Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Espiritualidade

Na biblioteca

Por Luciana | 02/01/2009, 19h20

“Sou eu que vou ser seu amigo, / Vou lhe dar abrigo, se você quiser. / Quando surgirem seus primeiros raios de mulher / A vida se abrirá num feroz carrossel / E você vai rasgar meu papel”

Você já desconfia que é mesmo uma grande saudosista, mas tem certeza plena disso quando aproveita toda uma tarde livre, sem trabalho nem dever, e de todos os lugares do mundo da sua cidade, vai parar no colégio onde estudava.

Depois de se apresentar como ex-aluna – ex-marista jamais! – na portaria, consegue entrar. Está tudo lá, como você deixou. Ao mesmo tempo, nada mais está lá. Suas amigas e seus professores não estão mais lá. Está lá o uniforme branco e azul, a música que serve de campa, a oração no segundo horário, a capelinha, as quadras, as piscinas, as lanchonetes, as salas, a biblioteca.

Pensando melhor, as suas melhores recordações estão dentro do seu peito, e lá, elas maviosamente, ganham forma.

Você sobe até a biblioteca com seu caderno nas mãos, como antigamente. Mas dentro do seu caderno não tem mais aqueles poemas apaixonados. Agora o seu caderno é todo cheio de apontamentos de aula e de anotações para textos que serão escritos para cá. No seu caderno tem um tamba-tajá que o Lupa desenhou e um calendário no qual você vai riscando os dias que nem presidiário. As duas coisas com as quais o seu caderno de hoje é idêntico aquele de 15 anos atrás são a sua letra doidivanamente canhota e o fato dele vir aconchegado no seu peito, num abraço.

Você pensa nisso ao subir os degraus vermelhinhos que lhe levam à biblioteca. Lembra de imediato daquela música do Toquinho, O Caderno, e vê que não tem mais jeito, estão todos ali: o padre Raul, o padre fofo e comunista da capela do colégio; a professora de natação; o porteiro que ninguém sabe o nome porque todo mundo só chama de Bigode, mesmo ele tendo raspado o bigode há séculos; a Suzi, a bibliotecária que você mais gosta na vida depois da sua mãe.

A Suzi lembra que você ia toda tarde pra biblioteca e que ficava lendo, conversando com ela e com a Rosi – a outra bibliotecária querida de lá – e escrevendo. Sim, ela lembra que você escrevia uns poemas “lindos” e confirma que realmente você ganhou aqueles concursos poéticos que a biblioteca promovia.

Então você senta em uma daquelas mesas redondas da biblioteca e fica lá só pensando coisas boas, porque coisa boa atrai coisa boa. E você fica feliz. Porque a Suzi relembrou aqueles dias mágicos da sua adolescência, porque você está sentada ali de novo, entre aqueles livros e alunos, escrevendo palavras repletas de amor. Porque graças a elas, as palavras, você tem pessoas queridas que lhe lêem e que você ainda vai (re)encontrar pelas bibliotecas da vida. Por muitas vidas.

Rômulo

Por Luciana | 23/12/2008, 17h17

Olha, vou a palestras no centro espírita. Elas duram em torno de uma hora e em seguida recebemos um passe.

Durante os cinco primeiros meses o palestrante que ouvi foi o Rômulo, um senhor meio careca, de óculos, sério e simpático na medida.

Aí, um dia, eu cheguei lá e dei meu nome na entrada – eles marcam presença – e minha ficha não estava no arquivo. Depois de checar duas vezes, a recepcionista disse que talvez eu tivesse mudado de ciclo, passado para o II.

Não deu outra. Ela disse que agora eu pertencia a outro grupo, em uma sala que fica no andar superior. Deu a notícia super contente, pois pra ela aquilo é um grande feito. Eu só perguntei: “- Mas e o Rômulo?”. E ela: “- Ah, o seu Rômulo é do ciclo I, agora você vai assistir as palestras do seu Nelson”. “- Mas eu gosto do Rômulo” – argumentei, mesmo sabendo que em questões de lógica gostar ou não, não adianta muito. “Mas o seu Nelson é ótimo! Você vai ver!” – ela falou, confirmando minha teoria.

Lá em cima, a sala é menor e o grupo também. Um grupo mais participativo, que vive crivando o Nelson de perguntas.

Desci, recebi o passe, e já ia saindo quando dei de cara com o Rômulo. Em cinco meses nunca falei com ele, só escutei, mas naquele dia sim. Disse que sentiria falta dele. Ele sorriu e disse que ficava feliz de eu ter passado para o ciclo II, sinal de que estava evoluindo no estudo. Será?

Eu sorri, agradeci e vim embora. Vim embora chorando por dentro dos óculos escuros, porque acho que evolui bem pouco, a ponto de não querer abrir mão do Rômulo. Me arrependendo de não ter conseguido dizer a ele que acho que pelo menos uma coisa boa eu fiz naqueles cinco meses, inspirada pelas palavras dele: voltei a falar com alguém que eu gosto muito.

Depois de tempos sem falar com essa pessoa, chamei-a pra conversar e disse que estava ali por causa de um cara chamado Rômulo, que dava palestra no centro que eu freqüento e que falou que nós não somos amorosos coisa nenhuma, que nós somos é um bando de passionais.

O Rômulo plantou um botãozinho de rosa delicado e frágil dentro do meu peito, e por mais que ele cresça muito lentamente – a despeito do meu ciúme, do meu umbiguismo, e da minha passionalidade – ele cresce, pra que um dia aquilo que eu chamar de amor seja mesmo amor.

Presépio

Por Luciana | 16/12/2008, 14h14

Quando eu era criança, sempre passávamos o Natal na casa da minha avó paterna, mas às sete, oito da noite do dia 24, sempre fazíamos uma “mini-peregrinação” nas casas das tias da minha mãe.

Em ambas as casas tinha presépio. Uma tinha um presépio de peças pequeninas, minuciosamente trabalhado, cheio de luzinhas, de bichinhos, com areia fina, com laguinho de espelho. Sempre me intrigava que o cenário tão bem feito tivesse um desfalque deveras palpitante: a manjedoura sempre vazia.

Toda vez eu indagava e toda vez a resposta era a mesma: É que o menino Jesus só nasce meia-noite… Amanhã você passa aqui que ele já vai estar lá.

Mas aquilo não me contentava porque eu queria ver o exato momento dele “nascer”. Eu queria ver que passe de mágica seria capaz de fazer o menino Jesus aparecer ali.

Mas nunca vi, porque meia-noite sempre estava na casa da minha avó. Assim como nunca vi o Papai Noel, que sempre chegou quando eu já estava dormindo…

Na casa da outra tia as peças do presépio eram grandes, vistosas. E não tinha muito cenário e sim, os personagens e acabou-se. Até hoje é assim pois ela ainda está viva.

Na casa da minha avó, assim como na minha casa, o povo sempre foi mais ligado em árvore de Natal.

Minha avó até tinha algumas peças de presépio, mas elas a cada ano iam quebrando e não eram repostas, de modo que o hábito de montar o presépio lá se esvaiu.

Aqui em casa, hoje em dia, temos árvore e presépio. A árvore dá aquela trabalheira de montar – tanto que todo ano faço a mesma proposta indecente pra minha mãe: jogar um lençol por cima da árvore e deixá-la montada pro ano seguinte! Mas ela sempre diz que não…

O presépio é todo montado já. Não tem nem graça. As peças são estáticas, presas, de modo que o menino Jesus já nasceu faz tempo.

Mas eu entendo o raciocínio da minha mãe ao comprá-lo: pense em pessoas que não têm o mínimo de habilidades artísticas, manuais, etc. Somos nós!

Mesmo assim ainda tenho a esperança de um dia ter um presépio bem bonito no lugar da árvore – significa muito mais e aí finalmente verei o menino Jesus nascer. ;)

Energia

Por Luciana | 10/12/2008, 09h30

Eu não sei se você faz oração ou prece. Se você tem um deus ou vários ou nenhum. Eu não sou muito de pedir as coisas pra Deus, sabe? Eu sinto um constrangimento muito grande para pedir algo a Deus. Favores, milagres. Tenho pavor dele achar que minhas promessas são como proposições de troca: “me dá isso, que te dou isso!”.

Uma vez fui a uma igreja em Ouro Preto e um senhor perguntou se era a primeira vez que eu estava ali e eu disse que sim. Ele disse que então eu tinha direito a um pedido; que me aproximasse do altar e fizesse um pedido. E eu disse que não precisava pedir, porque já estava ali, só tinha que agradecer.

Quando a Santa passa na procissão eu tenho um ritual meio louco e bem particular: ao invés de pedir graças e bênçãos, fico dizendo o nome de todas as pessoas que amo, todas – próximas, afastadas, amigas, conhecidas, como se falasse à Santa: “Lembra de fulano? E de beltrano? Pois protege, ajuda, ampara.

Por muito tempo antes de dormir, tinha a seguinte conversa com Deus: “Obrigada por nos proteger até hoje, continue a nos proteger até onde der” – lucianices, como diria minha amiga Lúcia – que bom que você está vindo pro Natal, Lu!

Tenho alguns amigos que sempre rezam por mim – o Lupa, a Lúcia, o Rogério, a Glauce, a Ana Maria. A minha mãe também reza – pra Nossa Senhora da Imaculada Conceição, como eu já contei antes…

Agora, como estou freqüentando o centro espírita todas as quintas, me sinto melhor, leve. Porque lá é bem isso que falo – é coisa de amigo, é conversa. E lá no centro ouvi que tudo no mundo é questão de energia. A Lúcia também vive falando isso, sempre tão positiva comigo. Puxa, positiva é pouco pra o que ela é.

Aí, esse texto é pra falar em energia positiva e que, ao invés da gente se pegar com os santos, bem que podíamos nos pegar com as pessoas. Acreditar nas pessoas.

Não que não acredite nos santos! Mas acho que antes de pedir ajuda, a gente pode tentar resolver. E quando tentar resolver pode contar com a energia das pessoas ao redor.

Pensei nisso porque de vez em quando você, leitor, comenta que se emocionou com um texto meu, que se sente bem aqui, que se identifica, que sente a minha energia. Às vezes você nem comenta, mas sente. Diante disso, concluo que é uma pessoa sensível, afinal consegue me entender. Logo, há uma energia boa entre nós. A menos que você leia essas coisas que eu escrevo sem gostar, por puro masoquismo…

Um sorriso, um suspiro, um aceno com a cabeça, um pensamento, uma vibração que nem no futebol, uma vontade de abraço. Está tudo valendo. Se não for incômodo, é claro. Energia!

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