Eu sempre estudei de manhã. Meus pais saíam pra trabalhar e me deixavam na escola. Quando chegou a 1ª série a turma passou para o turno da tarde e meus pais conversaram com a dona da escola e decidiram que eu ia continuar indo de manhã, assistindo aula na turma de apoio.
A turma de apoio consistia na aula de reforço que a própria escola disponibilizava para os alunos que tivessem algum tipo de dificuldade. Funcionava assim: minha turma oficial tinha aula segunda de tarde e eu aprendia só na terça de manhã, com a tia do apoio.
Já se passaram 20 anos, exatos 20 anos, que essa história aconteceu e ela ainda me entristece porque meus pais simplesmente decidiram isso e não me contaram nada.
Imagine a cena: uma garota de seis anos chegando das férias, louca pra encontrar os amigos que tinham acabado de aprender a ler e a escrever com ela no ano anterior e que, sem mais nem menos, não encontra ninguém, absolutamente ninguém daquela turminha.
Quem me contou tudo foi a tia Júnia, dona da escola. E eu chorei tanto naquele dia, perguntando por um a um dos meus colegas.
Lá pelo meio do ano foi um aviso pra casa, dizendo que eu teria que ir em uma tarde, para tirar as fotos daquele semestre com a turma – a minha turma oficial. Aquela, eu posso afirmar, foi das tardes mais maravilhosas de toda a minha vida.
No dia seguinte, eu menti pros meus pais, dizendo que ainda tinha que tirar mais fotos, que tinha que voltar de tarde outra vez. E quando chegamos lá, e a tia Júnia disse que eu tinha inventado aquilo, eu expliquei que queria ficar brincando com eles, só mais uma vez. E assim foi, só mais uma vez.
A grande responsável por tanta saudade era uma garota que também se chamava Luciana. A Luciana Barros.
A Luciana Barros era uma garota viva, esperta, de olhos agateados, desinibida, alegre, extrovertida.
Daquelas pessoas pra quem parece que não existe tempo ruim. A Luciana Barros era a minha melhor amiga. Melhor: é minha melhor amiga da infância.
Nós dizíamos pra todo mundo que éramos irmãs e ninguém acreditava porque como podia duas irmãs com o mesmo nome?! E nós respondíamos: “Nossos pais gostam muito desse nome, ora!”.
Depois daquele dia das fotos, eu nunca mais vi a Luciana Barros. Nem por isso deixei de pensar nela por todos esses anos. Sempre que penso em Manaus, sempre que penso na escolinha, sempre que penso em amizade, ela está sempre lá, na primeira fila. No primeiro lugar da primeira fila.
Eu tenho poucas amigas e justamente por isso todas são bem especiais, cada uma ao seu modo. Mas eu tenho que dizer uma coisa: a Luciana Barros é a única amiga que eu chamei de irmã. A única amiga que eu tive e tenho até hoje bem guardado no peito o sentimento de irmã.