Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Arquivos: Consumismo

Desde 1910…

Por Luciana | 03/12/2008, 14h14

Minha mãe torce pelo Botafogo. Mesmo não sendo fanática por futebol, mesmo não sendo do Rio de Janeiro. Ela é botafoguense.

A razão, segundo ela mesma, é bem simples: a geração dela é feita de muitos botafoguenses porque era impossível ser jovem e não ser botafoguense no auge de Garrincha!

Contei essa história uma vez pra Tina e ela disse que fazia muito sentido – ela também era botafoguense, mais ou menos da idade da minha mãe, carioca.

Pois bem.

Em janeiro fui a São Paulo e lá pelo terceiro dia que estava por lá, saí com o Trotta. Nos encontramos no Conjunto Nacional, ficamos horas batendo papo na Livraria Cultura, até anoitecer e irmos jantar com o André e o Lello.

Eu conversava com o Trotta e vira e mexe ficava dispersa, meio aérea. Até que criei coragem e falei: - Cara, não consigo tirar os olhos da sua camisa! Ela tá me desconcentrando!

Hahahahahahahaha!

Ele estava com uma camisa preta, com a estampa do Garrincha com o uniforme do Botafogo. Linda demais.

O Trotta indicou que tinha comprado a camisa na Banca de Camisetas, etc. e tal. Deixei passar um tempinho e fui até lá ver se comprava a camisa igual a do Trotta – invejosinha eu.

Vale dizer que eu estava prestes a ir passar o carnaval em Santiago do Chile, onde o Brasil, graças a Garrincha (ou não?), foi bicampeão mundial. Ia ser lindo visitar o Estádio Nacional de Chile com aquela camiseta!

Ia.

Encomendei a camiseta, mas ela não chegou a tempo para a viagem. Só na volta eles me ligaram e pediram que eu fosse até lá apanhar a camiseta sem custo algum, como um pedido de desculpa – tive que gritar Brasil Bicampeão no Estádio vestida de vermelho mesmo…

Já perdi a conta de quantas pessoas me pararam para perguntar onde eu tinha comprado, quanto custava, etc., etc….

Já perdi a conta também de quantas vezes li os poemas de Vinicius de Moraes, onde ele cita o Botafogo. Eu acho que eu sou meio Botafogo só por causa do Vinicius de Moraes… E da minha mãe… E da Tina… E do Garrincha…

“Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”

A pergunta que não quer calar é…

Por Luciana | 17/11/2008, 18h55

Depois do que aconteceu ao Alberto Milfont Jr. alguém aqui ainda vai comprar um alfinete nas Casas Bahia?

***

Sabe, todo fim de ano, há anos, minha mãe dá dinheiro para mim e para o meu irmão para que a gente compre o que quiser de Natal, de presente de Natal.

A gente, na maioria das vezes sai junto, pra ajudar não só a escolher as coisas como pra carregar as sacolas!

E sempre vamos muito, muito despojados, avacalhados, largados. A ponto até de minha mãe reclamar e brincar dizendo que vão acabar prendendo a gente no shopping.

Nunca nos prenderam, mas já olharam com certo ar de displicência sim! Não sei se pelos chinelos do meu irmão ou se pelo meu ar descabelado de ser… – o meu irmão sempre argumenta que a gente tem que ir desleixado pra pensarem que a gente tá sem grana e não nos assaltarem!

Eu sempre atribui esses olhares estranhos ao fato de que entramos em lojinhas chiques, boutiques etiquetadas, etc. e tal. E tanto eu quanto meu irmão sempre zoamos com a mudança de humor das atendentes quando vêem que a gente está com grana e vai pagar à vista e tudo mais. Só faltam nos carregar no colo!

Pois Alberto Milfont Jr. nunca mais carregará o filho dele de cinco meses no colo porque um segurança das Casas Bahia julgou que a roupa dele não era adequada para comprar um colchão em uma loja de departamentos.

Um dia, vou comprar colchão, cama, mesa, sofás, cadeiras. Eu não sei que dia vai ser, não sei de que cor vai ser, não sei se vai ser de vidro ou madeira. Só sei que nada, nem um alfinete da minha casa, será comprado nas Casas Bahia.

Porque eu trabalho e uso roupa de trabalho e não de desfile, porque tenho filho pra carregar no colo, porque tenho sonhos de casar e ser feliz, porque um pouco desse tiro que matou o Alberto me atinge também. E dói.

Mais no Dialetica.org:
Creative Commons 2008 - 2012 Alguns direitos reservados • Dialetica.org utiliza WordPress 3.3.1 WordPress