Dora – uma estrela de quatro pontas, uma ponta da estrela ideal
Por Luciana | 22/12/2008, 23h00
Para as quatro pontas da minha estrela ideal,
Ana Lucia,
Júnia,
Nazaré e
Josse,
um abraço de Dora, um beijo da Luciana
e o amor das duas.
1 PROPOSIÇÃO
Para ser realizada a minha pesquisa, eu fiz três escolhas, na presente ordem: autor, obra e personagem.
Optei por Jorge Amado por ser um dos meus autores favoritos e por, infelizmente, ele ser considerado um autor raso, de uma personagem só. Meu trabalho então, será uma forma de desmistificar essa fama ingrata que o autor baiano ganhou.
Logo em seguida, veio a idéia de tirar de Capitães da Areia a base do meu texto, por se tratar de um livro da fase proletária de Amado, característica distante da que lhe deu fama: a de cronista de costumes. A obra foi escrita em 1937, quando o autor, aos 25 anos de vida, ainda acreditava que “todo jovem tem o dever de ser socialista”.
A personagem principal, não do livro, mas sim, da minha pesquisa, é Dora. Antes de falar sobre ela, é necessário que eu explique o porquê de minha escolha.
Os Capitães da Areia são um grupo de meninos de rua da cidade da Bahia. Dora, ao ficar órfã de pai e mãe e se ver na rua tendo como única companhia seu irmão menor, Zé Fuinha, acaba, por intermédio de João Grande e Professor, indo parar no grupo. Sendo então a única mulher do bando, logo Dora ganha um caráter quadridimensional aos olhos deles. Ela é mãe, irmã, noiva e esposa. Com isso, se torna figura de destaque na obra.
Considerando a glória obtida por Jorge Amado acerca de suas personagens femininas, o trabalho serve de passaporte a Dora para sua entrada neste rol.
Minha explanação será dividida em duas unidades: Dora no mundo masculino dos Capitães da Areia, e Dora no mundo feminino das personagens de Jorge Amado.
Na primeira unidade, baseada na própria divisão de caracteres de Dora que o autor fez, apresentarei um a um dos Capitães da Areia e destacarei a relação dos mesmos com Dora e as consequências desse encontro.
Já na Segunda unidade, Dora se juntará à Gabriela, Dona Flor e Tieta sendo ora confrontada, ora aproximada das mesmas, para que se tenha enfim a percepção de que não existe a melhor, nem a mais importante. Unidas, com seus defeitos e qualidades, elas formam o todo – a mulher ideal.
Para a melhor visualização dessa mulher ideal, designarei as quatro personagens a partir da Astropsicologia, atribuindo às mesmas elementos astrológicos e funções psicológicas próximos à natureza de cada uma delas.
A Astropsicologia foi escolhida como base desse estudo pois, ao contrário do que se pensa, os elementos astrológicos assim como as funções psicológicas não representam ícones opostos entre si. Juntos, eles resultam no equilíbrio, naquilo que chamamos de ideal. Logo, Dora é água e sentimento; Gabriela é fogo e intuição; Dona Flor é ar e pensamento; Tieta é terra e percepção e, a partir dessa mandala, vislumbramos a mulher ideal.
Este trabalho de graduação, afinal, tem diversos motivos e objetivos, sendo multifacetado como Dora – a menina estelar do Trapiche, escolhida no vasto céu constelado da Literatura Brasileira, para iluminar o leitor acerca do traço inconfundível de Jorge Amado.
2 DORA NO UNIVERSO MASCULINO DOS CAPITÃES DA AREIA
“A paz da noite envolve o trapiche”
Jorge Amado
2.1 DORA
“Mais valente porque é apenas uma menina, apenas está começando a viver”
Jorge Amado
Os Capitães da Areia são um grupo de meninos de rua da cidade da Bahia. Cem, cento e cinqüenta meninos entre cinco e quinze anos que vivem em um trapiche abandonado na beira da praia. Eles roubam, trapaceiam, burlam a lei para sobreviver. Entre farrapos de dor e aventura, essas crianças vão tecendo a colcha de retalhos que cobre suas vidas e acalenta suas noites: o céu estrelado de Salvador.
É deste mesmo céu de estrelas que Deus dá-lhes o seu melhor presente: Dora. A-Dora-da ou Dorothea? Dorothea, presente de Deus, para uns meninos que teriam parte com o Diabo.
Ela tem 13, 14 anos, é uma menina com o cabelo caído pelo ombro em uma onda dourada, e um rosto muito sério de quase mulherzinha. Seus pais, mortos pela varíola, deixaram-na órfã, tendo como companhia seu irmão caçula, Zé Fuinha.
Discriminada por ser filha de bexiguento, ela se vê sozinha, sentindo que a noite é sua inimiga. Nesse ponto, Professor e João Grande a conhecem e decidem levá-la para o Trapiche.
Citar o Trapiche como um substantivo próprio, deve-se ao fato de, também ele, representar uma personagem, um Capitão da Areia. Comparamos o Trapiche de Jorge Amado ao Sobrado de Érico Veríssimo, sendo, os dois, lugares tão marcantes, que passam a interagir com seus habitantes.
Então, do mesmo modo que Dora ilumina a vida dos Capitães da Areia, notamos o Trapiche mais claro, acolhedor, maternal, pacificado, com a chegada da menina.
Vislumbramos a ida de Dora para o mundo dos Capitães da Areia como um raio de Sol em um lugar marcado pelas trevas do abandono e da violência.
Vale ressaltar que, no grupo, há destaque para oito dos Capitães e a pesquisa abordará justamente a interação de Dora no mundo pessoal e universal desses meninos.
Criaturas tão diferentes e, paradoxalmente, tão atreladas entre si pela vida marginal que levam, não poderiam ter o mesmo tipo de relação com Dora. Não. As relações acontecem quadridimensionalmente, fazendo com que Dora, como uma camaleoa, se ajuste a cada um deles conforme a necessidade dos mesmos.
Logo, ela é mãe, irmã, noiva e esposa, idealizada por eles. Em sua cabeça, apenas age com naturalidade, não tem noção da extremada importância que sua presença tem para aquele grupo.
Pensamos que a única pessoa que tem a devida idéia do significado de Dora para os Capitães da Areia, é Professor.
João José, o Professor, a via como noiva, como a Amada, que adornaria os seus mais belos e chocantes quadros. Seu amor platônico, poético e, por que não dizer, transcendental, fazia-o ter os olhos mais atentos em Dora e nas sensações que ela causava entre eles.
A alegria de Gato ao rever, em Dora, sua mãe costurando sua camisa; o rosto iluminado de Volta Seca ao reconstruir a figura da brava sertaneja, comadre de Lampião, sua mãe, em uma menina loura e franzina; a paz que encheu os olhos de Pirulito ao poder, finalmente, contar a sua mãe que ele desejava ser padre. A admiração do revoltado Sem-Pernas; a fidelidade de João Grande, que a comparava em valentia a Pedro Bala; o jeito bamba de Boa-Vida chamá-la de irmã. Todas essas imagens ficam gravadas na mente de Professor que as transformaria em arte depois da perda da Amada para a Morte.
Sim, a Morte chega ao Trapiche e leva dos Capitães da Areia o seu melhor presente, a sua figura mais ímpar.
Dora morre e deixa seus irmãos e filhos atônitos diante de seu desaparecimento. Nenhum deles parece atinar para o que de real ou imaginário aconteceu. Foi como um sonho bom para todos. “Menos para Pedro Bala, que a teve. Menos para Professor, que a amou” (Amado, 1982a, p.191).
Cada um dos Capitães da Areia tem seu destino traçado: Boa-Vida quer uma vida sem esforços; o Gato almeja o grande mundo; Pirulito deseja servir a Deus; Volta Seca sonha com o cangaço; Sem-Pernas, sob seu ódio, quer apenas uma vida mais alegre (mesmo que além da morte); e João Grande, como um cão a seguir seu dono, faria tudo o que Bala pedisse.
Dora inspira então, apenas o destino de seus noivos, fazendo com que Professor abandone o Trapiche e mergulhe em sua carreira como pintor, e com que Pedro Bala lute por uma sociedade melhor e mais justa, sabendo-a no céu, feito estrela a guiar-lhe, e não como uma sombra no Trapiche.
Cabe dizer, a essa altura dos fatos, que na cidade da Bahia quando um homem valente morre, ele se transforma em estrela. Só os homens. Nem mesmo Rosa Palmeirão, nem Maria Cabaçu, as mulheres mais famosas de Salvador, pela coragem e destemor que possuíam, nem elas viraram estrelas.
Mas Dora virou. Porque Dora era tão valente quanto elas e era uma menina.
Ela não está fixa no Firmamento. Ela o cruza de ponta à cabeça, deixando a ilusão de sua longa cabeleira loira a iluminar em fachos o coração de Pedro Bala.
Sim, Pedro Bala, é o único que sabe da metamorfose estelar de Dora. O amor dele por ela não era metafísico como o de Professor. Além de noivo, Bala a possuiu e fez dela sua esposa. Sua paixão o fez nadar até o lugar onde Querido-de-Deus jogou seu corpo no mar, e de lá ele teve a revelação de que, mais do que um raio de Sol, Dora era um Sol, era uma estrela, que raiou no Trapiche para fazê-los felizes e que agora cruzaria outras vidas.
O Trapiche adormece. Dora brilha lá fora, e convida seus filhos, irmãos, noivos e esposo a brilharem também. É tempo do destino mudar.
2.2 FILHOS
2.2.1 Gato
Com um pouco mais de treze anos, o Gato foi morar sob o Trapiche e, apesar da pouca idade, já era grande conhecedor da vida de crianças abandonadas, pois vinha do meio dos Índios Maloqueiros, o equivalente aos Capitães da Areia, em Aracaju.
Alvo, rosado, alto, com uma penugem de bigode, um ar petulante e um gingado malandro no andar, Gato era o elegante do grupo.
Uma vez, dissera a Boa-Vida que nascera para o grande mundo. Assim, com essa afirmação, percebemos que não se trata de um vagabundo despreocupado, como Boa-Vida, nem tampouco de alguém que queira evoluir por seus próprios méritos, como Professor. Gato é um vagabundo sim, contudo preocupado em subir na vida… às custas dos outros.
Não que ele faça isso prejudicando alguém, passando por cima das pessoas. Não. Entre os Capitães da Areia há uma lei. Uma lei que jamais foi escrita ou lavrada em cartório e, talvez por isso mesmo, viva em cada um daqueles meninos. Lei moral, livre dos papéis, ativa no heroísmo que exalava dos habitantes do Trapiche.
O Gato tem um paixão. Dalva é 20 anos mais velha que ele e é prostituta. É com ela que ele dorme todas as noites, só ficando de dia nas aventuras com os outros Capitães. Em grande parte, sua escalada social se dá às custas dela.
Foi por causa de seu envolvimento com Dalva, que Gato não desejou, como os outros, Dora, em sua chegada ao grupo. Ao contrário, Gato foi o primeiro a reconhecer, em Dora, a figura materna.
Naquela noite, o Gato estava às voltas com um problema que lhe parecia muito grave: enfiar uma linha na agulha. Ficou rondando Dora, sem se decidir, até que ela mesma perguntou o que ele queria.
Assim, em um átimo, a menina não só havia posto a linha na agulha, como se oferecera para coser a roupa do Gato.
Primeiro o paletó de casemira e depois a camisa, que já estava no corpo dele. Foi neste momento que Gato teve a certeza de que sua mãe voltara.
O toque da mão de Dora em suas costas, causou-lhe um arrepio que ele julgava impossível ter de volta. As mãos daquela mulherzinha que estava ali, a costurar suas roupas, arrepiaram-no involuntariamente.
Aqui, Gato confronta sua mãe e sua amante, em uma atitude tipicamente edipiana. Dalva só o queria para o prazer, para aquele amor despreocupado dos que não amam de verdade. Mas, de repente, ela voltou. A mãezinha de Gato voltou, para costurar suas roupas com suas mãos maltratadas e carinhosas.
O Gato fecha os olhos e percebe que sua existência sem aquela mãe não significou nada. É como se o tempo tivesse parado desde a sua morte. E agora ele tem cinco anos de novo e sua mãe renasceu.
Em sua mente o desejo não encontra mais espaço. Ele só pensa no cabelo louro de sua mãezinha Dora a acarinhar o seu ombro; só deseja que ela o adormeça entre canções de ninar.
O mais importante: o Gato percebe que é apenas uma criança, apesar de viver como um homem.
Ele vai ao encontro de Dalva, com seu segredo explodindo pela alma: reencontrara a mãe morta! A amante jamais entenderia.
Mais tarde, muito depois da segunda morte de sua mãe, o Gato parte para Ilhéus, para viver no grande mundo como um inveterado vigarista, como um irresistível gigolô.
A maioria dos chefes dos Capitães da Areia, se engaja em movimentos nos quais depositam suas esperanças em um mundo melhor. Pedro Bala, Professor, João Grande se tornam comunistas; Pirulito entra para a Igreja; Volta Seca vai para o Cangaço. O Gato não. Ele quer se dar bem a todo o custo. Apesar da convivência entre os Índios Maloqueiros e os Capitães da Areia, ele não visa um apogeu coletivo.
Esse individualismo (quem sabe egoísmo) se deve, tão somente, ao fato do Gato não ter tido quem o ensinasse sobre honestidade e caráter. Com duas mães mortas, ou uma morta duas vezes, o Gato ficou sem guia.
Afinal, quando o estudante Alberto chegou ao Trapiche, convocando-os para a luta por uma sociedade igualitária e justa, o Gato já era conhecido pelos jornais, procurado por todo o sul da Bahia.
2.2.2 Volta Seca
O mais introspectivo dos Capitães da Areia era Volta Seca. O menino do sertão jamais se acostumara com aquela vida urbana. O rosto sombrio, de olhos apertados e boca rasgada, as alpargatas nos pés e o amor imensurável por Lampião (que era seu padrinho) faziam dele um legítimo mulato sertanejo.
Viera para a cidade com o intuito de se libertar da exploração no sertão. Perdeu sua mãe durante a viagem e ao chegar a cidade da Bahia constatou, nas aventuras diárias com os Capitães da Areia, que os pobres são explorados em qualquer lugar, sertão ou cidade.
Assim, o mesmo crescia objetivando apaixonadamente o dia em que se juntaria ao grupo de seu padrim, Lampião, rei do cangaço, para, como ele, vingar todos os pobres – homens, mulheres, crianças.
Com isso, sobrava pouco tempo para Volta Seca sorrir, sendo esse raro momento marcado por suas famosas imitações de bichos. Então, não sorria, trinava como um passarinho a cantar à liberdade.
Volta Seca era uma figura controversa, pois dentro dele conviviam o sangue frio que lhe deu sessenta marcas no fuzil; a religiosidade que o fazia respeitar e admirar o padre José Pedro; um cangaceiro nato; um menino apenas.
O afilhado de Lampião era dividido: corpo na cidade e coração no sertão. Na cidade, ele tinha a amizade de Pedro Bala que quando crescesse seria tão valente quanto Lampião, e no sertão, ele tinha o próprio Lampião, que era o sertão em pessoa.
Quem sempre lia as notícias das aventuras de Lampião e seu bando para Volta Seca era Professor, que assim como ele, assim como todos eles, também amava o heroísmo. Sim, porquê apesar de odiado por muitos, Lampião era, ao mesmo tempo, amado por outros. Era o herói das crianças, “o braço armado dos pobres no sertão” (Amado, 1982a, p. 175).
Então, quando Professor foi estudar no Rio de Janeiro, Volta Seca se entristeceu como se tivessem matado um do bando de Lampião.
O senso de justiça, hierarquia e lealdade ao bando também se comprova em Volta Seca, visto a defesa dele a Almiro, o menino com varíola que Sem-Pernas queria expulsar do Trapiche, sem antes falar com Bala.
Ora, Bala era o líder e, para Volta Seca, cabia a ele a decisão do destino de Almiro. Para o sertanejo, o comportamento de Sem-Pernas comparava-se ao de um soldado de polícia o que, vindo de Volta Seca, não era um elogio.
Outro momento marcante na vida do menino foi a semana em que, junto com Sem-Pernas, fez girar o Grande Carrossel Japonês. O mais curioso e, para Volta Seca, excitante, era o fato de Lampião e seu bando ter rodado, feito criança, naquele mesmíssimo carrossel.
Contudo, apesar de não largar o cavalo colorido usado por Lampião; apesar de ter, ele mesmo, montado o cavalo de seu padrinho, Volta Seca, ao ouvir junto com outros cem Capitães da Areia a música doce e antiga saída do carrossel, não pensa em mais nada além de que é uma criança e aquela melodia que inunda a cidade é só dele e daquelas crianças, donas das estrelas, donas da Bahia.
Desse modo, é nítida a presença de espírito que o cangaceiro exerce sobre o menino, fazendo com que todos os fatos que corriqueiramente sucedem a Volta Seca sejam, de imediato, associados à imagem dele.
Outro exemplo disso é a atitude do menino ao ver Dora chegar ao Trapiche. Volta Seca sentia-se extremamente excitado, como se estivesse, junto com o grupo de Lampião, prestes a deflorar uma filha de fazendeiro.
Porém, Pedro Bala defende Dora e impede que os Capitães da Areia ataquem-na. Nesse momento, Volta Seca assume uma atitude dual pois mesmo dizendo a Pedro que não tinha medo dele, e que só não insistiria porquê ela era uma menina, quando Dora se aproxima para fazer-lhe um curativo, ele a olha com espanto, como se tivesse medo dela.
Sim, como uma mãe, Dora perdoa a inicial agressão de Volta Seca e vai curar suas feridas. A partir daí, o menino passa a observá-la atentamente, constatando que inacreditavelmente aquela menina de cabelos louros, olhos doces e rosto grave era parecida com sua mãe, sertaneja forte, de carapinha rala, olhos achinesados e rosto sombrio. Tudo porquê, em Dora, havia o mesmíssimo sorriso de orgulho de mãe para filho. Inconfundível, indizível. Inesquecível. Tanto quanto a estranha calma do semblante de Volta Seca ao ouvir sua sentença de 30 anos de prisão.
Trinta anos de prisão a uma criança de dezesseis anos com sessenta marcas no fuzil, um padrinho célebre e duas mães.
2.2.3 Pirulito
Ao nomear o peixinho dourado, que Amaro lhe dera de quatorze anos, de Pirulito, Clarissa não fazia idéia da existência, na cidade da Bahia, de um Capitão da Areia que atendesse pelo mesmo nome.
Na verdade, o nome dele era Antônio, por isso e pelo fato dele ter ouvido falar que Santo Antônio era brasileiro, possuía uma imagem do santo junto a de Nossa Senhora das Sete Dores.
Era alto, muito alto, magro, de olhos encovados, cor macilenta e pouco riso.
A fama de ter sangue frio corria de boca em boca, depois de ter enfiado o punhal na garganta de um menino até o sangue do mesmo correr e ele conseguir seus objetivos.
Todavia, Deus veio ao encontro de Pirulito. Pela voz do padre José Pedro, ele ouvia o chamado poderoso de Deus a ecoar por todo o Trapiche.
O Deus de Pirulito tinha duas faces: a do amor e a do temor. O padre José Pedro falou-lhe de Deus-pura-bondade, Aquele que faz os dias lá fora serem belos; contudo, o frade alemão da Igreja da Piedade pregava um Deus justiceiro e castigador, um Deus-justiça que, na cabeça de Pirulito ficou como Deus-vingança.
Sim, a vida de pecado dos Capitães da Areia, tão envoltos com as negrinhas no areal, com os furtos, com as brigas, essa vida pregressa que eles levavam, seria vingada por Deus nas chamas do inferno.
Assim, Pirulito passou a jejuar, rezar mais demoradamente, não ter mais relações com as negrinhas, roubar apenas para sobreviver, não brigar mais. Tudo para merecer o perdão de Deus.
Essa obstinação, devoção ou coisa que o valha, intrigava Sem-Pernas a ponto dele não saber o que sentir em relação a Pirulito.
Sem-Pernas queria alegria, felicidade aqui na terra, não a expressão indefinível (de gozo talvez) do rosto de Pirulito a rezar, como se estivesse no céu, nos braços de Deus, em uma fuga transcendental que, para ele, era covarde demais.
Mesmo assim, Pirulito fora valente ao roubar o Deus Menino daquela loja de uma só porta. Mas, logo ele, que prometera só roubar para comer ou obedecer às leis do grupo, estava ali roubando aquele Menino simplesmente para tê-lo junto a si, para acarinhá-lo com seu amor.
O escultor fez o Menino magro e friorento; pobre como Pirulito. A Virgem da Conceição oferecia o seu Menino a Pirulito e naquele momento ele dribla a visão do inferno, de Deus-vingança, e nina o Menino que sorri, aquecido. Aquecedor.
Então, quando Dora chega e pergunta sobre seus santos, se interessa pela sua vida tão ridicularizada pelos outros, Pirulito apaga a visão de pecado que tinha de Dora. O pecado não mais era a Mulher.
Dora não tinha o riso debochado e convidativo das negrinhas do areal. Não. Ela era apenas uma menina, pobre e órfã como eles. Mais. Era uma mulher mais velha a se interessar carinhosamente pela sua vida.
Mãe. A palavra mãe soa na mente de Pirulito e se materializa em sua frente, no corpo de Dora. Só a sua mãe poderia contar seu segredo. E o faz, iluminado. Quer ser padre.
E, sendo padre, estaria acima dos pecados. Por isso, Deus-pura-bondade o faz, involuntariamente, devolver o Deus Menino à mãe. Não à Virgem da Conceição, mas à Virgem do Trapiche – Dora, purificando assim, o coração dividido, te(a)mor, de Pirulito.
2.3 IRMÃOS
2.3.1 João Grande
O menino João Grande que, por ser um Capitão da Areia, valia como um homem, era o mais alto e forte do grupo. Segundo Pedro Bala, “quem for bom é igual a João Grande, melhor não é…” (Amado, 1982a, p.223), e é por isso que ele se tornou logo um dos chefes do grupo, sempre participando das reuniões da cúpula. Sua bondade assegurava-lhe este lugar, mesmo não sendo possuidor de uma grande capacidade mental, doendo-lhe até a cabeça quando era necessário pensar.
Junto a essa limitação da mente, associa-se a ingenuidade de Grande, que, apesar da vida adulta que levava, ainda tinha espaço para se encabular quando Bala o elogiava; para não entender o duplo significado das palavras de Gato; para admirar Pedro e Dora como a super-heróis.
Para, afinal, expor a relação de João Grande e Dora, resolvemos traçar um paralelo da vida de ambos, com o intuito de clarificar a fraternidade entre os dois, que vai muito além de Dora o chamar de meu irmão.
Tanto Dora quanto João Grande viviam no morro com seus pais até que estes morreram. O pai dele, carroceiro, morreu pegado por um caminhão; os pais dela e de Zé Fuinha foram vitimados pela varíola. Desde então, não voltaram mais para o morro, indo em busca da liberdade que exalava da cidade. Mesmo tendo sido em épocas diferentes (João Grande ficou órfão aos nove anos e Dora aos quatorze), o elo se fecha em torno deles quando, juntamente com Professor, Grande leva Dora e seu irmão para viver entre os Capitães da Areia. Quatro anos após sua desgraça pessoal, João vislumbra sua repetição em Dora e tem a oportunidade de dar-lhe o conforto que ele não teve.
Outro aspecto comum aos dois, é a admiração nutrida por ambos por Professor e Pedro Bala. Professor, por ser o fio condutor da intelectualidade entre os Capitães; por ler para eles, todas as noites, as mais batutas histórias de aventura e amor; por plantar, através dos livros, a paixão pelo heroísmo que incendiava os corações daqueles meninos. Pedro Bala, por ser, ele próprio, a personificação do heroísmo, o mais valente e destemido dos Capitães da Areia – o líder.
Viés não menos importante de comparação é o que atenta para o fato de João Grande ser uma espécie de pai dos pequenos do grupo, que encontravam nele o mais valoroso defensor das agressões dos mais velhos; e de Dora ser a mãezinha dessas crianças, mesmo que inconscientemente, costurando suas roupas, acalentando suas noites, incentivando seus feitos.
Mais adiante, notamos duas atitudes paradoxais das personagens. João Grande que, desde a chegada de Dora, se transformara na sombra da menina, ao ver a morte rondas os olhos de grande paz de sua irmã, apesar de sofrer uma dor dilacerante no coração, ainda procurava sorrir, para animá-la. E Dora, mesmo sentindo a morte a lhe invadir, jurou viver se Pedro Bala a possuísse em seu amor.
Enfim, ao ver Dora morta, João Grande chorou como uma mulher, momento este, que consiste na total aproximação da realidade de ambos. João Grande deixa aflorar seu lado feminino, chorando como se fosse a própria Dora, única figura feminina entre eles.
Nota-se também o mesmo destino para os meninos: o mar. Enquanto Dora, morta, foi jogada ao mar, João Grande, com o passar dos anos, embarca no Lóide, como marinheiro. Então, virada estrela, Dora reflete no mar e acompanha seu irmão na mais bela aventura (mais bela até que as contadas por Professor): a vida.
2.3.2 Boa-Vida
Apesar de ser um dos oito Capitães da Areia que ganharam destaque pelo narrador, Boa-Vida não ganha grande conjecturas a respeito de sua existência, como ocorre com os outros.
Ele é um coadjuvante, uma agulha a costurar os tecidos da trama. Prova disto é que o malandro é quem leva o Gato para o Trapiche, aproxima o padre José Pedro do grupo, indica a família da Graça ao golpe de Sem-Pernas.
A verdade é que o mulato pachola, troncudo, feio e sem sorte com as mulheres, era uma parasita. Boa-Vida não gostava de nenhum tipo de trabalho, fosse ele honesto ou desonesto.
Daí, comendo na casa de um, bebendo na festa de outro, o malandro ia levando a vida na flauta (ou melhor, no violão), ajudando periodicamente o Trapiche, em um esforço sobrenatural ante a sua preguiça, roubando algo valioso e entregando diretamente às mãos de Bala.
Afinal, apesar de no seu pensamento o trabalho ser algo absolutamente dispensável, ainda prevalecia no menino o senso de lealdade ao grupo dos Capitães da Areia.
Sim, também ele era apenas um menino, todavia, como os demais, agia como um homem. Não só em sobrevivência, mas também em dignidade. Foi assim então que Boa-Vida foi para o lazareto (o que era o mesmo que ir para a morte), no momento em que viu seu corpo todo pintado pela bexiga.
Ora, ele mataria cada um dos Capitães da Areia se ficasse com varíola no Trapiche. Logo, assim como Pedro Bala conheceu o inferno na cafua do Reformatório, Boa-Vida desde às chamas do lazareto, lugar onde os pobres deveriam ser curados (triste ironia), contudo de onde não voltariam jamais.
E pode até parecer irritante, repetitivo, mas o fato é que não devemos esquecer que Boa-Vida é um dos Capitães da Areia e vale mais que um homem, pois é um menino a viver como homem. Foi pura e simplesmente por isso que ele voltou ao Trapiche.
Magro, rosto ossudo, corpo todo picado pela bexiga, de todas as mudanças que Boa-Vida trouxe consigo, a mais bonita, a unicamente bela, só foi vista por Professor (que a essa altura, bem poderíamos chamar de Observador): no lugar do coração, brilhava uma estrela. Aquela estrela que o Querido-de-Deus sempre disse que brilha no coração dos homens valentes.
Eis aqui a figura do ídolo de Boa-Vida: o saveirista Querido-de-Deus. Boa-Vida será o Querido-de-Deus dos futuros Capitães da Areia. Será um malandro completo, tocador de violão, inimigo do trabalho, capoeirista, enamorador de cabrochas e, marca dos Capitães da Areia de seu tempo e de todos os relógios e tempos possíveis, sempre terá um bom coração, faiscante como estrela.
Então, de estrela em estrela, constelamos Boa-Vida e Dora, em uma relação fraterna onde não se precisa demonstrações de sentimento, como nas relações de mãe e filho, noivos, marido e mulher. Para os irmãos basta o saber, o conhecimento de que aquele amor existe. Irmãos não precisam agir ou falar eu te amo; irmãos tão somente sabem que, uma vez existente o laço fraterno, sempre se amarão.
Essa certeza só veio para Boa-Vida quando Dora foi ao encontro dele e fez um curativo no talho deixado por João Grande. Assustado, meio a medo, o menino deixou sua irmã curar suas feridas.
Tinha medo o mulato, pois não entendia o por quê daquela ajuda, afinal, ele havia sido ferido pois queria, junto com a maioria do grupo, derrubar Dora, como fazia com as negrinhas no areal. O desejo era tão cego que ele não reconhecia que aquela era apenas uma menina, que aquela era (qual o contrário de apenas?) uma irmã.
E apesar de todos aqueles meninos serem como irmãos, a presença de uma irmã era algo doce, algo como um sonho bom, um céu azul, um Sol dourado, tão dourado quanto o cabelo de Dora.
Assim, em pouco tempo, Boa-Vida também era chamado de mano, de irmão por Dora. Chamado e amado. Tanto que, apesar de sua aversão por esforço, ele estava lá, na briga dos Capitães da Areia contra o grupo de Ezequiel, que surrara Bala e ofendera Dora. Também ele amava-a.
Foram para a luta, cantando, rindo, felizes como se fossem a uma festa. Foram muito juntos, unidos, como se fossem irmãos de sangue. Foram absolutamente irmãos de amor.
Amor então, nada a dizer, tudo a sentir.
2.3.3 Sem-Pernas
De todos os Capitães da Areia, a figura mais intrigante é, sem dúvida, a de Sem-Pernas. Odiá-lo ou amá-lo é uma questão de segundos, criando-se assim um emaranhado de sensações acerca do menino coxo, de voz estrídula e fanhosa.
O Sem-Pernas vivia burlando de todos, “mesmo de Professor, de quem gostava, mesmo de Pedro Bala, a quem respeitava” (Amado, 1982a, p.33). Contudo, esse gesto não passava de uma fuga. Fuga daquela vida miserável, dolorosa, triste, revoltante… Fuga, diferente da de Pirulito, que afugentava-se nos braços de Deus, levando consigo uma exaltação no rosto e no coração.
Mas aquela exaltação não bastava para o Sem-Pernas. Ele queria alegria, felicidade; algo que não o fizesse mais ter que rir de tudo e de todos, algo que o livrasse da angústia e da vontade de chorar nas noites de inverno. Algo como paz.
A paz que sentiu ao girar no carrossel de Nhozinho França, aquele homem bêbado que para o Sem-Pernas era tão extraordinário quanto Deus, quanto Xangô, porquê fizera o “milagre de o chamar para viver uns dias junto a um verdadeiro carrossel” (Amado, 1982a, p.59). Brinquedo tantas vezes sonhado e sempre diluído por adultos que jamais enxergaram que, por trás dos farrapos, do ódio no olhar, ia uma criança.
Então, é um Sem-Pernas cheio de ternura de criança que roda naquele carrossel velho e desbotado que, aos olhos de todos os Capitães da Areia, é a coisa mais linda do mundo. O Sem-Pernas vai repleto de uma estranha comoção, “girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza” (Amado, 1982a, p.62).
Ironicamente, tempos depois, o Sem-Pernas vê este devaneio se tornar realidade. Em mais um dos golpes do bando, o menino se infiltra em uma casa de família da Graça, valendo-se de seu defeito físico e da pena que ele causava nas pessoas.
Assim, dona Ester recebe o Sem-Pernas, ou melhor, Augusto. Coincidência romântica, o nome inventado pelo Capitão da Areia era o mesmo do filho que ela perdera. Para a senhora, o filho voltara macilento, andrajoso, triste, a lhe pedir abrigo.
Então, o Sem-Pernas vive os melhores dias de sua vida, com roupas novas, comida, um quarto só para ele. Porém, o que mais lhe prendia ali, era aquela sensação de amor, aquela sensação morna de lar, de família; a alegria e a felicidade que ele tanto desejara e que se traduziam no carinho maternal com que dona Ester o envolvia.
Entretanto, o Sem-Pernas tem a marca dos Capitães da Areia no peito. Eles eram sua família, as únicas pessoas a quem ele não odiava, seus irmãos naquela vida abandonada. Não podia traí-los. Apesar de ter aberto uma exceção no seu ódio à gente daquela casa da Graça, havia a lei dos Capitães da Areia, aquele código de honra já esquecido pelos homens, tão entranhado naquelas crianças.
Desse modo, o Sem-Pernas volta para o Trapiche, fiel à lei dos Capitães da Areia, todavia sente que traiu dona Ester, sua mãezinha e, o pior, sente ter traído a si próprio.
Daquele momento em diante o ódio de Sem-Pernas aumentou. Não havia ninguém mais arredio e briguento que ele no Trapiche. Arranjava confusão com todo mundo; só respeitava Pedro Bala. Todo o amor que acumulara ao abrir mão de dona Ester, o Sem-Pernas dedicava a um cachorro que aparecera no Trapiche.
Seguia o Sem-Pernas como um louco, a falar e lidar com o cão, até o surgimento de Dora.
Com a chegada da menina, o Sem-Pernas ganha espaço para extravasar seu ódio, incitando o bando a violentar Dora. Contudo, ele ainda respeitava Bala e assim, acatou a ordem do chefe de deixar a garota em paz.
A partir daí, nasce uma relação fraterna entre Sem-Pernas e Dora, a ponto do menino abrir mão de seu cachorro e dá-lo de presente a ela.
Sem-Pernas se comportava como um irmão mais novo, a admirar os feitos e qualidades da irmã mais velha. Admiração tamanha que o fez compará-la à Rosa Palmeirão, a mulher mais valente de quem se tinha notícia.
Dora agradece o elogio com um singelo “ – Obrigado, mano” (Amado, 1982a, p.166). E mais do que o obrigado, mano soa na mente do Sem-Pernas como um bálsamo sobre aquelas antigas dores, pois ele abriu mão de sua mãezinha, mas ganhou “uma irmã que diz palavras boas e brinca inocentemente” (Amado, 1982a, p.166). Porém, acima de tudo isso, Dora foi a grande responsável pela reintegração de Sem-Pernas ao grupo. Por ela, também ele lutou contra o grupo de Ezequiel e, quando Dora e Pedro fora presos no orfanato e no Reformatório, Sem-Pernas ficou como chefe dos Capitães da Areia, tendo papel decisivo na libertação de ambos.
Depois da morte de Dora, Sem-Pernas se envolve com uma terceira mulher, em um estágio carnal nunca antes conhecido por ele.
O menino estava lá para dar um golpe em Joana, mas ela queria as migalhas de amor dele, queria o corpo de Sem-Pernas contra o seu, as mãos dele sobre a sua pele sem contudo, se permitir o amor total por medo de sua honra de vitalina ser deposta por uma inesperada gravidez.
Ao contrário de Ester e Dora, Joana incita cada vez mais o ódio em Sem-Pernas, com aquele amor incompleto. Então, cansado das noites de batalha, de guerra contra os pudores da vitalina, “Sem-Pernas durante o dia a odeia, se odeia, odeia o mundo todo” (Amado, 1982a, p.206).
Em nome desse amor ao ódio que o fazia forte, é que Sem-Pernas se joga do elevador Lacerda ao se ver encurralado pelos policiais. Sua gargalhada cheia de ódio é o arremate de sua vingança. Não seria um troféu para nenhum guarda. Antes, ser trapezista de circo, mesmo que não alcance o outro trapézio.
Na platéia, o único ser que o Sem-Pernas conseguiu amar e que o amou como ele realmente era – o cachorro dele.
2.4 PROFESSOR
Ao ler pela primeira vez a história dos Capitães da Areia, julgamos o amor de Professor por Dora algo como platônico e idealizado. A utilização da palavra noiva para definir a imagem que a nossa heroína representava na mente de João José, remete propositalmente à idéia de pureza e inocência que envolve as relações marcadas pela platonicidade.
Contudo, após idas e vindas, leituras e releituras, como no sobe-e-desce das ladeiras da cidade da Bahia, vimos essa primeira impressão ruir.
É necessária aqui a melhor visualização de Professor, não mais como parte integrante do grupo e sim, como um todo, na pessoa física que ele é.
Apesar de viver em um bando cuja fonte de subsistência principal era o furto, Professor pode ser considerado o bom moço dos Capitães da Areia. Isso se deve ao seu hábito de leitura; a genialidade com que arquitetava planos, o que fazia com que o líder não tomasse uma medida sem antes consultá-lo; ao espírito de amizade que possuía, que o fazia ser querido de Bala a Sem-Pernas, ícone do sentimento de ódio e revolta da obra; a vocação artística para a pintura que, antes de admirar, chocou a todos com as impressões fortes da vida nada impune que teve sob o Trapiche; e até mesmo ao fato de seu aspecto físico ser franzino, míope e, por que não dizer, frágil.
Mesmo assim, seria perigoso afirmar que o sentimento de João José por Dora era platônico e idealizado.
Ninguém melhor do que Professor observou as multifaces de Dora, convivendo diariamente com ela e se apaixonando justamente pela ingenuidade plena dos atos da menina.
O que se torna visível é que o amor de Professor, comparado ao de Pedro Bala, é de uma natureza mais branda, serena.
Ele sente inveja da felicidade de Pirulito quando este vislumbra a mãe em Dora, pois já sente que no coração dele não há mais espaço para um amor filial e sim, nupcial, e por também saber que esse tipo de amor, amor de noiva, Dora nutria por Bala.
Como havíamos dito antes, Professor prezava muito a amizade e, devido a isso, em nenhum momento se indispôs com Pedro por causa de Dora. Eis aí o ponto em que esse amor assume um caráter sublime, transcendental até.
Ao usar a palavra transcendental nos damos o direito de fazer a seguinte observação em “…para ele, ela também não era uma mãe. Também para o Professor ela era a Amada” (Amado, 1982a, p.161), é notável o uso da letra maiúscula no meio da frase, servindo para imprimir um elevado grau de importância a quem o título refere-se, assim como faziam os simbolistas que, além disso, cultuavam a sublimação e a transcendentalidade do amor, fazendo-o mais anímico do que físico.
Professor queria um olhar de Dora. Um daqueles olhares plenos de amor que ela só lançava a Pedro Bala. Em nenhum momento temos o menino desejando o corpo, os beijos, o calor de Dora. Ele admira sua valentia, seu instinto maternal, seu sorriso fraterno, seu cabelo dourado.
Quando Dora morre, o Trapiche perde todo o encanto para Professor. Ele vai estudar no Rio, mas leva consigo a marca dos Capitães da Areia, e é essa marca que o faz abandonar o pintor que lhe ensinava formas acadêmicas, e ir pintar por conta própria seus quadros.
Quadros que espantam e fascinam. Quadros onde todos os sentimentos bons sempre são representados por uma menina loura, magra e de faces febris.
Então, são nesses quadros que Professor ama Dora. Porque ele pode ter fugido do Trapiche, mas sua Amada não fugiu de sua alma e da expressão concreta em que ela se exibe: a sua arte.
2.5 PEDRO BALA
A palavra liberdade está para Jorge Amado assim como a palavra revolução está para Capitães da Areia. Então, que palavra poderia estar para Pedro Bala?
Bala é o líder. Traz nos olhos e na voz a autoridade de chefe e, devido a isso, Raimundo, o Caboclo, não durou muito na chefia do grupo desde a chegada de Pedro.
Apesar de ser mais jovem, Pedro era mais ativo, sagaz, astuto. E, tendo Raimundo marcado seu rosto para o resto da vida com uma navalhada, Bala também o marcou para sempre, tirando dele a liderança do bando, na luta mais incrível que a praia do cais já presenciou.
A partir daí, a cidade começou a ter notícia dos Capitães da Areia, meninos de rua que viviam do furto.
Pensamos que Professor é a cabeça do grupo; Dora, o coração; e Pedro, o espírito. Um espírito valente, forte, cheio de esperança e de vontade. Mas, vontade de que?
No início, sua função era apenas a de chefe dos Capitães da Areia. E um Capitão da Areia é mesmo que um homem. Bebida, fumo, brigas, mulheres, roubos, a vida deles era recheada dessas palavras que soam bem em um contexto adulto.
Então, como um divisor de águas, a chegada de Dora atinge incontestavelmente a vida desses meninos e muda por completo o destino deles.
Cabe aqui a palavra inspiração para definir Dora.
Quando ela chegou ao Trapiche, trazida por João Grande e Professor, todos, inclusive Bala, pensaram em derrubá-la como faziam com as negrinhas no areal do cais. Depois compreenderam que ela era uma menina e respeitaram-na.
Foi aí que Dora se tornou uma mãezinha para todos. Uma irmã, companheira nas aventuras pelas ruas da cidade da Bahia.
Todavia, para Pedro Bala ela sempre tivera um significado diferente. Para ele, era noiva.
Apesar de um noivado puro, onde ficavam de mãos dadas, conversando amenidades e sorrindo um para o outro, Bala a desejava também. Desejava possuí-la, mas não por uma noite apenas e sim, por todas as noites de sua vida, como se possui uma esposa.
Seu noivado porém, é interrompido abruptamente. Pedro Bala é preso no Reformatório e Dora é levada para o Orfanato.
Após ser surrado, Pedro Bala é confinado na cafua, um pequeno quarto debaixo da escada, onde ele não tem o direito de ficar em pé, assinalando assim um castigo pior do que surras, fome ou escuridão: a tomada de sua dignidade humana. Pedro é reduzido a um homem-cobra, como aquele que vira, certa vez, no circo.
Um bicho, um animal, todos poderiam ser dados como isso ao serem aprisionados na cafua. Contudo, não podemos esquecer que Pedro Bala é o Líder. Ele é o chefe dos Capitães da Areia e é capaz de suportar toda e qualquer adversidade.
Em todo o tempo que Bala passa na cafua, seu pensamento está em Dora. Dora também era sinônimo de liberdade naquele momento.
Logo, quando consegue fugir do Reformatório, nu, pela gélida madrugada afora, rumo ao Sol, rumo à liberdade, Pedro Bala rapta sua noiva do Orfanato e a devolve aos seus filhos e irmãos no Trapiche.
Mas a febre a consumia. Um mês no Orfanato fora o bastante para apagar nela a vontade de viver. Não adianta a reza forte da mãe-de-santo Don’Aninha, nem tampouco o tremor com receio de perdê-la dos Capitães da Areia.
A grande paz da noite da Bahia está nos olhos da menina. A menina que se tornou moça no Orfanato. A mulher mais valente da Bahia por justamente ser uma menina. Mãe, irmã, noiva dos Capitães da Areia. Agora, ela é também esposa de Pedro Bala.
Quando Dora afirma que não morrerá se ele a possuir, inconscientemente, está marcando irreversivelmente a vida de Pedro.
Assim como revive a cada novo quadro de Professor, Dora sempre cruza o coração de Pedro Bala, o seu mais belo amado, quando este se põe a vislumbrar o céu estrelado de Salvador.
Sim, pois só ele quis morrer com ela e só ele viu quando ela se transformou em uma estrela de longa cabeleira. Então, a certeza de que ela estaria sempre ali, velando e acalentando suas noites, fez com que ele renascesse das Terras do Sem Fim de Yemanjá, do mar verde e cinza e azul de Janaína que, assim como Dora fora para os Capitães da Areia, é a mãe de todos os filhos da cidade da Bahia.
Nesta passagem, visualizamos o mar como um útero. Ora, a comparação da água morna do mar com o líquido uterino já foi bastante difundida, no entanto, esse mar que acolhe os corpos de Dora e Pedro, sintetiza todo o espírito materno pois é igualmente transformador e protetor.
Dora, ao morrer, retorna ao útero da mãe, que dessa vez não a transforma de semente em criança, mas de mulher em estrela, remetendo-a ao céu para, juntas – céu e mar – mães, aconchegarem a terra em um abraço.
Sob a terra, Pedro, renascido também das entranhas protetoras do mar, transforma-se em um homem sem destino definido, mas possuidor de duas estrelas: a do céu e a do coração.
Pedro Bala queria morrer no mar que levava o corpo de Dora, mas Janaína só mata aqueles que a desafiam, não os apaixonados, os amantes, como Dora e Pedro. Esses, são acolhidos como filhos, com amor.
Eis que surge o futuro a sua frente. Bala e os outros líderes do grupo cresceram. Um a um, vão seguindo o destino. Bala é um dos últimos a decidir que rumo dar a sua vida e a demora dessa decisão de certa forma o angustia.
“Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta” (Amado, 1982a, p.202). Pedro é filho de Loiro, estivador como João de Adão, que morreu em uma das greves das docas, lutando por sua classe.
Em uma imagem, de um certo aspecto, piegas, Pedro Bala segue os passos do pai, engajando na organização onde comandaria uma brigada de choque que intervém em comícios, greves, lutas obreiras.
Não à toa seu nome é Pedro. Assim como o Apóstolo Simão, pedra fundamental da Igreja Católica, ao ser nomeado Pedro por Jesus, saiu a propagar e consolidar o Cristianismo entre os povos, o que do prisma religioso foi uma revolução, Pedro Bala também sai a divulgar seus ideais comunistas com o desejo de que, como o poeta Thiago de Mello (1997, p.22) tão bem expressou, “a liberdade seja algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada seja sempre o coração do homem”.
Assim, além de traçar seu destino, Bala também muda o destino das outras crianças do país inteiro. Ou, pelo menos, acredita que pode mudar. É jovem e ainda se permite sonhar.
Capitão Pedro agora é Camarada Pedro Bala e a palavra-chave para definir o heróico amado de Dora é companheiro.
Para ele, essa é a palavra mais bonita do mundo. O estudante Alberto chama companheiro como Dora dizia irmão.
Dora. Sempre ela. A primeira e mais doce revolução que se alastrou em Bala. A definitiva revolução.
3 DORA NO UNIVERSO FEMININO DAS FIGURAS DE JORGE AMADO
“O modo como essas mulheres conseguem enfeitiçar-nos com toda a perfeição psíquica concebível até atingirem seus propósitos é um dos grandes espetáculos da natureza”
Sigmund Freud
3.1 DO CHEIRO DE CRAVO, DA COR DE CANELA
“Estava para sempre cravada em seu peito, cosida em seu corpo, na sola dos pés, no couro da cabeça, na ponta dos dedos”
Jorge Amado
Gabriela foi a primeira personagem feminina amadiana a ser o centro de uma narrativa. Desde o título da obra, percebemos que até as disputas dos coronéis do cacau ficam em segundo plano, cedendo espaço à amada de Nacib.
Devemos levar em conta também que “sua construção está lastreada em várias figurações anteriores de um feminino que tinha sempre destacada sua força” (Duarte, 1997, p.94).
Esse feminino anterior está presente nos romances sociais de Jorge Amado, componentes da primeira da primeira fase de sua obra.
Com Gabriela, Cravo e Canela, o autor adentra às crônicas de costumes, priorizando o enfoque das relações humanas e conservando, contudo em segundo plano, a preocupação com o aspecto social.
Dora exercia uma função quadridimensional, sendo mãe, irmã, noiva e esposa dos Capitães da Areia. Já Gabriela visualizava em Nacib esse caráter pluridimensional. “Para ela seu Nacib era tudo: marido e patrão, família que nunca tivera, o pai e a mãe, o irmão que morrera apenas nascido” (Amado, 1982b, p.289).
Assim como Dora era no Trapiche, Gabriela era no Vesúvio, a única figura feminina a interagir em um universo masculino.
Dora era a onda que batia nos alicerces do Trapiche, amornando o viver dos Capitães da Areia. A água, segundo Bachelard, dessedenta. Os Capitães da Areia estavam sedentos de amor e Dora veio saciá-los pois, no “devaneio da água, a água converte-se na heroína da doçura e da pureza” (Bachelard, 1989, p.158).
Por outro lado, Gabriela é a lava quente e furiosa do Vesúvio, a se alastrar pelo juízo dos homens de Ilhéus.
Chegamos então ao ponto dos elementos astrológicos e das funções psicológicas associadas aos mesmos.
Hamaker-Zondag (1988, p.54) nos afirma que:
O ser humano está ajustado para exercer todas as quatro funções psicológicas e elas o capacitam a se orientar no aqui e agora de maneira tão eficiente quanto o comprimento e a largura possibilitam que se oriente no sentido geográfico. A experiência, no entanto, ensinou-lhe que é sempre à base de apenas uma dessas funções que ele se ajusta à realidade.
As funções psicológicas são vertentes de duas polaridades: racional – pensamento e sentimento; e irracional – percepção e intuição.
O par racional abrange caracteres apreciativos e concernentes a julgamento de valor, não tendo, o par irracional, nenhum julgamento conectado as suas observações.
Atribuímos desse modo, o elemento astrológico água a Dora, pelo temperamento fleumático da noiva de Pedro Bala, a lidar com paciência, solidariedade e sabedoria com os Capitães da Areia.
A serenidade do mar esverdeado a lamber as pernas do Trapiche, vem encher de esperança a vida daqueles pequenos homens.
Dora é racional. É uma mulherzinha de rosto muito sério a costurar, acarinhar, roubar, gargalhar com os Capitães da Areia, recheando a vida desses meninos de sentimentos bons, esquecidos na luta diária nas ruas da cidade da Bahia.
O elemento fogo vem representado por Gabriela. É de se estranhar a associação de um temperamento colérico à doce Bié, todavia, se levarmos em conta sua ida ao circo, sua ajuda ao negro Fagundes, seus ensaios no Terno de Reis, ações feitas sem o conhecimento de Nacib, podemos afirmar que tais atos constituem uma cólera surda que atingiria seu ápice na traição de Gabriela com Tonico.
Mas, afinal, traição seria uma palavra adequada à índole de Gabriela?
Vislumbramos Gabriela como um pássaro escarlate voando rumo à liberdade anil do céu. Como um pássaro, ela é intuitiva e irracional, vai sempre em direção de uma “vida ingênua e sem preconceitos” (Hamaker-Zondag, 1988, p.65).
Desse ponto de vista, Gabriela foi, tão somente, honesta e leal a si mesma, a seus instintos.
Ela sabe que é um objeto desejado e, ao mesmo tempo, é um sujeito desejante que, “pela fidelidade ao eros, se afirma enquanto tal a ponto de trocar o casamento pelo prazer e a segurança do lar por um momento de gozo” (Duarte, 1997, p.96).
Assim, Gabriela não é um objeto sexual apenas; é também uma trabalhadora operosa, cozinheira ou costureira que, apesar dos convites mil, nunca se rendeu a homem nenhum por dinheiro e sim, por prazer.
Já em Dora, a sexualidade e a sensualidade vêm acometidas de traços puros e ingênuos. A primeira e única experiência sexual da menina é movida muito mais pelo amor do que pelo tesão. Ela age naturalmente, com o desejo doce de ser unicamente a esposa de Pedro.
Notamos nas duas personagens uma metamorfose, um rito de passagem.
Em Dora, o agente transformador é a água do mar. Quando ela morre, seu corpo é jogado ao mar, retornando assim ao útero materno, aos braços da mãe de todos os santos, Yemanjá. Ela, Dora, a menina que foi mãe daqueles homens mais meninos, agora também tinha sua mãe.
Entretanto, a missão de uma mãe é muito mais árdua da de uma filha e assim, Dora sai das águas uterinas de Janaína, para cruzar o céu dos Capitães da Areia e zelar mais atentamente por eles. Por Gato, por Boa-Vida, por Professor, por Pedro Bala – uma estrela adorada de longa cabeleira loira.
Em contrapartida, Gabriela se metamorfoseia com o casamento, tornando-se a Sra. Saad, transformação essa que operou de forma negativa na essência da mulata, pois “tem certas flores que são belas e perfumadas enquanto estão nos galhos, nos jardins. Levadas pros jarros, mesmo jarros de prata, ficam murchas, morrem” (Amado, 1982b, p.233).
Então, “tudo quanto Gabriela amava ah! era proibido à Sra. Saad. Tudo quanto a senhora Saad devia fazer, ah! essas coisas Gabriela não as tolerava” (Amado, 1982b, p.289). Por isso foi fiel a si mesma, por isso voltou a ser só Gabriela, mulher-enigma tal qual Capitu; tal qual “o amor que não se prova, nem se mede. Existe e basta” (Amado, 1982b, p.316).
3.2 DA MULHER DE VADINHO E TEODORO
“Por que optar se quero as duas coisas? Por que, me diga?”
Jorge Amado
Em 1966, Jorge Amado apresentou a seu público a mais barroca de suas personagens femininas: Dona Flor.
Ela tem a dualidade no coração – “o comedido Dr. Teodoro e o excessivo Vadinho” (DaMatta, 1997, p.121), e resolve esse impasse com uma atitude antitética: escolhe não escolher, decide não decidir, pois afinal, precisava de ambos para ser feliz.
Com base no estudo de Hamaker-Zondag (1988, p.70), concluímos que Dona Flor pertence ao elemento ar pois “esse elemento é adequadamente o elemento de união, muito embora o comportamento seja inegavelmente dualístico em algumas ocasiões”.
Ora, Dona Flor vive em um impasse dual porque sua moralidade não admite ser mulher de dois maridos ao mesmo tempo. Todavia, o sentido de unidade nela existente impera e faz com que ela opte pelos dois.
Já em Capitães da Areia, percebemos essa moralidade velada no comportamento de Dora em relação a Pedro Bala e Professor. Assim como Vadinho e Dr. Teodoro, os meninos também eram diferentes em quase tudo. A vivência das ruas e o amor por Dora era o que de mais forte os unia. Mesmo assim, a menina só tinha olhos para Bala, “para ele era tudo: esposa, irmã, mãe” (Amado, 1982a, p.160).
Notamos com isso os traços românticos das primeiras obras de Amado – segundo Mário de Andrade, a morte também é prova disso – e a maior elasticidade com que ele passa a lidar com o sentimento de suas personagens em suas crônicas de costumes.
Dona Flor possui um temperamento sanguíneo. Ativa e vigorosa, tem o amarelo como cor fundamental, exalando alegria e ânimo como um girassol pelas ruas doces e coloridas da cidade da Bahia.
A dona da escola de culinária “Sabor e Arte” agia guiada pelos pensamentos, sendo a personificação da razão para o irresponsável Vadinho e para o ingênuo Teodoro. Nesse ponto, Dona Flor aproximava-se de Dora que também era p eixo racional que, sentimentalmente, iluminava o caminho do Capitães da Areia.
Outro aspecto comum entre as personagens é o saldo positivo que ambas obtiveram de suas metamorfoses naturais. Enquanto Dora, por meio das águas maternais do mar, renasce como uma estrela de loira cabeleira, continuando em outro plano sua missão de clarificar a existência dos meninos do Trapiche, Dona Flor, com seus dois casamentos, atinge a unidade de dois pólos que, aparentemente opositores, eram, na verdade, lados complementares de uma mesma moeda – a da felicidade.
Dona Flor carrega consigo toda uma sensualidade colorida do alto de seus trinta anos e de sua convivência com dois maridos. Dora é uma menina órfã, teimando em viver, tentando ser feliz apesar dos dissabores.
Mesmo com a aproximação de ambas no que tange a divisão entre dois amores; o racional a movimentar seus atos; e a positividade de suas transformações ao longo da vida, não podemos ignorar aquele que é o traço mais contundentemente oposicional entre ambas: a maternidade.
Dona Flor, mulher feita, mesmo consciente da paixão que Vadinho nutria por crianças, nunca se encorajou a submeter-se a uma cirurgia que revertesse sua dificuldade em ter filhos.
Por medo ou por um surdo egoísmo, Dona Flor abdicou da maternidade, negando aos seus maridos e a si mesma essa alegria.
Em Dora, nascida sob o signo do elemento água, a função maternal é mais significativa, agindo na menina mesmo que de forma inconsciente
Afinal, “dos quatro elementos, somente a água pode embalar. É ela o elemento embalador. Este é mais um traço de seu caráter feminino: ela embala como uma mãe” (Bachelard, 1989, p.136).
Assim, Dora é uma mãe virginal, uma nossa senhorazinha, como diria Vinicius de Moraes; uma mãe no sentido sentimental da palavra. A mãezinha que costurava as roupas de Gato, a sertaneja que temia pelo futuro de Volta Seca, a mãe que encorajava Pirulito, a terna mãe que acalentava o sono de Zé Fuinha e de todos os pequeninos do Trapiche.
Não podemos esquecer contudo, que também Dora era órfã; também ela precisava de uma mãezinha, e essa redenção só vem com sua morte, quando “a água leva-a, a água embala-a, a água adormece-a, a água devolve-a a sua mãe” (Bachelard, 1989, p.136), à mãe daqueles que amam a Bahia, com todos os seus encantos e mistérios: Janaína.
Os mesmos encantos e mistérios que fizeram Vadinho se unir a Teodoro naquele que é o ideal do bem viver: o casamento daquilo tudo que é maldito e lindo com o que é correto e tedioso – o casamento de Dona Flor e seus dois maridos.
3.3 DA LUZ DE TIETA
“Durou pouco a placa azul, sumiu durante a noite. Em lugar dela pregaram uma de madeira, confeccionada por mão artesanal e anônima: RUA DA LUZ DE TIETA.
Mão artesanal e anônima. Mão do povo”
Jorge Amado
Com Tieta do Agreste, Jorge Amado nos envolve em mais uma crônica de costumes, e desta vez com um requinte a mais: traços naturalistas na escrita.
Ora, Tieta menina era pastora de cabras; Tieta mulher era pastora de prostitutas.
Sim, a filha pródiga do Agreste era dona do Refúgio dos Lordes, bordel refinado de São Paulo. As meninas que lá trabalhavam, chamavam-na de Mãezinha, sendo Tieta enfim, assim como Dora, mãe de uma minoria marginalizada. Dora era a mãezinha de pequenos ladrões e Tieta, de jovens prostitutas.
Podemos abranger essa comparação e dizer que Dora era também uma e Tieta, era também uma prostituta.
Ambas saíram de casa muito cedo. Os pais de Dora foram fatalmente vitimados pela varíola e ela, junto com Zé Fuinha, se viu sozinha no mundo. Já Tieta, foi surrada e expulsa de casa em um exercício de moralidade que Zé Esteves não praticava em sua própria vida.
Logo, afastadas do convívio familiar, Tieta e Dora, ambas meninas, passam a ser marginais, a viver à margem da sociedade.
Contudo, enquanto Dora roubava os outros para sobreviver, Tieta roubava a si mesma, entregando seu corpo aos homens. Dora é uma virgem romântica; Tieta é uma cabra naturalista. Não se pode condenar ou louvar portanto, a atitude de nenhuma das duas. Devemos tão somente entendê-las a partir da cronologia bibliográfica de Jorge Amado e de seu amadurecimento de autor, sendo mais profundo em sua análise do elemento humano em suas crônicas de costumes sem deixar no entanto, de questionar o aspecto social que os envolve.
Por terem sido retiradas abruptamente do seio familiar, ambas sentem a chama do eterno retorno a arder em suas vidas.
Dora retorna, através da morte, ao útero materno, ao mar da cidade da Bahia. Tieta, mulher feita, volta à Sant’Ana do Agreste para, mais que ser recolhida pelo mar de areia de Mangue Seco, ajustar contas com o seu passado, enfrentar seus algozes de igual para igual e sarar as feridas de seu peito.
Tieta herdou de Mangue Seco a força do elemento terra, a melancolia do reflexo branco da areia a se harmonizar com a liberdade azul do céu da Bahia. Completando essa pintura, temos o verde e sereno mar maternal de Dora e, a própria Dora, a cruzar o céu quando este já está envolto pela noite.
Assim, água e terra irão metamorfosear ou, para utilizarmos um termo mais adequado, vão purificar Dora e Tieta respectivamente, visto que as duas transformações serão positivas para ambas.
Dora volta a sua essência, feito estrela cadente que é, e Tieta escancara os tabus e preconceitos que envolvem seu clã, fazendo-os ver, através de sua conduta espontaneamente voraz e sedutora, que eles também era iguais a ela. Nem melhores nem piores. Humanos.
Perpétua e Zé Esteves em sua ânsia por dinheiro; Elisa, Ricardo e Peto no afã do prazer e do gozo, um a um, eles vão revelando seus caracteres.
Engana-se quem vê em Tieta uma vingadora. Ela é o elemento catártico da família, sendo sua própria catarse oriunda de Mangue Seco, paraíso onde ela cresceu, virou mulher, reencontrou-se e onde pretende envelhecer.
Enquanto Dora dá equilíbrio sentimental aos Capitães da Areia, fazendo-os enxergar que ainda eram crianças e que havia alguém, mãe ou irmã, a zelar por eles, Tieta lidava com as pessoas ao seu redor, de forma irracional.
Ora, Tieta era obstinada, prática, controlada, todavia agia, muitas das vezes, movida pela percepção, por existir dentro dela “um constante desejo de perceber coisas e a sensação física não ser evitada” (Hamaker-Zondag, 1988, p.68). Prova disso é a sua primeira experiência sexual, seu envolvimento com Lucas e sua paixão por Ricardo. Atos impensados para muitos, mas naturais à essência de Tieta.
Outro vestígio dessa percepção aguçada é a preocupação em aparentar para a família uma posição social e moral que não condizia com a verdade, afinal “o ser humano perceptivo está preparado para se sacrificar a fim de conservar as aparências” (Hamaker-Zondag, 1988, p.68).
Graças a Ascânio, ferido em seu orgulho, maior que o amor que nutria por Leonora, vem à tona a verdade sobre a filha do meio de Zé Esteves. Enfim, Tieta está livre. Livre como só na Bahia se pode ser.
5 EPÍLOGO
Na abertura do romance Cacau, Jorge Amado confessa-nos que o escreveu com “um mínimo de literatura para um máximo de honestidade”.
Isso aconteceu em 1933 e ele tinha vinte e um anos – a minha idade hoje.
O que eu posso dizer ao término de minha pesquisa é que a primeira parte, sobre os Capitães da Areia foi feita com o máximo de paixão. Me apaixonei e desapaixonei várias vezes por esse trabalho, sabedora de que, sem bibliografia acerca desse assunto, ele dependia só de mim, da minha percepção e da minha ternura e, talvez por isso, essa unidade prima tenha sido mais leve de ser feita, pois éramos apenas Dora, os Capitães da Areia e eu.
Então, gargalhei, corri, burlei a lei, rodei no velho carrossel, chorei com eles.
Na segunda fase porém, me vi embasada por outros autores, mas ao mesmo tempo, confusa. Ora, eu já me achava a pessoa mais auto-suficiente do mundo.
Assim, foi meio complicado encaixar as teorias de Hamaker-Zondag, Bachelard, DaMatta e Assis Duarte a minha explanação, afinal, uma Capitã da Areia tem o espírito muito livre para se prender às idéias dos outros.
Contudo, aprendi a fazê-los meus aliados e hoje penso que cumpri minhas metas. Escrevi sobre uma menina que foi muito mais mulher do que muitas por aí; e analisei um autor que está há muitos anos-luz dessa crítica cética perante ao fato de termos um escritor apaixonante e indecifrável entre nós.
Indecifrável pois, quando todos pensam que suas personagens são parecidíssimas, surge alguém dizendo-as partes de um todo ideal!
Enfim, o que restou desse trabalho para mim foi uma saudade do tamanho do mar verde e azul e cinza de Janaína. Para amenizar essa falta, ainda ontem Dora cruzou o céu da minha janela e revolucionou meu coração, igualzinho como fez com Pedro Bala.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMADO, Jorge. Cacau. Rio de Janeiro: Record, 1982.
____________. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record, 1982a.
____________. Gabriela, cravo e canela. Rio de Janeiro, 1982b.
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
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1 comentário em “Dora – uma estrela de quatro pontas, uma ponta da estrela ideal”
olha o TCC aí genteee
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