Meu primeiro namorado, o Duda, em uma das brigas do término do nosso namoro, veio com o seguinte argumento:
- Você é uma burguesinha. Olha onde você estuda, olha onde você mora!
Era o meu namoradinho de 14 anos falando pra garota dele de 14 anos essas coisas…
Eu fiquei pensando, pensando. Até que fui consultar o orácul… quer dizer, a mamãe:
- Mãe, nós somos burgueses?
E minha mãe, prontamente:
- Não, nós somos falsos burgueses, porque no dia que eu parar de trabalhar não teremos mais nada. Então, somos, ou melhor, sou operária. E você e o seu irmão são profissionais estudantes (perdi a conta de quantas vezes ouvi isso: profissional estudante).
Ao contrário da maioria das pessoas que moram no mesmo prédio que nós, não temos carrão do ano nem decoração de revista nem roupas de marca.
Nós moramos aqui, nesse apartamento legal e burguês por uma razão sentimental: o prédio foi edificado no mesmo lugar onde anos atrás havia a casa em que meu pai morava com meus avós e meus tios – a casa da infância e da adolescência do meu pai.
Quando viemos de Manaus para Belém, o prédio estava em construção e meu pai decidiu que seria aqui que moraríamos – e, infelizmente, ele só morou um mês aqui, falecendo logo depois da mudança.
E tinha a escola também. Estudamos, meu irmão e eu, no colégio marista daqui.
Podíamos estudar de graça no colégio dos filhos dos empregados da Universidade – coisa que minha mãe é – mas ela preferiu que não, para que não enfrentássemos as longas greves pelas quais o dito colégio passava/passa.
Coincidência das coincidências: o Duda estudava lá nesse colégio! Rá!
Apesar de não viver no luxo, vivemos no conforto, e isso já é muito. E o mais bonito é ressaltar não só o valor sentimental do nosso lar, mas algo para o qual minha mãe nunca economizou: nossa educação.
Minha mãe podia ficar tempos só com um sapato e uma bolsa, mas nunca nos negou um pedido de livro, de curso, de nada relacionado a aprendizado.
E, assim, nos deu, ela própria, o melhor aprendizado.
Nunca dei essas explicações ao meu namoradinho de adolescência, mas o que vale é que as tenho comigo.