porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Espiritualidade

24/12/09

50 anos

2029. 24 de dezembro.

Um presépio no lugar da árvore; presentes embalados com carinho, por alguém que até lá já terá aprendido a fazer embrulhos e pacotes decentes; flores espalhadas pela sala; telefone tocando pra lá e pra cá com as pessoas mais queridas do outro lado.

Minha mãe e sua mãe desconfiando muito que não darei conta de preparar a ceia a tempo, desajeitada sempre na cozinha. Mas eu darei. Darei conta porque será uma comidinha feita só pra pessoas que amo. E o que eu não der eu encomendo em alguma quituteira da vida, afinal ninguém é de ferro.

Música, risada, fotografia. De vez em quando eu vou parar um pouco, olhar ao redor, e ter certeza de que aquilo, aquele dia, não é só contente nem alegre – é feliz. Plenamente feliz.

E depois do jantar uns dois meninos, rapazes, e uma menina, mocinha, meio parecidos comigo e com o homem de todas as minhas vidas, sairão pra ver os pares.

Vai ser quando ficaremos assistindo A felicidade não se compra pelo milésimo Natal, aninhados no sofá, mãos dadas, comendo um monte daquelas delícias natalinas! E vamos repetir nossos comentários do ano passado como se fossem novos: que George Bailey é o máximo, que Donna Reed está linda nesse filme; tentar obviamente imaginar como seria se não existíssemos, pra em seguida respirar aliviados por estarmos bem vivos e bem juntos.

E ficar bem nostálgicos, lembrando dos natais da nossa infância e da infância dos dois meninos, rapazes e da menina, mocinha. De como descobri que o Papai Noel não existia; de nossas peripécias para que os dois meninos, rapazes e a menina, mocinha não descobrissem logo.

Também vou contar minha piada de Natal favorita e o homem de todas as minhas vidas vai morrer de rir não pela piada, porque afinal é super sem graça, mas pela minha cara de pau de ainda contar mais uma vez! E calar minha gaiatice com um beijo doce, com gosto de fruta de Natal.

E mais uma vez eu vou pensar que mais que ouro, incenso e mirra, um lar é o melhor presente de Natal que se pode ter.

PS – Piada de Natal: “O garotinho pergunta pro Papai Noel: – Papai Noel, o senhor rói unha? E o Papai Noel responde: Ho! Ho! Ho!” Leitor exigente, eu disse que era super sem graça!

PS2 – Assista A felicidade não se compra! Todo ano, nessa época, eu assisto.

Luciana

Domingo passado fomos, André e eu, comprar um cartaz do Círio/2009 para ele levar pra mãe dele.

Um adendo curioso: a mãe dele deve ter uns quatro ou cinco cartazes do Círio e, ao invés de todo ano substituir um por outro, ela vai colando na parede um por um, construindo aos poucos um painel ciriano na casa deles!

Mas sim.

Compramos o cartaz na lojinha que fica dentro da Basílica Santuário de Nazaré, a um quarteirão da minha casa.

Estávamos lá sendo atendidos quando uma placa chamou a atenção do André: para utilizar o banheiro da Basílica Santuário cada pessoa tem que desembolsar cinquenta centavos.

Há tempos me questiono sobre a presença daquela loja – e mais os banheiros e uma lanchonete – ali dentro da igreja. Vou até lá pelo menos uma vez no ano, para comprar o cartaz e as camisetas do Círio, mas sempre me sinto desconfortável.

Eu sempre lembro dos vendilhões do templo e do quanto Jesus ficou puto com eles, sabe?

Lembro da Igreja Matriz de Ilhéus, que quando fui perguntar quanto custava um batizado lá, me deram um envelope branco e disseram que custava o que eu pudesse e/ou quisesse pagar.

Enquanto na Basílica de Nazaré um batizado – coletivo! – custava na mesma época 40 reais.

Como será nas outras igrejas? Será que são mais Igreja Matriz de Ilhéus ou mais Basílica Santuário de Nazaré?

Luciana

Um dia, o Nelson – palestrante do centro espírita – entre outras coisas falou sobre Judas.

Ele disse que acha um absurdo a malhação de Judas no sábado de Aleluia, porque é uma ode à violência e Jesus não gostaria disso. Sem contar que Judas já pagou tudo o que tinha que pagar, reencarnando várias vezes e em uma delas tendo sido Joana D’Arc, que todos sabemos o quanto sofreu, sendo ao fim queimada na fogueira da Inquisição.

O Nelson lembrou que Jesus sabia o papel de Judas naquela história toda. E que Judas não agiu de má fé. Ele queria que Jesus se tornasse um líder político além de líder espiritual e acreditava que Jesus enfrentaria seus algozes e num passe de mágica se libertaria da prisão e libertaria seu povo também.

Só que Jesus seguiu firme em seu propósito e não fez abracadabra nenhum, morrendo resignadamente por nós. E Judas, percebendo o seu próprio vacilo, se matou.

Nisso, veio a parte mais tocante da palestra. O Nelson perguntou: Vocês sabem qual foi a primeira atitude de Jesus ao chegar ao outro plano? Ele foi ao Vale dos Suicidas e deu um abraço em Judas. Deu conforto ao amigo. Como quando temos alguém preso ou enfermo e mesmo que não possamos tirá-lo de lá, vamos ao menos visitá-lo.

Não sei se isso é verdade ou mentira. Não sei se ele tem provas, assim como não temos prova de muita coisa nas quais acreditamos. Só sei que antes de acreditar ou não, eu acho bonito.

Não mudaria nada pra mim se Jesus tivesse tido um romance com Maria Madalena, por exemplo. Até concordo com a tese de que essa história dele não se relacionar com mulheres pode ter sido inventada para forçar o celibato dos religiosos – tiro mais do que saído pela culatra.

Nada disso importa pra mim. Ele ter tido uma mulher ou não; ele ter, colericamente, chicoteado os vendilhões do templo; ele ter bebido vinho com ou sem álcool.

O que vale pra mim são as idéias dele. Enfim.

PS – Já no climão da Páscoa…

Luciana

- Todo ano é a mesma coisa: só ganho ovos de chocolate no meu aniversário!
- Quem mandou nascer no dia da Páscoa?
- Mas o dia da Páscoa alterna, esqueceu?
- Mas você é o coelho da Páscoa, ninguém mandou ser o coelho da Páscoa.
- Isso é despeito, Cabeludo.
- Opa, mais respeito. Despeito não combina comigo, até porque nasci no Natal.
- É, ganha presentes que não são ovos de chocolate! Ganha ouro, incenso, mirra… Variedade!
- Você é bobo, coelhinho da Páscoa.
- Você é sortudo, Cabeludo. Se bem que você morre na sexta-feira da paixão e isso é realmente triste até hoje.
- Eles não sabiam o que estavam fazendo.
- Tá, tá. Sempre tenho a impressão de que na sexta-feira santa o dia fica todo cinzento; no sábado, fica tudo suspenso; e no domingo brilha o sol mais lindo do ano.
- É só impressão.
- Ah, o mais legal é que chega o domingo e você revive, mais forte e bonito, bem no dia do meu aniversário.
- Isso. É bacana, vai.
- É, mas eu só queria ganhar algo que não fosse um ovo de chocolate, Cabeludo!
- Peixe, pão, vinho?
- Cenoura, capim… Uma coelhinha, ai ai. Afinal, como diria Vinicius de Moraes, “não é sexta-feira santa, é sexta-feira da paixão”.
- Poetas pecam tão belamente que não tem como a gente ficar zangado. Que tal um livro de poemas de presente?!
- Ah, não. Não quero nada de ler.
- Que acha de um relógio, então?
- Cabeludo, eu sou o coelho da Páscoa, não o coelho da Alice!
- Ai, é mesmo. Posso te dar um tratamento dentário ou uma operação para essas orelhas de abano, hein, hein?
- Nhé! Ser dentucinho é minha marca registrada. E não vê que todas as crianças voltam da escola com meus bigodes pintados na face e minhas orelhas na cabeça?
- Posso te dar umas sandálias que nem as minhas, e aí?
- Cabeludo, agradeço, mas prefiro correr descalço. Mais livre como você sonhou que todos fôssemos. E ainda sonha que eu sei.
- Hum. O que me diz de um amigo, então?
- É! Tá valendo… Mas ninguém vai acreditar quando eu contar que sou amigo de Jesus Cristo!
- Sim, hoje em dia as pessoas não acreditam mais no coelho da Páscoa.
- Nem em Papai Noel, nem em anjo da guarda…
- Nem em mim.
- Liga não, Amigão, eles continuam sem saber o que fazem…

PS – Fiz esse texto na Páscoa de 2006, para o Portal ORM, aqui de Belém. Como já está chegando a Páscoa desse ano, estou reeditando aqui no Agridoce. ;)

Luciana

A professora de Educação Física da escola onde eu trabalho usa um escapulário no pescoço. Beleza, eu também uso.

Aí, primeiros dias de aula, uma das meninas novatas, garotinha da 1ª série, senta no colo dela e pergunta quem é aquele ali no cordão dela.

A professora responde que é Jesus.

A menina vira a medalhinha e pergunta quem é aquela ali…

A professora explica que é Maria, a mãe de Jesus.

É quando a menina fala:

- Odeio essa Maria! Já vi que a senhora é do mundo, tia. Não é de Deus.

Preciso dizer que a menina é evangélica? Preciso dizer que odiar é uma palavra bem forte pra alguém de seis, sete anos? Preciso me indagar que tipo de educação familiar/religiosa é essa que essas crianças estão recebendo?

Minha colega respondeu que odiar Maria é o mesmo que odiar a própria mãe – e eu achei a resposta linda.

Depois fiquei me perguntando: se Maria é tão odiosamente desnecessária, por que Deus não criou Jesus como criou Adão, sem precisar de uma mulher para gerá-lo?

Luciana