Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Infância

Fantasma só faz buuu!

Por Luciana | 25/06/2009, 12h00

Olha, em abril, antes dos dois meses de greve pelos quais as escolas públicas do Pará passaram, recomendei aos meus alunos de 8ª série – são duas turmas – a leitura do livro Capitães da Areia.

Antes perguntei se eles preferiam organizar um sarau a fazer um teste sobre a leitura do livro. Preferiram o teste – “dá menos trabalho”, alegaram.

Pois bem.

A greve acabou, as aulas voltaram. A 2ª avaliação ficou só pro 2º semestre, assim como o teste.

Então eu disse a eles que teriam mais o mês das férias, além dois dois da greve, para ler o livro.

Foi quando uma aluna respondeu dizendo que não ia gastar o tempo dela de férias lendo livro nenhum, e que ela não tinha culpa da gente ter “inventado” essa greve.

Eu disse que tudo bem, que ela não lesse então. Mas que em agosto, doa a quem doer, farei esse teste sobre o livro e valerá metade dos pontos da prova. E não existe essa de não fazer o teste e fazer a prova valendo 10. Não fez o teste, faz a prova valendo 5.

Ponderei mais um pouco, disse que a greve não é “inventada” por nós só pra aumento salarial. Um dos pedidos desde o ano passado é por mais segurança nas escolas – e os episódios da feira da cultura e da festa junina da escola onde trabalho são provas mais do que concretas de que esse problema está longe de ser sanado.

Disse também que quando eu estudava era “obrigada” a ler pelo menos quatro livros por ano para trabalhos da escola. Capitães da Areia foi um desses, mas eu já tinha lido antes, porque, pra mim, ler nunca foi uma obrigação.

Aí, ontem à noite, contei essa história toda para o homem de todas as minhas vidas e recordei do primeiro livrinho que li para a escola: Fantasma só faz buuu!, da Flávia Muniz. Li aos oito anos, na antiga 2ª série do 2º grau.

Então, não resisti, e puxei meu livrinho que já tem pra mais de 20 anos da estante, e me pus a ler a historinha para ele, no Skype! E ele, coitado, ouvindo paciente… Como diria meu grande amigo Milton, “quem sabe isso quer dizer amor”?

E quem sabe um dia meus alunos entendam o motivo de se ler e leiam para aqueles que amam. Poemas, parábolas, posts, piadas ou quem sabe um livrinho de 2ª série.

Dos tempos do Pato Zito

Por Luciana | 19/05/2009, 02h02

Dia desses, rodando alucinadamente de carro com a célebre Patrícia Köhler e começamos a ouvir um CD incrível da Pat, só com músicas do Balão Mágico.
Sim, somos fãs. Fãs daquelas que batem palma cantando – mesmo que dirigindo! – e que adorariam ter desfilado por aí com alguma roupinha Caramelo, grife que vestia o grupo.
Música vai, música vem, controle de choro em algumas horas e explosão de gargalhadas em outras, chegamos a mais um ponto em comum: nossos corações infantis batiam ambos pelo Tob.
Uma vez um amigo falou que todo menino daquela época foi meio apaixonado pela Simony. Eu não sei. Eu sei que as garotas tinham a sorte de poder escolher entre Tob e Mike e minha amiga Patrícia e eu éramos da ala do primeiro.
Você deve estar estranhando eu não citar o Jairzinho como uma dessas opções e vou começar a me explicar agora.
O Tob é a personificação dos típicos namoros infantis e adolescentes. Na música Se enamora ele interpreta esse papel com perfeição. O cara que não sabe como se aproximar da garota, que torce pra que um dia ela tropece nele ou que tenha coragem para tirá-la para dançar.
Nos dois primeiros discos do Balão, Tob divide com Simony a maioria das canções, uma espécie de primeira voz do grupo. Até que acontece o terceiro disco, exatamente o que traz Se enamora – o mesmo que traz Jairzinho para a turma.
Ele chega botando banca, com “gatinhas me perseguindo / curtindo com o meu som / gritando: lindo, lindo / me chamando de bombom”. E, abruptamente, vimos Tob ser aos poucos substituído por Jairzinho nas canções mezzo românticas do Balão – Mochila azul, por exemplo.
Tob é tímido; Jairzinho é garanhinho. Tob é o garoto que, por mais que não se declare, a menina sabe que gosta dela e, por conseguinte gosta dele também, vive sonhando com o dia em que ele se declarará finalmente.
Aí, de repente, vem o Jairzinho. O Jairzinho é o cara que chega e ganha de nocaute. Rápido, sagaz, veloz. Sem enrolação, sem paciência de Jó.
Mas preferimos, Pat e eu, o Tob. Os poucos rapazes que continuaram a ser Tob.

Tímidos, doces, românticos, em um exercício leve e lento do amor.

PS – Do Uma garota apenas, da Pat, do Tob, de mim. ;)

Da minha irmã

Por Luciana | 17/05/2009, 02h02

Eu sempre estudei de manhã. Meus pais saíam pra trabalhar e me deixavam na escola. Quando chegou a 1ª série a turma passou para o turno da tarde e meus pais conversaram com a dona da escola e decidiram que eu ia continuar indo de manhã, assistindo aula na turma de apoio.

A turma de apoio consistia na aula de reforço que a própria escola disponibilizava para os alunos que tivessem algum tipo de dificuldade. Funcionava assim: minha turma oficial tinha aula segunda de tarde e eu aprendia só na terça de manhã, com a tia do apoio.

Já se passaram 20 anos, exatos 20 anos, que essa história aconteceu e ela ainda me entristece porque meus pais simplesmente decidiram isso e não me contaram nada.

Imagine a cena: uma garota de seis anos chegando das férias, louca pra encontrar os amigos que tinham acabado de aprender a ler e a escrever com ela no ano anterior e que, sem mais nem menos, não encontra ninguém, absolutamente ninguém daquela turminha.

Quem me contou tudo foi a tia Júnia, dona da escola. E eu chorei tanto naquele dia, perguntando por um a um dos meus colegas.

Lá pelo meio do ano foi um aviso pra casa, dizendo que eu teria que ir em uma tarde, para tirar as fotos daquele semestre com a turma – a minha turma oficial. Aquela, eu posso afirmar, foi das tardes mais maravilhosas de toda a minha vida.

No dia seguinte, eu menti pros meus pais, dizendo que ainda tinha que tirar mais fotos, que tinha que voltar de tarde outra vez. E quando chegamos lá, e a tia Júnia disse que eu tinha inventado aquilo, eu expliquei que queria ficar brincando com eles, só mais uma vez. E assim foi, só mais uma vez.

A grande responsável por tanta saudade era uma garota que também se chamava Luciana. A Luciana Barros.
A Luciana Barros era uma garota viva, esperta, de olhos agateados, desinibida, alegre, extrovertida.

Daquelas pessoas pra quem parece que não existe tempo ruim. A Luciana Barros era a minha melhor amiga. Melhor: é minha melhor amiga da infância.

Nós dizíamos pra todo mundo que éramos irmãs e ninguém acreditava porque como podia duas irmãs com o mesmo nome?! E nós respondíamos: “Nossos pais gostam muito desse nome, ora!”.

Depois daquele dia das fotos, eu nunca mais vi a Luciana Barros. Nem por isso deixei de pensar nela por todos esses anos. Sempre que penso em Manaus, sempre que penso na escolinha, sempre que penso em amizade, ela está sempre lá, na primeira fila. No primeiro lugar da primeira fila.

Eu tenho poucas amigas e justamente por isso todas são bem especiais, cada uma ao seu modo. Mas eu tenho que dizer uma coisa: a Luciana Barros é a única amiga que eu chamei de irmã. A única amiga que eu tive e tenho até hoje bem guardado no peito o sentimento de irmã.

Lúcia Já-vou-indo

Por Luciana | 15/05/2009, 15h15

Sempre que vou a livrarias me detenho um pouquinho que seja na ala infantil.

Na época da faculdade de Letras cheguei a pensar em fazer o TCC sobre literatura infanto-juvenil – seria uma aproximação (ou não) das infâncias da Narizinho e do Menino Maluquinho. Como a orientadora que eu queria manjava mais de Jorge Amado – outra grande paixão minha – acabei deixando os livros infantis de lado, pelo menos no que tange a vida acadêmica.

Mas é irresistível pra mim mergulhar naqueles livrinhos coloridos. Ler novos, reler os que fizeram parte da minha infância, comprar uns aqui e outros ali.

O mais recentemente comprado foi o Lúcia Já-vou-indo, da Maria Heloisa Penteado. Depois de muito procurá-lo por mais de um ano, achei o último exemplar da Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Fiquei feliz. Ficava feliz quando não encontrava também, porque era/é sinal que as crianças ainda leem a história da lesminha que eu tanto adorava quando eu tinha cinco anos de idade.

O livro, cheio de ilustrações de cores contagiantes, conta a história da lesminha Lúcia, que nunca tinha conseguido ir a uma festa porque sempre chegava atrasada, afinal, era uma lesma.

Até o belo dia que a libélula Chispa Foguinho teve a idéia mais genial da minha meninice: fazer uma festa na casa da própria Lúcia! Ela só não contava que a Lúcia fosse sair de casa nesse dia…

Não conto o fim para que você, leitor, saia desesperadamente a procurar um exemplar de Lúcia Já-vou-indo.

Tenho memórias sobre esse livro. Lembro da minha mãe lendo, da minha avó lendo. Aqui, um adendo: liguei pra minha mãe pra contar que tinha comprado o Lúcia Já-vou-indo, e ela disse na hora: – Ah, esse livro é a cara da tua avó, ela adorava as libélulas.

As libélulas são um caso a parte. Minha mãe e minha avó adoravam as libélulas porque eu lia errado a palavra libélula. Eu lia libelula (tônica no u). Elas morriam de fazer molecagem comigo. Ensinavam o certo, mas eu dizia que libelula era mais bonito.

Lembro também de uma noite, eu lia deitada ao lado do meu pai na cama de casal dele e da minha mãe, enquanto ela, grávida de todos os meses do meu irmão, estava deitada na rede. De repente, minha mãe fala: – José, eu vou cair.

Foi quando meu pai voou da cama pra rede e pegou minha mãe no ar – a rede tinha rasgado ao meio. Essa é a grande cena heroica da minha infância. A lembrança é tão nítida que sei até o que estava passando na TV: Anarquistas graças a Deus. E eu lia Lúcia Já-vou-indo, claro.

Você, ou seu filho, ou seu neto, ou seus alunos, deviam ler também. É lindo.

PS – Dias depois, encontrei também na mesma Livraria Cultura o Sangue de Barata, da Ângela Lago. Todo feito em versos, é um livro também muito bacana, muito minha avó, minha mãe e eu. Mas ficou pra próxima, porque o dinheiro já tinha ido com a Lúcia… ;)

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