Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Papelão

Um vovô de suspensórios

Por Luciana | 04/11/2009, 13h34

Olha, estávamos parados no sinal, quando um vovô de suspensórios cruzou a faixa. Aí eu falei:

- Quando você for velhinho, vou te dar uns suspensórios… Pra você ser um vovô de suspensórios.

- Hum…

- Aí, nossos netinhos vão nos visitar… E vão dizer “Ah, temos mesmo que visitar o vovô André?! Ele é muito chato!”

- Hum…

- “Tá bom. Só vamos porque a vovó Lu é super legal!”

- …

- Hahahahahahahahahahahahaha!

- Tá vendo? Nem você acredita nisso!

- Lógico! Eu sei que eu sou a chata e que você muito mais legal que eu e que nossos netinhos – assim como todo mundo – vão gostar muito mais de você do que de mim…

- Hehehehe!

- É, mas não me importo. Eles vão ter que me engolir que nem o Zagallo do mesmo jeito!

- Hahahahahahahaha!

Dos paradoxos do amor

Por Luciana | 17/09/2009, 12h21

Olha, um dia eu fui tímida.

Eu sei, você deve estar rindo e desacreditando, mas é verdade.

Eu era tímida que nem você e por isso mesmo você me chamou tanta atenção quando nos conhecemos. Porque você era eu aos 14 anos – só que você já tinha 28…

Com 14 anos me apaixonei perdidamente – pra se apaixonar tem que ser perdidamente – por um rapazinho chamado Duda – já falei nele em outro texto, o do meu primeiro beijo.

Pois bem.

Mesmo depois que nos afastamos, eu continuei a gostar do Duda por um tempão. Aí, vieram os Jogos Estudantis e eu resolvi assistir a todos os jogos dele – e torcer por ele, claro – mesmo ele sendo de outro colégio que não o meu.

Eu ia aos ginásios, via os jogos, torcia pelo colégio alheio, o Duda me via, mas logo que terminava o jogo eu ia embora.

Até que chegou o dia dele jogar contra o time do colégio onde eu estudava. Foi terrível. O placar foi 120 a 20 pro meu colégio, mesmo eu torcendo muito pelo colégio do Duda.

Foi a única vez que, terminado o jogo, me aproximei do Duda, na arquibancada. Fiquei lá, parada, sentada ao lado dele, sem dizer nada diante da cara triste que ele fazia.

Quando cheguei em casa escrevi uma carta, dizendo o quanto lamentava pela derrota e o quanto queria ter dado um abraço grande nele após o jogo.

Passou um tempo e um dia resolvi entregar não só essa, mas todas as outras cartas que escrevia e guardava – fora os poemas de um certo caderno preto… Se eu tivesse quatorze anos hoje, escreveria tudo em um blog!

Depois de ler tudo, o Duda conversou comigo e a coisa mais marcante desse papo ao telefone foi ele dizendo que eu deveria ter dado aquele abraço no dia do jogo, porque ele bem que precisava naquela hora.

Me lembro com nitidez de ter me sentido a garota mais puramente idiota do mundo inteiro naquele momento.

E me lembro de, dali em diante, nunca mais ter deixado passar nada que me desse vontade real.

Hoje é engraçado ver você estranhar o meu jeito atirado, o meu jeito sem jeito de gritar todo esse amor que eu sinto por você, mas saiba que eu te amo porque você, ainda hoje, tem essa timidez que eu tinha aos 14 anos.

E se eu não tivesse deixado de lado a minha timidez seria bem provável que até hoje você não soubesse do que sinto e que um monte de cartas – hoje em dia mails, né? – se acumulassem mais uma vez em minhas gavetas.

Ao bem-amado

Por Luciana | 23/07/2009, 14h14

Olha, já faz um tempo que venho pensando em escrever sobre casamento.

Aí, quando foi anteontem, a Eva me enviou um mail sobre um casamento de dois jovens que namoravam desde a adolescência.

Ela tinha câncer em estágio terminal, contudo fez questão de tratar dos mínimos detalhes do casamento.

Eu poderia terminar meu relato dizendo que, infelizmente, ela faleceu cinco dias após à cerimônia, mas não o farei.

Não, porque o que ando pensando muito sobre casamento tem justamente a ver com isso: tempo.

São muitas – quase todas as que conheço! – as pessoas que perguntam quando vou me casar. Eu sempre respondo que ainda falta – a resposta mais subjetiva do mundo, eu sei.

A verdade é que entendi que dizer que quero logo me casar é veladamente dizer que quero logo ver o homem que eu amo todos os dias, afinal, ao casar, não vou mais viver longe fisicamente dele.

Tirando isso, minha felicidade já vem de quatro anos, quando eu o conheci. Ou seja: se eu morresse cinco dias depois do meu casamento, ainda assim, teria encontrado aquela pessoa que muitos levam vidas e vidas sem encontrar – a moça das fotos que a Eva me mandou, com absoluta certeza, também encontrou aquela pessoa.

E, então, só posso mesmo concordar com Vinicius de Moraes e reafirmar que “tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor”.

Mais importante que o tempo que você passe com o seu bem-amado é que você o encontre para viver um grande amor.

O grande amor.

Fantasma só faz buuu!

Por Luciana | 25/06/2009, 12h00

Olha, em abril, antes dos dois meses de greve pelos quais as escolas públicas do Pará passaram, recomendei aos meus alunos de 8ª série – são duas turmas – a leitura do livro Capitães da Areia.

Antes perguntei se eles preferiam organizar um sarau a fazer um teste sobre a leitura do livro. Preferiram o teste – “dá menos trabalho”, alegaram.

Pois bem.

A greve acabou, as aulas voltaram. A 2ª avaliação ficou só pro 2º semestre, assim como o teste.

Então eu disse a eles que teriam mais o mês das férias, além dois dois da greve, para ler o livro.

Foi quando uma aluna respondeu dizendo que não ia gastar o tempo dela de férias lendo livro nenhum, e que ela não tinha culpa da gente ter “inventado” essa greve.

Eu disse que tudo bem, que ela não lesse então. Mas que em agosto, doa a quem doer, farei esse teste sobre o livro e valerá metade dos pontos da prova. E não existe essa de não fazer o teste e fazer a prova valendo 10. Não fez o teste, faz a prova valendo 5.

Ponderei mais um pouco, disse que a greve não é “inventada” por nós só pra aumento salarial. Um dos pedidos desde o ano passado é por mais segurança nas escolas – e os episódios da feira da cultura e da festa junina da escola onde trabalho são provas mais do que concretas de que esse problema está longe de ser sanado.

Disse também que quando eu estudava era “obrigada” a ler pelo menos quatro livros por ano para trabalhos da escola. Capitães da Areia foi um desses, mas eu já tinha lido antes, porque, pra mim, ler nunca foi uma obrigação.

Aí, ontem à noite, contei essa história toda para o homem de todas as minhas vidas e recordei do primeiro livrinho que li para a escola: Fantasma só faz buuu!, da Flávia Muniz. Li aos oito anos, na antiga 2ª série do 2º grau.

Então, não resisti, e puxei meu livrinho que já tem pra mais de 20 anos da estante, e me pus a ler a historinha para ele, no Skype! E ele, coitado, ouvindo paciente… Como diria meu grande amigo Milton, “quem sabe isso quer dizer amor”?

E quem sabe um dia meus alunos entendam o motivo de se ler e leiam para aqueles que amam. Poemas, parábolas, posts, piadas ou quem sabe um livrinho de 2ª série.

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