Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

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Sobre a Copa do Meio Ambiente

Por Luciana | 04/06/2009, 09h09

Há alguns meses, o Cássio me indagou a respeito da rivalidade Belém x Manaus.

 

Eu fui sincera em responder que devido ao fato dos meus pais serem paraenses e do meu irmão e eu sermos amazonenses, em nossa casa essa rixa nunca foi alimentada.

 

(Tanto que eu sou aquela amazonense/manauara que torce pelo Paysandu!)

 

No máximo, meu pai convidava os amigos amazonenses para virem a Belém na época do Círio.

 

Tudo bem, devo confessar que ele quis que minha mãe viesse para Belém grávida, para que eu nascesse aqui e fosse paraense como eles.

 

Só que minha mãe, pra variar, foi sábia e disse a ele que foi em Manaus que me fizeram e era justo que eu nascesse lá.

 

Eu acho boba essa briguinha porque no final das contas somos todos moradores da Amazônia, do Norte, do Brasil. E independentemente de ser em Belém ou em Manaus, não nos iludimos que nenhuma grande seleção venha pra cá.

 

Penso que ao invés de questionar o lobby dos manauaras, os belenenses deveriam questionar os governantes e a comissão formada para batalhar pela Copa 2014 na cidade.

 

É muito fácil a coordenadora da comissão ir à TV e dizer que a ficha não caiu e que ela não deve explicações, quem deve é a FIFA (!); que quem perde é o mundo por não conhecer Belém (!), e não a própria cidade.

 

Eu já disse que fico pasma?

 

Devíamos, em uma visão macro da coisa, questionar por que a Região Sul do país, composta de apenas três estados, teve duas capitais eleitas, enquanto a Região Norte, o pulmão do mundo (rá!), ficou só com uma. Copa do Meio Ambiente, sei…  

 

Concordo com o pensamento de que pra ficar de cabeça erguida, a prefeitura e o governo locais têm mais é que cumprir as metas prometidas, mesmo sem a Copa.

 

E rio muito até agora da nota conjunta que o prefeito e a governadora publicaram, falando que foi INJUSTIÇA o que fizeram com Belém.

 

Ora, assim como é INJUSTIÇA o que andam fazendo com a saúde e a educação da cidade e do estado, só pra ficar em dois tópicos dos mais graves, em minha singela opinião.

 

De minha parte, quero ter um furgão lindão até 2014 e visitar com a família cada uma das cidades que sediarão os jogos. Não precisamos entrar em todos os estádios, queremos apenas sentir aquele clima “voa, canarinho, voa” pelo Brasil afora.

 

Pra fechar, um momento Balão Roots: eu morava perto do Vivaldão, em Manaus, e lá assisti ao primeiro show da minha vida, da melhor banda infantil do meu mundo, Balão Mágico!

Garrincha: do disparo da flecha fulniô à última garrafa

Por Luciana | 13/03/2009, 15h15

“Até os mais ardentes torcedores do Flamengo também eram Garrincha de coração.”

Ruy Castro

O anjo das pernas tortas

Vinicius de Moraes

 

A Flávio Porto


A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

 

        Ao escrever uma biografia, além de reconstruir detalhadamente a trajetória de determinada pessoa, também o espaço e tempo da história são minuciosamente levantados. 

Em Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrincha, o jornalista Ruy Castro aborda não só a vida do craque, mas também os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais em que a vida de Garrincha estava inserida.

Através do “personagem” Garrincha, vamos chegando ao entendimento da realidade da época em que ele viveu e percebendo, de acordo com Ricoeur – citado por João Carlos Correia –, que a intriga é o mediador entre o acontecimento e a história. Ruy Castro seleciona, dos antepassados indígenas de Garrincha até os agradecimentos às pessoas que lhe ajudaram a escrever o livro, os tópicos que fazem com que a narrativa progrida, cresça.

Os bisavós de Garrincha eram índios fulniôs e para falar neles, Castro volta ainda mais no tempo e relata: “Os primeiros portugueses, ao chegarem por aqui em 1500, horrorizaram-se com aqueles bárbaros nus que praticavam alegremente todas as variantes sexuais previstas no catálogo (…) (E, quinze minutos depois, logo se juntaram aos bárbaros nessas variantes).”

        Assim aconteceu com Garrincha, mas de maneira inversa. Enquanto Garrincha produzia gols e alegrias ao Botafogo – ou mesmo aos times de Pau Grande onde antes jogava – e à Seleção Brasileira, ele contava com uma espécie de salvo-conduto de todos: amigos, parentes, empregadores, colegas de trabalho, imprensa, a sociedade enfim. Dentro daquele conjunto de pessoas vivendo, por vontade própria, sob normas comuns, Garrincha podia dormir durante o expediente, ter quantas mulheres quisesse, beber o que a vontade dele mandasse, afinal, ética não era necessário para o que o rodeavam. Os dribles, passes e gols bastavam.

        Na verdade, “para ele, a alegria do futebol não estava em fazer gols. Nem em vencer a partida. Nem mesmo em ganhar o bicho, que era o prêmio em dinheiro pela vitória. Gols, vitórias, bichos, tudo isso eram coisas mesquinhas da civilização.

E a civilização não era o elemento de Garrincha. A graça estava em driblar, apenas driblar. Estava no futebol em estado selvagem e lúdico, que era como os índios jogariam, se soubessem.”

        Se a civilização não era o elemento de Garrincha, a sociedade mais cedo ou mais tarde cobraria isso.

        Quando, afinal, o joelho começou a roubar o futebol de Garrincha, e coincidiu de ele encontrar a mulher que mudaria – para o bem ou para o mal – a vida dele, a cantora Elza Soares, o jogo inverteu contra ele.

        Ora, se Garrincha não era mais tão produtivo como antes dentro de campo, por que a sociedade deveria continuar fechando os olhos para a ignorância do jogador quanto ao que era moralmente certo ou errado?

        Todos, como em um passe de mágica, começaram a devotar compaixão pela esposa de Garrincha, Nair, e as oito filhas que com ele tivera.

        Exemplo contundente disso foi, em 1963, O Globo eleger Nair “a mãe do ano” – mãe do ano em que a paixão de Garrincha pela crioula Elza explodia. Até Dona Stela Marinho, esposa de Roberto Marinho, foi a Pau Grande levar um diploma e um cordão de ouro à mãe do ano, mesmo Nair sendo a personificação do desleixo – com a casa, com as filhas e com ela própria. Mas a “onda” era atacar Garrincha e Elza Soares – como se fosse o primeiro caso dele durante o matrimônio com Nair. Naquele momento, já não jogava o futebol incrível que sempre o absolveu pela vida afora…

        No início da vida no futebol profissional – no Botafogo – Garrincha teve um jornalista (botafoguense) que o seguia bem de perto: Sandro Moreyra. Foi a Sandro que Garrincha entregou a camisa da seleção usada por ele na final da Copa de 62 – a Copa que ele trouxe não para o Brasil, mas para Elza. Entregou pedindo que colocasse no altar da igreja de São Francisco de Paula, em Petrópolis, pois tinha feito uma promessa. O jornalista jurou que entregaria, mas guardou a camisa pelo resto da vida…

        Sandro Moreyra tentou mudar o apelido de Garrincha para Gualicho, por achar que soava melhor. Ele achava Garrincha muito suave, afeminado até, visto que é nome de passarinho. Já Gualicho, era um famoso cavalo, corredor de torneios de turfe.

Muitas matérias foram feitas a partir dos dribles e gols de Garrincha, mas quem estava levando a fama era um jogador que não existia, mas se chamava Galicho, fruto da tentativa aberta de interferência na realidade, da manipulação que o jornalismo é capaz de criar, justificando a afirmação de Emanoel Barreto de que “toda teia que se estabelece entre jornalismo e poder agrega não só interesses como preocupações mercadológicas, já que a notícia é um produto”. Preocupar-se com o nome do jogador como se fosse um nome de um produto a ser vendido pela mídia era exatamente o que acontecia naquele momento.

        Outra face determinante da relação de Garrincha com a imprensa tem a ver com as histórias inventadas e propagadas por Sandro Moreyra – mais uma vez – que davam conta de um verdadeiro folclore acerca do jogador. Histórias que seriam repetidas, deturpadas e que, ajudaram a criar “o mito de um gênio infantil, e quase debilóide, que não fazia justiça a Garrincha.”

        Até mesmo Garrincha passou a acreditar em sua “debilidade” inventada pela mídia, desenvolvendo a partir de 1968 “um hábito que se agravaria com o tempo – o de culpar exclusivamente os outros por suas agruras.”

        O que a sociedade não sabia é que Garrincha sofria de uma doença chamada alcoolismo e que, ao invés de ataques, acusações e cobranças éticas, ele precisava de tratamento médico.

        Ruy Castro não toma o caminho mais fácil e confortável, e faz questão de absolver a sociedade da culpa que acometeu a todos quando Garrincha morreu, afinal, ele também se dedicou bastante a autodestruição. Mas, de acordo com o painel traçado pelo livro, fica nítido o quanto a mídia poderia ter agido de forma diferente com o anjo das pernas tortas: assim como o biógrafo procurou fazer.

        Em um exercício amplo de imaginação, é de se pensar como a sociedade “conversaria” sobre ética com Garrincha nos dias atuais, se com a mesma moralidade rígida e, ainda assim, hipócrita – acusavam Elza de indispô-lo com o Botafogo por interesse no dinheiro dele, mesmo sabendo que era ela quem o sustentava com o dinheiro dos discos e shows que fazia –, ou se com perícia e foco na doença real do jogador – o alcoolismo.

        A pressa do dia-a-dia da redação faz com que, muitas vezes, não nos aprofundemos nos casos sobre os quais escrevemos, ao contrário de um estudo biográfico onde a pressa é deixada de lado em prol do apuro e da minúcia. Contudo, a pressa não pode servir de desculpa para os jornalistas, já que os personagens com os quais ilustramos nossas histórias para o entendimento da realidade são, de fato, reais. Bem reais.

 

PS – Como diria o Doni, adoro quando textos que fazem para faculdade podem vir (e vem) pra cá. Esse foi pra Jornalismo Comparado. Não sei se era bem isso que o professor queria, mas taí… ;)

Desde 1910…

Por Luciana | 03/12/2008, 14h14

Minha mãe torce pelo Botafogo. Mesmo não sendo fanática por futebol, mesmo não sendo do Rio de Janeiro. Ela é botafoguense.

A razão, segundo ela mesma, é bem simples: a geração dela é feita de muitos botafoguenses porque era impossível ser jovem e não ser botafoguense no auge de Garrincha!

Contei essa história uma vez pra Tina e ela disse que fazia muito sentido – ela também era botafoguense, mais ou menos da idade da minha mãe, carioca.

Pois bem.

Em janeiro fui a São Paulo e lá pelo terceiro dia que estava por lá, saí com o Trotta. Nos encontramos no Conjunto Nacional, ficamos horas batendo papo na Livraria Cultura, até anoitecer e irmos jantar com o André e o Lello.

Eu conversava com o Trotta e vira e mexe ficava dispersa, meio aérea. Até que criei coragem e falei: - Cara, não consigo tirar os olhos da sua camisa! Ela tá me desconcentrando!

Hahahahahahahaha!

Ele estava com uma camisa preta, com a estampa do Garrincha com o uniforme do Botafogo. Linda demais.

O Trotta indicou que tinha comprado a camisa na Banca de Camisetas, etc. e tal. Deixei passar um tempinho e fui até lá ver se comprava a camisa igual a do Trotta – invejosinha eu.

Vale dizer que eu estava prestes a ir passar o carnaval em Santiago do Chile, onde o Brasil, graças a Garrincha (ou não?), foi bicampeão mundial. Ia ser lindo visitar o Estádio Nacional de Chile com aquela camiseta!

Ia.

Encomendei a camiseta, mas ela não chegou a tempo para a viagem. Só na volta eles me ligaram e pediram que eu fosse até lá apanhar a camiseta sem custo algum, como um pedido de desculpa – tive que gritar Brasil Bicampeão no Estádio vestida de vermelho mesmo…

Já perdi a conta de quantas pessoas me pararam para perguntar onde eu tinha comprado, quanto custava, etc., etc….

Já perdi a conta também de quantas vezes li os poemas de Vinicius de Moraes, onde ele cita o Botafogo. Eu acho que eu sou meio Botafogo só por causa do Vinicius de Moraes… E da minha mãe… E da Tina… E do Garrincha…

“Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”

Um eletricitário no mundo da crônica esportiva

Por Luciana | 27/11/2008, 16h46

“Gostar, se dedicar, ir além”. Com essa frase, Gandur Zaire Filho sintetizou o que para ele é premissa para ser um bom jornalista esportivo.

Membro da ACLEP – Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Pará – e da ABRACE – Associação Brasileira de Cronistas Esportivos –, Zaire Filho começou no rádio esportivo no início da década de 70 e, por 25 anos, foi gerente da CELPA. “Às 7h eu era cronista esportivo e a partir das 7h30 era eletricitário”, recorda.

Hoje, Zaire Filho tem registro de jornalista, relações públicas e radialista, mas começou a trabalhar nessa área antes de ingressar no curso de Comunicação Social.

Para o apresentador do programa Camisa 13, da RBA, o jornalismo esportivo confere um ecletismo ao profissional por conta do improviso. Ele relembra que quando começou a carreira não tinha produção. “O jornalista era o pauteiro, o repórter, o produtor, era tudo!”, afirma.

Zaire vê Belém como um case nacional de jornalistas, nas palavras dele, “generosos com o esporte”. Por conta disso e por um questão cultural, ele acredita que Remo e Paysandu nunca vão acabar, mas faz ressalvas. “É preciso que os dirigentes dos clubes paraenses não sejam mais regidos pelo coração”, aconselha.

O mesmo conselho vale para os jornalistas. Apesar de afirmar que o jornalismo não deve ser confundido com negócio, Zaire admite que faz merchand em seu programa, não tendo sido sequer consultado pela produção quanto a isso. “Às vezes, temos que ser aéticos por sobrevivência”, constata.

Sobre os anúncios publicitários dentro dos programas, o jornalista cita o embate ético entre Juca Kfouri e Milton Neves e indaga: “Vender ou informar?: eis a questão”.

A respeito do esporte paraense, Zaire cita o Grand Prix de Atletismo como um grande evento mundial que acontece em Belém graças ao advento do Estádio Olímpico e é realista ao afirmar que o futebol feminino não é uma grande aposta da imprensa.

A grande aposta da imprensa e dos torcedores é subsediar a Copa de 2014, mas Zaire alerta: esta decisão será política já que o Mangueirão está praticamente pronto, mas Manaus conta com o ecoturismo. O jornalista aposta que para esse impasse, as duas capitais serão escolhidas. “Acho que teremos uma decisão ‘salomônica’”. Se for assim, a imprensa esportiva paraense generosamente agradecerá.

PS – Trabalhinho de Jornalismo Especializado, a partir de uma coletiva com Zaire Filho. Tirei 9.0. :(

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