Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Tanjal

Por Luciana | 20/07/2010, 10h00

Quando era criança, em julho, ia pra colônia de férias da escola.

Íamos sempre pra Vivenda Verde. Eu adoro esse nome de Vivenda Verde.

Dia desses, tomei uma caipirosca de tangerina – em Beagá chamam caipivodca – e lembrei da Vivenda Verde.

Não, não bebíamos nada com vodca por lá.

O que rolava era muito Tanjal nessa vida.  

Tanjal é um concentrado de suco de tangerina que vem numa lata. Lembro que levávamos litros de suco de tangerina feito de Tanjal e mais um monte de sanduíches de pão de forma e patê, cortados em triangulinhos.

Aí tomo caipirosca de tangerina e digo que aquilo tem gosto de infância e fica difícil de acreditar.

Mas tem.

Te acalma, Beyoncè, eu te entendo. Pode ir.

Por Luciana | 18/07/2010, 14h33

Gosto muito de filmes antigos e musicais. Já devo ter escrito isso em algum lugar desse blog. Aliás, tenho a impressão de que já escrevi de tudo aqui nesse blog, mas é engano. É engano porque minha vida não parou e continuo percebendo tudo ao redor com a mesma emoção que sempre esteve aqui.

Mas enfim.

Retomando, gosto muito de filmes antigos e musicais.

Tem um musical que adoro e que nem é antigo chamado Dreamgirls. Ele conta veladamente a história do grupo The Supremes.

Um belo dia, a cantora principal do grupo – casada com o empresário do grupo – se dá conta que vive uma grande mentira, que é um joguete na mão do marido.

É quando ela decide ir embora. Como é de praxe em musicais, ela conversa por dois minutos com ele e começa a cantar loucamente, dizendo que acabou e vai embora.

A música é Listen, quem canta é a Beyoncè.

Lembrei bastante por esses dias de uns versos que sempre me chamam atenção quando vejo esse filme: I’m not at home in my own home.

Esses versos sou eu nesse exato momento, leitor velho de guerra.

Estou aqui, na cama que há tempos é minha cama, no quarto que há tempos é meu quarto, entre as coisas e pessoas que amo e compõem o que sempre entendi como lar, mas não estou em casa na minha própria casa.

Não é mais minha própria casa. É mais do que nunca a casa da minha mãe onde vim passar alguns dias de férias. E perceber isso é uma catarse que quase não aguento, mas aguento sim.

Porque hoje quando falo em “lá em casa”, é do apartamentinho do Coração Eucarístico que estou falando. São das plantas que cuido, da louça que lavo, da mesa solitária que ponho para comer sozinha aos sábados, das almofadas que arrumo em cima do sofá do jeito que acho bonitinho, do larzinho peculiar que construí sozinha por lá e onde não preciso nem quero dar satisfação a ninguém.

E a Beyoncè canta, grita que nem louca nos fones nos meus ouvidos e eu tenho vontade de cantar, gritar que nem louca também da janela do apartamento da rua da poesia em Belém. Ela tá puta com o marido – desculpe, leitor, acho que nunca escrevi esse tipo de palavra por aqui – mas eu não estou puta com ninguém.

Eu só quero reencontrar esse lugar onde eu me sinta em casa na minha própria casa.

Carta

Por Luciana | 02/07/2010, 19h50

Ei, Belém. Confesso que morri de saudade de ti. Das pessoas que eu amo e que pertencem ao teu cotidiano. Do meu cotidiano quando estou aqui. Do calor sem dó nem piedade. Do amor.

Eu sempre quis morar em Belo Horizonte, Belém, e nunca te escondi isso. Lá, as pessoas são umas queridas e só de escrever isso, começo a sentir saudade das coisas de lá também.

Eu já me conformei: minha sina será sempre sentir saudade.

Tirando a minha casa que é, sobretudo, um lar, nesses dez dias que estou contigo o lugar que mais me emocionou foi a ruazinha estreita da escola onde trabalho.

Depois de andar léguas de Lomas, cheguei ao finalzinho dela e a rua estava lá: toda cheia de bandeirinhas verdes e amarelas, toda cheia dos meus alunos já de férias empinando papagaio, toda cheia daquela escola que nos momentos de maior aprendizagem me faz uma falta danada.

Quando meus professores me ensinam algo incrível, algo que na correria do meu dia-a-dia eu nunca parei pra pensar, é lá pra aquela escola escondida no bairro do Marco que eu tenho vontade de correr. Porque é lá que estão as pessoas que precisam que eu diga algo incrível.

E apesar da minha mãe e dos meus amigos e dos jornais dizerem que andas perigosa demais, não consigo ter medo de ti.

Eu queria todas as pessoas que moram em ti; queria todos os sabores, cores e canções; queria até mesmo o calor…

Sim, Belém, morro de frio em Beagá. Mas lá eu compro flores toda semana pra minha casa porque cada uma custa um real.

E vou de ônibus comprar as flores, no Mercado Central. E olho num cataloguinho que tem em casa o horário que o ônibus vai passar no ponto da esquina e me encaminho pra lá. E ele não atrasa. E para no ponto certinho, não no meio da rua fazendo fila dupla. Para no ponto onde todos esperam na calçada, não no meio da rua.

E quando entro no ônibus, pago 2,30, mas vale. Porque o ônibus é novo, limpo, sem pichações, sem vandalismos, sem papeluchos e chicletes espalhados pelo chão. E pra encantar ainda mais, montaram um projeto chamado Leitura para todos que me flechou por inteiro: há poemas espalhados, pendurados nos ônibus de Belo Horizonte.

E eu te pergunto, Belém, por que raios não pode ser assim contigo também?

O que aconteceu que minha mãe fica morrendo de medo quando saio na rua pra passear contigo? Por que ela não sente esse pavor quando digo que vou sair em Belo Horizonte?

Lá não tem peixe, Belém. Não tem caranguejo, tacacá – meu reino por um tacacá quando faz oito graus por lá –, não tem bacuri.

Não tem essas músicas que a gente reclama, mas dança; não tem lenda, rio, fruta.

Mas tem uns ipês cor-de-rosa que me comovem um bocado; umas pessoas carinhosas que parecem que estão eternamente prestes a te por no colo; uma nostalgia nas canções.

Tem aquele clube, aquele ramalhete, aquela rua de curiosidade. Fora o jeito todo antigo e especial de falar…

Por que não dá pra juntar vocês duas, Belém, e sossegar o meu coração?

Do compromisso e do comprometimento

Por Luciana | 08/04/2010, 01h34

Dia desses, na aula de Teoria Literária, meu professor falou sobre compromisso e comprometimento.

Ele disse que compromisso é quando a gente cumpre nosso horário de trabalho, por exemplo. Já comprometimento, é quando, se precisar, ficamos no trabalho horas e horas a mais. Pela necessidade, pelo prazer.

Isso vale pra tudo na vida. Compromisso, comprometimento.

Segunda agora, voltando da Páscoa em Belém, meu voo atrasou mil horas em Brasília. Era dia da aula de Literatura Africana e cheguei no meio da tarde em casa, ou seja, já tinha perdido metade da aula, do meu compromisso.

Tudo o que eu queria era tomar banho, comer, dormir, relaxar.

Mas as palavras do professor martelaram demais na minha cabeça. E o meu comprometimento fez com que eu deixasse as malas na sala de casa e fosse pra aula.

E foi lindo.

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