Garrincha: do disparo da flecha fulniô à última garrafa
Por Luciana | 13/03/2009, 15h15
“Até os mais ardentes torcedores do Flamengo também eram Garrincha de coração.”
Ruy Castro
O anjo das pernas tortas
Vinicius de Moraes
A Flávio Porto
A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!
Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!
Ao escrever uma biografia, além de reconstruir detalhadamente a trajetória de determinada pessoa, também o espaço e tempo da história são minuciosamente levantados.
Em Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrincha, o jornalista Ruy Castro aborda não só a vida do craque, mas também os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais em que a vida de Garrincha estava inserida.
Através do “personagem” Garrincha, vamos chegando ao entendimento da realidade da época em que ele viveu e percebendo, de acordo com Ricoeur – citado por João Carlos Correia –, que a intriga é o mediador entre o acontecimento e a história. Ruy Castro seleciona, dos antepassados indígenas de Garrincha até os agradecimentos às pessoas que lhe ajudaram a escrever o livro, os tópicos que fazem com que a narrativa progrida, cresça.
Os bisavós de Garrincha eram índios fulniôs e para falar neles, Castro volta ainda mais no tempo e relata: “Os primeiros portugueses, ao chegarem por aqui em 1500, horrorizaram-se com aqueles bárbaros nus que praticavam alegremente todas as variantes sexuais previstas no catálogo (…) (E, quinze minutos depois, logo se juntaram aos bárbaros nessas variantes).”
Assim aconteceu com Garrincha, mas de maneira inversa. Enquanto Garrincha produzia gols e alegrias ao Botafogo – ou mesmo aos times de Pau Grande onde antes jogava – e à Seleção Brasileira, ele contava com uma espécie de salvo-conduto de todos: amigos, parentes, empregadores, colegas de trabalho, imprensa, a sociedade enfim. Dentro daquele conjunto de pessoas vivendo, por vontade própria, sob normas comuns, Garrincha podia dormir durante o expediente, ter quantas mulheres quisesse, beber o que a vontade dele mandasse, afinal, ética não era necessário para o que o rodeavam. Os dribles, passes e gols bastavam.
Na verdade, “para ele, a alegria do futebol não estava em fazer gols. Nem em vencer a partida. Nem mesmo em ganhar o bicho, que era o prêmio em dinheiro pela vitória. Gols, vitórias, bichos, tudo isso eram coisas mesquinhas da civilização.
E a civilização não era o elemento de Garrincha. A graça estava em driblar, apenas driblar. Estava no futebol em estado selvagem e lúdico, que era como os índios jogariam, se soubessem.”
Se a civilização não era o elemento de Garrincha, a sociedade mais cedo ou mais tarde cobraria isso.
Quando, afinal, o joelho começou a roubar o futebol de Garrincha, e coincidiu de ele encontrar a mulher que mudaria – para o bem ou para o mal – a vida dele, a cantora Elza Soares, o jogo inverteu contra ele.
Ora, se Garrincha não era mais tão produtivo como antes dentro de campo, por que a sociedade deveria continuar fechando os olhos para a ignorância do jogador quanto ao que era moralmente certo ou errado?
Todos, como em um passe de mágica, começaram a devotar compaixão pela esposa de Garrincha, Nair, e as oito filhas que com ele tivera.
Exemplo contundente disso foi, em 1963, O Globo eleger Nair “a mãe do ano” – mãe do ano em que a paixão de Garrincha pela crioula Elza explodia. Até Dona Stela Marinho, esposa de Roberto Marinho, foi a Pau Grande levar um diploma e um cordão de ouro à mãe do ano, mesmo Nair sendo a personificação do desleixo – com a casa, com as filhas e com ela própria. Mas a “onda” era atacar Garrincha e Elza Soares – como se fosse o primeiro caso dele durante o matrimônio com Nair. Naquele momento, já não jogava o futebol incrível que sempre o absolveu pela vida afora…
No início da vida no futebol profissional – no Botafogo – Garrincha teve um jornalista (botafoguense) que o seguia bem de perto: Sandro Moreyra. Foi a Sandro que Garrincha entregou a camisa da seleção usada por ele na final da Copa de 62 – a Copa que ele trouxe não para o Brasil, mas para Elza. Entregou pedindo que colocasse no altar da igreja de São Francisco de Paula, em Petrópolis, pois tinha feito uma promessa. O jornalista jurou que entregaria, mas guardou a camisa pelo resto da vida…
Sandro Moreyra tentou mudar o apelido de Garrincha para Gualicho, por achar que soava melhor. Ele achava Garrincha muito suave, afeminado até, visto que é nome de passarinho. Já Gualicho, era um famoso cavalo, corredor de torneios de turfe.
Muitas matérias foram feitas a partir dos dribles e gols de Garrincha, mas quem estava levando a fama era um jogador que não existia, mas se chamava Galicho, fruto da tentativa aberta de interferência na realidade, da manipulação que o jornalismo é capaz de criar, justificando a afirmação de Emanoel Barreto de que “toda teia que se estabelece entre jornalismo e poder agrega não só interesses como preocupações mercadológicas, já que a notícia é um produto”. Preocupar-se com o nome do jogador como se fosse um nome de um produto a ser vendido pela mídia era exatamente o que acontecia naquele momento.
Outra face determinante da relação de Garrincha com a imprensa tem a ver com as histórias inventadas e propagadas por Sandro Moreyra – mais uma vez – que davam conta de um verdadeiro folclore acerca do jogador. Histórias que seriam repetidas, deturpadas e que, ajudaram a criar “o mito de um gênio infantil, e quase debilóide, que não fazia justiça a Garrincha.”
Até mesmo Garrincha passou a acreditar em sua “debilidade” inventada pela mídia, desenvolvendo a partir de 1968 “um hábito que se agravaria com o tempo – o de culpar exclusivamente os outros por suas agruras.”
O que a sociedade não sabia é que Garrincha sofria de uma doença chamada alcoolismo e que, ao invés de ataques, acusações e cobranças éticas, ele precisava de tratamento médico.
Ruy Castro não toma o caminho mais fácil e confortável, e faz questão de absolver a sociedade da culpa que acometeu a todos quando Garrincha morreu, afinal, ele também se dedicou bastante a autodestruição. Mas, de acordo com o painel traçado pelo livro, fica nítido o quanto a mídia poderia ter agido de forma diferente com o anjo das pernas tortas: assim como o biógrafo procurou fazer.
Em um exercício amplo de imaginação, é de se pensar como a sociedade “conversaria” sobre ética com Garrincha nos dias atuais, se com a mesma moralidade rígida e, ainda assim, hipócrita – acusavam Elza de indispô-lo com o Botafogo por interesse no dinheiro dele, mesmo sabendo que era ela quem o sustentava com o dinheiro dos discos e shows que fazia –, ou se com perícia e foco na doença real do jogador – o alcoolismo.
A pressa do dia-a-dia da redação faz com que, muitas vezes, não nos aprofundemos nos casos sobre os quais escrevemos, ao contrário de um estudo biográfico onde a pressa é deixada de lado em prol do apuro e da minúcia. Contudo, a pressa não pode servir de desculpa para os jornalistas, já que os personagens com os quais ilustramos nossas histórias para o entendimento da realidade são, de fato, reais. Bem reais.
PS – Como diria o Doni, adoro quando textos que fazem para faculdade podem vir (e vem) pra cá. Esse foi pra Jornalismo Comparado. Não sei se era bem isso que o professor queria, mas taí…


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