brigas) e contra o patrimônio (pichação, depredação). As outras formas de violência em muitos casos sofrem de banalização ou, (…), simplesmente não figuram no rol de tipos de violências das pessoas, quer dizer, são violências legitimadas ou socialmente aceitas.” (PONTES, CRUZ e MELO, 2007, p. 82).
Justamente por essa banalização é que se torna de fundamental importância trazer à tona o debate sobre essas violências veladas, que apesar de consideradas normais pelas pessoas, trazem consequências amargas para a sociedade, como a delinqüência, o homicídio, o suicídio e o vandalismo – justamente aquele tipo de ação que não entendemos os motivos pelos quais acontecem.
Outro ponto de interesse no estudo é a questão do bullying, fenômeno cada vez mais presente no cotidiano escolar, composto de agressões verbais, humilhações e ameaças.
“Este fenômeno tem como vetor a violência que se apresenta de forma velada que, por meio de comportamentos cruéis, intimidadores, repetitivos e prolongados contra uma mesma vítima, causa-lhe danos psíquicos graves, pois a forte carga emocional que experimenta devido ao medo constante, bloqueia sua agressividade e prejudica o bom funcionamento mental, as funções de raciocínio, abstração, interesse por si mesmo e pelo aprendizado.” (PONTES, CRUZ E MELO, 2007, p. 85).
O trabalho vem expor o fenômeno da violência nas escolas, depois fazer o reconhecimento dos tipos de violência que ocorrem dentro do espaço escolar, exemplificando-os com as matérias a serem analisadas nos debates e, claro, dando a palavra para os alunos e professores entrevistados exporem como essas violências ocorrem no dia-a-dia deles.
Um dos pressupostos da observação participante – uma das bases fundamentais da etnopesquisa – é o envolvimento da população pesquisada na pesquisa, para que tanto pesquisadores quanto pesquisados saiam em busca do conhecimento, que é gerado a partir da interação.
De acordo com Sidnei Roberto Macedo, no livro Etnopesquisa crítica e multirreferencial nas ciências humanas e na educação, há que se desenvolver, através da pesquisa, um processo educativo mútuo para pesquisador e pesquisados, articulando o saber do senso-comum com o saber científico em prol da pertinência científica e da relevância social do conhecimento produzido.
Um dos objetivos de política científica da observação participante que está intimamente ligado a esse trabalho diz respeito à redução das distâncias entre sujeito e objeto de estudo.
A pluralidade do diálogo do grupo nominal, assim como a ligação estreita da etnopesquisa com a pesquisa qualitativa vem ao encontro dos anseios desse trabalho, que fez uso das seguintes características metodológicas: têm o contexto como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento; supõe o contato direto do pesquisador com o ambiente e com a situação que está sendo investigada; os dados da realidade são predominantemente descritivos e aspectos supostamente banais em termos de status de dados são significativamente valorizados.
3 METODOLOGIA
A pesquisa é qualitativa, visando à percepção do olhar de cada estudante e cada professor acerca do fenômeno a ser analisado.
Além de ser mais profunda e participativa, a pesquisa qualitativa opta pela interpretação na contramão da generalização que ocorre nas pesquisas quantitativas. Ela permite que os participantes interajam, descrevendo e comparando situações perante o pesquisador.
Para coletar a opinião dos estudantes e dos professores, as matérias selecionadas sobre violência nas escolas foram mostradas a eles para leitura.
Em um segundo momento, foram promovidas as entrevistas onde os estudantes e os professores expuseram se se sentem representados ou não pelas matérias e, no caso da negativa, relataram a realidade em que vivem.
O trabalho foi realizado com sete professores de Ensino Fundamental e Médio, sete alunos da 5ª série e sete alunos da 8ª série do Ensino Fundamental e sete alunos do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Manoel de Jesus Moraes, com idade entre 11 e 21 anos, moradores dos bairros do Marco, Canudos e Terra Firme, em Belém.
A análise de matérias sobre violência nas escolas serve como base para o debate acerca do tema, promovido entre alunos do Ensino Médio de uma escola pública.
Trata-se de uma análise qualitativa, organizada a partir dos apontamentos gerais apresentados pelo folheto Infância e adolescência na pauta da mídia: uma análise da cobertura dos jornais do Pará sobre a criança e o adolescente, da Agência Unama; e dos apontamentos específicos do livro Introdução à análise do discurso jornalístico: um guia para estudantes de graduação, de Jorge Pedro Sousa.
Vale destacar um dos elementos que apontam uma análise qualitativa do discurso jornalístico impresso citado por Jorge Pedro Sousa: a análise de enquadramentos. De acordo com o autor,
“a melhor metáfora para a noção de enquadramento é a de janela. Tuchman (1978:1) explica que a janela dá-nos uma visão do mundo, mas que essa visão é condicionada pelo tamanho da janela, pela distância a que estamos dela, pela opacidade ou transparência do vidro, pelo posicionamento do observador, etc.” (SOUSA, 2004, p. 66).
É notável que se eu não fosse, além de estudante de jornalismo, professora, a minha “janela” seria mais estreita, distante e opaca no que tange a questão da violência nas escolas, como é possível notar em algumas matérias publicadas em nosso cotidiano. Em função de minha experiência de trabalho em uma escola pública, a sensibilidade e a percepção para os problemas afloram mais e a noção de enquadramento acaba sendo tanto de fora – olhar de jornalista –, quanto de dentro – olhar de professora.
As matérias escolhidas para análise foram cinco, três do jornal O Liberal e duas da Agência Unama de Comunicação. É interessante notar que, mesmo não produzindo matérias semelhantes as da Agência Unama, o jornal O Liberal abre espaço para as reportagens produzidas por ela, como em um tímido mea culpa.
A análise individual de cada matéria dá uma noção mais detalhada da composição de cada uma delas, sem deixar que a compreensão das mesmas como um todo escape aos olhos.
Ao optar pela análise qualitativa, os dados da pesquisa ao invés de serem contabilizados serão tão somente apresentados, servindo como embasamento para a interpretação das referidas matérias.
4 O MODO COMO A IMPRENSA VÊ (E FAZ VER) OS CAPITÃES DA AREIA “Chega estampado / Manchete, retrato / Com venda nos olhos / Legenda e as iniciais / Eu não entendo essa gente / Seu moço! / Fazendo alvoroço demais”
Chico Buarque
4.1 ASSASSINA DIZ QUE NÃO ERA RESPEITADA
O folheto Infância e adolescência na pauta da mídia: uma análise da cobertura dos jornais do Pará sobre a criança e o adolescente, da Agência Unama, definiu quatro categorias a serem analisadas qualitativamente em matérias, e as mesmas foram observadas no material abordado pelo presente trabalho, sendo elas “cidadania”, “precisão conceitual”, adequação das fontes sobre o tema e “princípio de relevância”.
Na reportagem “Assassina diz que não era respeitada”, de O Liberal, há muito mais uma mera divulgação de ações do que o estímulo ao debate e à discussão.
Logo no título a precisão conceitual fica em xeque, já que os termos “assassina” e “a aluna autora do homicídio” são utilizados em referência a uma jovem de 18 anos que ainda não tinha sido julgada, o que, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é um erro latente.
No que tange a adequação das fontes sobre o tema, um dos clichês mais batidos do jornalismo – o de sempre ouvir o outro lado da história – passou despercebido na referida reportagem, já que é pontual a percepção de que a voz predominante nas citações é dos parentes de Soraya, sem que ninguém da parte de Edilene fosse ouvido. Aliás, só ouvimos a fala de Edilene através da delegada Ana Rita Reis.
Helena Lima, a gestora do polo 1, do qual a Escola Renato Conduru faz parte, foi a única pessoa mais próxima da escola a ser ouvida sobre o caso – professores e funcionários da escola e colegas das jovens envolvidas não foram ouvidos. Alguns alunos e mães de alunos foram ouvidos, mais para relatar irregularidades institucionais da escola do que propriamente falar sobre o tema da violência nas escolas.
Além da delegada, o major Janderson Viana, comandante da Companhia Independente de Policiamento Escolar (Cipoe), foi entrevistado a respeito do policiamento nas escolas públicas do Estado. Nenhum advogado, nem de defesa nem de acusação, foi ouvido, assim como nenhum especialista em violência escolar que pudesse falar não só do fato ocorrido como também debater o assunto de maneira a vislumbrar medidas que mudassem o panorama atual das relações no âmbito escolar.
O princípio da relevância é revelado na reportagem com a utilização do recurso da pirâmide invertida. Por conta disso, logo nos dois primeiros parágrafos do texto já se pode identificar o enfoque principal da notícia.
Em uma visão mais minuciosa, a partir do livro Introdução à análise do discurso jornalístico: um guia para estudantes de graduação, de Jorge Pedro Sousa, elementos textuais mais específicos vêm à tona.
Verificamos que o título da reportagem, “Assassina diz que não era respeitada”, é apelativo/comunicativo, usando a palavra “assassina” ao invés de “suspeita” ou “acusada”, já que a mesma ainda não tinha sido julgada para ser considerada de fato assassina; ele vem posicionado em cima da página e faz utilização de subtítulo – “Edilene Gonçalves revelou que vinha sendo perturbada por Soraya Marinho”.
O lead da reportagem é de impacto, contendo o núcleo duro da informação e respondendo às perguntas clássicas do jornalismo: “Quem?”, “O quê?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?” e “Por quê?”.
A reportagem apresenta uma formatação textual construída por seções como blocos, com o recurso da pirâmide invertida se repetindo em todos os seis: “Edilene Gonçalves revelou que vinha sendo perturbada por Soraya Marinho”; “INDIGNAÇÃO”; “Pais da menina morta não falaram com imprensa. Tia está perplexa”; “Gestora afirma que crime foi ‘caso isolado’”; “ALUNOS”; e “Escola fora da lista das mais violentas, diz major”.
Se a análise qualitativa do vocabulário empregado pelos enunciadores oferece pistas para penetrar nas intenções destes e nas circunstâncias de produção dos discursos, como afirma Jorge Pedro Sousa, é interessante observar o uso de palavras como “indignada”, “denunciou”, “opinou”, “frisou”, “enfatizou”, indicando as emoções expressas – ou entendidas? – pelas fontes.
O uso de aspas ocorre não só nas citações, como também para enfatizar termos como rixa e picuinha – utilizados acerca da relação das jovens Edilene e Soraya. A expressão caso isolado vem entre aspas não só como citação da fala da gestora do polo 1, Helena Lima, sobre o acontecido na escola Renato Conduru, mas também como insinuação da ironia que é a gestora simplificar o caso denominando-o de isolado.
Como já foi dito, as fontes foram parciais e especificamente foram: a delegada Ana Rita Reis (pela qual sabemos da fala de Edilene); duas tias de Soraya, Rosilene Marinho e Cilene de Oliveira (pelas quais temos notícia dos pais da jovem); o avô de Soraya, Antônio Marinho da Silva (cujo discurso aponta para as falhas da instituição escolar); a gestora do polo 1, Helena Lima (que declarou que o caso era isolado); a mãe de um aluno da escola Renato Conduru, Maria de Nazaré Freitas (que tem medo da situação de violência escolar onde dois filhos estão inseridos); o comandante do Cipoe, major Janderson Viana (que declara que a escola estava fora da lista das mais violentas); e uma estudante e uma aluna não-identificadas (que relatam problemas institucionais da escola Renato Conduru).
As fontes são potencialmente antagônicas, visto a fala dos familiares de Soraya e dos alunos e mães de alunos contra a escola, e a defesa da mesma por parte da gestora do pólo 1 e do comandante do Cipoe. Há também um antagonismo velado já que só é dado o direito de voz as pessoas relacionadas à Soraya, sem que ninguém da parte de Edilene tenha sido ouvido. Não ocorre a auscultação de testemunhas do acontecimento, como os colegas de classe e o professor que estavam presentes na sala de aula.
As citações são criteriosamente feitas com o uso das aspas e de paráfrases.
Não ocorre por parte das fontes uma análise mais específica sobre a violência nas escolas. A reportagem se prende tão somente à notícia da morte de Soraya, sem buscar os motivos intrínsecos tampouco as soluções plausíveis, limitando-se a dar voz às queixas pessoais dos parentes da jovem Soraya, às reclamações diversas dos alunos e pais acerca da escola e do entorno perigoso da mesma, e às desculpas das autoridades sobre o caso.
Com isso, os procedimentos de intensificação e dramatização do discurso são bem fáceis de detectar: a simplificação e a oposição. A primeira trata da redução da complexidade – e aqui entra toda a questão do não-desdobramento para o debate em prol de uma simples apresentação dos fatos – e, nas palavras de Jorge Pedro Sousa, “sendo ‘mal feita’, forma juízos de valor apressados e promove enquadramentos discursivos aberrantes” (2004, p. 89). Há um juízo de valor mais apressado do que começar o título da reportagem com a palavra “assassina” sem ter havido julgamento?
A reportagem apresenta uma tipologia de diálogos e texto citado, como fica evidente no uso de paráfrases e 16 citações entre aspas.
Trata-se de uma reportagem imprevista, já que foi feita a partir de um acontecimento imprevisto (o “verdadeiro” acontecimento); foi feita na 3ª pessoa; é uma reportagem de acontecimentos, girando em torno de um acontecimento (a morte da jovem Soraya dentro da sala de aula da escola onde estudava); é curta, de pequena dimensão, ocupando só uma página do jornal; é mista, integrando mais de um elemento de reportagem, como o uso das citações e a narração dos fatos; e escrita em linguagem formal.
4.2 ESCOLAS VIVEM COM MEDO DA VIOLÊNCIA
A reportagem de O Liberal “Escolas vivem com medo da violência” se prende a mera divulgação de ações do que ao estímulo ao debate e à discussão, já que as falas ouvidas são somente de um major, dois professores e um auxiliar de disciplina. Nenhum especialista sobre o tema foi ouvido, nem mesmo os interessados principais no assunto, aqueles que vivenciam de perto o problema da violência nas escolas, os alunos.
Ao usar a palavra “ladrão” para se referir a um jovem, sem que o mesmo fosse julgado, a reportagem fere as determinações do ECA.
O recurso da pirâmide invertida é utilizado, bastando os dois parágrafos iniciais para se entender do que a reportagem trata, sem precisar lê-la até o fim.
O título “Escolas vivem com medo da violência” é noticioso/informativo, sem apresentar indícios de sensacionalismo, estando posicionado em cima da página. Logo abaixo vem o subtítulo “Assaltos, invasões e até morte viraram realidade para alunos da rede pública”.
O lead apresentado é de impacto, respondendo às perguntas essenciais de acordo com a retórica do jornalismo – “Quem?”, “O quê?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?” e “Por quê?” – e, após elencar as escolas e bairros que mais apresentam casos de violência interna e/ou no entorno, seguindo a fórmula seca e clássica de um lead dessa natureza que é, de acordo com Jorge Pedro Sousa, “Sujeito – verbo – complementos de lugar e tempo – complemento direto” (SOUSA, 2004, p. 70).
A formatação textual da reportagem é construída em seções como blocos, onde em todos há incidência da pirâmide invertida, fazendo com que o primeiro parágrafo de cada bloco baste para adiantar o teor bruto do mesmo. Os blocos são: “Assaltos, invasões e até morte viraram realidade para alunos da rede pública”; “ALGUNS CRIMES QUE CHOCARAM A POPULAÇÃO ESTE ANO”; e “Jovem armado invade a ‘Castelo Branco’ e causa pânico em alunos”.
É válido ressaltar o recurso da conjugação da pirâmide invertida com o relato cronológico – a chamada estrutura homérica ou nestoriana – utilizado no bloco “ALGUNS CRIMES QUE CHOCARAM A POPULAÇAO ESTE ANO”, que inicia justamente com o caso Soraya, tema da primeira reportagem analisada.
O uso de determinados vocábulos como “alarde”, “ladrão” e “bandidagem” no decorrer da reportagem sinaliza uma intenção muito mais condenatória do jornalista perante o problema da violência nas escolas do que uma predisposição ao debate, uma investigação das causas e consequências do estado em que a educação se encontra nos dias de hoje.
Fica bem explícita essa tendência quando o nome abreviado da escola Caldeira Castelo Branco aparece entre aspas como “Caldeira”. Ora, “caldeira” pode ser somente o nome simplificado da escola, como também uma insinuação de um lugar onde os acontecimentos estão fervendo.
As fontes ouvidas foram o major Janderson Viana, comandante do Cipoe; o auxiliar de disciplina, Jaime Ferreira; e os professores Meire Lobato e Arão Araújo. Há a contrastação de fontes antagônicas no discurso do major versus o dos professores: o primeiro a defender a tese de que a cada dia, apesar do alarde, a violência nas escolas diminui, e os dois últimos contando a experiência de trabalhar em uma escola insegura e já vítima de assalto.
O discurso das fontes vem corretamente discriminado por aspas e paráfrases, mas os fatos/notícias não são tão distintos das análises/comentários, ocorrendo uma mistura de razão e emoção prejudicial para que a debate sobre a violência seja promovido e evolua.
A oposição das falas do major a dos professores vem basicamente ligada à idéia de simplificação já que, de acordo com Babin citado por Sousa (2004, p. 89), “quem opõe simplifica”. Ao se deter na oposição das opiniões das fontes, o jornalista deixa de lado a proposição do estudo de medidas que visem a um bem comum para todos, que seria a construção de uma cultura de paz nas escolas.
O texto é entremeado de dados estatísticos e citações das fontes (quatro), sendo uma reportagem de rotina, ou seja, provavelmente agendada na véspera ou no próprio dia, visto que o acontecimento mais palpável datava do dia anterior.
Feita na 3ª pessoa, a reportagem é do tipo mista, já que trata não só de um acontecimento (jovem armado invade a ‘Castelo Branco’ e causa pânico em alunos) como também de uma temática (violência nas escolas). É mista também no que tange as características estéticas e formais, já que além das citações temos a narrativa dos casos antecedentes, assim como do caso do jovem que invadiu a escola Caldeira Castelo Branco.
É uma reportagem curta, que não ultrapassa meia página de jornal; e é escrita em linguagem formal.
4.3 VIOLÊNCIA NA ESCOLA “REFLETE A FAMÍLIA”
“Violência na escola ‘reflete a família’” é das três reportagens selecionadas do jornal O Liberal, a que mais se adequa ao que se espera do bom jornalismo.
Nela, ao contrário das outras, ocorre o estímulo ao debate e à discussão; os termos utilizados são corretos, de acordo com o ECA; e as fontes são apropriadas, mesmo que ainda tenha a ausência da fala dos maiores interessados, as crianças e os adolescentes que tematizam a reportagem.
O recurso da pirâmide invertida mais uma vez está presente, trazendo nos dois primeiros parágrafos do texto as informações básicas suficientes.
O título “Violência na escola ‘reflete a família’” é noticioso/informativo, sem chocar ou agredir o leitor; está localizado em cima da página e é seguido do subtítulo “Cientistas sociais divergem sobre a origem do problema, que cresce no Estado”, que já prenuncia um debate mais aprofundado sobre o tema da violência nas escolas.
O lead é de impacto, respondendo às perguntas clássicas – “Quem?”, “O quê?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?” e “Por quê?”.
A formatação textual lida mais uma vez com seções como blocos e a pirâmide invertida se faz presente em cada um desses blocos, ao todo nove: “Cientistas sociais divergem sobre a origem do problema, que cresce no Estado”; “’RESPEITO’”; “FAMÍLIA”; “AGRESSÃO”; “Consumismo e mídia são fatores que também influenciam ato violento”; “’FRANGALHOS’”; “AUTORIDADE”; “Juventude vive crise de valores”; e “REVOLTA”.
Com exceção do vocábulo “critica”, é notável o uso de verbos mais neutros para explicar o tom da fala dos entrevistados – termos como “acredita”, “conclui”, “analisa” foram os escolhidos.
Já as aspas foram utilizadas por duas vezes, ambas como títulos de blocos – “RESPEITO” e “FRANGALHOS”, respectivamente.
O “RESPEITO” a que a matéria se refere é o respeito que hoje em dia os filhos não têm mais pelos pais, cabendo aos professores a nem sempre grata missão de resgatá-lo.
O termo “FRANGALHOS” vem da fala do sociólogo Marco Antônio Moreira, ao definir o estado atual do aparato escolar disciplinador.
Junto com o já citado sociólogo Marco Antônio Moreira, as fontes da matéria são o diretor pedagógico do colégio Universo, Julio Reis; e a psicóloga Silvia Camacho. A falha ocorre em função da ausência da fala do professor Ailton Santos, cuja declaração “de que a violência e a falta de respeito dentro das escolas é reflexo do que se aprende em casa” desencadeou a reportagem.
Ao ler a reportagem é fácil perceber que ocorre claramente a contrastação de fontes antagônicas, com o diretor Julio Reis discordando da opinião do professor Ailton Santos; a psicóloga Silvia Camacho concordando com o professor Ailton e discordando do sociólogo Marco Antônio Moreira.
Também se nota que todas as falas fazem criteriosamente o uso das aspas e de paráfrases e os acontecimentos são descritos trazendo a percepção do que são “fatos/notícias” e do que são “análises/comentários”.
A oposição dos discursos das fontes citada acima remete a aos procedimentos de intensificação e dramatização do discurso classificados por Jorge Pedro Sousa, e ao contrário das duas matérias analisadas anteriormente, ao invés de simplificar a abordagem do tema com a tensão entre os pólos, dá ao leitor a oportunidade de vislumbrar de maneira mais clara todas as possibilidades de motivos que ocasionam a violência na escola como reflexo da vivência familiar.
O tipo de texto construído na reportagem é permeado de citações, em discurso direto, discurso indireto (paráfrase) e discurso indireto livre.
Quanto ao gênero jornalístico, trata-se de uma reportagem de rotina, provavelmente agendada na véspera ou no próprio dia, em função da declaração do professor Ailton Santos, feita na edição de O Liberal do dia anterior.
A reportagem é curta (de pequena dimensão), apresentada na 3ª pessoa, fazendo uso da linguagem formal. É uma reportagem mista, já que apresenta elementos da reportagem de acontecimentos (a declaração do professor Ailton Santos “de que a violência e a falta de respeito dentro das escolas é reflexo do que se aprende em casa”) e da reportagem temática, focalizando o tema da violência nas escolas.
Como já mencionado antes é uma reportagem de citações, quanto às características estéticas e formais, tendo como base a opinião de terceiros – no caso, as fontes.
4.4 BULLYING PREOCUPA PROFESSOR E ALUNOS
A reportagem “Bullying preocupa professor e alunos”, produzida pela Agência Unama de Comunicação e publicada no jornal O Liberal, não se atém somente à divulgação de ações, mas estimula o debate e a discussão sobre a violência nas escolas cumprindo um papel cidadão ao colocar o ato de fazer jornalismo a favor da sociedade.
Os termos utilizados para se referir a crianças e adolescentes são todos de acordo com os mandamentos do ECA e as fontes são plenamente adequadas ao tema, pois além de ouvir especialistas, a Agência Unama também ouviu os maiores interessados no tema: os próprios alunos.
O recurso da pirâmide invertida não é utilizado dessa vez, optando-se por um texto narrativo, descritivo que vai prendendo o leitor mais e mais até chegar ao final da reportagem (não existe uma ordem cronológica dos fatos já que é em torno do fenômeno bullying que gira a reportagem e não de um fato propriamente).
O título “Bullying preocupa professor e alunos” vem posicionado em cima da página e é noticioso/informativo, sem dar margem ao sensacionalismo, o que fica evidente com o uso do vocábulo “preocupa”. Ocorre a utilização do subtítulo “Modalidade de violência psicológica é comum nas salas de aula”.
O lead da reportagem é indireto – também chamado de soft-lead. Ao invés de dar logo a informação mais importante para o leitor como o lead de impacto faz, o soft-lead prepara esse leitor para ter essa informação em um ponto mais adiantado da matéria. Isso faz com que coloquemos, de acordo com Jorge Pedro Sousa, “a imaginação do leitor a funcionar, transportando-o mentalmente através do espaço e do tempo, sensibilizando-o ou atingindo-o emocionalmente” (SOUSA, 2004, p. 71).
Essa prática fica bem nítida no lead apresentado pela reportagem da Agência Unama, onde percebemos toda a exploração do cenário de violência nas escolas:
“As situações são típicas de salas de aula: alunos apelidando colegas, os mais fortes e populares da classe impondo regras aos mais fracos, exclusão de pessoas por características diferentes do resto do grupo. Esses casos fazem parte de um tipo de violência muito comum nas escolas: o bullying. O termo de língua inglesa, sem tradução ainda em português, refere-se a atitudes agressivas entre alunos, executadas em uma relação desigual de poder, em que a vítima se sente intimidada e insegura para reagir” (BULLYING…, 2007).
O texto é construído por seis seções como blocos: “Modalidade de violência psicológica é comum nas salas de aula”; “Participação da maioria dos pais na escola se restringe a reuniões”; “RESULTADOS”; “Programas reforçam segurança e estimulam exemplos de superação”; “EXEMPLO”; e “Educadores precisam aprender a lidar com o problema em sala de aula”.
Os vocábulos “explica”, “afirma”, “analisa”, “garante”, e “revela” usados a partir das citações das fontes indicam, por exemplo, uma franca intenção de estimular o debate sadio acerca da violência nas escolas ao invés de tão somente incitar afirmações unilaterais ou tendenciosas. A única palavra utilizada entre aspas é “mexendo”, tendo significado de “provocar” e inserida na fala de uma das fontes e não do jornalista.
A lista das fontes é rica não só quantitativamente quanto qualitativamente, pelo debate que a mesma embasa: uma adolescente de 16 anos estudante da Escola Estadual Barão do Rio Branco; a psicóloga e professora universitária Patrícia Nader; o sociólogo e coordenador do grupo de estudo “Juventude e subjetividade”, da Universidade Estadual do Pará (Uepa), professor Mário Brasil; o professor Reinaldo Pontes, coordenador do Observatório de Violência nas Escolas; o secretário-adjunto de ensino da Seduc, professor Bira Rodrigues; o professor de informática da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Brigadeiro Fontenelle, Dilson Aires; a vice-diretora da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Brigadeiro Fontenelle, Ana Laura Gomes; a aluna do 2º ano do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Brigadeiro Fontenelle, Simone Barros, de 18 anos; o aluno do 7º semestre de Licenciatura em Matemática, da Universidade Federal do Pará (UFPA), Rivaldo Martins; o diretor da Faculdade de Matemática da UFPA, Geraldo Mendes; a estudante do 8º semestre de Pedagogia da UEPA, Carla Silva de Azevedo.
Dentro dessa extensa lista, não há fontes antagônicas, todas apresentam um discurso uníssono no que tange o combate ao bullying, discurso esse que se vale criteriosamente do uso das aspas e paráfrases.
A separação entre “fatos/notícias” e “análises/comentários” ocorre, já que primeiro nos é apresentado o fato, as notícias sobre o bullying, e depois o espaço é aberto para as análises e comentários das fontes.
Trata-se de uma reportagem planificada, ou seja, agendada com antecedência – até porque também divulgava o lançamento do livro “Relações Sociais e Violência nas Escolas”, resultante de uma parceria entre parceria entre o Observatório de Violência nas Escolas e o Governo do Pará, via Programa Pró-Paz Educação.
Feita na 3ª pessoa e em linguagem formal, a reportagem é curta, ocupando apenas uma página de O Liberal.
Quanto ao tipo, é uma reportagem temática, que aborda um interesse humano de entender e combater a violência nas escolas; e quanto às características estéticas e formais é uma reportagem mista, já que engloba a explicação do que é o fenômeno bullying e faz uso de citações das fontes para concatenar melhor as ideias expressas.
4.5 CRIANÇAS TAMBÉM LIDAM COM DROGAS
A última reportagem analisada é “Crianças também lidam com drogas” e também foi, assim como a anterior, produzida pela Agência Unama de Comunicação e publicada pelo jornal O Liberal.
A reportagem estimula o debate e a discussão acerca do tema da violência nas escolas e do modo como ele vem refletido do seio familiar, já que trata de um caso onde a criança vive uma situação com drogas em casa e revela isso depois, em sala de aula.
A precisão conceitual é correta, utilizando os termos de acordo com o ECA. Também é correta a escolha das fontes sobre o tema, visto que a professora envolvida no caso – ela ouviu o relato do aluno de cinco anos de idade sobre a existência de um suposto pacote de cocaína na casa dele – e um cientista político são ouvidos.
O fato é relatado minuciosamente e cronologicamente, como uma história, não sendo utilizado, portanto, o recurso da pirâmide invertida.
O título “Crianças também lidam com drogas” é noticioso/informativo, sem apelos tendenciosos nem sensacionalistas. Ele vem em cima da página e faz uso do subtítulo “Menino de 5 anos disse que Polícia procurava ‘bagulho’ em sua residência”.
A reportagem apresenta um soft-lead, não fornecendo logo a informação mais relevante, mas instigando o leitor para a chegada a essa informação mais adiante. É usado esse tipo de lead indireto por se tratar de um assunto insólito: um menino que, naturalmente, conta à professora que o pai foi preso por causa de um “bagulho”.
O texto é todo construído em seções como blocos, no total de quatro: “Menino de 5 anos disse que Polícia procurava ‘bagulho’ em sua residência”; “SURPRESA”; “PREPARO”; e “PREVENÇÃO”.
A técnica da progressão cronológica é utilizada na reportagem “para recordar, etapa por etapa, como se chegou a uma determinada situação” (SOUSA, 2004, p. 74).
O uso de vocábulos como “deduziu”, “explica”, “destaca” e “lamenta” no momento das citações das fontes leva a uma percepção das intenções de promoção do debate e do cuidado com o levantamento de hipóteses ao invés da franca e imediata acusação – bem explícito na palavra “deduziu” especificamente.
O uso das aspas é correto no momento de citar as fontes, e também aparece na palavra “bagulho”, por se tratar de gíria – conhecida por tratar de drogas.
As fontes ouvidas foram a professora do menino de cinco anos que relatou a prisão do pai – ela não foi identificada; e o professor e cientista político especialista em violência Raul Navegantes. Não há antagonismo entre as fontes, mas uma preocupação mútua perante a situação de violência nas escolas. Como já dito antes, as opiniões das fontes são lidas através da utilização criteriosa das aspas e de paráfrases, e há clara distinção do que são “fatos/notícias” e do que são “análises/comentários”, aparecendo um antes e o outro em seguida, sem misturas.
O texto é narrativo ao contar passo a passo a história do menino e da professora, e também conta com texto citado, ou seja, a opinião das fontes.
É uma reportagem curta; escrita em linguagem formal, em 3ª pessoa; planificada, feita um mês depois do acontecimento narrado. Apresenta características mistas quanto ao tipo (acontecimento: aluno relatar à professora que a polícia invadiu a casa dele para prender o pai e apreender o “bagulho”; e temática: violência nas escolas) e quanto às características estéticas e formais (narrativa, no início do texto, com a exposição da história vivenciada pela professora com seu aluno; e de citações, em um segundo momento, onde a professora e o especialista em violência nas escolas tecem comentários acerca do tema).
5 QUEM SÃO ESSES CAPITÃES DA AREIA, ONDE VIVEM, COMO VIVEM
“A minha escola não tem personagem / A minha escola tem gente de verdade / Alguém falou do fim do mundo / O fim do mundo já passou / Vamos começar de novo / Um por todos e todos por um”
Renato Russo
A Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio “Manoel de Jesus Moraes” foi inaugurada no dia 12 de março de 1991, pelo então Governador do Estado do Pará Hélio Mota Gueiros e pela Secretária de Estado de Educação Therezinha Moraes Gueiros.
Localizado no bairro do Marco, o “Manoel de Jesus” atende alunos não só desse bairro como da Terra Firme, do Canudos e do Guamá.
A escola já esteve sob o comando de Ildimar Viana, Silvia Messias, Orivaldo Saraiva e Ana Mello, sendo hoje dirigida por Maria Lúcia Maia.
Da equipe de professores formada em 1991, época da fundação da escola, alguns permanecem trabalhando até hoje lá: Antônia, professora de História; Cristina, professora de Geografia; Rui e Joice professores de Educação Física; e Pinheiro, professor de Língua Portuguesa. Esses profissionais integram atualmente a equipe de 47 professores que dão aula na escola, junto a mais 33 funcionários.
A estrutura física da escola comporta 12 salas de aula; um laboratório de informática; uma quadra poliesportiva; uma área coberta que comporta a cantina, a cozinha, os banheiros, os bebedouros, uma sala de Educação Física, uma sala reprográfica, uma despensa e um espaço para os alunos merendarem; um estacionamento; uma secretaria; um espaço multiuso; uma secretaria; um arquivo; um depósito; a sala da dos professores; a sala dos técnicos; e a sala da direção.
Funcionando durante os turnos matutino, vespertino e noturno, a escola conta com 319 alunos de manhã, distribuídos em 12 turmas; 297 alunos de tarde, divididos em 11 turmas; e 530 alunos de noite em 11 turmas.
De acordo com o Censo/2008, a faixa etária dos alunos de 1ª a 4ª série é de sete a dez anos; de 5ª a 8ª série é de nove a 14 anos; e de 1º a 3º ano é de 14 a 19 anos. Essa informação oficial não corresponde à realidade, visto que adultos com mais de 19 anos estudam na escola.
Pela manhã há uma turma de 1ª série, uma de 2ª, uma de 3ª e uma de 4ª; uma de 5ª, uma de 6ª, uma de 7ª e duas de 8ª; uma de 1º ano, uma de 2º e uma de 3º. Pela tarde há uma turma de 1ª série, uma de 2ª, uma de 3ª e uma de 4ª; uma de 5ª, duas de 6ª, uma de 7ª e uma de 8ª; uma de 1º ano e uma de 2º. Pela noite há três turmas de EJA (Educação de Jovens e Adolescentes), sendo uma de 3ª etapa e duas de 4ª; e três turmas de 1º ano, três de 2º e duas de 3º.
6 A MANEIRA COMO A ESPERANÇA EM UM FUTURO MELHOR SE TORNA (OU NÃO) REALIDADE
“Reformemos as nossas escolas e não teremos que reformar grande coisa nas nossas prisões”
John Ruskin
Vinte e oito pessoas foram entrevistadas qualitativamente a partir do questionário do Anexo 6: sete professores dos Ensinos Fundamental e Médio; sete alunos da 5ª série do Ensino Fundamental; sete alunos da 8ª série do Ensino Fundamental; e sete alunos do 3º ano do Ensino Médio.
O questionário continha sete questões comuns aos professores e alunos e mais duas direcionadas somente aos professores, totalizando nove.
A partir dos relatos pessoais dessas vinte e oito pessoas é possível vislumbrar como elas encaram a violência nas escolas e o retrato desse fenômeno na mídia, pensando possibilidades para mudar essa realidade com a ajuda da mídia.
Além da análise das entrevistas feita em blocos, as mesmas se encontram anexadas a esse trabalho, na íntegra. Ao lado do nome dos alunos entrevistados há a indicação da idade de cada um; já acompanhando o nome dos professores vem apontada a matéria que cada um leciona.
6.1 PROFESSORES DOS ENSINOS FUNDAMENTAL E MÉDIO
A palavra sensacionalismo é recorrente no relato dos professores da Escola Manoel de Jesus Moraes ao definirem o papel da mídia na questão da violência nas escolas.
Apesar de reconhecerem que a mídia representa a experiência do dia a dia deles, os professores contestam a onda de notícias ruins e a não divulgação das coisas boas.
Ao fazer da violência um show, na opinião dos professores, a mídia banaliza o assunto, não debatendo a fundo o problema e com isso colaborando mesmo que indiretamente para o aumento da violência. Quando há o debate, os professores reclamam que os “estudiosos” sempre colocam a culpa no corpo docente.
Os professores vislumbram que se a mídia cumprisse seu papel de prestadora de serviços à comunidade em que vive e discutisse a questão educacional não chegaríamos às noticias da violência de fato.
Eles constatam que a violência em seu estado mais exacerbado – aquela que causa mortes – ainda não chegou ao colégio onde lecionam, mas que as outras abordagens de violência mostradas pela mídia, como o bullying, as drogas, a rebeldia, o vandalismo e as brigas, já fazem parte do contexto onde trabalham.
Os professores da Escola Manoel de Jesus Moraes em um consenso chamariam a família e a comunidade para dentro da escola, a fim de traçar um plano que solucionasse os problemas de violência e não transferir esses problemas para o DATA, o EREC ou o Conselho Tutelar. Outra ajuda essencial nesse processo seria de profissionais que por enquanto não figuram nos quadros da SEDUC: assistentes sociais e psicólogos, por exemplo.
Levando em conta as formas de violência consideradas por Pontes, Cruz e Melo (2007) – física, ao patrimônio, psicológica, ao meio ambiente, discriminação na escola e sexual – vale frisar que a maior parte dos relatos dos professores se atém à violência física e psicológica, deixando de lado as outras.
Para esse grupo de professores a mídia deveria ajudá-los, vivenciar a fundo o cotidiano deles, as mazelas, ver o que é preciso para melhorar a educação e fazem matérias que exijam do Estado atitudes e medidas eficazes nesse sentido.
Divulgar o lado bom das escolas também seria um grande incentivo na opinião deles. Um projeto educacional, uma feira da cultura, um torneio esportivo – dar voz e espaço pro que há de bom também seria uma das soluções dos professores para que a violência ficasse um pouco de lado e desse lugar à educação.
6.2 ALUNOS DA 5ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL
Talvez pela faixa etária – a maioria de 11 e 12 anos – os alunos da 5ª série do Ensino Fundamental da Escola Manoel de Jesus Moraes julgam a experiência mostrada pelas noticias sobre violência diferentes da realidade deles. Se atendo muito aos episódios de morte nas escolas, os alunos afirmam que esse tipo de situação ainda não chegou à escola onde estudam e com isso acabam minimizando as outras ocorrências.
Corroborando as constatações de Pontes, Cruz e Melo (2007) de que
“identificam-se mais aquelas (violências) cujos danos são mais visíveis como a praticada diretamente contra a pessoa (agressões, brigas) e contra o patrimônio (pichação, depredação). As outras formas de violência em muitos casos sofrem de banalização ou (…) simplesmente não figuram no rol de tipos de violências das pessoas, quer dizer, são violências legitimadas ou socialmente aceitas”. ((PONTES, CRUZ E MELO, 2007, p. 94),
ocorrências como xingamentos, depredação do patrimônio, atitudes preconceituosas e brigas por motivos banais como namorados fazem parte dos relatos desses alunos que aprendem desde cedo a conviver com a violência na escola, mesmo com a consciência de que a escola não é um local de violência e sim de estudo e aprendizagem.
Quando perguntados o que fariam pra proteger a escola da violência, os entrevistados da 5ª série tocaram muito no quesito da segurança da escola, pedindo mais policiamento, monitoramento e até mesmo revista.
Já quando se perguntou como a mídia poderia contribuir nesse processo de proteção da escola em relação à violência, muitos não viram como a mídia poderia ser aliada da escola nessa situação, demonstrando a falta de conhecimento do poder da imprensa.
Os poucos que arriscaram alguma sugestão ao modo como a imprensa poderia ajudá-los citaram, como os professores, que não só as notícias más deveriam ir pros jornais, mas também as boas, e que a imprensa organizasse campanhas e palestras contra a violência.
6.3 ALUNOS DA 8ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL
Mais amadurecidos, os alunos da 8ª série do Ensino Fundamental da Escola Manoel de Jesus Moraes já admitem uma proximidade maior da realidade da escola onde estudam com as notícias sobre violência veiculadas pelos jornais. Eles afirmam que a escola ainda não atingiu um nível de violência extremo, com mortes, mas admitem que há uma caminhada nessa direção.
Na visão desses alunos, as brigas na escola são motivadas por bobagens: briga de namorados, briga por bola, briga até por pirulito.
A incidência de drogas como cigarro e bebidas alcoólicas também é revelada pelos alunos da 8ª que não cobram uma ação mais efetiva dos pais, da direção da escola e da segurança.
Dois relatos chamam a atenção: o de um aluno que sofre discriminação sexual em virtude de sua homossexualidade e o de um aluno que é discriminado por ter tido pólio e ter dificuldades de locomoção. Em ambos os casos não há interferência por parte da escola e as situações geradas por essas discriminações são resolvidas entre os próprios alunos.
Para solucionar o problema da violência, assim como os alunos da 5ª série, os alunos da 8ª também clamam por mais segurança, policiamento, vigilância. Coincidindo com o pensamento dos professores, esses alunos também citam a participação dos pais e de psicólogos como fundamentais nesse processo.
Já em relação à mídia, os alunos entrevistados também colocariam em voga os projetos, as boas escolas, o debate contra a violência e a pedofilia, sem esquecer, contudo de flagrar a situação precária em que as escolas se encontram e onde eles têm que estudar.
6.4 ALUNOS DO 3º ANO DO ENSINO MÉDIO
Com uma visão de cidadãos que já estão prestes a sair da escola, os alunos do 3º ano do Ensino Médio da Escola Manoel de Jesus Moraes ponderam que ao invés de abordar tanto o tema da violência nas escolas, a mídia deveria dar mais espaço para o debate sobre educação, sobre o repasse de verbas, a situação das escolas, dos alunos, dos professores.
Os alunos argumentam que seria interessante que a imprensa convivesse com eles por um tempo para debater sobre a violência e depois escrever sobre ela, contribuindo para que a situação melhorasse.
Um dos relatos mais reveladores é de um aluno que sofre discriminação por ser estudioso. Na maioria das vezes, ele tenta resolver sozinho os problemas, conversando com os colegas que o apelidam e xingam, mas admite que já esteve em uma situação em que foi preciso a intervenção da família e da direção da escola, pois ele não conseguiu dar um fim sem ajuda.
Eles temem que as notícias sobre violência nas escolas acabem manchando a imagem dos bons colégios, generalizando a questão. Reconhecem que as matérias estampam a realidade com a qual convivem, mas se ressentem também pelos aspectos positivos da escola onde estudam não serem evidenciados.
EPÍLOGO
Violência nas escolas é um dos maiores exemplos de paradoxo que poderia existir. Pontes, Cruz e Melo (2007) concordam com essa constatação ao afirmarem que, “a escola, como uma instituição central para a formação das crianças e jovens, sendo ocupada pela violência, representa sua própria negação como instituição, o que certamente comprometerá já o presente e, em breve o futuro da sociedade”.
Reconheço minha postura nas palavras de Pontes, Cruz e Melo (2007) que dizem que:
“a expressão ‘eles fazem o trabalho deles da forma que eles acham que deve ser feito, que não é melhor pros alunos’ denota relação de verticalidade. A dimensão pedagógica requer tolerância e mais diálogo. Mesmo que um docente converse e brinque não implica dialogicidade, pois esta conjuga horizontalidade e permuta no contexto pedagógico” (PONTES, 2007, p. 70).
Eu penso fazer a coisa certa em relação ao meu aluno, do ponto de vista em que fui criada – valores familiares, sociais, econômicos, culturais, etc. – que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade em que meus alunos vivem. É preciso abrir os olhos e o espírito para absorver a realidade deles, intercambiando-a com a minha, ao invés de rivalizar ou impor algo.
De acordo com o que Macedo (2004) explana de que “a experiência da diversidade passa a ser uma temática central para a desconstrução dos estudos maniqueístas e monorreferenciais, que insistem em acha que o mundo pode ser visto e compreendido apenas por uma só lente”, eu considero “errado” o modo de vida dos meus alunos porque enxergo o modo de vida deles a partir do meu.
Mas na realidade, é como afirma Guimarães Rocha citado por Macedo (2004): “as culturas são verdades relativas aos atores e atrizes sociais, ‘são versões da vida, teias, imposições, escolha de uma política de sentidos e significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo’”.
A situação de violência nas escolas não é definitiva, pois. A realidade deles pode mudar. E um dos caminhos é o debate nos jornais.
REFERÊNCIAS
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____________. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record, 1982a.
CHICO BUARQUE. O meu guri. In: CHICO BUARQUE. Almanaque. Rio de Janeiro: Marola Edições Musicais Ltda., 1981. Faixa 3.1
Disco de Vinil
INFÂNCIA e adolescência na pauta da mídia: uma análise da cobertura dos jornais do Pará sobre a criança e o adolescente. Belém: Unama, 2005.
MACEDO, Roberto Sidnei. Etnopesquisa crítica e multirreferencial nas ciências humanas e na educação. Salvador: Edufba, 2004.
MAIA, Rousiley C. M. Mídia e diferentes dimensões da accountability. Disponível em <www.compos.com.br/e-compos> Acesso em: 12 mar. 2009.
PONTES, Reinaldo Nobre; CRUZ, Cláudio Roberto da; MELO, J. S. M.. Relações sociais e violências nas escolas. Belém: Unama, 2007.
RENATO RUSSO. Vamos fazer um filme. In: LEGIÃO URBANA. O descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: EMI, 1993. Faixa 8
CD
RUSKIN, John. Frases, citações e pensamentos. Disponível em
<http://www.imotion.com.br/frases/?cat=1392> Acesso em: 15 out. 2009.
SOUSA, Jorge Pedro. Introdução à análise do discurso jornalístico: um guia para estudantes de graduação. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004.
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
ANEXO 1 – Assassina diz que não era respeitada
Edição de 18/06/2008
Tragédia
Edilene Gonçalves revelou que vinha sendo perturbada por Soraya Marinho
A delegada Ana Rita Reis, que preside o inquérito policial que investigará o assassinato da jovem Soraya Barbosa Marinho, disse no início da noite de ontem que esteve no local do crime – a Escola Renato Conduru – e iria tomar todos os depoimentos necessários para esclarecer o caso. A princípio, ela tinha certeza que o crime foi causado por motivo fútil. A delegada acrescentou que já tinha conversado com Edilene Gonçalves, que matou Soraya, mas ainda iria ouví-la em depoimento para esclarecer todos os detalhes do ocorrido.
Para a delegada, a acusada disse que Soraya não a respeitava. Ela também afirmou que há algum tempo tinha discussões com a adolescente, mas não entrou em detalhes sobre os motivos destas discussões. ‘Ela (Edilene) disse que vinha sendo perturbada pela Soraya, mas ainda não sei sob qual aspecto’, frisou. A acusada também afirmou que já tinha procurado a direção da escola para denunciar as desavenças entre ela e a Soraya. ‘A pedagoga da escola teve uma conversa com as duas em outra ocasião. Eu falei com a pedagoga hoje (ontem) e ela confirmou que teve uma reunião com as alunas. A pedagoga também disse que, na época, aconselhou à mãe de Soraya que procurasse um atendimento psicológico para a filha. De acordo com ela, Soraya, apesar de estudiosa, era muito quieta e tinha dificuldade de relacionamento com os colegas de classe.
A delegada disse que a acusada demonstrou arrependimento. ‘Ela está assustada, disse que não tinha a intenção de matar. Ela queria fazer com que a vítima a respeitasse, pois ambas viviam discutindo. Ana Rita Reis informou que Edilene seria autuada em flagrante e encaminhada para o Centro de Recuperação Feminino (CRF), onde permanecerá à disposição da Justiça.
INDIGNAÇÃO
Rosilene Marinho, 29 anos, tia da adolescente, estava indignada. Ela acredita que a escola também tenha uma parcela de culpa na morte de Soraya. ‘Não estou querendo acusar ninguém, mas acho muito estranho que tenha chegado a este ponto’, frisou. Rosilene disse que Soraya já tinha reclamado diversas vezes com a mãe sobre os desentendimentos que tinha com Edilene. Brigas entre elas já vinham ocorrendo e ninguém fez nada. Eu não estou culpando ninguém, só acho estranho que a escola não tenha se posicionado mais firmemente diante desta ‘picuinha’ que já existia entre as duas’, frisou.
O avô de Soraya, Antônio Marinho da Silva, de 72 anos, pediu mais segurança para a escola. ‘Eu fiquei traumatizado com o que aconteceu nesta escola. Minha sobrinha foi assassinada dentro da sala de aula, isto não dá pra aceitar. Está faltando segurança na escola, não há dúvidas’, denunciou.
Outra tia da adolescente, Cilene de Oliveira, também esteve na escola após o crime. Ela disse que queria Justiça. ‘Minha sobrinha era muito calma, não fazia confusão com ninguém. Sempre foi boa aluna e era evangélica. Eu não sei quem é essa Edilene, mas com certeza é uma pessoa que não tem boa índole, pelo que ela fez’, frisou. Cilene também disse que a escola precisa de mais segurança. ‘Neste colégio o estudante entra e sai a hora que quer. Todos deviam ser revistados, para que não pudessem entrar com faca ou qualquer outra arma’, disse.
Pais da menina morta não falaram com imprensa. Tia está perplexa.
A recepcionista Rosilene Marinho, 29, tia de Soraya Barbosa Marinho, 15, informou por telefone, ontem à noite, que a família não estava em condições de dar entrevistas e que não disponibilizaria nenhuma imagem da adolescente com vida para publicação na imprensa. A decisão de preservar a imagem de Soraya, segundo o que informou Rosilene, foi do pai da menina assassinada, o técnico em informática Josias da Silva Marinho, de 37 anos.
‘O meu irmão não quer, de jeito nenhum, que seja exposta a imagem da filha dele nos jornais. Ele prefere que a memória dela seja respeitada. Já chega o que aconteceu!’, disse a tia. ‘Queremos que vocês (repórteres) respeitem a nossa dor nesse momento. Nós ainda estamos muito confusos com tudo o que aconteceu. Ninguém queira passar pelo que nós estamos passando. Ainda estamos ‘correndo’ para resolver uma série de coisas’, desculpou-se Rosilene.
Josias, que é hipertenso, precisou de medicação para ter condições físicas para resolver os trâmites de liberação do corpo, no Instituto Médico Legal (IML), durante a noite de ontem. Já sobre a mãe, Solange Barbosa, 36, com quem a adolescente morava, na companhia ainda de um irmão, a tia não soube dar nenhuma informação. ‘Ainda não consegui falar com ela e também não tenho o endereço. Só sei que mora no conjunto CDP. Mas com certeza ela e todos os familiares dela devem estar muito transtornados. A menina convivia mais com eles porque meu irmão e a Solange estavam separados há cerca de um ano e os filhos viviam com a mãe’, contou Rosilene.
Sobre os acontecimentos que antecederam o crime, Rosilene disse estar perplexa. ‘Fui babá da minha sobrinha e sei que ela não era uma menina de provocar os outros. Muito pelo contrário. Era calma, uma menina reservada. Ainda não conseguimos entender como alguém pode ter criado uma rixa tão grave com uma menina como ela. Afinal, foi com essa palavra forte, ‘rixa’, que todos na escola descreveram a relação entre elas duas. Houve até pessoas na escola que, depois do acontecido, nos contaram que a minha sobrinha estava jurada de morte por essa outra aluna’, contou Rosinele, que aproveitou para questionar o papel da escola na situação. ‘Soubemos também que essa moça já vinha provocando a minha sobrinha há muitos dias. E se a menina já havia até jurado de morte a Soraya, como é que a escola não sabia de nada? Poxa, a Soraya levou três facadas na jugular, dentro da sala de aula, e ninguém conseguiu impedir? Isso é muito estranho’, opinou Rosilene.
O corpo de Soraya foi liberado pelo IML às 21h50 horas de ontem. O corpo está sendo velado na casa da avó da menina, na passagem Bom Jesus, entre as passagens São Benedito e Santo Onofre, às proximidades do canal do São Joaquim, na Sacramenta.
Gestora afirma que crime foi ‘caso isolado’
A gestora do Pólo 1 – do qual a Escola Renato Pinheiro Conduru faz parte – Helena Lima, disse que as aulas seriam suspensas de ontem à noite até hoje. ‘As aulas serão suspensas por motivo de segurança e comoção’, disse. A gestora informou que todos os detalhes do fato serão apurados pela Secretaria Executiva de Educação (Seduc), portanto ainda não poderiam ser fornecidos maiores detalhes, no início da noite de ontem.
Questionada quanto à segurança da escola, Helena Lima disse que o local conta com o policiamento da Companhia Independente de Policiamento Escolar (Cipoe) ‘sempre que necessário’. Ela disse ainda que, no momento do fato, havia seguranças na escola, mas não se tinha a confirmação se a estudante realmente teria saído da escola para pegar a faca e retornado ao local. ‘Vamos apurar tudo com mais calma. Para nós foi tudo inusitado, pois estamos sempre tomando as medidas de segurança necessárias. Foi um caso isolado, que não tinha como prever’, enfatizou.
ALUNOS
Alunos e funcionários da escola aproveitaram o assassinato de Soraya para fazer muitas denúncias. Uma estudante afirmou que a escola tem muitos alunos envolvidos em confusão. ‘Aqui no colégio tem briga quase todos os dias, como gangues que não podem se encontrar. E a diretoria nunca faz nada’, disse a estudante, que preferiu não se identificar. Segundo ela, a escola está em péssimas condições. ‘A água é muito suja, já vimos até cobra no banheiro’, denunciou.
Mães de alunos foram para frente da escola e reclamaram também da violência da área. ‘Praticamente todos os dias alunos são assaltados nesta área escolar, que tem três colégios. É um absurdo. Quando nossos filhos saem para a aula, nós ficamos rezando em casa, pedindo que nada de mal aconteça’, disse Maria de Nazaré Freitas, mãe de dois alunos do colégio Renato Pinheiro Conduru.
Chorando, a mãe de outra aluna disse que irá trocar a filha de escola. ‘Já sofremos com esta violência da rua, e agora ainda acontece um crime dentro da sala de aula. Não sei mais onde podemos estar seguros, pois no local onde é dada a educação, alguém é assassinado. Vou mudar de bairro e tirar minha filha dessa escola’, disse uma mãe.
Escola fora da lista das mais violentas, diz major
O comandante da Companhia Independente de Policiamento Escolar (Cipoe) da Polícia Militar, major Janderson Viana, disse ontem que não havia policiamento na Escola Renato Conduru no momento em que ocorreu o assassinato da jovem Soraya Barbosa Marinho, de 15 anos. De acordo com ele, a escola não consta da lista de escolas violentas (60) que o órgão atende. Após o crime de ontem, a escola engrossará a lista.
O major Viana acredita que, a partir de levantamentos feitos por ele no local, mesmo que a polícia estivesse presente nos arredores da instituição o crime teria ocorrido, já que a jovem foi morta dentro da escola. O policiamento escolar é feito na área externa e nos arredores das escolas. ‘Mesmo com o policiamento lá, a aluna teria matado a outra porque entrou na escola com esse objetivo’, disse o comandante. Segundo ele, a aluna autora do homicídio discutiu com a vítima e pediu para sair de sala, em seguida foi até a casa dela, pegou uma faca, retornou e matou a adolescente.
De acordo com o comandante, a Cipoe possui um efetivo de 132 homens que se revezam em três turnos de seis horas cada, para atender a 400 escolas da rede estadual de ensino da Região Metropolitana de Belém (RMB) e 80 da rede municipal de Belém, além das escolas municipais de Ananindeua, Marituba, Benfica e Benevides, que ele não sabe contabilizar. O efetivo ideal, segundo ele, seria o de um batalhão, que fica em torno de mil PMs.
Mesmo com um efetivo limitado, o comandante da Cipoe diz que a preocupação com a violência nas escolas é tanta que eles criaram o moto-ronda escolar e implementaram o policiamento remunerado para que os PMs trabalhem em suas folgas em plantões extras de seis horas.
ANEXO 2 – Escolas vivem com medo da violência
Edição de 02/09/2008
Insegurança
Assaltos, invasões e até morte viraram realidade para alunos da rede pública
Parque Amazônia, Mário Barbosa e Brigadeiro Fontenele, no bairro da Terra Firme. Barão de Igarapé-Miri e Ruth Rosita, no Guamá. Visconde de Souza Franco, no Marco. Essas são as escolas que, em Belém, apresentam o maior número de casos de violência interna ou no entorno. Cerca de 58% desses crimes estão relacionados à briga de alunos, roubo, ameaça e furto. Outros 42% das ocorrências são outros delitos, como o homicídio.
A onda de violência começou em setembro do ano passado, quando um vigia foi assassinado na porta da Escola Estadual Hilda Vieira, e não parou mais. A última ocorrência registrada foi de um assalto na Escola Caldeira Castelo Branco, ontem de manhã. O Comandante da Companhia Independente de Policiamento Escolar (Cipoe), major Janderson Viana, diz que, apesar do alarde sobre a violência nas escolas, o número de crimes registrados diminui a cada ano.
Em 2006, segundo ele, foram 338 ocorrências; ano passado, 229; e até agosto deste ano, 89 registros. ‘Os homicídios têm nos preocupado bastante. Nas escolas onde aconteceram os casos mais graves o policiamento foi intensificado. O Cipoe está trabalhando em conjunto com diversos comandos, como o Comando de Policiamento da Capital (CPC) e o Comando de Policiamento Especializado (CPE). Além disso, acabamos de receber duas viaturas novas para nos apoiarem no combate à violência escolar’, informa.
Segundo o comandante do Cipoe, o espaço geográfico onde a escola está inserida contribui para o aumento da criminalidade. ‘A violência nas escolas vem de fora para dentro. As escolas da Terra Firme, Guamá, Tapanã e Pratinha são as que apresentam o maior número de ocorrências. Violência gera violência. Por esse motivo, nós criamos um grupamento de palestrantes da Cipoe. As palestras envolvem temas, como: violência na escola, educação sexual, drogas, convívio familiar, entre outros. Professores, alunos, pais e responsáveis participam da atividade. O efeito desse projeto é muito positivo’.
O major Janderson Viana lembra que a missão do Cipoe é zelar pelas escolas nos horários e dias letivos. ‘O policial não fica dentro da escola, ele fica locado do lado de fora em posição ostensiva. Ele não toma conta só da segurança do patrimônio, mas da comunidade. Têm escolas que não precisam de policiais militares, por exemplo. Alguns gestores alegam que conseguem resolver os problemas internos com metodologias pedagógicas. Eles dizem em alto e bom tom que não precisam de policiamento’, declarou o comandante do Cipoe.
ALGUNS CRIMES QUE CHOCARAM A POPULAÇÃO ESTE ANO
Em 17 de junho, uma estudante de 15 anos foi assassinada a facadas por uma colega de classe, de 18 anos, na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Renato Pinheiro Conduru, no bairro de Val-de-Cães.
No dia 18 de junho, o estudante Gilberto Felipe Barbosa Neto, de 17 anos, foi ferido a bala durante um assalto em frente ao colégio particular Universo, no bairro do Guamá. O estudante e mais três amigos de escola foram atacados por dois homens armados.
Dia 17 de agosto, o estudante Renan Felipe Rodrigues Parente, de 17 anos, foi esfaqueado por outro estudante, no Colégio Paes de Carvalho, bairro do Comércio.
Em 24 de agosto, o jovem Gentil Pinheiro foi alvejado com três tiros ao reagir a assalto na Avenida Alcindo Cacela entre as avenidas Magalhães Barata e Gentil Bittencourt. O crime ocorreu no final da manhã quando o estudante saía do colégio Impacto pilotando uma motocicleta. Ele fora abordado por um desconhecido que, armado, se aproximou e anunciou o assalto.
Dia 27 de agosto, o aluno José Admilson Costa Reis, de 19 anos, foi assassinado em frente à Escola Estadual Augusto Meira, na qual cursava o 3º ano, no bairro de São Brás. Baleado no peito, ele morreu no local.
Ontem, um jovem não-identificado entrou na Escola Estadual Caldeira Castelo Branco, na travessa de Breves, próximo à Rua Cesário Alvim, e rendeu duas orientadoras que estavam na sala da direção.
Jovem armado invade a ‘Castelo Branco’ e causa pânico em alunos
Mais uma escola foi invadida pela bandidagem ontem de manhã, no bairro do Jurunas, a poucos metros da sede do Centro Integrado de Operações (Ciop), responsável por receber todas as ocorrências de crimes no Estado. Por volta das 7 horas, um jovem não-identificado entrou na Escola Estadual Caldeira Castelo Branco, na travessa de Breves, próximo à Rua Cesário Alvim, e rendeu duas orientadoras que estavam na sala da direção. Uma testemunha que mora em frente ao ‘Caldeira Castelo Branco’ ainda viu o ladrão jogando a bicicleta em frente ao portão da escola, momentos antes do roubo.
O desconhecido anunciou o assalto fazendo menção que mantinha uma arma contra as vítimas, das quais tomou pertences de valor como relógio, carteira e dinheiro. Nada foi levado da escola e ninguém ficou ferido durante o assalto. Na ocasião, poucos alunos aguardavam o início das provas, a partir das 7h30. Estudam na instituição cerca de 400 estudantes, divididos em dois turnos.
De acordo com o auxiliar de disciplina Jaime Ferreira, o porteiro particular não tinha chegado ainda, o que facilitou a entrada do criminoso. Outra professora da escola, Meire Lobato, contou que o portão estava encostado e não trancado. Ela mesma já foi vítima de roubo na porta da instituição de ensino há três meses. ‘Estava muito quente e eu abri o meu carro para sair o ar quente. Foi quando me abordaram. Eram três jovens. Não deu para saber se estavam armados. Essa área é bastante perigosa’, disse a professora.
O professor de Língua Inglesa Arão Araújo confirma não serem muito seguras as imediações do ‘Caldeira’, apesar da proximidade do Ciop. ‘Ano passado, uma professora foi assaltada aqui na frente. Quando se chama a polícia, ela até que vem às vezes, mas não é aquele policiamento constante. Infelizmente acontece de maneira inesperada. Deveria ter uma ronda policial mais eficiente por aqui’, acredita o educador.
Apesar do roubo, as provas não foram suspensas ontem de manhã. Uma equipe de policiais da Delegacia do Jurunas esteve no local para apurar informações sobre o assalto. Até ontem de manhã, o ladrão que atacou a escola não tinha sido identificado.
ANEXO 3 – Violência na escola “reflete a família”
Edição de 10/09/2008
Análise
Cientistas sociais divergem sobre a origem do problema, que cresce no Estado
A declaração de que a violência e a falta de respeito dentro das escolas é reflexo do que se aprende em casa, feita pelo professor Ailton Santos, da Escola Estadual Dilma Sousa Catete e publicada ontem por O LIBERAL, incitou a discussão entre pais e educadores sobre a falta de segurança dentro das unidades de ensino de Belém. Segundo o diretor pedagógico do colégio Universo, Julio Reis, o problema é conjuntural e, por isso, não se deve culpar a família pelas atitudes dos jovens. Ele, no entanto, acredita que uma postura mais firme dos pais ajudaria a solucionar o problema.
O sociólogo Marco Antônio Moreira, contudo, enxerga a violência como um processo cultural pelo qual toda a humanidade está passando e acha que esse é um fenômeno sem solução e que tende a crescer. Para Júlio Reis, os pais não exercem mais o papel de autoridade dentro de casa e essa falta de limites é refletida na escola quando os alunos desrespeitam os professores e seus colegas. Ele diz que os pais têm se tornado colegas de seus filhos e essa troca de papéis tem se mostrado prejudicial para todos.
‘RESPEITO’
‘Outro dia recebi em minha sala uma senhora com seu filho. O adolescente faltou com respeito com a mãe várias vezes, gritava com ela e dizia que o fato de consumir bebidas alcoólicas não era problema dela. Foi preciso que eu interviesse pedindo respeito porque a senhora apenas assistia ao que o filho fazia’, conta o diretor. Para ele, chegou à escola a troca de papéis, e esta, muitas vezes, se vê obrigada a assumir a função educadora da família. ‘À escola cabe o papel de instruir, desenvolver potenciais de conhecimento, mas quando percebemos em nossos alunos aspectos como intolerância e falta de respeito, não podemos fingir que não vimos e somos então obrigados a assumir também o papel dos pais’, analisa.
FAMÍLIA
Apesar de não concordar inteiramente com o professor da rede pública e de afirmar que a violência presenciada nas escolas também é reflexo da comunidade em que o jovem está inserido, Júlio Reis critica o comportamento dos pais que parecem não se importar com o filho e sempre colocam os compromissos profissionais em primeiro lugar. ‘Nós, na escola, tentamos dialogar com a família de nossos alunos, mas apenas 15% dos pais comparecem nas reuniões ou encontros, o restante parece não se importar com as dificuldades enfrentadas pelos filhos, não aparecem na escola, não conversam com os professores, não conhecem os amigos do filho e tentam compensar a ausência com presentes. Enchem os filhos com bens materiais, mas se esquecem de ensinar valores como o respeito ao próximo’.
AGRESSÃO
Para Júlio os jovens que realizam com facilidade seus desejos consumistas se sentem superiores aos colegas que não têm a mesma facilidade e esse tipo de atitude resulta em agressões verbais e físicas. Além da família, o diretor responsabiliza o Poder Público pelo espaço que a escola perdeu na formação disciplinar do jovem. Ele conta que muitas vezes os pais vão até a escola questionar a punição recebida pelo filho por ter desrespeitado o professor ou o colega e acabam ficando contra a escola. ‘Os pais não aceitam que o filho seja suspenso e também consideram constrangedoras medidas alternativas’, diz.
Consumismo e mídia são fatores que também influenciam ato violento
Além da dificuldade em educar o jovem, Julio Reis aponta o consumismo como causa da violência nas escolas e nas ruas. Para ele, as discussões entre alunos de escolas públicas e particulares têm um ponto em comum: o desejo por algum bem material. ‘A diferença é que na escola particular os estudantes disputam para ter o melhor celular ou o melhor carro, na rede pública a briga pode ser motivada por uma bicicleta ou por um tênis. O adolescente da periferia tem os mesmos desejos do que mora no centro da cidade’, analisa.
O que os diferencia, continua ele, são suas perspectivas: enquanto o jovem do centro pode esperar que o pai compre o que deseja, o da periferia pode não ter um pai com condições de realizar seu sonho e acredita então que tomar a força é a única saída.
‘FRANGALHOS’
Marco Antônio Moreira afirma que o aparato escolar disciplinador está em ‘frangalhos’ e que isso é mais percebido nas escolas públicas, que não conseguem fazer com que suas normas sejam obedecidas. Ele lembra, contudo, que a escola também tem o dever de educar e não só ensinar as disciplinas de sua grade. ‘É comum atribuirmos a terceiros nossos problemas e nossas falhas, e em casos de violência envolvendo escolas isso fica claro quando a escola culpa a família e vice-versa’.
AUTORIDADE
Quando os pais vão até a escola questionar uma medida adotada pela instituição a culpa é da unidade, que não soube se portar diante da família, opina. Atitudes como essas, diz, são menos freqüentes em escolas religiosas. Para Marco Antônio, a violência é um ícone da sociedade pós-moderna e por isso casos de violência na porta de escolas ou dentro delas têm recebido tanto destaque nos últimos dias ‘A violência sempre existiu em nossa sociedade, mas só agora ela tem sido cultuada. Por isso vemos todo o tipo de violência a toda hora em qualquer lugar e não nos chocamos mais com isso’, acredita.
Os meios de comunicação também têm parte da culpa pela reprodução da violência, continua ele. Os vários relatos sobre crimes acabam fazendo um trabalho subliminar de capacitação. ‘É através dos jornais que os bandidos aprendem novas modalidades de crimes e aprimoram suas técnicas. Os sequestros relâmpago, por exemplo, não existiam por aqui até começarem a serem divulgados pela imprensa’, acredita.
Histórias de violência contra criança também se tornaram mais comuns depois do caso da Isabela Nardoni, diz o estudioso. ‘O que está em alta agora é a violência nas escolas, em todo o País a imprensa noticia diariamente crimes envolvendo escolas ou estudantes. A impressão que tenho é que o bandido se capacita através do trabalho do jornalista’, critica.
Juventude vive crise de valores
Silvia Camacho é psicóloga, especialista em psicopedagogia e diz concordar com o professor Ailton Santos quando ele afirma que a violência dos alunos reflete a violência do lar. Para ela, a família é o molde do jovem e este repete na sala o que aprende em casa. ‘Se a criança ou adolescente vê o pai brigando na rua por causa de uma vaga no estacionamento, ele repete isso na escola, brigando por um lugar na sala de aula ou na fila. Da mesma maneira, se ele vê seus pais xingando ou desrespeitando uma autoridade, o jovem vai desrespeitar o professor na sala de aula e achar que essa é uma atitude normal e aceitável’, conclui a psicóloga.
REVOLTA
Segundo ela, também existe hoje uma grande crise de valores. Os pais, hoje, têm medo de dizer não para o filho e transformá-lo em um jovem revoltado, o que pode acabar acontecendo ainda mais rápido se essa atitude for mantida. A psicóloga discorda do sociólogo Marco Antônio quando ele diz que há um maior respeito em escolas religiosas. Silvia acredita que casos de violência são tão comuns nesse tipo de escola quanto nas outras.
‘A violência está em todo o lugar, só que em escolas particulares e principalmente nas religiosas há a preocupação de se preservar o aluno e sua família. Muitas vezes, por serem famílias tradicionais da sociedade ou por ser aquele pai que contribui para alguma reforma ou evento na escola, como isso não acontece nas escolas públicas, os casos ganham destaque na mídia, o que dá a falsa impressão de que este é um problema que atinge apenas uma classe social’, conclui.
ANEXO 4 – Bullying preocupa professor e alunos
Edição de 24/08/2007
Comportamento
Modalidade de violência psicológica é comum nas salas de aula
Belém
Agência Unama
As situações são típicas de salas de aula: alunos apelidando colegas, os mais fortes e populares da classe impondo regras aos mais fracos, exclusão de pessoas por características diferentes do resto do grupo. Esses casos fazem parte de um tipo de violência muito comum nas escolas: o bullying. O termo de língua inglesa, sem tradução ainda em português, refere-se a atitudes agressivas entre alunos, executadas em uma relação desigual de poder, em que a vítima se sente intimidada e insegura para reagir.
“Os meninos ficam ‘mexendo’ com os outros. Bagunçam as coisas dos outros e acaba em confusão. Eles se apelidam. Lá na escola tem um menino orelhudinho e outro dentuço, e os meninos apelidam eles. Eles ficam mal e tristes”. A declaração é de uma adolescente de 16 anos que estuda na Escola Estadual Barão do Rio Branco, no bairro de Nazaré, em Belém.
Segundo a psicóloga e professora universitária Patrícia Nader, essas atitudes podem ser resultantes de um ambiente coercitivo e opressor tanto na escola quanto na família. Para ela, quem pratica o bullying também é vítima. “Se você tem um pai ou um professor que oprime, você pode desenvolver um comportamento de insegurança e medo ou seguir o mesmo modelo de violência, como ocorre no bullying. Ninguém nasce assim, nós aprendemos com o meio, com a cultura em que estamos inseridos”, explica Patrícia.
O problema central é que a violência psicológica pode ocasionar diversos conflitos no ambiente escola e na vida pessoal do estudante. As conseqüências podem ir desde um pequeno retraimento, que faz com que a criança não participe do recreio ou tenha redução no rendimento escolar, até uma possível doença, ou ainda, a recusa em ir à escola.
A própria instituição de ensino, ao criar premiações e classificar os alunos por grau de conhecimento ou habilidades físicas, pode estimular a prática do bullying. O sociólogo e coordenador do grupo de estudo “Juventude e subjetividade”, da Universidade Estadual do Pará (Uepa), professor Mário Brasil, diz que essas ações compensatórias podem surtir efeito contrário. Ao invés de ajudar no desempenho, elas podem segregar alunos e favorecer a violência.
O professor Reinaldo Pontes, coordenador do Observatório de Violência nas Escolas – projeto de extensão da Universidade da Amazônia –, acredita que o educador precisa estar apto a perceber os casos de bullying. De acordo com ele, o risco é a banalização e a naturalização dessas situações, que muitas vezes são vistas apenas como brincadeiras dos alunos e não são tratadas como um problema a ser combatido.
Somente com a intervenção do professor, diz a psicóloga Patrícia Nader, é possível enfrentar o bullying. Essa medida pode fazer com que o aluno perceba que existem pessoas que se interessam pelo seu bem-estar. Ela indica que, em alguns casos, uma conversa ou orientação pode resolver. “O educador deve estimular uma postura assertiva na sala de aula, que é uma forma de se fazer respeitar sem agressividade e a passividade do outro”, afirma.
Participação da maioria dos pais na escola se restringe a reuniões
A legislação brasileira é clara: meninos e meninas têm direito à educação e devem estar protegidos de qualquer tratamento violento ou constrangedor. No entanto, situações desse tipo são comuns no cotidiano, inclusive nas escolas. Tanto alunos quanto pais, professores e técnicos são, muitas vezes, vítimas ou agentes de atos violentos.
Essas são algumas das reflexões apontadas pela pesquisa “Relações Sociais e Violência nas Escolas”, que será lançada em forma de livro, hoje, às 19 horas, no auditório David Mufarrej, na Unama da Alcindo Cacela. A pesquisa foi feita no período de 2005 a 2006, numa parceria entre o Observatório de Violência nas Escolas e o Governo do Pará, por meio do Programa Pró-Paz Educação.
O estudo foi feito em 24 escolas da rede estadual de ensino fundamental e médio da Região Metropolitana de Belém. Foram feitas 1.760 entrevistas com alunos na faixa etária de 11 a 24 anos, pais, professores, integrantes do corpo técnico e do pessoal de apoio das escolas. O objetivo geral da pesquisa foi analisar os diferentes tipos de violência e diagnosticar a qualidade das relações estabelecidas nas escolas.
A escola seria mais uma vítima da violência. É o que ressalta o professor e coordenador do Observatório, Reinaldo Pontes. “A violência não nasce só do interior das pessoas. Ela está presente na sociedade, da qual a escola faz parte”. Como responsáveis, o coordenador indica tanto o poder público quanto os cidadãos. “Todos são atingidos pela violência, como são os próprios geradores de violência”, afirma.
RESULTADOS
A pesquisa traz pontos negativos e positivos relacionados à escola. Dentre os pontos negativos estão a falta de diálogo entre pais e filhos, o sentimento de desvalorização da profissão entre os professores, sobretudo quanto à remuneração salarial, e o péssimo estado de conservação da maioria das escolas.
A pesquisa destaca, ainda, que os tipos de violência mais presentes no ambiente escolar são agressão física e contra o patrimônio da instituição. A violência física, caracterizada pela agressão entre alunos da escola e das redondezas, funcionários e professores, por exemplo, corresponde a 69,2% das indicações dos estudantes entrevistados. Na opinião dos professores, a violência mais freqüente é a contra o patrimônio, com 70,5%. De acordo com Pontes, “a escola destruída é um convite à violência, pois ela mostra um desrespeito com aqueles que convivem naquele espaço”.
No que diz respeito à participação dos pais no ambiente escolar, constatou-se que 60% deles apenas vão a reuniões e 15% afirmam nunca participar. Segundo a pesquisa, a falta de participação dos pais é um problema, já que, para enfrentar a violência, é preciso o envolvimento da família.
Entre os entrevistados, 62,8% dizem morar em bairros inseguros e violentos. De acordo com Pontes, esse seria mais um fator de conflito nas instituições de ensino. Entretanto, estar localizado num bairro violento não fará automaticamente a escola ser um espaço de violência. “Pelo contrário, existem muitas escolas que, pela iniciativa de diretores e funcionários, são ilhas de paz, em locais extremamente violentos”, analisa.
“O fato de alunos e professores indicarem como possibilidade de reverter a situação o caminho do relacionamento, mostra que existe, sim, como transformar essa realidade”, declarou Pontes. Outro dado positivo importante evidenciado pela pesquisa saiu dos alunos, que apontaram os professores e as aulas como o que mais gostam na escola.
Investimento em criatividade, protagonismo e respeito. Esse é o meio que Pontes considera ideal para o fomento das relações humanas dentro da escola, que, de acordo com sua avaliação, é a única alternativa contra a violência. Mostrar esses caminhos foi um dos objetivos da pesquisa, que também poderá ser utilizada como forma de combate ao problema.
Programas reforçam segurança e estimulam exemplos de superação
Como forma de tentar conter a violência nas instituições de escolares, a Polícia Militar do Pará, em parceria com a Secretaria Executiva de Educação (Seduc), por meio da Companhia Independente de Polícia Escolar (Cipoe), desenvolve o projeto “Moto Ronda Escolar”, que funciona desde 1991. O objetivo é garantir um policiamento mais qualificado e ágil à comunidade estudantil da Região Metropolitana de Belém, dentro dos prédios escolares e na área de até 100 metros de sua localização. Atualmente, 476 instituições de ensino são atendidas.
Outra iniciativa é o programa “Escola de Portas Abertas”, desenvolvido pelo Ministério da Educação junto com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). No Pará, o “Escola de Portas Abertas” foi lançado em maio deste ano pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Segundo o secretário-adjunto de ensino da Seduc, professor Bira Rodrigues, “como os projetos são promovidos no fim de semana, os alunos deixam de ir a lugares violentos e passam a freqüentar a escola”. Ele ressalta ainda que é necessária a percepção da instituição de ensino como parte integrante da comunidade. “As pessoas precisam saber que também fazem parte da escola”.
EXEMPLO
A Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Brigadeiro Fontenelle, localizada no bairro da Terra Firme, já foi considerada uma das dez mais violentas do Pará. “Nosso aluno era visto como um perigo. Se ele entrava em uma loja do comércio, já o olhavam com desconfiança”, afirma o professor de informática Dilson Aires, que trabalha na escola há 20 anos. “Naquela época, o aluno não queria ser visto com o uniforme. Hoje, ele sente orgulho”, complementa Dilson.
Esse sentimento é resultado de um longo processo de implantação de projetos de combate à violência e de melhorias no sistema de gestão da instituição, para os quais os professores foram capacitados e a escola buscou parceria na comunidade. “Hoje todos participam do planejamento da escola. Isso faz a diferença”, garante a vice-diretora Ana Laura Gomes.
Um dos projetos desenvolvidos atualmente é o de monitoria, no qual 20 alunos atuam como voluntários de apoio pedagógico nas áreas de Língua Portuguesa, Matemática, Educação Ambiental e Formação para a Cidadania. Ações como essa renderam à Brigadeiro Fontenelle o título de “Escola Inovadora”, concedido pela Unesco, em 2003, a apenas 14 instituições de ensino do País.
Para a aluna do 2º ano do Ensino Médio Simone Barros, de 18 anos, os projetos da escola são fundamentais. “Ao invés de nos ocuparmos com besteiras, fazemos cursos, pois o que gera a violência é a falta do que fazer”, revela.
Educadores precisam aprender a lidar com o problema em sala de aula
Discutir a violência na sala de aula é uma tarefa complicada, principalmente pela falta de formação do professor para lidar com esse problema e pela ausência de uma equipe técnica multidisciplinar com psicólogos, pedagogos e assistentes sociais nas escolas. “Os educadores têm mais ênfase na parte técnica e muito pouco na sociologia da violência. Os professores se vêem perdidos ao tratar de temas críticos, justamente por encarar essas questões de violência, como complementares e não como essenciais para a formação do aluno”, argumenta Reinaldo Pontes, o coordenador do Observatório de Violência nas Escolas.
Aluno do 7º semestre de Licenciatura em Matemática, da Universidade Federal do Pará (UFPA), Rivaldo Martins conta que no curso há disciplinas, como psicologia e sociologia, que tentam auxiliar o professor a intervir em situações de violência. “Essas matérias dão base, mas não são suficientes. Ainda tenho receio em enfrentar um caso complicado em classe por não estar preparado”, diz o estudante.
O diretor da Faculdade de Matemática da UFPA, Geraldo Mendes, garante que a universidade faz a sua parte e que 800 das 2.800 horas-aula do curso que dirige são voltadas para disciplinas didáticas e pedagógicas. Contudo, o diretor afirma que o tema violência ainda não é abordado de forma satisfatória na maioria das licenciaturas. “Acho que seriam necessários fóruns para todos os profissionais de educação discutirem esse aspecto da sua formação. A preocupação ainda é com ensino específico da disciplina”, diz Geraldo.
Para a estudante do 8º semestre de Pedagogia da UEPA Carla Silva de Azevedo, é importante que se avalie também a formação do pedagogo, pois a escola não se resume apenas ao aluno e ao professor. Segundo ela, “são os pedagogos que podem ajudar os educadores na identificação e no diagnóstico da violência, promovendo eventos que estimulem a prevenção a partir da integração entre escola e comunidade”.
ANEXO 5 – Crianças também lidam com drogas
Edição de 20/10/2008
Surpresa
Menino de 5 anos disse que Polícia procurava ‘bagulho’ em sua residência
Belém
Agência Unama
Um menino de cinco anos de idade surpreendeu a professora no mês passado ao dizer que tinha um segredo para contar. Ela imaginou que fosse uma brincadeira e pediu que o menino falasse.
‘Sabe tia, o meu pai foi preso. A Polícia chegou lá em casa e quebrou tudo, até o meu brinquedo. Fiquei com muita raiva e queria dar um soco na Polícia. Eles procuravam o ‘bagulho’, mas não acharam. O ‘bagulho’ estava em baixo da TV, mas eles não viram’, disse a criança.
A professora achou que pudesse ser imaginação do aluno e perguntou se ele havia sonhado com aquela história. O garoto, então, respondeu que não e garantiu ser tudo verdade.
Quem toma conhecimento dessa história, até duvida da veracidade da narração. Mas a professora garante que tem fundamento, já que conhece o histórico de vida dos pais e também por conta da riqueza de detalhes relatada pela criança. Por exemplo, quando o menino falou que a Polícia estava atrás do ‘bagulho’, a professora perguntou do que se tratava. Para explicar, ela lembra que o menino pegou uma folha do seu caderno, desenhou um quadradinho e disse que o ‘bagulho era um pozinho branco colocado no meio do quadrado e depois amarrado com um fio’. Logo, a professora deduziu que o pó ao qual o menino se referia, provavelmente, era cocaína.
SURPRESA
A professora afirma ter ficado tão surpreendida com essa situação que não respondeu nada ao aluno. Ela procurou a direção da escola para relatar o problema.
‘Pensei em falar com a mãe dele, mas ela é muito difícil e poderia bater nele. Então, decidi conversar com a supervisora da escola, porque temos trabalhos de prevenção às drogas na escola, mas não para uma turma da educação infantil’, explica.
A professora lamenta que essa situação tenha ocorrido com uma criança: ‘Uma questão é a família estar nesse meio (das drogas), a outra é uma criança com cinco anos vivenciar isso. Eu fico triste, mas me acho impotente para agir e ajudá-lo’.
O caso relatado é um dos retratos da relação entre drogas e o ambiente escolar. No entanto, o mais comum é o envolvimento direto de adolescentes com uso de entorpecentes. Uma pesquisa feita em 2004 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) ouviu 1.558 estudantes do ensino fundamental e médio das redes municipal e estadual de Belém. De acordo com os dados levantados, 19,5% dos estudantes de 13 a 15 anos consumiram drogas naquele ano. Não foi considerado o uso de álcool ou tabaco.
Segundo o professor Raul Navegantes, cientista político e especialista em violência, a escola corresponde ao contexto no qual se encontra. ‘Normalmente, imaginamos que a escola seja um mundo isolado, onde tudo é diferente dos muros que a separam da rua. Não é assim. A escola reproduz lá dentro o que se passa fora, na sociedade’, ressalta. Para ele, seria muito artificial se fosse o contrário. ‘Estudantes levam para dentro da escola a mesma coisa que professores levam, a mesma coisa que os demais servidores da escola levam, ou seja, tudo aquilo que trazem da sociedade’, explica o professor.
PREPARO
Na opinião de Navegantes, as instituições de ensino devem se preparar para receber esse mundo de fora. Ele deixa claro que as escolas e, sobretudo o Estado precisam perceber que a sociedade mudou e que o ambiente escolar hoje não pode ser igual ao de 25 anos atrás.
Ao longo desse tempo, segundo o cientista político, a mudança maior foi da família, que era o ambiente de convívio, de acompanhamento do jovem e que fazia a intermediação entre a infância, a adolescência e a maturidade. Com isso, ressalta Navegantes, a família deixou de ser a maior aliada da escola e transferiu à instituição o papel que lhe cabia. ‘Como os pais trabalham e não têm mais tanta dedicação à família, a convivência familiar com o jovem desapareceu, repassando para a escola o seu papel de orientá-lo’, destaca.
PREVENÇÃO
Em geral, os especialistas apontam que as primeiras experiências com drogas ocorrem no ambiente escolar, por causa da relação de amizade e companheirismo que crianças e adolescentes mantêm entre si. Por esse motivo, ressaltam que a prevenção é a melhor alternativa para lutar contra o uso de entorpecentes nas unidades escolares.
ANEXO 6 – Questionário
Para alunos e professores:
1) Já vivenciou situação de violência?
2) Que situação?
3) Houve interferência?
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
6) Como a escola pode se proteger da violência?
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Só para professores:
8) Qual o perfil do aluno agressor?
9) Qual o perfil da família?
ANEXO 7 – Entrevistas com professores dos Ensinos Fundamental e Médio
Antônia – História
1) Já vivenciou situação de violência?
Depende de qual seja esse conceito de violência. Se é violência física ou se é violência verbal.
2) Que situação?
Na nossa escola temos a violência verbal com palavras de baixo calão do aluno quando não é contemplado no que ele quer. A partir do momento que o professor diz não pro que o aluno quer, ele abre a boca e chama uns palavrões. Ainda agorinha eu fui vítima disso com um aluno da sétima série. Ele queria fazer a prova, como eu disse que ele não podia fazer, ele chamou um monte de palavrões que não vou repetir aqui. Eu reclamei com ele, ele voltou e pediu desculpas, mas isso não apaga a agressão.
O aluno que polui a sala com pichações também é um tipo de violência.
Violência com os colegas. Na sétima série é comum um ficar espancando o outro. A gente reclama e eles dizem que é brincadeira deles. Eu não vejo isso como uma brincadeira. Isso é uma ponta de violências futuras que vão aumentando.
E a física mesmo de brigar colega com colega a gente vê de vez em quando. Violência de assalto. Violência de professor com aluno. Eu mesma estou sofrendo isso com um aluno da noite, do primeiro ano. Discuti bastante com ele. Estou até pensando em largar a turma com medo de onde essa antipatia, essa violência que por enquanto está só na fase do psicológico, do moral vai levar.
Mas essa violência que sofremos dentro da escola é um reflexo do casuísmo que virou a educação.
3) Houve interferência?
Não vejo providência nenhuma da parte administrativa da escola em relação a isso. Chegou ao ponto da supervisora da noite dizer assim: Ah, Antonia, esse aluno só tem problema contigo.
Até parece que esse problema do aluno é só comigo. Não, não é só comigo. Eu já vi outros colegas relatando coisas sobre ele.
Eles simplesmente se omitem de tomar uma atitude em relação a isso. A violência se estabelece pela ausência de gerenciamento dela.
Então, nem sempre é só um caso de polícia. É um caso de desgaste de autoridade. Não é autoritarismo, é autoridade. De impor limites. De por em prática aquele pensamento de que cada ação corresponde a uma reação e que quando não tem ação essa reação vai sendo maior ainda. Se o aluno extrapola no seu comportamento, se não houver um limite, uma ação de que impondo limites, de “olha, você não pode fazer isso porque vivemos em uma sociedade onde precisamos respeitar o próximo”, e respeitar não é só a pessoa fazer o que eu gosto, às vezes o respeito é até ter uma atitude que me desagrade, mas que eu tenho que aprender a conviver com isso porque isso é respeitar aquele outro sujeito. Mas infelizmente estamos caminhando pro caos, na falta de impor limites.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. Eu acho que a escola é um local onde o jovem expõe mais o seu ponto de vista. Onde ele não usa muita mascara. Então ele acaba se mostrando como ele é no geral e aí se ele é um ser sem educação comportamental ele acaba se mostrando assim. Por exemplo, o jovem que a mãe cria dizendo que é normal, completo, sabe tudo, comportado, educado. Ele acaba passando isso pra mãe, mas na escola ele extrapola até como uma forma de compensação da imagem de menininho mais que perfeito que ele passa pra família. Então a gente tá vendo que quando os pais impõem, cobram um comportamento do jovem, ele acaba fingindo que é bonzinho e na escola ele não é bem assim, criando uma dupla personalidade. Fora dos laços maternos ele é o autentico, então isso é muito complicado e eu acho que a escola não tá sabendo trabalhar com essas dificuldades.
Há uns dois anos a gente discutia esse tipo de problema e dizia: “a SEDUC não nos dá recursos humanos”. Hoje nós estamos com a escola inchada de recursos humanos e os problemas continuam. Então esses recursos humanos não estão vindo com as ferramentas adequadas pra trabalhar essas dificuldades.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Sim. Geralmente as violências sofridas nas escolas têm o mesmo pano de fundo. Talvez com realidades diferentes, mas são as mesmas. É a desobediência, é o não cumprimento das tarefas que a gente passa, é aluno que desacata professor, é pichação. Olha o caso daquela professora do Sul, não sei se do Paraná ou de Santa Catarina, o aluno pichou a escola e ela mandou ele limpar e veio toda a sociedade dizer que ela tava errada. Aí fica difícil a gente preparar esse jovem pra viver em sociedade se a própria sociedade está muito permissiva.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Não sei. Não tenho resposta pra essa pergunta porque eu acho que eu estou ultrapassada nos meus conceitos. Me sinto uma dinossaura na educação porque tudo o que eu aprendi hoje está errado. Agora eu estou numa crise de conceitos e não sei mais o que é certo e o que é errado. Porque o que era certo pra minha geração hoje segundo o ECA não é mais certo. Agora, criar marginal é que não fazia parte da minha geração. Não sei mais o que é certo e o que é errado pra essa atual legislação e é esse conflito de conceitos que faz com que vivamos no caos. Agora o que eu sei é que essa juventude está exagerando e se matando e nos matando.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Olha, a mídia seria uma excelente aliada nossa se ela tivesse uma visão não burguesa. Pra mim a mídia só divulga o sensacionalismo que vende jornal. Ela não vem no nosso socorro com propagandas socializantes, com valores de certo e errado. Eu vejo a mídia nesse sentido, com a visão só sensacionalista. Vende jornal, dá audiência? Tá na mídia.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
Não existe perfil do aluno agressor. Aquele que te sorri, que parece meigo, às vezes ele pode ser um agressor muito mais violento do que aquele que já tem um comportamento teoricamente marginal. É muito difícil você saber qual é esse aluno agressor. Eu sinceramente não consigo criar um diagnóstico só pelas atitudes.
Um exemplo: um aluno que não faz o dever de casa, que é rebelde, às vezes ele é muito mais humano do que aquele que é comportadinho.
Mais um exemplo aqui da sétima série: o Ryan, que é um aluno todo problemático, eu vejo que ele tem umas atitudes humanitárias. Ele carrega o Harrison pra onde ele vai, empurrando a cadeira de rodas dele, enquanto com outras pessoas ele tem atitudes altamente agressivas. Então é muito difícil, porque muitas vezes aqueles alunos que são mais CDFs, mais comportadinhos não têm esse carinho, essa atitude humanitária. Então é difícil você criar um perfil de quem é esse agressor.
9) Qual o perfil da família?
Ah, essa família está esculhambada. A família hoje ou ela está esculhambada ou eu novamente estou em crise de valores. Aquela família no tripé pai – mãe – filho hoje praticamente inexiste. Ela está mãe – filho, avó – netos ou pai – filho, quando os homens arranjam uma outra companheira que, como não é a mãe, não se preocupa com a educação deste enteado. Então a crise na educação é um reflexo da crise na família.
Essa família não é presente na escola e mesmo as que são presentes geralmente não são de alunos problemáticos nem em comportamento nem em aprendizado. E as que são desses alunos problemáticos as que aparecem, aparecem pra dizer que a culpa é da escola. Então as nossas famílias também estão precisadas de reciclagem. Agora, não sei que órgão seria pra reciclar essa família porque é muito difícil você dizer pra um adulto que ele está agindo errado, afinal, ele trabalha, paga as contas dele e então faz o que quer. E aí, quando a pessoa tem esse raciocínio, partimos para o caos.
Sempre quando eu falo nessa questão da família, nesse caos em que está vivendo a nossa sociedade, eu lembro sempre duma frase do Einstein. Só que ele dizia essa frase em relação à bomba atômica. E eu acho que o que tá acontecendo hoje na nossa sociedade não é aquela bomba atômica que explode, aquela bomba atômica da ciência. Acho que nós estamos vivendo uma explosão da bomba atômica invisível, que faz o mesmo efeito. O que ele dizia era assim: Se tiver uma terceira guerra mundial, o homem vai voltar a viver como viviam os homens da caverna, jogando pedra um no outro ou com o tacape na mão. E eu já estou vendo isso acontecer, sabe? A violência está chegando a um ponto que as pessoas estão se matando a pedradas, a pauladas.
Dênis – Artes
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Há muito tempo, um aluno agrediu o outro com estilete, fez de refém. Usou o estilete no pescoço do outro. Aí, teve que haver uma intervenção da direção pra que ele largasse o outro e não chegasse às vias de fato, não cortasse.
3) Houve interferência?
Esse aluno foi transferido da escola, levado ao DATA, ao Conselho Tutelar. A escola fica meio dividida entre resolver o problema deixando o aluno ficar na escola ou transferindo pra outra escola. Ou seja, transferindo o problema.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
É sim. A gente tá vendo tráfico na escola, prostituição, e essa violência que está fora da escola está sendo cada vez mais reproduzida dentro dela.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Acho que a notícia é direta, muito explícita. São tantas notícias, imagens. As imagens falam muita coisa, dizem tudo. Percebo que tá havendo uma inversão de valores. Essa coisa da violência tá ficando muito banalizada. Pra um país como o nosso que quer chegar a ser a quinta potencia até 2016 isso aí tem que ser pensado, analisado de uma forma mais crítica. Porque essa questão social é muito grave.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Trazer a comunidade pra cá pra dentro da escola. Mostrar os direitos e deveres. Todos nós temos direitos e deveres e temos que rever esses valores. Valores de fazer o bem, da humildade, do respeito. São pontos importantes que estão sendo deixados pra trás. Onde nós estamos vivendo muito essa questão do consumo desenfreado, de você querer ter e ser alguma coisa no mundo capitalista e você acaba ficando robotizado e esquecendo que você é um ser humano com sentimentos. Te desumaniza. Somos seres humanos que devemos ter uma vida melhor. Cuidar mais desses valores.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Hoje em dia a violência se tornou um show. Sensacionalismo. Então ela tem a sua parcela de culpa pelo fato de ter a concorrência pela audiência, isso tudo colabora. Como nós somos um país onde o nível de analfabetismo é muito grande ainda, as pessoas tão ligadas nisso. Então, pra um país que quer chegar a um lugar legal no mundo isso não tem valor. Acho que essa questão tem que ser revista pelo poder público, pelas autoridades e capacitar os professores e o aparato educacional.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
Ele é aquele aluno que não aceita ordens. Em todos os lugares existe hierarquia. Então, o professor, ele exerce um certo poder em sala de aula. Então ele é aquele aluno que não freqüenta ou freqüenta e não participa. Ele tá ligado no celular dele, no grupo dele. Ele não aceita autoridade. Não que o professor detenha tanto poder assim sobre ele, mas ele não tem mais essa educação para com o outro. Ou seja, os valores dele estão muito abaixo do nível de sentimento.
9) Qual o perfil da família?
Ah, não poderia ser diferente do dele. São pessoas também que não tem assim um grau de escolaridade, não estudaram. Alguns têm pouca escolaridade, mas tem moralidade. Mas muitos não.
Hilda – Matemática
1) Já vivenciou situação de violência?
Sim.
2) Que situação?
Um aluno me ameaçou. Eu pedi pra ele sair de sala, porque ele nem era meu aluno, tá? Ele foi meu aluno no ano anterior. Era um aluno que não queria nada e tava vindo pra escola pra fazer dependência, só que não tinha porque ele tá assistindo a minha aula, entendeu? Aí, eu pedi com educação pra ele sair numa boa. Várias vezes. E ele se recusou. Aí, eu chamei a bedel e pedi pra ela intervir e foi quando ele me ameaçou.
Ele disse que ia me pegar lá fora. Ai eu também não baixei minha cabeça, enfrentei e falei que aqui dentro eu era professora dele, mas lá fora eu não sou sozinha, tenho irmãos, marido. Porque eles pensam: Ah, sou homem, ela é mulher… E aí querem amedrontar, entendeu? E eu tava grávida na época, no início da minha gravidez.
3) Houve interferência?
A diretora chamou o aluno e deu uma suspensão.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Com certeza. A gente vira e mexe vê alunos brigando na hora do recreio. Qualquer motivo é motivo de briga. Inclusive teve uma briga de duas alunas aqui da oitava. Foram aos tapas mesmo. Já foi encontrado drogas. Aluno se drogando na escola. Vendendo drogas, a gente sabe que tem aluno que vem pra cá só pra vender. Então tudo isso são fatores que geram violência.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Eu acho que é colocado de acordo com o que acontece mesmo.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Acho que educando, né? Primeiro tem que ter uma reunião, uma conversa com os pais, porque eu acho que o problema todo tá na família também, né? Às vezes o aluno vivencia a violência dentro do seu próprio lar e acaba reproduzindo isso. Filho que vê pai batendo em mãe, enfim. Tio. Briga na família mesmo. Então o caminho seria primeiro entrar em contato com as famílias e depois fazer um trabalho de palestras, um trabalho extra-classe com esses alunos. E na sala de aula também, com conversas nossas com eles como a gente sempre tem.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
A imprensa… Apoiando, né, essas iniciativas… É, divulgando. Vamos supor, um exemplo: uma escola que teve um bom resultado, fez um trabalho, uma boa educação, ir divulgando. Pra servir de experiência para outras escolas, outras comunidades. O aluno se sentiria prestigiado com certeza.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
Geralmente é aquele aluno que só vem pra sala pra bagunçar, pra agredir realmente não só os colegas, mas os funcionários; não respeita.
9) Qual o perfil da família?
Geralmente é uma família desestruturada, por isso coloquei que uma das soluções seria primeiro ter contato com a família. Não conheço a maioria dos pais. Tá faltando esse trabalho aqui na escola. A gente não tem reuniões. Eu pelo menos já estou trabalhando há três anos aqui e nunca participei de uma reunião. Não há essa busca.
Joiciane – Educação Física
1) Já vivenciou situação de violência?
Sim.
2) Que situação?
Alunos brigando por causa de bola, se agrediram fisicamente e por sinal foi chamada até a polícia pra interferir, né? E por sinal foram até chamado os pais, mas os pais sempre passam a mão na cabeça dos filhos. E foram pro DATA, quem era de menor, quem não foi, foi pra polícia mesmo.
3) Houve interferência?
Não adianta chamar os pais porque às vezes eles só super-protegem os filhos, não sabem o que os filhos fazem na escola, são agressivos, e eles sempre passando a mão na cabeça e dizendo: “Meu filho não”.
Alunos na faixa etária de 17 anos.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Olha, sim e ao mesmo tempo não. Sim, porque devido o portão ficar aberto, o vigia deixa qualquer pessoa entrar, aí se torna violento pros professores e pros próprios alunos. Mas até que a clientela da escola que eu trabalho é uma clientela boa, não é muito agressiva.
A tarde é mais agressivo, acho que porque acordam tarde e vêm pra aula não pra estudar, mas pra estar na área coberta, mexendo um com o outro até que as confusões acontecem.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Sim, muitas coisas acontecem igual na escola. De briga, né, como esse caso que eu tava te falando, que chamaram a polícia. Outras vezes, um acha que vai apanhar e se arma de alguma forma, como aconteceu em outra escola, que o rapaz tava sendo perseguido pelo outro e pegou se armou e deu três tiros, na frente do colégio Santa Maria de Belém. Mas aqui na escola ainda não chegou essa coisa de se armar. Ainda não.
O que a gente lê é real, mas os estudiosos da SEDUC dizem que a culpa é do professor e eu acho que a culpa é da família.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Acho que é chamando a família pra participar de reuniões, pros pais estarem cientes do rendimento escolar dos filhos. Porque tem muitos pais que nem aparecem aqui.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
A mídia podia fazer torneios de futebol. Isso pelo menos tira os meninos da rua.
Também podia vir na escola, ministrar cursos. Ajudar. Fazer uma campanha. Porque às vezes eles falando de tanta violência eles atraem mais violência do jeito que é feito.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
É aquele aluno sem paciência, que já vem de uma casa em que os pais brigam. O pai bebe, a mãe não quer saber do filho. Então ele trata os amigos como ele é tratado em casa. Aí ele é o reflexo da família.
9) Qual o perfil da família?
É esse. Se bem que também tem famílias que tentam educar seus filhos da melhor maneira, vêm na escola pra saber como tá o andamento escolar do filho, mas que às vezes ele vai pelo caminho errado. Pelas más companhias, ou falta de caráter, né?
Odilon – Geografia
1) Já vivenciou situação de violência?
Praticamente todo dia, né?
2) Que situação?
Você vê um aluno xingando o outro, ensaiando uma briga, uma confusão ali, isso é uma forma de violência, né? Agora, violência dessas que trazem conseqüências drásticas para o aluno vivenciei mesmo ano passado. O rapaz que foi agredido até baixou hospital com problema na cabeça.
Todo dia ocorre uma violência verbal, diariamente na escola.
3) Houve interferência?
A direção ficou sabendo, acionamos o DATA, que é a polícia especializada pra cuidar desses problemas com adolescentes. Mas ficou só nisso. Os alunos foram transferidos, mas no ano seguinte o aluno agressor retornou à escola em outro turno, o da noite. Deu problema à noite, nós avisamos a direção da escola que se tratava daquele aluno que brigou ano passado e que quase cometeu um crime aqui na escola e que andava aprontando e esse aluno novamente foi transferido.
Agora, é aquela questão: transferir o aluno pra outra escola é a solução do problema? A gente sabe que não é a solução. A questão da escola em relação a violência é que estão deixando tudo de lado. Às vezes ocorre um problema pequeno, você manda a escola chamar os pais ou os responsáveis e esse responsável não vem e fica por isso mesmo. Não se faz uma ocorrência, vai ficando, formando uma bola de neve e quando você se depara com o problema está muito já adiantado, sem solução.
A nossa escola aqui é pequena, o controle dela é fácil. O que tá ocorrendo é que a escola está menosprezando a comunidade, menosprezando os próprios pais. Porque quando se senta pra discutir a escola você não convoca os pais nem ninguém da comunidade e eles têm sugestões pra dar. Tranquilamente. E nós estamos simplesmente abandonando esse pessoal.
Eu creio que a solução pra esse problema é trazer os pais pra escolas e começar a dividir tarefas. Atribuir aos pais algumas atividades aqui na escola pra que eles sintam de perto pelo que nós passamos. E quem sabe eles também não vão contribuir pra solução dos problemas.
A escola é desprovida de alguns profissionais. O que é que tinha que ter na escola? Assistente social tinha que ter na escola, psicólogo tinha que ter na escola. Porque tem problemas aí que dá pra resolver sem mandar o aluno pro EREC, pro DATA, pro Conselho Tutelar. É só uma questão de fazer um projeto pra escola interessante e que transforme a escola num espaço interessante pro aluno. Porque você vê que o aluno hoje frequenta a escola por uma obrigação. A gente percebe muito que eles vêm sem vontade. Mas por que vão ter vontade? Eles não tão vendo mais na escola um espaço atrativo pra eles. Então nós temos que pensar mais e os pais também.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não, não, não. A violência não começa na escola. Ela chega na escola. A violência é um problema conjuntural. Ela começa fora da escola, adentra na escola. É como se fosse um espaço de culminância, de rivalidade de alunos de gangues. Aí acham que a escola é o espaço pra brigarem, é isso que tá ocorrendo, simplesmente. Aí é preciso observar o que é que esses alunos estão assistindo, o que é que eles estão lendo, que tipo de atividade eles estão praticando lá fora. Nas academias, o que estão ensinando, o que é que estão orientando. Porque nós temos alunos aqui que pegaram um pouco de massa muscular e já acha que é o dono da cocada preta, já acha que é o grandão, já pode bater em qualquer pessoa. Não é assim.
Então, creio que temos que fazer essa investigação.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Todos nós praticamente, né? Todos nós temos uma parcela de culpa. Eu não sei a intensidade, mas nós temos. Veio uma moça aqui fazer uma pesquisa se é necessário o Estado fazer cursos de como se combater a violência. Não é preciso fazer esse curso. Eu não sou mais criança, ninguém é criança. Nós sabemos o caminho! A questão é sentar professores, pais de alunos, comunidade e estabelecer normas disciplinares na escola. Quem sabe chamar um juiz pra dar uma orientação e a partir dali a escola agir conforme as normas.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Quando ocorrer um problema na escola, não só mandar pra DATA e isso e aquilo, mas chamar esse aluno, os pais, solicitar à SEDUC um profissional da aérea, o psicólogo, a assistente social, o juiz pra acompanharem o desenrolar do problema pra que o problema seja resolvido aqui dentro da escola.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Quando a gente organiza uma feira da cultura, você não vê a mídia aqui, você não vê a imprensa. Quando você faz uma atividade produtiva, educacional, um negócio bacana, você não vê a mídia. Mas se ocorrer um problema aqui de violência ou qualquer coisa eles vão cair aqui porque é matéria que vai dar dinheiro pra eles. O que faz o jornal ser vendido é a manchete. O caso do Ulisses Guimarães, era mais quem tava comprando jornal aí pra ver o caso.
Então, ela tem que fazer o contrário, ela tem que nos ajudar. Ela tem que vir pra escola pra vivenciar o dia a dia da escola, como é que nós vivemos, o que é que falta. Se a escola é equipada, o que a escola tem de interessante pro aluno. Se não tem, a própria mídia chegar e bater nessa tecla pra forçar o Estado a investir na educação e não em propaganda. Porque hoje o Estado investe mais em propaganda – enganosa, mentirosa – do que na educação.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
Olha, o aluno agressor não respeita o professor, não respeita o colega, não respeita ninguém na escola.
9) Qual o perfil da família?
É aí que precisamos chegar, porque nós não conhecemos! A gente diz: Ah, mas esse aluno o problema dele é a família. Mas como se nós não conhecemos a família? Nós temos que chegar na família. A gente tem que trazer a família pra conhecer o perfil socioeconômico, psicológico e que nós não conhecemos.
Quando ocorreu aquele problema aqui, que chamamos o DATA, a mãe chegou com a identidade do filho gritando: Meu filho é de menor! É de menor! Sim, mas ele cometeu uma infração. E essa história de dizer que o ECA veio pra proteger os jovens, dizer que agora ele pode fazer tudo, não é por aí não. Eu sou a favor do estatuto, todos têm que ter instrumentos que os proteja. O problema é que nós não estamos indo pelos trâmites locais, você não pode resolver uma violência com outra violência. Se um aluno cometeu uma infração, vamos pelos trâmites legais. Primeiro passo, a família. Não resolveu? Segundo passo, Conselho Tutelar. Terceiro passo, Vara da Infância e Juventude. Você resolve o problema sem dar um coque, sem puxar a orelha de ninguém. O problema é que nós não estamos seguindo os trâmites legais.
Rosana – Ciências
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Foi em uma turma do EJA, só adultos, à noite, uma aluna me destratou com palavrões gravíssimos e foi uma situação que me deixou muito desestimulada. Uma mãe com filhos já, num momento de fazer prova, ela querendo colar, mudei ela de posição e ela mandou que eu enfiasse a prova… Palavrões dos piores possíveis e saiu pela escola falando alto pra que todas as turmas escutassem. Pra mim isso foi uma violência gravíssima porque violência pra mim não é só a física, né?
3) Houve interferência?
Não. Não aconteceu nada, nada, nada. Por esse motivo eu entreguei as turmas e não quis mais saber de trabalhar a noite. Conclui o ano, porque a diretora me pediu que eu concluísse e no ano seguinte não voltei mais, porque a própria diretora dizia que não podia fazer nada porque tinha que reunir conselho com comunidade… Não aconteceu nada com ela. Nada, nada, nada.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Tá se tornando. Também está se tornando. Porque não está tendo mais respeito, e onde não há respeito, não há punição, sabe que pode fazer e não será punido e hoje em dia eles não têm mais limites, não existe mais limite.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Bem, já aconteceu aqui na escola brigas de alunos, então a gente sente que já tá acontecendo bem próximo da gente sim.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Colocando limites pros alunos e mostrar que eles têm direitos, mas eles têm muitos deveres também e voltar a ser como era antigamente, ter punição sim. Até perder a vaga na escola seria preciso, porque eles não têm medo porque sabem que nada acontece com eles então eles continuam fazendo, não existem deveres pra eles. Tão querendo dizer que o professor é o culpado, mas o professor também não pode fazer nada por ele, não pode nem reprovar mais. Ele sabe que ele vem pra escola mais pra passear.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Mostrando como ela tá fazendo. Não vejo como a mídia pode fazer pra mudar, melhorar. Ela só faz mostrar, mas não cabe à mídia punir, dar limites. Ela só faz mostrar e isso é uma coisa boa, pra que todo mundo veja o que tá acontecendo.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
Ele é um aluno sem limite. Ele não tem respeito. Ele é um menino atrevido, que não tem medo de nada. É um desprotegido também, porque também falta família.
9) Qual o perfil da família?
Se esse aluno não foi educado, como ele vai saber educar? E assim aconteceu, eu acredito, com os pais, que não tiveram educação e então também não sabem educar. Então, quer dizer, que daqui pra frente só vai ser isso: gente nascendo sem ter sido educada e não tá sabendo nem o que é educação. São muito mal-educados, vêm de casa, eles não tem limites pra nada, eles não têm educação, eles não sabem o que é o certo, o que é o errado. Não conhecem os princípios, os conceitos básicos de família. Esses alunos de hoje não sabem coisas que já vem de casa pra vir pra escola, eles não conhecem porque os pais não deram e com certeza os pais não tiveram.
Sebastião – Língua Portuguesa
1) Já vivenciou situação de violência?
Não, na escola nunca. Sei que há, mas não vivenciei. Sinceramente, não.
2) Que situação?
Sem resposta em virtude da primeira pergunta.
3) Houve interferência?
Sem resposta em virtude da primeira pergunta.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Eu acho porque fatos já ocorreram, né? Inclusive tenho informações de brigas, desrespeito, preconceito.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Eu acho que ela está incluída nesse processo, porem eu acho que nós temos um publico que ainda não chegou ao nível do que está acontecendo aí fora.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Primeiramente, mais respeito, um pouco mais de autoridade. Respeito com o aluno, porque eu acho que nós também criamos violência porque permitimos que eles façam certas coisas. Acho que começaria por essa questão do respeito. Começaria não, já comecei.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Olha, é complicado. Eu não vejo uma saída pra mídia. Mas eu acho que dando um pouco mais de ênfase a questão educacional e não simplesmente aos fatos que ocorrem. Porque o que se vê são relatos apenas, mas ninguém se preocupa em melhorar todo esse processo, ninguém busca uma saída pra esse processo que tá acontecendo de violência. Porque a violência não é simplesmente um fato isolado que acontece, ela tem outros fatos que levam até ela. Família, a negligência dos próprios professores, da escola, da própria mídia.
8) Qual o perfil do aluno agressor?
Ele não é mais aquele aluno que usa droga. Ele já vem pra essa agressão de cara limpa. Eu vejo isso. Que o aluno agressor hoje é um aluno igual ao outro só que um pouco mais violento, mas tá de cara limpa.
9) Qual o perfil da família?
Totalmente desestruturada. Às vezes a gente conversa com os pais desses alunos e o que eles dizem é que não conseguem mais policiar ou amenizar ou resolver esse problema. Porque também não tem estrutura pra dar essa educação pro filho. São pessoas da comunidade que muitas vezes são alcoólatras, muitas vezes são pessoas que não têm um nível educacional. São famílias totalmente desestruturadas aí o filho evidentemente vai reproduzir tudo isso.
ANEXO 8 – Entrevistas com alunos da 5ª série do Ensino Fundamental
Cananda – 11 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Já vi muitas meninas brigando por causa de namorado. E também já teve briga comigo. A minha colega me viu só falando com o namorado dela e não gostou, ela pegou, viu e puxou meu cabelo, e eu fui pra cima dela porque eu não gosto que puxem o meu cabelo.
3) Houve interferência?
Muitas vezes sim, muitas vezes não. Comigo não aconteceu nada.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. A gente tem que vir pra estudar. Mas tem gente que vem pra gazetar, ir lá pra trás, pra fumar, beber. Fazem isso no banheiro também. Picham.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Diferente. Porque eu já li sobre aluna que mata a outra e aqui não. Não tem.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Não sei. Talvez o porteiro revistar, ver se tem alguma coisa na mochila. Faca, arma.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Não sei.
Gabriela – 11 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Gente pichando a parede, colegas batendo um no outro, várias violências já.
3) Houve interferência?
Às vezes são suspensas, às vezes tem gente que não vê, aí não conta, não acontece nada. Já mexeram nas minhas coisas, derrubaram as minhas coisas, mas como eu não vi quem foi, não aconteceu nada.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Mais ou menos. Porque, assim, mês passado teve uma briga de duas alunas da oitava. Então, desde aí, eu acho que elas nem foram suspensas.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
É também o que acontece na minha escola, eu me identifico.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Tem que toda vez que alguma pessoa brigar aqui na escola tem que suspender a pessoa. Tem que melhorar mais lá na frente, no portão, porque tá muito inseguro, o porteiro deixa entrar e sair a qualquer hora.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Dando mais atenção às escolas, falando como se deve fazer pra se proteger da violência, falando várias vezes no jornal sobre isso.
Irlana – 12 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Tem muito menino xingando, chamando palavrão, essas coisas.
3) Houve interferência?
Ah, chamam os pais, mas os pais nem ligam. Chama a diretora, chama a polícia, eles conversam lá, mas não muda.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Um pouco. Porque eles ficam brigando, xingando, fazendo o que não deve, se agarrando por aí, essas coisas.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
É diferente. Porque em outros lugares tem meninas se agarrando com meninos e aqui é diferente. São mais rapazes brigando, fumando, é diferente.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Dando aula de como se afastar das drogas, parar de beber, parar de fumar, parar com a violência.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Botando notícias sobre a violência e dando orientações e falando de coisas boas também, não só de coisas más.
Larissa – 12 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Os meninos ficam secando os pneus das bicicletas dos outros alunos, pichando as paredes, quebrando as carteiras. Varias outras coisas também. Brigas de meninas também que eu já vi.
3) Houve interferência?
Sim. Eles vão pra diretoria e são suspensos.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
É. Porque tem muita gente brigando, não respeitam os outros, se xingam…
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Acho que é diferente porque tem muitas escolas que é muito pior que aqui.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Ah, eu não sei.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Ah, eu não sei, não faço a mínima ideia.
Luis – 14 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Já vi um menino brigando com outro, um era da oitava. Ele estava fumando aqui, droga, aí quando eu vi veio um outro que pulou o muro do colégio, nem estudava aqui, com arma querendo matar ele. Um 38. Mas aí o menino foi embora e quando ele chegou com a arma o outro não estava mais lá.
3) Houve interferência?
Não. Isso aí foi só entre os meninos. Não pegou nada.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. A gente vem pra estudar, mas tem muito menino que vem pra fazer besteira. Fumar, fazer algazarra. Já vi pistola aqui também, de manhã e de tarde. Eu estudava a tarde, mas por causa desse negócio de violência eu até fiquei doente por causa disso, aí passei pra de manhã.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Nem tanto assim porque tem coisa no jornal que fala que aluno matou o outro já e aqui no colégio não tem, acho que é muito difícil acontecer isso.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Colocando mais guardas aqui porque qualquer um pode pular o muro daqui. Que a polícia passe de vez em quando por aqui também. Ano passado tava passando aqui a polícia, mas agora nem vem mais.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Alertando o prefeito pra colocar mais policiamento.
Mike – 16 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Já vi menino brigando, bebendo ali na quadra, muitas coisas acontecem aqui nessa escola. Comigo já aconteceu de brigar, de bater nos meninos e de apanhar também. A gente pega discussão. Começa na brincadeira, fica sério, aí começa a briga. Por bobagem, por bobagem.
3) Houve interferência?
Às vezes fica por isso mesmo. A gente briga, eles separam, mandam cada um pra sua sala e não acontece nada.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não, mas muitas das vezes os alunos da escola fazem dela um lugar de violência. Mas não é porque a escola é um lugar pra se educar, pra estudar, pra ter educação, pra aprender e não pra violência.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Não, muitas das vezes aqui na escola ainda é mais leve, nas outras escolas já é mais pesado. Tem menino batendo em menina. Aqui na escola não acontece coisa assim, mas nas outras escolas a coisa é mais pesada.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Tem que colocar mais segurança logo na entrada da escola porque de uma certa forma isso pararia os alunos de fazer arruaça na escola. Mais segurança atrás da escola, porque os meninos vão pra lá, bebem, fumam… Aí não tem ninguém pra olhar… Bebem, fumam, brigam. Aí, pronto.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Eles tinham que fazer um anúncio pra escola, pro Governo, que tem que colocar mais segurança na escola. Tinham que colocar notícia com conselhos pros alunos não fazerem mais violência na escola porque não tá certo essa violência.
Thais – 12 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
No dia da marcha, eu não sei o que aconteceu, tava eu e a minha colega, a gente só viu duas meninas se agarrando, o pessoal gritando, na esquina. Até filmaram e botaram na internet e enviaram pro Orkut também.
3) Houve interferência?
Vieram as supervisoras da escola e aí elas pararam de brigar, mas depois eu não sei o que aconteceu.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não, porque a gente vem pra escola pra aprender, não pra agredir. Mas acontecem outras coisas, tem gente que só vem pra namorar, pra bater papo, picham as paredes, quebram os ventiladores, as lâmpadas, chamam nome, muito nome, gazetam, desrespeitam os professores.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Eu acho que é igual.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Eu acho que a escola tem que monitorar bastante os alunos, ver pra onde eles vão pela escola.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Eu acho que eles podiam ajudar fazendo campanhas nas escolas, palestras, ajudando os alunos.
ANEXO 9 – Entrevistas com alunos da 8ª série do Ensino Fundamental
Ana Carolina – 15 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Foi uma sensação péssima porque a gente vai pra escola que é como se fosse a nossa segunda casa e acha que a gente vai tá mais seguro, mas pelo contrario. A violência tá até na nossa segunda casa. Aconteceu que duas alunas brigaram. Alunas da quinta série usaram até faca. Acho que deveria ter uma supervisão do que os alunos trazem pra escola. Porque é uma sensação horrível, porque, além disso, as aulas foram suspensas logo depois e aí que se prejudica somos nós.
3) Houve interferência?
Os pais são chamados. É bem previsível. Eles ligam pros pais, os pais brigam e pronto, esquecem. Mas não é assim. Tem que ter uma supervisão direto aqui. Depois que acontece aí passa uma semana e todo mundo esquece e pronto. Aí volta. Enquanto não acontecer alguma coisa grave eles não vão tomar nenhuma atitude e vai continuar tudo assim. Começa numa bolinha, quando a gente vai ver, tá grande essa bolinha.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
É, com certeza. Tudo começa numa conversa dentro da sala de aula e depois vai pra uma briga que pode acabar na morte de alguém, entendeu? Ou surrado pelo outro. Com certeza a escola é um lugar de violência.
Dentro da minha escola teve briga de duas alunas, uma da minha sala e uma da outra oitava. Começou através de conversas, de intrigas que uma tinha com a outra sem motivo e acabou que as duas queriam brigar e acabaram brigando porque se uma não quisesse, não tinha porque haver briga.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Refletem, porque eles mostram que tudo começou dentro da sala e depois foi pra fora. Briga de namorados. Briga por bola. Igual na escola, não muda nada.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Eu acho que com mais vigilância, pegando mais no pé dos alunos, principalmente naqueles que tem mais dificuldade de assistir aula. Esses são os principais porque sempre se envolvem. Tanto que quando acontece alguma coisa eles são sempre culpados.
E eu acho que tem que ter mais segurança na escola, mais vigilantes que deveriam supervisionar o que os alunos trazem pra escola, entendeu? Botar ordem, entendeu? Ficar ali mesmo, entendeu?
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Fazendo entrevistas, enquetes, vindo em cada escola. Eles vão fotografar tantas coisas… Por que eles não podem fotografar o futuro que os filhos deles estão tendo? Vão nas escolas, vê a situação que está, as condições que está. Levar isso pra direção geral das escolas, mostrar a vergonha que está onde o seu filho está estudando. Acho que dessa forma a imprensa ajudaria bastante, indo às escolas e mostrando a situação precária em que elas estão.
E a escola tá em situação precária mais pelos próprios alunos porque a escola teve uma reforma recente e os próprios alunos, que não dão valor no seu patrimônio, vão lá e acabam com ele.
Bruno – 15 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já e muitas!
2) Que situação?
Por exemplo, hoje. Hoje um aluno chegou comigo numa brincadeira de mau gosto, deu um tapa no meu rosto, mas eu levei na esportiva porque eu não sou de ir a diretoria porque não vai resolver nada. Mas raramente acontece.
3) Houve interferência?
Já tentei levar pra diretoria uma vez. Eu usava óculos de grau, o menino tirou os meus óculos. Eu falei pro meu pai e o meu pai falou com a diretora, falou com a mãe dele, com o menino. Aí o menino devolveu os meus óculos. Mas não fizeram nada pra ele aqui na escola, só uma suspensão.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Eu acho que sim. Todo dia é violência, devia ter mais segurança na escola. Tem muito aluno aqui que é ladrão. Daqui da manhã, alguns, são poucos. A tarde tem mais.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Com certeza. A gente vive aquilo. É muito parecido com as coisas que retratam. As brigas. Mas nada sério ainda. Até hoje não.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Segurança, policiamento. Vigiando o colégio. Muito aluno fica fora de sala, fazendo bagunça. Tem que organizar. Tem que colocar uma supervisora nos corredores pra ver se nenhum aluno tá fora de sala.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Fazer alguns projetos aqui no colégio. Profissionalizantes, informática. Acho que isso manteria os jovens afastados da violência.
Elane – 15 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Sim.
2) Que situação?
Quando eu cheguei aqui, elas pensavam que eu era uma outra pessoa e me julgaram antes mesmo de me conhecer por eu ser um pouco mais nova que elas, ficar na minha, não falar com ninguém porque era novata. Elas eram totalmente contra mim, falavam mal. Falavam que eu era metida, patricinha, coisas que não tem nada a ver com o meu estilo, com a minha pessoa, não sou nada disso.
Isso foi mudando ao longo do tempo quando elas vieram puxar assunto comigo, eu com elas. Elas falaram que eu sou uma pessoa totalmente diferente do que elas pensavam de mim. E depois disso nós somos amigos agora.
3) Houve interferência?
Não. Na verdade, a gente mesmo foi resolvendo isso.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Sim, com certeza. Porque os alunos de hoje em dia, não todos, eu não diria a maioria, mas não querem nada. Só querem saber de festa, de vagabundagem na rua. E isso gera muita violência na escola. Brigam por pura bobagem. Brigas por besteira, por uma bola, até por um pirulito… Besteira. Por namorado. Não tem futuro nenhum, brigar por namorado. Tem tanta gente, tanto homem no mundo.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Bom, nossa escola ainda pode ser que talvez chegue, mas ainda não chegou. Mortes não… Só briga mesmo, mas nada tão, tão sério.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Talvez mais segurança, mais supervisores. É… Até poderia fazer reuniões com os pais, coisa que é meio difícil de acontecer na escola, pra falar com os pais, sei lá, conversarem com seus filhos. Tem pais que não ligam, não conversam, não tão nem aí pros filhos. Enfim.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Quem sabe assim com cartazes, mensagens contra a violência, contra a pedofilia. Conversar mais sobre isso, quem sabe os alunos não fariam assim tanta besteira?
Fernando – 16 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Foi uma violência verbal comigo. Eu tava aqui na e escola, era na hora da Educação Física. Passou um tempo, a professora não veio, eu fui saindo. Tinha um pessoalzinho sentado, brincando, conversando. Aí, o menino levantou e falou: Ei, deixa o aleijado passar. Eu peguei, virei e falei assim pra ele: Sabe o que é um aleijado? Aleijado pra mim é uma pessoa que não tem uma perna, um braço. Agora, você sabe o que é um deficiente? Deficiente todos nós somos porque a pior deficiência é o preconceito. De você olhar pra pessoa e julgar. (Fernando tem dificuldade em andar em razão de pólio)
Foi uma das situações mais chatas que eu já tive foi essa.
3) Houve interferência?
Não, eu tava nesse dia sozinho. A porteira viu, mas não falou nada. Eu contei pros meus pais, mas eles disseram que isso é assim mesmo, que as pessoas se incomodam, acham que é um bicho de sete cabeças, mas eu sou igual a todo mundo.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
É. Eu acho que às vezes muitas das pessoas que vêm pra escola não têm educação em casa. Algumas querem aprender, mas outras vêm pra vandalizar. Vem pra brigar, roubar, fazer coisas que não tem a ver com a escola.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Bem, a nossa escola perto das outras que eu vejo nos jornais ela não tem o mesmo padrão de violência que eu vejo nas outras. Raramente a gente vê uma briga feia, como um dar uma facada no outro. Geralmente é uma briga mão a mão. A gente raramente vê briga com faca, ferro, coisas assim.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Eu colocaria professores e psicólogos pra estudar mais isso. A violência geralmente acontece quando as pessoas tão incomodadas com alguma coisa e acho que os psicólogos poderiam tratar isso. Eu traria psicólogos pra escola, perguntaria pros alunos o que eles queriam na escola, faria uma espécie de eleição. Aulas de computação, de música. Acho que música ajuda muito como terapia.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Bem, a mídia eu vejo mais divulgando mais a violência. Se eu fosse da mídia eu ia atrás de lugares que tem projetos sociais, divulgar melhor, pra que as pessoas vejam que não é só violência, que existem coisas boas, que existem projetos, existem ideais, existem pessoas que querem alguma coisa da vida.
Hayede – 15 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Uns meninos que ficam avacalhando, discriminando os homossexuais. Aí eles ficam mexendo, dando porrada.
Eu sou homossexual. A gente é agredido. Às vezes eles batem na gente, agridem a gente e aí a gente fica transtornado com isso, mas não reage.
Já aconteceram várias coisas dentro da escola. A gente passa e os meninos ficam mexendo, querem dar samba, dar porrada, essas coisas.
3) Houve interferência?
Não acontece nada. A gente vem falar, mas não acontece nada. Chego a reclamar, mas nada acontece.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não, acho que não. Porque a escola é pra estudar, né? Mas agora tá na maior violência, fazer o quê?
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Sim. As coisas que vejo nos jornais acontecem mais ou menos, igual nem tanto.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Nem ideia. Acho que a diretora, os professores, as técnicas e os alunos deveriam se unir.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Acho que a imprensa não tem como ajudar. Acho que é uma situação sem saída. Vai continuar porque como a gente vai fazer?
Nayara – 16 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Muitas vezes.
2) Que situação?
Até hoje, lá na sala, a Carol e a Juli. A Carol quase dando na cara da Juli e a Juli lá sem fazer nada. Por causa de família. Porque elas são parentes e resolveram trazer pra dentro da sala e querendo brigar.
3) Houve interferência?
Acho que não. Porque muitas vezes acontecem as coisas sem ninguém saber. Se sabem, é feito, mas é só chamar pai, conversar, só isso. Não é eficaz.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Muitas vezes é. Pessoas virem brigar sem motivo. Trazer pra dentro da escola e a escola fica difamada, não a pessoa. Aí o pai pensa que a escola é que não presta e não quer colocar o filho lá. Prejudica a escola.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
É aquilo mesmo, com certeza. As pessoas não divulgam algo que não tá acontecendo. Tá acontecendo e tá piorando cada vez mais as escolas.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Ah, eu não sei. Talvez trazer pessoas pra explicar como proceder na escola, os limites.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Divulgando as escolas que ajudam os alunos a melhorar. A escola fazendo projetos e a imprensa divulgando, apoiando. Ajudaria com certeza.
Pablo – 16 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Várias vezes.
2) Que situação?
Muita porrada. Até com meu próprio colega, o Paulinho, que não estuda mais aqui. Ele deu muita porrada no Leandro aí na rua, na porta.
Eu nunca me envolvi. Graças a Deus não. Ainda não.
3) Houve interferência?
Ah, ganha dois dias de suspensão e pronto. Já tão no colégio de novo.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. Porque a escola é pra aprender. Mas não é o que acontece hoje em dia.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Não. Porque a nossa escola não tem aquele negócio que teve no Ulisses, não tem porrada como tem no Souza Franco, no Dom Pedro, esse negócio de gangue no colégio. Tá longe em relação aos outros colégios.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Expulsando os alunos envolvidos. Não ia adiantar, mas minimizava. Os outros iam ver e iam ficar com medo de brigar no colégio porque senão iam ser expulsos.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Daí já não sei. Não tenho resposta pra essa pergunta.
ANEXO 10 – Entrevistas com alunos do 3º ano do Ensino Médio
Edivan – 19 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Ainda não, mas já ouvi falar, mas pelo que ouvi falar é quase como se eu estivesse vivenciando essa violência.
2) Que situação?
Escuto sobre brigas de alunos e alunas. Alunas com interesse de namorados e alunos com interesse de namoradas.
3) Houve interferência?
Mais por parte dos pais, que querem sempre defender seus filhos, colocar os filhos como santos. Quanto à escola, ela tenta fazer o possível, mas é possível fazer mais ainda.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. Eu acho que a violência não está presente na escola. A violência é trazida pra escola através das pessoas que convivem nela, que são os alunos.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Indiretamente sim, porque apesar de eu não estar envolvido na violência eu queria fazer algo pra tentar ajudar, mas infelizmente eu não posso. Tentar colocar a minha idéia, expor. Tem leis pra isso, mas eu não consigo tentar colocar os meus direitos. As leis não são cumpridas então dificilmente um cidadão vai conseguir fazer cumprir essas leis.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Tentar uma conscientização através de apresentações de peças teatrais, palestras, dentre outras coisas que possam colocar visível aos olhos dos alunos e aqueles que querem também fazer algo melhor pra escola.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
A mídia poderia ser útil colocando noticias que mostrassem realmente o que é a violência pra tentar abrir os olhos verdadeiramente dessas pessoas.
Elcler – 17 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Sim.
2) Que situação?
Eu já vi alguns alunos brigando aqui na escola, nos corredores.
3) Houve interferência?
Geralmente não há.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não, quem faz isso são os alunos. A escola deveria servir pra educação dos jovens.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Não. Geralmente não. Porque aqui, por exemplo, não tem drogas, pelo menos eu nunca vi.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Poderia ser mais rígida quanto a cumprir regras. Porque deve ter regras aqui também, né? Quanto ao comportamento dos alunos. Punição, quando infringirem essas regras.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Poderia passar informação, incentivando os alunos a preservarem a imagem da escola.
Érika – 17 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já vivenciei sim.
2) Que situação?
Já vi garotos de até sete anos brigando, já vi violência verbal também. Xingando. Preconceito, tipo: Só podia ser preto, entendeu? Coisas assim. Não na minha sala, mas com outras pessoas.
3) Houve interferência?
Olha, na maioria das vezes não, porque nem sempre as pessoas vêem as coisas. A gente vê, mas não se mete. Na maioria das vezes não acontece nada, a não ser que todo mundo veja, aí sim, aquele tumulto.
Pelo que eu sei, separam, dão suspensão, mas só assim. Depende do caso, se for muito grave, podem ser expulsos.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Com certeza não. A gente tá no colégio pra estudar. Acontece a violência por instinto. É porque o colega faz, tem aquela reação. Um é teleguiado pelo que os outros fazem. Mas não é local de violência a escola.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Sim, vejo notícias assim que representam sim. Mas em cada colégio é uma questão. Tem casos piores do que já aconteceram aqui na escola, com certeza.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Ah, meu Deus. A coisa principal seria que cada aluno é como se fosse um filho que precisa de amor, carinho. Eles precisam da presença da diretora pra vivenciar as coisas que acontecem no colégio.
Tem que ter segurança, segurança responsável.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Bem, eles podiam conversar, fazer palestras, apresentar os casos, por em debate com todos os alunos. Que eles participassem, colaborassem. Pra chamar atenção dos alunos pra não fazer aquilo, porque os alunos precisam dessa consciência pra não fazer aquilo.
Fabiana – 19 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Já.
2) Que situação?
Duas alunas brigando no colégio e dois rapazes brigando por bobagem, porque um xingou o outro, o outro não gostou e já começaram a briga, quebraram o nariz. Elas brigaram por causa de namorado.
3) Houve interferência?
Ah, chamam os pais, são suspensos.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. Porque a escola é um lugar pra os alunos estudarem, aprenderem.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Sim. Tanto que mostra briga, assim como acontece aqui no colégio.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Tem que ter mais segurança no colégio. Tem que incentivar mais os alunos a estudarem.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Deviam continuar a escrever, mostrar a realidade, o que acontece com a gente. Mostrar que a violência virou rotina nos colégios.
Gábio – 21 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Olha, já vi muita coisa.
2) Que situação?
Já vi brigas. Brigas de alunos com professores, já vi aluno mexer com professor. Já vi aluno jogar lama no professor de Matemática, pular o muro e ninguém sabe.
São muitas situações do dia a dia, normal já acontecer com qualquer um. Precisava de limite porque muitos pais não vêem que o filho tá na escola pra estudar e não pra fazer violência. O pai acha que a escola é o instrumento pra educar, mas o pai não vê isso.
Eu acho que o sistema na escola hoje em dia tá um pouco ruim. O aluno vai pra escola, mas o pai não fiscaliza, não vê o caderno. O filho diz que o professor não veio e por isso não tem nada no caderno, mas é mentira. Ele que tava jogando bola dentro da escola.
3) Houve interferência?
Olha, acontece que o aluno faz isso e professor vai lá, reclama, o pai é chamado, conversa.
Já vi colegas meus no jornal, com notícia de que estavam brigando em outro colégio. Foram pra delegacia, os pais foram chamados e acabou, nada mais. E aí eles continuam brigando com outras escolas pra provar qual escola é melhor.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não! A escola não é um local de violência. A escola é um local pra estudar, aprender. O aluno tem que vir pegar conhecimento com o professor. Se o aluno não quer vir pra escola, faz um favor, vai embora pra casa. Porque a escola não é um lugar de violência. A violência é atravessada por pessoas sem cabeça.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Eu acho que se reflete muita coisa. Já aconteceu aqui nessa escola muita coisa que já li nos jornais. Roubo, briga, tudo mais.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Proteger da violência é difícil. Não existe proteção hoje em dia. Não adianta botar 500 policiais, não adianta. A gente só vai resolver a questão da violência resolvendo a questão social.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Eu acho que a imprensa devia mostrar mais a realidade. Tá mostrando muita violência. Tem que falar da educação. Pra onde vai a verba, como tá a situação da escola, dos alunos. A imprensa não fala mais nisso.
Eu acho que a sociedade é cega e não vê isso. E a imprensa não faz nada. Morreu aluno, morreu professor, acabou o jornal, vai embora.
Iago – 17 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Sim. Várias vezes.
2) Que situação?
Bom, físicas, nunca, graças a Deus. Agora, psicológicas, várias vezes. Como xingamentos, apelidos, frases grosseiras. Enfim, esse tipo de violência. Além do que muitos alunos usam das diferenças que alguns têm para fazer piada. Não conseguem aceitar algo que os colegas têm de diferente. E muitas vezes eles criam sentimentos ruins simplesmente por essas diferenças. Não aceitam esse tipo de diferenciação entre alunos.
3) Houve interferência?
Dos meus pais sim. Agora da escola, é, poucas vezes. Até porque a escola não tem ciência muitas vezes do que acontece aqui. Ate porque os alunos, os próprios alunos não denunciam e acabam se calando diante desse tipo de violência.
Bom, no meu caso eu sempre procurei resolver da forma mais pacífica e muitas vezes conversando com os próprios alunos que faziam isso. Jamais gostei de prejudicar as pessoas, levando à diretoria, fazendo algo que vá me prejudicar e prejudicar o aluno. Sempre procurei resolver entre alunos não envolver a escola e sempre obtive êxito nessa tentativa de apaziguar.
Os meus pais tiveram que vir aqui uma vez e falar com os pais dos alunos, com os alunos e com a direção, mas foi uma única vez, porque excedeu realmente. Já não havia como eu lidar com isso, então tive que recorrer aos meus pais e à direção. Mas sempre busquei resolver entre alunos, não achava que era algo tão prejudicial, mas com o passar do tempo eu vi que era. Talvez eu não achasse isso porque eu sempre relevei, eu nunca dei tanta importância a isso. Mas existem alunos que são bem mais sensíveis a isso, que não suportam esse tipo de piada, de apelido e criam um complexo, começam a se isolar dos outros. Alguns criam até patologias psicológicas através disso que vão até pra vida adulta.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. Naturalmente não. Quando algo que não é natural passa a ser é porque está banalizado. Eu penso que isso a escola está entrando nesse estágio. Os alunos encaram a escola como um local em que vão por obrigação, por imposição da sociedade, dos pais. Não vêem a escola como um local que eles utilizam para adquirir conhecimento que é de fato o que a escola é, pra construir um cidadão. Eles vêem como uma imposição e pra torná-la mais prazerosa eles passam a fazer coisas dentro da escola que não são ou que pelo menos não deveriam ser permitidas. Passam a transgredir algumas regras, passam a fazer algo que não condiz com o ambiente escolar, linguagens, comportamentos.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Exatamente não, porque eu vejo casos de violência nas escolas extremos. Aluno contra professor, alunos que programam cenas de violência! E agora com a ascensão da internet, com a facilidade que tem pra acessar, pra colocar vídeos, fotos, alguns até programam cena de violência pra colocar na internet, isso pelo menos eu nunca vi aqui na escola.
Eu já presenciei atos de violência, brigas de aluno, claro, mas desse nível, professor x aluno, aluno x funcionário e aluno x aluno a esse extremo de agressão física a ponto de causar danos físicos graves aos alunos pelos menos aqui eu nunca vi.
A mídia em si ela busca passar a informação de forma completa, só que, pra atrair a atenção, muitos exageram. Quando mostram a reportagem, mostram um lado mais agressivo, algo que muitas vezes sequer existe, algo que nem é tão grave assim.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Eu acho que não é a escola que tem que começar e sim, o núcleo familiar. Antes de pensar na escola, teríamos que pensar na família porque se o aluno vem com um comportamento violento com certeza já tem algumas experiências do núcleo familiar. Portanto pra começar a mudar na escola, teria que começar a mudar a família. E até mesmo no ambiente em que ele vive. Se é um ambiente violento, ele, não regra geral, mas vivendo em um ambiente violento ele com certeza pode ser influenciado e no meu ponto de vista eu acredito que primeiramente teria que mudar a família e posteriormente a escola.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
A imprensa tem um poder incrível, mas infelizmente ela não sabe usar isso a favor do bem-estar da sociedade. Eu acredito que falta um conteúdo que ensine, que mostre a não violência, que dê aos jovens uma visão ampla de como agir em sociedade, dentro da escola, isso ajudaria muito.
Mas a imprensa busca simplesmente o lucro, já que estamos numa sociedade capitalista, ela busca essa ascensão através do sensacionalismo e não dá muita atenção à educação.
Marcos Vinício – 18 anos
1) Já vivenciou situação de violência?
Sim, já. Muitas.
2) Que situação?
Não só violência física, como verbal também. A maioria aqui é a verbal. Chama de burra, idiota, dá apelido. Muitos não gostam de apelido, até relevam pra não ter confusões maiores, mas em termos físicos também já. Da pessoa tá sentada e outro chegar e bater ou porque olhou de cara feia, ou porque não gosta da pessoa mesmo. Isso sempre vai acontecer se não tiver regras por parte da diretoria. E muitos alunos já presenciaram assim como eu.
3) Houve interferência?
Maioria das vezes não. Lá mesmo é resolvido e lá fica. Por isso que a impunidade dos colégios tá muito grande, porque se a diretoria das escolas fosse mais atuante isso não aconteceria, eu acho.
Por exemplo, quando acontece esses fatos no colégio, se resolve na conversa. Se tivesse condições mais severas acho que isso não aconteceria.
4) Acha a escola um local de violência? Por quê?
Não. Na verdade, a escola é um local de aprendizagem. Isso acontece pela educação que vem de fora, da família. Como muitas pessoas falam e até os professores mesmo do próprio colégio dizem que a pessoa quando não é educada na sua casa nunca vai ser educada no colégio e eu acho que isso é assim que acontece.
5) As notícias sobre violência mostram a sua experiência? Por quê?
Não que esteja distante, mas eu acho que aqui no colégio ainda tem muita gente que quer aprender. Em muitos outros colégios a coisa tá muito pior.
Aqui no colégio não, ainda tem muita pessoa de bem. Tem a minoria que quer fazer o mal, mas o bem tá prevalecendo. Ainda não aconteceram coisas mais graves. Não que eu tenha visto. Não sei também. Não conheço todos os turnos. Pela parte da manhã não, mas dos outros turnos não sei.
6) Como a escola pode se proteger da violência?
Bom, na verdade, o que a escola deve fazer… Eu acho que está direcionado a esse fator, né? Se tiver punição desde o começo, acompanhamento da direção. É como um exemplo que meu pai sempre me deu: uma árvore quando é pequena é fácil de ser quebrada, depois quando fica grande é mais difícil. A mesma coisa é a violência. Se no começo não foi punido, combatido, é difícil mais lá na frente tentar combater. É isso que a direção tem deixado a desejar em relação a muitas coisas, a violência.
7) Como a mídia pode ajudar nisso?
Eu acho que só na parte de disciplinar, de ouvir, de mostrar coisas que são agradáveis. Porque também a imprensa mostra muita coisa que facilita e induz os jovens a fazer violência. Se você vê sempre coisas violentas, você não vai querer fazer o bem.
Mas a imprensa também tem seu lado bom que mostra projetos, coisas boas que as escolas fazem em prol dos alunos.
Mas ainda tem deixado muito a desejar. Muitas coisas são abafadas, não são mostradas pros alunos. Eles tinham que ver.
E outras coisas que eu acho que não deviam ser tão mostradas, ela mostra, como sexo na escola. Então não deveria ser enfatizado tanto pela imprensa, porque isso também é violência contra a conduta e a ética, né? A imprensa botou isso como uma coisa que nunca aconteceu em nenhum lugar, só aqui em Belém, e eu não gostei.


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