Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Saúde

Não vou sorrir nunca mais

Por Luciana | 23/11/2009, 15h56

Ok. Agora uso aparelho nos dentes.

Passei o final de semana inteiro reclamando da vida por conta disso.

Não é uma dor de como se um elefante te esmagasse os dentes; é pior: é uma dor de como se formiguinhas de fogo te beliscassem o tempo todo.

Fora ficar parecendo o Willy Wonka criança; fora as piadinhas no trabalho; fora o incentivo de ouvir que daqui a dois anos seu sorriso será lindo.

DOIS ANOS.

E a vaidade onde vai em dois anos?

E tem TCC, tem prova na escola, tem prova na faculdade, tem mestrado. Mas o que martela é o aparelho só porque eu sou vaidosa.

E rio menos, falo menos…

E mais e mais repito que não vou sorrir nunca mais.

E não, não vou publicar foto minha de aparelho.

Pode esquecer.

Da fome

Por Luciana | 25/11/2008, 18h32

“Vendo doer a fome dos meninos que têm fome…”

Diana é uma aluna minha da 5ª série.

Dia desses, ela pediu para se retirar da aula porque não estava se sentindo bem.

Depois, quando vi, Diana estava sendo levada no carro da professora de Inglês ao posto de saúde mais próximo – como ela não havia desmaiado, a atendente da SAMU não achou necessário mandar um ambulância para socorrer a menina na escola…

À noite, liguei pra professora de Inglês, pra ter notícias da Diana.

A Diana tem 15 anos. Eu nunca saberia. Magrinha, baixinha, na 5ª série, eu jurava que ela tinha no máximo 12 anos. Não tem.

A Diana tem 15 anos e nunca menstruou, sabe, leitor?

Ela se encontra em um estado de subnutrição profunda. Não tem o que expelir, o que “menstruar”.

Perguntei pelos pais e/ou responsáveis da menina e a professora de Inglês explicou: “Lu, ela mora com a mãe e com o irmão. A mãe é cega. A responsável por ela e pela família é ela mesma!”.

Descobrimos que a Diana falta muito porque não tem forças para ir à escola já que não come sempre.

De imediato o que fizemos foi arrecadar alimentos, roupas e objetos de higiene pessoal para a Diana e a família dela.

Não resolveu o problema, mas nem por isso deixamos de fazer como a maioria faz, afinal, a culpa é do governo e mimimi.

Perguntei à Bruna, uma amiga bem próxima da Diana – são, inclusive, vizinhas – sobre como a menina andava. Não quis perguntar diretamente a ela pra não constrangê-la.

A Bruna disse que ela está melhor. Que os vizinhos, na maioria trabalhadores da CEASA, agora ajudam a família dando frutas, legumes e verduras.

Me contou também que a Diana continua o tratamento no posto de saúde, tomando vitaminas e tudo mais.

Quando eu falo em fome, eu falo de pessoas que eu conheço pelo nome. Não é uma visão macro a que tenho. É micro. Não falo em fome mundial. Falo em fome de uma menina de 15 anos chamada Diana que está na 5ª série e ainda não menstruou.

É dessa fome tão próxima, uma fome doendo na barriga de gente que faz parte da minha vida, que eu falo. E se essa fome não dói na minha barriga, ela dói no meu coração.

E faz minha cabeça pensar.

Das minhas meninas

Por Luciana | 12/11/2008, 17h21

No finalzinho das férias de julho vi um filme no canal Brasil chamado Meninas.

Meninas é um documentário da cineasta Sandra Werneck – a mesma que fez Pequeno Dicionário Amoroso e Cazuza – o tempo não pára -, produzido em 2006.

O filme retrata a gravidez na adolescência de quatro meninas moradoras de morros cariocas.

O pensamento imediato que me ocorreu quando o filme acabou foi: meus alunos precisam ver esse filme.

Ora, aqui em Belém não tem morro, mas nem por isso deixa de ter meninas grávidas.

Passei o DVD para minha turma de sétima e oitava séries e segundo ano.

A sétima série produziu textos sobre o assunto – que também está sendo abordado pela professora de Ciências; o segundo ano decidiu fazer o trabalho da feira cultural a partir do documentário – dando ênfase ao uso da camisinha não só como forma de impedir uma gravidez, mas também para proteger de doenças sexualmente transmissíveis; e a oitava série fez um ciclo de debates.

É sobre os debates que quero falar.

A turma foi dividida em grupos e cada grupo ficou encarregado de levar um convidado para falar sobre o assunto – ao final, a gente abria para perguntas.

Os professores de Ciências foram chamados; a professora de Inglês que às vezes pára tudo e conversa com eles sobre assuntos relacionados à sexualidade; a psicóloga do posto de saúde que atende a comunidade em que eles vivem; três jovens que tiveram filhos na adolescência.

Dei minha opinião em alguns momentos, mas na maior parte do tempo deixei a coisa fluir do jeito deles.

Pontos relevantes: meus alunos queriam conversar sobre o assunto, mas se sentiam envergonhados, de modo que as perguntas não foram feitas diretamente, mas sim, por meio de bilhetes; em uma sala com 25 meninas, só três já foram a ginecologista; mesmo o trabalho sendo focado em prevenção, tivemos uma enxurrada de perguntas relacionadas ao aborto (algumas terríveis como: é verdade que tomando Coca-cola com Anador a gente consegue abortar?).

Os dois momentos importantes me dividiram ao meio e depois de relatá-los vou explicar o motivo.

Em um dos debates, onde a convidada era uma moça que tinha ficado grávida na adolescência, uma das alunas pediu pra falar e contou que aos 14 anos passou por uma espécie de gravidez psicológica – ela explicou que a menstruação atrasou e ela começou a enjoar e fixar na cabeça que estava grávida. Ao perceber essa mudança de comportamento, a mãe da aluna, ao invés de levá-la ao médico, a obrigou a tomar um remédio abortivo. A menina começou a passar muito mal e finalmente foi levada ao hospital, onde foi constatado que ela não estava grávida coisa nenhuma. Ou seja, minha aluna de 14 anos passou por uma gravidez psicológica e por um aborto “real” e cruel, imposto pela própria mãe – “aborto” esse que até hoje faz com que ela tome remédios para restaurar no organismo o que ficou deteriorado.

O outro relato, feito no último dia de debate foi também de uma aluna da sala, esta com 15 anos: ela está grávida de 5 meses.

Disse que o tempo todo em que o ciclo aconteceu ela já sabia e ficava angustiada em perceber que não adiantava mais nada. Disse que esperou passar bastante tempo pra contar para os pais para que não tivesse possibilidade de aborto. Contou também que o pai dela disse que ou sai ela ou sai ele de casa e não se falam mais e que o namorado tem 20 anos, vai assumir a criança e quer que ela vá morar com ele. Detalhe: esse rapaz de 20 anos também é meu aluno. Só que da 5ª série.

O que me partiu ao meio diante desses dois relatos tão próximos de mim foi a sensação de ter chegado tarde demais. Me senti impotente e arrasada por minhas alunas adolescentes terem passado ou estarem passando por problemas tão adultos, das piores maneiras possíveis, e eu não poder fazer nada para ajudá-las.

Eu, como diria Rubem Alves, não sou da turma do otimismo; eu sou da turma da esperança – que é algo muito mais além. E é dentro dessa esperança que desejo profundamente ter tocado essas pessoas tão do meu convívio, e que eles tenham a consciência de que sou um canal aberto para a conversa. Não só aquela conversa gramatical ou literária, mas aquela conversa capaz de mudar o rumo das coisas.

PS – Ultimamente sinto uma vontade enorme de escrever sobre meus alunos. Uma vontade tão grande quanto a preocupação e o carinho.

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