No finalzinho das férias de julho vi um filme no canal Brasil chamado Meninas.
Meninas é um documentário da cineasta Sandra Werneck – a mesma que fez Pequeno Dicionário Amoroso e Cazuza – o tempo não pára -, produzido em 2006.
O filme retrata a gravidez na adolescência de quatro meninas moradoras de morros cariocas.
O pensamento imediato que me ocorreu quando o filme acabou foi: meus alunos precisam ver esse filme.
Ora, aqui em Belém não tem morro, mas nem por isso deixa de ter meninas grávidas.
Passei o DVD para minha turma de sétima e oitava séries e segundo ano.
A sétima série produziu textos sobre o assunto – que também está sendo abordado pela professora de Ciências; o segundo ano decidiu fazer o trabalho da feira cultural a partir do documentário – dando ênfase ao uso da camisinha não só como forma de impedir uma gravidez, mas também para proteger de doenças sexualmente transmissíveis; e a oitava série fez um ciclo de debates.
É sobre os debates que quero falar.
A turma foi dividida em grupos e cada grupo ficou encarregado de levar um convidado para falar sobre o assunto – ao final, a gente abria para perguntas.
Os professores de Ciências foram chamados; a professora de Inglês que às vezes pára tudo e conversa com eles sobre assuntos relacionados à sexualidade; a psicóloga do posto de saúde que atende a comunidade em que eles vivem; três jovens que tiveram filhos na adolescência.
Dei minha opinião em alguns momentos, mas na maior parte do tempo deixei a coisa fluir do jeito deles.
Pontos relevantes: meus alunos queriam conversar sobre o assunto, mas se sentiam envergonhados, de modo que as perguntas não foram feitas diretamente, mas sim, por meio de bilhetes; em uma sala com 25 meninas, só três já foram a ginecologista; mesmo o trabalho sendo focado em prevenção, tivemos uma enxurrada de perguntas relacionadas ao aborto (algumas terríveis como: é verdade que tomando Coca-cola com Anador a gente consegue abortar?).
Os dois momentos importantes me dividiram ao meio e depois de relatá-los vou explicar o motivo.
Em um dos debates, onde a convidada era uma moça que tinha ficado grávida na adolescência, uma das alunas pediu pra falar e contou que aos 14 anos passou por uma espécie de gravidez psicológica – ela explicou que a menstruação atrasou e ela começou a enjoar e fixar na cabeça que estava grávida. Ao perceber essa mudança de comportamento, a mãe da aluna, ao invés de levá-la ao médico, a obrigou a tomar um remédio abortivo. A menina começou a passar muito mal e finalmente foi levada ao hospital, onde foi constatado que ela não estava grávida coisa nenhuma. Ou seja, minha aluna de 14 anos passou por uma gravidez psicológica e por um aborto “real” e cruel, imposto pela própria mãe – “aborto” esse que até hoje faz com que ela tome remédios para restaurar no organismo o que ficou deteriorado.
O outro relato, feito no último dia de debate foi também de uma aluna da sala, esta com 15 anos: ela está grávida de 5 meses.
Disse que o tempo todo em que o ciclo aconteceu ela já sabia e ficava angustiada em perceber que não adiantava mais nada. Disse que esperou passar bastante tempo pra contar para os pais para que não tivesse possibilidade de aborto. Contou também que o pai dela disse que ou sai ela ou sai ele de casa e não se falam mais e que o namorado tem 20 anos, vai assumir a criança e quer que ela vá morar com ele. Detalhe: esse rapaz de 20 anos também é meu aluno. Só que da 5ª série.
O que me partiu ao meio diante desses dois relatos tão próximos de mim foi a sensação de ter chegado tarde demais. Me senti impotente e arrasada por minhas alunas adolescentes terem passado ou estarem passando por problemas tão adultos, das piores maneiras possíveis, e eu não poder fazer nada para ajudá-las.
Eu, como diria Rubem Alves, não sou da turma do otimismo; eu sou da turma da esperança – que é algo muito mais além. E é dentro dessa esperança que desejo profundamente ter tocado essas pessoas tão do meu convívio, e que eles tenham a consciência de que sou um canal aberto para a conversa. Não só aquela conversa gramatical ou literária, mas aquela conversa capaz de mudar o rumo das coisas.
PS – Ultimamente sinto uma vontade enorme de escrever sobre meus alunos. Uma vontade tão grande quanto a preocupação e o carinho.