Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Saudade

Por Luciana | 11/03/2011, 15h29

Oi.

Eu parei no meio de um texto sobre a Lívia, mulher do Guma, de Mar morto, pra escrever pra você.

Você sabe, né, que tô escrevendo um trabalho sobre umas personagens femininas do Jorge Amado?

Eu de vez em quando falo com as pessoas que me cercam sobre esse trabalho e elas sorriem sem entender.

Lembrei que você entenderia porque você leu esses livros todos que tô analisando. Você viajava pro meio do mato e levava os livros da nossa coleção.

Os mesmos livros, agora surrados, que tenho ao meu redor nesse momento. Eles estão todos rabiscados, cheios de anotações e de páginas viciadas. Desculpe, tudo culpa minha.

Eu podia agora te mandar meus textos pra ver o que você acha e a gente ia poder conversar. Eu acho que você já estaria aposentado e teria tempo.

No final, a Lívia vira mestre de saveiro, lembra?

Tá difícil aqui.  

Beijo,

Das bobagens mais ternas

Por Luciana | 26/07/2010, 10h00

A Suely Maria é a minha orientadora. A conheci por sugestão – mais que certeira – da Miriam – uma das moças mais delicadas que conheço na vida.

A Miriam falou pra mim que a Suely era a professora que sabia TUDO de feminino e que seria uma boa conversar com ela sobre meu projeto.

Quando disse que a Miriam tinha dado a indicação e repeti o lance de saber TUDO de feminino, ela deu um sorriso mineiro e disse que então não precisava eu estudar mais nada de feminino já que ela já sabia de tudo sobre!

Ela é uma querida.

Disse que meu projeto sobre as figuras femininas amadianas a interessava e que aceitava me orientar. Só pediu que eu me inscrevesse na turma da aula de metalinguagem poética que ela ia ministrar, para que nos conhecêssemos melhor.

Pois bem.

Em Beagá, quando uma mulher é muito fina, educada, delicada, eles dizem que ela é uma dama. Posso dizer depois de dois, três meses que a Suely é definitiva e absolutamente uma dama. E fiquei muito fã dela nesse tempinho, apesar de saber que ela nunca vai ler esse texto, afinal, não entende nada, nadinha de mexer com Internet.

Bem, esse preâmbulo todo sobre a Suely é pra contar de um momento de agora a pouco.

Em uma das ultimas aulas que tivemos, analisamos uns poemas da Adélia Prado. Um chamado Clareira marcou em particular:

Seria tão bom, como já foi,
As comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
Pitando e rapando a goela. Os meninos
Farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida, ou inventei?
Eu gosto de metafísica, só pra depois
Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
Falar as falas certas: a de Lurdes casou,
A das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
As santas missões vêm aí, vigiai e orai
Que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
Quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
Pra eu sobreviver.

 

A Suely ilustrou bem a percepção que tinha do poema. Lembrou de quando o filho dela foi morar na França e uma vizinha sabiamente a aconselhou: quando escrever para ele – sim, ela escreve cartas até hoje pro filho – conte só bobagens.

Ora, como assim só bobagens? – ela indagou, intrigada.

Bobagens: quem casou, quem formou, quem fez, aconteceu… Conte só bobagens porque é disso que sentimos saudade quando estamos longe.

Ouvi essas palavras na sala de aula e meus olhos encheram. Era aquilo mesmo. Morro de saudade das bobagens que converso com minha mãe, à mesa da cozinha; deitadas juntas na cama; de frente pro rio, na praia; no carro, no rumo da venta.

Lembrei ainda agora do poema – e, por conseguinte, da Suely, aquela querida – porque estávamos, minha mãe e eu, comendo ludicamente o melhor caranguejo do mundo – o dela – na cozinha de casa, contando bobagens uma pra outra. Do meu curso, do trabalho dela, da minha casa, das minhas tias, do nosso cotidiano amorosamente entrecortado.

A clareira da Adélia inundou a cozinha aqui de casa e eu me vi com minha mãe sendo poesia.

Manaus – ir ou não ir

Por Luciana | 24/07/2010, 10h10

A pauta frequente da minha mãe ultimamente tem sido ir a Manaus. Depois de 23 anos, minha mãe quer fazer uma viagem familiar a Manaus.

Depois de desconversar de todas as formas e de sugerir milhares de outros destinos, tive que dar minha verdadeira opinião quando vi meu irmão topar a viagem numa boa, sem maiores questionamentos.

Abri sinceramente que não quero ir.

Se a Eva ler isso aqui, vai ficar magoada. Fabrizio idem. Mas não quero ir.

Vamos sofrer.

Foi na mesa da cozinha de casa que falei calmamente: não quero ir a Manaus porque vamos sofrer.

Minha mãe e meu irmão se entreolharam e riram. Disseram que não vão sofrer coisa nenhuma, que vão de boa, mas ninguém me pega pra essa viagem.

Minha mãe quer passar uma semana, dez dias por lá. Quer rever pessoas e lugares que fazem parte do nosso passado – aquele passado em que fomos mais felizes – e consequentemente do passado do meu pai – aquele cara que não está mais com a gente.

Vamos sofrer.

Tenho uma amiga em Beagá, a Anita, que me disse dia desses que teve uma época em que a casa dela era tudo o que ela queria ter. Era ela, o marido, os três filhos, o cachorro. Eram felizes.

Hoje, não que não sejam felizes, mas a casa está vazia. Os filhos não moram mais lá, o cachorro está cego e doente e, por ela, se mudaria com o marido pra um kitnet e gastaria a grana da casa em viagens – sendo feliz como acha que deve ser agora, aos 50 anos.

Pois bem. Essa sensação de “tudo o que queria ter” minha mãe deixou em Manaus. Ela nunca vai admitir, mas é como vejo e sinto. E não será voltando lá que vamos reencontrar isso.

Acho que essa sensação só conseguimos de volta de relance, vendo fotos antigas.

Tem uma foto que adoro da minha mãe. Na nossa casinha branca, a primeira que eles compraram. Ela está deitada no chão da varanda, de olhos fechados, sorrindo, curtindo aquela casa que era tudo o que ela queria ter, se deixando fotografar pelo cara que ela gostava.

Postei essa foto um tempo desses no Facebook e a legenda é “plena”. É dessa minha mãe que quero lembrar em Manaus, não dela chorando, com o nariz vermelhinho na ponta, triste porque não somos mais quem éramos.

Tanjal

Por Luciana | 20/07/2010, 10h00

Quando era criança, em julho, ia pra colônia de férias da escola.

Íamos sempre pra Vivenda Verde. Eu adoro esse nome de Vivenda Verde.

Dia desses, tomei uma caipirosca de tangerina – em Beagá chamam caipivodca – e lembrei da Vivenda Verde.

Não, não bebíamos nada com vodca por lá.

O que rolava era muito Tanjal nessa vida.  

Tanjal é um concentrado de suco de tangerina que vem numa lata. Lembro que levávamos litros de suco de tangerina feito de Tanjal e mais um monte de sanduíches de pão de forma e patê, cortados em triangulinhos.

Aí tomo caipirosca de tangerina e digo que aquilo tem gosto de infância e fica difícil de acreditar.

Mas tem.

Carta

Por Luciana | 02/07/2010, 19h50

Ei, Belém. Confesso que morri de saudade de ti. Das pessoas que eu amo e que pertencem ao teu cotidiano. Do meu cotidiano quando estou aqui. Do calor sem dó nem piedade. Do amor.

Eu sempre quis morar em Belo Horizonte, Belém, e nunca te escondi isso. Lá, as pessoas são umas queridas e só de escrever isso, começo a sentir saudade das coisas de lá também.

Eu já me conformei: minha sina será sempre sentir saudade.

Tirando a minha casa que é, sobretudo, um lar, nesses dez dias que estou contigo o lugar que mais me emocionou foi a ruazinha estreita da escola onde trabalho.

Depois de andar léguas de Lomas, cheguei ao finalzinho dela e a rua estava lá: toda cheia de bandeirinhas verdes e amarelas, toda cheia dos meus alunos já de férias empinando papagaio, toda cheia daquela escola que nos momentos de maior aprendizagem me faz uma falta danada.

Quando meus professores me ensinam algo incrível, algo que na correria do meu dia-a-dia eu nunca parei pra pensar, é lá pra aquela escola escondida no bairro do Marco que eu tenho vontade de correr. Porque é lá que estão as pessoas que precisam que eu diga algo incrível.

E apesar da minha mãe e dos meus amigos e dos jornais dizerem que andas perigosa demais, não consigo ter medo de ti.

Eu queria todas as pessoas que moram em ti; queria todos os sabores, cores e canções; queria até mesmo o calor…

Sim, Belém, morro de frio em Beagá. Mas lá eu compro flores toda semana pra minha casa porque cada uma custa um real.

E vou de ônibus comprar as flores, no Mercado Central. E olho num cataloguinho que tem em casa o horário que o ônibus vai passar no ponto da esquina e me encaminho pra lá. E ele não atrasa. E para no ponto certinho, não no meio da rua fazendo fila dupla. Para no ponto onde todos esperam na calçada, não no meio da rua.

E quando entro no ônibus, pago 2,30, mas vale. Porque o ônibus é novo, limpo, sem pichações, sem vandalismos, sem papeluchos e chicletes espalhados pelo chão. E pra encantar ainda mais, montaram um projeto chamado Leitura para todos que me flechou por inteiro: há poemas espalhados, pendurados nos ônibus de Belo Horizonte.

E eu te pergunto, Belém, por que raios não pode ser assim contigo também?

O que aconteceu que minha mãe fica morrendo de medo quando saio na rua pra passear contigo? Por que ela não sente esse pavor quando digo que vou sair em Belo Horizonte?

Lá não tem peixe, Belém. Não tem caranguejo, tacacá – meu reino por um tacacá quando faz oito graus por lá –, não tem bacuri.

Não tem essas músicas que a gente reclama, mas dança; não tem lenda, rio, fruta.

Mas tem uns ipês cor-de-rosa que me comovem um bocado; umas pessoas carinhosas que parecem que estão eternamente prestes a te por no colo; uma nostalgia nas canções.

Tem aquele clube, aquele ramalhete, aquela rua de curiosidade. Fora o jeito todo antigo e especial de falar…

Por que não dá pra juntar vocês duas, Belém, e sossegar o meu coração?

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