Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Esperança

Dia do beijo… De Judas!

Por Luciana | 03/04/2009, 09h09

Um dia, o Nelson – palestrante do centro espírita – entre outras coisas falou sobre Judas.

Ele disse que acha um absurdo a malhação de Judas no sábado de Aleluia, porque é uma ode à violência e Jesus não gostaria disso. Sem contar que Judas já pagou tudo o que tinha que pagar, reencarnando várias vezes e em uma delas tendo sido Joana D’Arc, que todos sabemos o quanto sofreu, sendo ao fim queimada na fogueira da Inquisição.

O Nelson lembrou que Jesus sabia o papel de Judas naquela história toda. E que Judas não agiu de má fé. Ele queria que Jesus se tornasse um líder político além de líder espiritual e acreditava que Jesus enfrentaria seus algozes e num passe de mágica se libertaria da prisão e libertaria seu povo também.

Só que Jesus seguiu firme em seu propósito e não fez abracadabra nenhum, morrendo resignadamente por nós. E Judas, percebendo o seu próprio vacilo, se matou.

Nisso, veio a parte mais tocante da palestra. O Nelson perguntou: Vocês sabem qual foi a primeira atitude de Jesus ao chegar ao outro plano? Ele foi ao Vale dos Suicidas e deu um abraço em Judas. Deu conforto ao amigo. Como quando temos alguém preso ou enfermo e mesmo que não possamos tirá-lo de lá, vamos ao menos visitá-lo.

Não sei se isso é verdade ou mentira. Não sei se ele tem provas, assim como não temos prova de muita coisa nas quais acreditamos. Só sei que antes de acreditar ou não, eu acho bonito.

Não mudaria nada pra mim se Jesus tivesse tido um romance com Maria Madalena, por exemplo. Até concordo com a tese de que essa história dele não se relacionar com mulheres pode ter sido inventada para forçar o celibato dos religiosos – tiro mais do que saído pela culatra.

Nada disso importa pra mim. Ele ter tido uma mulher ou não; ele ter, colericamente, chicoteado os vendilhões do templo; ele ter bebido vinho com ou sem álcool.

O que vale pra mim são as idéias dele. Enfim.

PS – Já no climão da Páscoa…

Da auto-estima

Por Luciana | 18/03/2009, 16h16

Minha amiga Tainá Aires fez uma série de matérias para o jornal onde ela trabalha sobre os professores das escolas públicas paraenses – municipais e estaduais.

As reportagens saíram durante uma semana e ela abordou temas como: o que é ser um professor na Amazônia; comparação de salários de professores municipais e estaduais; Lei de Diretrizes Básicas da Educação; professores que fazem a diferença; doenças causadas pela profissão; disciplinas onde tem menos professores; professor não é pai; e o lado bom de ser professor.

Quando escreveu sobre professores que fazem a diferença ela resolveu me entrevistar.

Não que eu faça mesmo a diferença – e não, não é falsa modéstia, porque eu nem sou modesta -, mas ela, acostumada a ouvir meus relatos sobre a escola e sobre os meus alunos, achou que seria uma boa me ouvir.

Tainá me entrevistou pelo celular e pediu que eu relatasse os desdobramentos que a exibição feita por mim do filme “Meninas” teve entre os meus alunos.

Depois, agendou para o dia seguinte uma “sessão” de fotos minha com os meus alunos.

Avisei os meninos que fossem bem bonitos e bem fotogênicos no dia seguinte – cheguei até mesmo a falar para uns tantos que trocaram esse ano de escola. Todos ficaram bem surpresos e empolgados.

No dia seguinte, Tainá Aires chega com o fotógrafo do jornal a tiracolo.

Foto aqui, foto ali, foto acolá, uma das meninas comenta:

- Amanhã, nossa foto vai estar estampada no “Diário Polícia” (caderno policial do jornal O diário do Pará).

Na hora, não perdi o rebolado e respondi:

- Como vai sair no Diário Polícia, se a Tainá trabalho no Liberal?

Todo mundo riu e vaiou a menina e ela mesma levou na boa.

Mas depois aquilo doeu em mim.

A realidade dos meus alunos é tão intimamente ligada à violência que para eles era bem mais fácil sair no caderno policial do que em uma matéria positiva, no primeiro caderno do jornal.

E eu reafirmo que não sinto que faço a diferença. E é justamente isso que faz com que eu continue lá: o sonho de um dia realmente fazer a diferença a ponto dos meus alunos acreditarem em si mesmos como pessoas positivas dentro da sociedade, a ponto deles terem um auto-estima pra cima, confiante, segura.

Enquanto a auto-estima dos meus alunos for baixa, a diferença que faço ali dentro ainda será baixa.

Na biblioteca

Por Luciana | 02/01/2009, 19h20

“Sou eu que vou ser seu amigo, / Vou lhe dar abrigo, se você quiser. / Quando surgirem seus primeiros raios de mulher / A vida se abrirá num feroz carrossel / E você vai rasgar meu papel”

Você já desconfia que é mesmo uma grande saudosista, mas tem certeza plena disso quando aproveita toda uma tarde livre, sem trabalho nem dever, e de todos os lugares do mundo da sua cidade, vai parar no colégio onde estudava.

Depois de se apresentar como ex-aluna – ex-marista jamais! – na portaria, consegue entrar. Está tudo lá, como você deixou. Ao mesmo tempo, nada mais está lá. Suas amigas e seus professores não estão mais lá. Está lá o uniforme branco e azul, a música que serve de campa, a oração no segundo horário, a capelinha, as quadras, as piscinas, as lanchonetes, as salas, a biblioteca.

Pensando melhor, as suas melhores recordações estão dentro do seu peito, e lá, elas maviosamente, ganham forma.

Você sobe até a biblioteca com seu caderno nas mãos, como antigamente. Mas dentro do seu caderno não tem mais aqueles poemas apaixonados. Agora o seu caderno é todo cheio de apontamentos de aula e de anotações para textos que serão escritos para cá. No seu caderno tem um tamba-tajá que o Lupa desenhou e um calendário no qual você vai riscando os dias que nem presidiário. As duas coisas com as quais o seu caderno de hoje é idêntico aquele de 15 anos atrás são a sua letra doidivanamente canhota e o fato dele vir aconchegado no seu peito, num abraço.

Você pensa nisso ao subir os degraus vermelhinhos que lhe levam à biblioteca. Lembra de imediato daquela música do Toquinho, O Caderno, e vê que não tem mais jeito, estão todos ali: o padre Raul, o padre fofo e comunista da capela do colégio; a professora de natação; o porteiro que ninguém sabe o nome porque todo mundo só chama de Bigode, mesmo ele tendo raspado o bigode há séculos; a Suzi, a bibliotecária que você mais gosta na vida depois da sua mãe.

A Suzi lembra que você ia toda tarde pra biblioteca e que ficava lendo, conversando com ela e com a Rosi – a outra bibliotecária querida de lá – e escrevendo. Sim, ela lembra que você escrevia uns poemas “lindos” e confirma que realmente você ganhou aqueles concursos poéticos que a biblioteca promovia.

Então você senta em uma daquelas mesas redondas da biblioteca e fica lá só pensando coisas boas, porque coisa boa atrai coisa boa. E você fica feliz. Porque a Suzi relembrou aqueles dias mágicos da sua adolescência, porque você está sentada ali de novo, entre aqueles livros e alunos, escrevendo palavras repletas de amor. Porque graças a elas, as palavras, você tem pessoas queridas que lhe lêem e que você ainda vai (re)encontrar pelas bibliotecas da vida. Por muitas vidas.

Paz

Por Luciana | 30/12/2008, 18h18

Olha, quando essa guerra acabar, ainda haverá aquele livro que você gosta tanto de ler; aquela comida que só a sua mãe sabe fazer; aquela música que já curou suas dores de cotovelo e aquela outra que embalou o seu melhor romance.

Quando esse dia cinza acabar, haverá aquele encontro, aquela conversa, aquela tarde que entra pela noite e parece não ter mais fim.

Haverá espaço para pessoas como você e eu, e haverá pessoas que se encaixem com pessoas como você e eu.

Quando esse tempo sonolento acabar, haverá gente livre de signo, nacionalidade e religião.

Você não precisará endurecer, ficar cético ou assistir a filmes sanguinolentos.

Quando essa chuva mais doida acabar, haverá a compreensão dos tímidos, a redenção dos atirados, a fusão do melhor de cada um.

Haverá a sua cor favorita, a felicidade explícita e uma certa dose de nostalgia.

Quando essa semana infame acabar, ainda haverá aquela foto legal, aquela praia e aquela montanha e tanto chocolate branco quanto preto.

Haverá abraço demorado, beijo apertado e calor nas relações.

Quando esse inverno sem sentido acabar, haverá você modificado.

Haverá aquelas coisas devastadas e destruídas. Aquelas reconstruídas. E as novas invenções. As reedições.

Tudo de ruim e sujo e chato e feio e mau ainda haverá – mas, sobretudo haverá coragem para enfrentar.

Quando esse ano bobo acabar, haverá o retorno do verdadeiro significado do Natal; um cartão mais importante que o presente; um carnaval constante no peito.

Haverá tudo o que sua mente conseguiu captar e todas essas suas recordações. Em colorido e em preto e branco.

Haverá a certeza de que, de um modo ou de outro, cada um é especial. E que para pessoas especiais como você, estou com o Rick e não abro – apesar de tudo, sempre haverá Paris – ou Cassandoca.

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