Olha, um dia eu fui tímida.
Eu sei, você deve estar rindo e desacreditando, mas é verdade.
Eu era tímida que nem você e por isso mesmo você me chamou tanta atenção quando nos conhecemos. Porque você era eu aos 14 anos – só que você já tinha 28…
Com 14 anos me apaixonei perdidamente – pra se apaixonar tem que ser perdidamente – por um rapazinho chamado Duda – já falei nele em outro texto, o do meu primeiro beijo.
Pois bem.
Mesmo depois que nos afastamos, eu continuei a gostar do Duda por um tempão. Aí, vieram os Jogos Estudantis e eu resolvi assistir a todos os jogos dele – e torcer por ele, claro – mesmo ele sendo de outro colégio que não o meu.
Eu ia aos ginásios, via os jogos, torcia pelo colégio alheio, o Duda me via, mas logo que terminava o jogo eu ia embora.
Até que chegou o dia dele jogar contra o time do colégio onde eu estudava. Foi terrível. O placar foi 120 a 20 pro meu colégio, mesmo eu torcendo muito pelo colégio do Duda.
Foi a única vez que, terminado o jogo, me aproximei do Duda, na arquibancada. Fiquei lá, parada, sentada ao lado dele, sem dizer nada diante da cara triste que ele fazia.
Quando cheguei em casa escrevi uma carta, dizendo o quanto lamentava pela derrota e o quanto queria ter dado um abraço grande nele após o jogo.
Passou um tempo e um dia resolvi entregar não só essa, mas todas as outras cartas que escrevia e guardava – fora os poemas de um certo caderno preto… Se eu tivesse quatorze anos hoje, escreveria tudo em um blog!
Depois de ler tudo, o Duda conversou comigo e a coisa mais marcante desse papo ao telefone foi ele dizendo que eu deveria ter dado aquele abraço no dia do jogo, porque ele bem que precisava naquela hora.
Me lembro com nitidez de ter me sentido a garota mais puramente idiota do mundo inteiro naquele momento.
E me lembro de, dali em diante, nunca mais ter deixado passar nada que me desse vontade real.
Hoje é engraçado ver você estranhar o meu jeito atirado, o meu jeito sem jeito de gritar todo esse amor que eu sinto por você, mas saiba que eu te amo porque você, ainda hoje, tem essa timidez que eu tinha aos 14 anos.
E se eu não tivesse deixado de lado a minha timidez seria bem provável que até hoje você não soubesse do que sinto e que um monte de cartas – hoje em dia mails, né? – se acumulassem mais uma vez em minhas gavetas.