Das bobagens mais ternas
A Suely Maria é a minha orientadora. A conheci por sugestão – mais que certeira – da Miriam – uma das moças mais delicadas que conheço na vida.
A Miriam falou pra mim que a Suely era a professora que sabia TUDO de feminino e que seria uma boa conversar com ela sobre meu projeto.
Quando disse que a Miriam tinha dado a indicação e repeti o lance de saber TUDO de feminino, ela deu um sorriso mineiro e disse que então não precisava eu estudar mais nada de feminino já que ela já sabia de tudo sobre!
Ela é uma querida.
Disse que meu projeto sobre as figuras femininas amadianas a interessava e que aceitava me orientar. Só pediu que eu me inscrevesse na turma da aula de metalinguagem poética que ela ia ministrar, para que nos conhecêssemos melhor.
Pois bem.
Em Beagá, quando uma mulher é muito fina, educada, delicada, eles dizem que ela é uma dama. Posso dizer depois de dois, três meses que a Suely é definitiva e absolutamente uma dama. E fiquei muito fã dela nesse tempinho, apesar de saber que ela nunca vai ler esse texto, afinal, não entende nada, nadinha de mexer com Internet.
Bem, esse preâmbulo todo sobre a Suely é pra contar de um momento de agora a pouco.
Em uma das ultimas aulas que tivemos, analisamos uns poemas da Adélia Prado. Um chamado Clareira marcou em particular:
Seria tão bom, como já foi,
As comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
Pitando e rapando a goela. Os meninos
Farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida, ou inventei?
Eu gosto de metafísica, só pra depois
Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
Falar as falas certas: a de Lurdes casou,
A das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
As santas missões vêm aí, vigiai e orai
Que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
Quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
Pra eu sobreviver.
A Suely ilustrou bem a percepção que tinha do poema. Lembrou de quando o filho dela foi morar na França e uma vizinha sabiamente a aconselhou: quando escrever para ele – sim, ela escreve cartas até hoje pro filho – conte só bobagens.
Ora, como assim só bobagens? – ela indagou, intrigada.
Bobagens: quem casou, quem formou, quem fez, aconteceu… Conte só bobagens porque é disso que sentimos saudade quando estamos longe.
Ouvi essas palavras na sala de aula e meus olhos encheram. Era aquilo mesmo. Morro de saudade das bobagens que converso com minha mãe, à mesa da cozinha; deitadas juntas na cama; de frente pro rio, na praia; no carro, no rumo da venta.
Lembrei ainda agora do poema – e, por conseguinte, da Suely, aquela querida – porque estávamos, minha mãe e eu, comendo ludicamente o melhor caranguejo do mundo – o dela – na cozinha de casa, contando bobagens uma pra outra. Do meu curso, do trabalho dela, da minha casa, das minhas tias, do nosso cotidiano amorosamente entrecortado.
A clareira da Adélia inundou a cozinha aqui de casa e eu me vi com minha mãe sendo poesia.
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