Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Livros

Do Açúcar Amargo

Por Luciana | 13/07/2009, 12h14

Semana passada recebi um mail com o assunto “te achei na net”. De imediato, pensei: – Xi, é spam.

Mas abri.

Eram palavras simpáticas que diziam assim:

Luciana, meu nome é Luiz Puntel, sou professor de Literatura. O livro CAPITÃES DA AREIA é leitura exigida este ano nos vestibulares da UNICAMP e da FUVEST. Vamos trabalhar com ele em sala de aula. Aí, pesquisa daqui, dali, caí no teu site, o teu blog. E gostei do que você resenhou sobre DORA e as mulheres do JORGE AMADO.
Posso usar seu texto com os meninos? Podemos lê-lo e analisar?
Beijão!!

Como assim, “meu nome é Luiz Puntel”?

***

Na época do colégio, eu esperava ansiosa pelo dia, geralmente entre janeiro e fevereiro, em que minha mãe comprava o material escolar. Muito mais que os cadernos, livros didáticos, estojo-canetas-lápis, o que me interessava mesmo eram os livros paradidáticos.

Lia todos assim que minha mãe chegava da livraria. Todos, num tapa só.

Minha mãe dizia que assim, quando fosse a hora de lê-los pra escola, eu enjoaria e não estudaria.

Ledo engano, afinal, faz parte de quem gosta de ler gostar também de reler…

***

Pois bem.

Vai ver que por isso, por dar tanta importância assim aos paradidáticos – tenho todos guardados até hoje aliás – é que respondi assim para o professor Luiz Puntel:

Nossa! Você é o Luiz Puntel de Açúcar Amargo? Se for, saiba que li esse livro na sétima série e gostei muito, tanto que guardo até hoje com carinho. :)
Lógico que você pode usar os textos do meu TCC para analisar com seus alunos! É um prazer – pena que moro em Belém e não vou poder participar também, pois adoro falar e falar sobre Jorge Amado.
E agora sou eu que tenho que te pedir: posso contar no meu blog sobre o seu pedido? Afinal, não é todo dia que recebo um mail do Luiz Puntel, um dos autores queridos da minha adolescência! :)
Abraço grande em você e nos seus alunos.

Açúcar Amargo, o livro em questão, foi lido por mim na 7ª série, e contava sobre a vida da Marta, que trabalhava como bóia-fria em plantações de cana-de-açúcar em São Paulo. Um dia, eles resolveram fazer uma greve, diante das irregularidades com que o trabalho deles era tratado. E aí, do meio daquele protesto, surgiu uma frase que lembro sempre, que foi escrita com batom, em uma faixa:

UNIDOS SOMOS FORTES COMO UM CANAVIAL.

Tem coisa mais linda que esse blog me dar um presente como esse?

PS – Ainda tenho dentro do livro o Suplemento de Trabalho! Meus professores usavam só pra exercício e faziam outro teste pra valer. ;)

Fantasma só faz buuu!

Por Luciana | 25/06/2009, 12h00

Olha, em abril, antes dos dois meses de greve pelos quais as escolas públicas do Pará passaram, recomendei aos meus alunos de 8ª série – são duas turmas – a leitura do livro Capitães da Areia.

Antes perguntei se eles preferiam organizar um sarau a fazer um teste sobre a leitura do livro. Preferiram o teste – “dá menos trabalho”, alegaram.

Pois bem.

A greve acabou, as aulas voltaram. A 2ª avaliação ficou só pro 2º semestre, assim como o teste.

Então eu disse a eles que teriam mais o mês das férias, além dois dois da greve, para ler o livro.

Foi quando uma aluna respondeu dizendo que não ia gastar o tempo dela de férias lendo livro nenhum, e que ela não tinha culpa da gente ter “inventado” essa greve.

Eu disse que tudo bem, que ela não lesse então. Mas que em agosto, doa a quem doer, farei esse teste sobre o livro e valerá metade dos pontos da prova. E não existe essa de não fazer o teste e fazer a prova valendo 10. Não fez o teste, faz a prova valendo 5.

Ponderei mais um pouco, disse que a greve não é “inventada” por nós só pra aumento salarial. Um dos pedidos desde o ano passado é por mais segurança nas escolas – e os episódios da feira da cultura e da festa junina da escola onde trabalho são provas mais do que concretas de que esse problema está longe de ser sanado.

Disse também que quando eu estudava era “obrigada” a ler pelo menos quatro livros por ano para trabalhos da escola. Capitães da Areia foi um desses, mas eu já tinha lido antes, porque, pra mim, ler nunca foi uma obrigação.

Aí, ontem à noite, contei essa história toda para o homem de todas as minhas vidas e recordei do primeiro livrinho que li para a escola: Fantasma só faz buuu!, da Flávia Muniz. Li aos oito anos, na antiga 2ª série do 2º grau.

Então, não resisti, e puxei meu livrinho que já tem pra mais de 20 anos da estante, e me pus a ler a historinha para ele, no Skype! E ele, coitado, ouvindo paciente… Como diria meu grande amigo Milton, “quem sabe isso quer dizer amor”?

E quem sabe um dia meus alunos entendam o motivo de se ler e leiam para aqueles que amam. Poemas, parábolas, posts, piadas ou quem sabe um livrinho de 2ª série.

Mais uma pausa no TCC para mais uma constatação

Por Luciana | 08/06/2009, 11h11

Cara, é lindo constatar que por mais que eu enrole, empurre com a barriga, dê os maiores desdobros possíveis no meu TCC, toda vez que volto a escrevê-lo é empolgante!

O segredo é, pra variar, simples sem ser simplório: escolhi o tema certo. O tema que me interessa escrever não só como jornalista, mas como professora: violência nas escolas.

Ontem fiquei girando, girando, procurando epígrafes para o ínicio de capítulo, afinal, são esses pequenos detalhes que dão leveza ao texto acadêmico por vezes tão duro de ser decifrado.

Aí, lembrei de uma frase do Jorge Amado no prefácio do romance Cacau. Ele afirmava que tinha escrito o livro com “um mínimo de literatura para um máximo de honestidade”.

Eu já tinha me valido dessa frase no epílogo do meu primeiro TCC e me deixa feliz ver que, nove anos depois, ainda serve. Ainda sou eu.

PS – Meu primeiro TCC, assim como o de agora, não teve introdução nem conclusão; teve proposição e epílogo, que nem n’Os Lusíadas! Hahahahahahahaha! Minha primeira orientadora riu e disse que eu era/sou mesmo pretensiosa.

Lúcia Já-vou-indo

Por Luciana | 15/05/2009, 15h15

Sempre que vou a livrarias me detenho um pouquinho que seja na ala infantil.

Na época da faculdade de Letras cheguei a pensar em fazer o TCC sobre literatura infanto-juvenil – seria uma aproximação (ou não) das infâncias da Narizinho e do Menino Maluquinho. Como a orientadora que eu queria manjava mais de Jorge Amado – outra grande paixão minha – acabei deixando os livros infantis de lado, pelo menos no que tange a vida acadêmica.

Mas é irresistível pra mim mergulhar naqueles livrinhos coloridos. Ler novos, reler os que fizeram parte da minha infância, comprar uns aqui e outros ali.

O mais recentemente comprado foi o Lúcia Já-vou-indo, da Maria Heloisa Penteado. Depois de muito procurá-lo por mais de um ano, achei o último exemplar da Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Fiquei feliz. Ficava feliz quando não encontrava também, porque era/é sinal que as crianças ainda leem a história da lesminha que eu tanto adorava quando eu tinha cinco anos de idade.

O livro, cheio de ilustrações de cores contagiantes, conta a história da lesminha Lúcia, que nunca tinha conseguido ir a uma festa porque sempre chegava atrasada, afinal, era uma lesma.

Até o belo dia que a libélula Chispa Foguinho teve a idéia mais genial da minha meninice: fazer uma festa na casa da própria Lúcia! Ela só não contava que a Lúcia fosse sair de casa nesse dia…

Não conto o fim para que você, leitor, saia desesperadamente a procurar um exemplar de Lúcia Já-vou-indo.

Tenho memórias sobre esse livro. Lembro da minha mãe lendo, da minha avó lendo. Aqui, um adendo: liguei pra minha mãe pra contar que tinha comprado o Lúcia Já-vou-indo, e ela disse na hora: – Ah, esse livro é a cara da tua avó, ela adorava as libélulas.

As libélulas são um caso a parte. Minha mãe e minha avó adoravam as libélulas porque eu lia errado a palavra libélula. Eu lia libelula (tônica no u). Elas morriam de fazer molecagem comigo. Ensinavam o certo, mas eu dizia que libelula era mais bonito.

Lembro também de uma noite, eu lia deitada ao lado do meu pai na cama de casal dele e da minha mãe, enquanto ela, grávida de todos os meses do meu irmão, estava deitada na rede. De repente, minha mãe fala: – José, eu vou cair.

Foi quando meu pai voou da cama pra rede e pegou minha mãe no ar – a rede tinha rasgado ao meio. Essa é a grande cena heroica da minha infância. A lembrança é tão nítida que sei até o que estava passando na TV: Anarquistas graças a Deus. E eu lia Lúcia Já-vou-indo, claro.

Você, ou seu filho, ou seu neto, ou seus alunos, deviam ler também. É lindo.

PS – Dias depois, encontrei também na mesma Livraria Cultura o Sangue de Barata, da Ângela Lago. Todo feito em versos, é um livro também muito bacana, muito minha avó, minha mãe e eu. Mas ficou pra próxima, porque o dinheiro já tinha ido com a Lúcia… ;)

Paulo Coelho e o Sítio do Pica-pau Amarelo

Por Luciana | 28/04/2009, 15h15

Todo ano passo um trabalho sobre Monteiro Lobato e o Sítio do Pica-pau Amarelo para os meus alunos de 5ª série.

(Passo Ziraldo, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes também).

Aí, além dos trabalhos escritos e dos cartazes que exponho na sala, acabo fazendo algumas perguntas sobre a pesquisa literária na prova.

Então hoje de manhã, corrigindo e lançando as notas, surge a pérola: PAULO COELHO, O AUTOR DO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO.

Meu coração de professora naquele momento deu uma parada e fez um minuto de silêncio no meu peito!

Como, eu pergunto como é que um menino faz toda uma pesquisa sobre um determinado assunto e sai com uma resposta dessas?

Pensei na hora em dar zero para ele sem nem terminar de corrigir a prova, mas não.

Farei melhor: vou comprar um “Caçadas de Pedrinho” e presentear meu aluno pra que ele nunca mais esqueça que entre Monteiro Lobato e Paulo Coelho vão léguas…

Mais no Dialetica.org:
Creative Commons 2008 - 2012 Alguns direitos reservados • Dialetica.org utiliza WordPress 3.3.1 WordPress