Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

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Odeio chuva

Por Luciana | 01/12/2008, 14h14

Quando eu tinha uns dez anos, lembro nitidamente de uma cena: mais uma vez chovia na hora da saída da escola e ficávamos todos amontoados no pátio, esperando os pais e/ou responsáveis. Aqui em Belém, onde moro, pode chover o que for, nunca esfria. Pelo contrário, fica abafado que só vendo.

Foi quando eu disse, curta e grossa, pra minha professora da 4ª série, a tia Terezinha: – Odeio chuva!

Minha professora me ensinou naquele dia a lição que, de todas, eu guardo até hoje com mais carinho: – Não fale assim. A chuva é uma bênção. Sempre que você se irritar com a chuva, lembre daquelas pessoas do sertão nordestino que nós estudamos nas aulas de Estudos Sociais. Pense no quanto elas queriam essa chuva, mas não têm.

Há quase 20 anos eu sempre lembro. Toda vez que pego uma chuva inesperada que me molha da cabeça aos pés, toda vez que fico presa em algum lugar, esperando a chuva passar.

Anos antes da tia Terezinha ter me dito aquilo, fiz uma viagem de carro com meus pais e meu irmão – e mais meus tios e primos – pelo Nordeste praticamente inteiro. Meus tios e primos moravam em Salvador e saímos de Belém até lá de carro, só faltando mesmo conhecer Aracaju – mas um dia ainda vou a Aracaju só por causa da Isabela, do Gil e do Rafael.

Temos fotos daquela viagem. Muitas fotos. Fotos de grutas, de praias, de sertão. Temos fotos até da montanha em forma de galinha do filme O cangaceiro trapalhão.

E temos fotos de famílias abandonadas no meio do nada. Vimos os Retirantes de Portinari ao vivo e a cores. Vimos a família de Fabiano e Sinhá Vitória. Acabávamos comendo pouco nas paradas, porque sempre dávamos a essas pessoas os biscoitos, os sanduíches e os refrigerantes que tínhamos levado. Eles olhavam assustados pra aquelas latinhas de refrigerantes.

Meu irmão tinha onzes meses quando fizemos essa viagem. Hoje ele tem 24 anos. De dois em dois anos minha mãe viaja de ônibus com as colegas do trabalho para congressos de biblioteconomia que, geralmente, são no Nordeste. Ela já foi a Recife, Natal, Salvador.

Elas levam sacolas com cestas básicas e vão dando nas paradas para aquelas famílias esquecidas no meio do nada, igualzinho há mais de 20 anos…

PS – Você sabia, leitor, que o Piauí é o estado mais pobre do Brasil? Você já ajudou as pessoas que moram lá de alguma forma? Mandando dinheiro, mantimentos, roupas? Não? Puxa… Aproveita… É Natal…

A pergunta que não quer calar é…

Por Luciana | 17/11/2008, 18h55

Depois do que aconteceu ao Alberto Milfont Jr. alguém aqui ainda vai comprar um alfinete nas Casas Bahia?

***

Sabe, todo fim de ano, há anos, minha mãe dá dinheiro para mim e para o meu irmão para que a gente compre o que quiser de Natal, de presente de Natal.

A gente, na maioria das vezes sai junto, pra ajudar não só a escolher as coisas como pra carregar as sacolas!

E sempre vamos muito, muito despojados, avacalhados, largados. A ponto até de minha mãe reclamar e brincar dizendo que vão acabar prendendo a gente no shopping.

Nunca nos prenderam, mas já olharam com certo ar de displicência sim! Não sei se pelos chinelos do meu irmão ou se pelo meu ar descabelado de ser… – o meu irmão sempre argumenta que a gente tem que ir desleixado pra pensarem que a gente tá sem grana e não nos assaltarem!

Eu sempre atribui esses olhares estranhos ao fato de que entramos em lojinhas chiques, boutiques etiquetadas, etc. e tal. E tanto eu quanto meu irmão sempre zoamos com a mudança de humor das atendentes quando vêem que a gente está com grana e vai pagar à vista e tudo mais. Só faltam nos carregar no colo!

Pois Alberto Milfont Jr. nunca mais carregará o filho dele de cinco meses no colo porque um segurança das Casas Bahia julgou que a roupa dele não era adequada para comprar um colchão em uma loja de departamentos.

Um dia, vou comprar colchão, cama, mesa, sofás, cadeiras. Eu não sei que dia vai ser, não sei de que cor vai ser, não sei se vai ser de vidro ou madeira. Só sei que nada, nem um alfinete da minha casa, será comprado nas Casas Bahia.

Porque eu trabalho e uso roupa de trabalho e não de desfile, porque tenho filho pra carregar no colo, porque tenho sonhos de casar e ser feliz, porque um pouco desse tiro que matou o Alberto me atinge também. E dói.

Dos ritos

Por Luciana | 15/11/2008, 12h12

“Se vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!”

Olha, foi isso que a raposa disse ao principezinho sobre a necessidade dos ritos. E eu me encontro exatamente assim: a cada dia, a cada hora, a cada minuto mais feliz. Inquieta e agitada, descobrindo o preço da felicidade.

E dando valor a cada dia, a cada hora, a cada minuto. Como nunca, como sempre.

Porque, assim como o principezinho, eu descobri que não existe outra rosa no mundo igual a minha rosa.

E sou completa e irremediavelmente cativa da minha rosa, que faz o meu B-612 um lugar mais feliz.

Das minhas meninas

Por Luciana | 12/11/2008, 17h21

No finalzinho das férias de julho vi um filme no canal Brasil chamado Meninas.

Meninas é um documentário da cineasta Sandra Werneck – a mesma que fez Pequeno Dicionário Amoroso e Cazuza – o tempo não pára -, produzido em 2006.

O filme retrata a gravidez na adolescência de quatro meninas moradoras de morros cariocas.

O pensamento imediato que me ocorreu quando o filme acabou foi: meus alunos precisam ver esse filme.

Ora, aqui em Belém não tem morro, mas nem por isso deixa de ter meninas grávidas.

Passei o DVD para minha turma de sétima e oitava séries e segundo ano.

A sétima série produziu textos sobre o assunto – que também está sendo abordado pela professora de Ciências; o segundo ano decidiu fazer o trabalho da feira cultural a partir do documentário – dando ênfase ao uso da camisinha não só como forma de impedir uma gravidez, mas também para proteger de doenças sexualmente transmissíveis; e a oitava série fez um ciclo de debates.

É sobre os debates que quero falar.

A turma foi dividida em grupos e cada grupo ficou encarregado de levar um convidado para falar sobre o assunto – ao final, a gente abria para perguntas.

Os professores de Ciências foram chamados; a professora de Inglês que às vezes pára tudo e conversa com eles sobre assuntos relacionados à sexualidade; a psicóloga do posto de saúde que atende a comunidade em que eles vivem; três jovens que tiveram filhos na adolescência.

Dei minha opinião em alguns momentos, mas na maior parte do tempo deixei a coisa fluir do jeito deles.

Pontos relevantes: meus alunos queriam conversar sobre o assunto, mas se sentiam envergonhados, de modo que as perguntas não foram feitas diretamente, mas sim, por meio de bilhetes; em uma sala com 25 meninas, só três já foram a ginecologista; mesmo o trabalho sendo focado em prevenção, tivemos uma enxurrada de perguntas relacionadas ao aborto (algumas terríveis como: é verdade que tomando Coca-cola com Anador a gente consegue abortar?).

Os dois momentos importantes me dividiram ao meio e depois de relatá-los vou explicar o motivo.

Em um dos debates, onde a convidada era uma moça que tinha ficado grávida na adolescência, uma das alunas pediu pra falar e contou que aos 14 anos passou por uma espécie de gravidez psicológica – ela explicou que a menstruação atrasou e ela começou a enjoar e fixar na cabeça que estava grávida. Ao perceber essa mudança de comportamento, a mãe da aluna, ao invés de levá-la ao médico, a obrigou a tomar um remédio abortivo. A menina começou a passar muito mal e finalmente foi levada ao hospital, onde foi constatado que ela não estava grávida coisa nenhuma. Ou seja, minha aluna de 14 anos passou por uma gravidez psicológica e por um aborto “real” e cruel, imposto pela própria mãe – “aborto” esse que até hoje faz com que ela tome remédios para restaurar no organismo o que ficou deteriorado.

O outro relato, feito no último dia de debate foi também de uma aluna da sala, esta com 15 anos: ela está grávida de 5 meses.

Disse que o tempo todo em que o ciclo aconteceu ela já sabia e ficava angustiada em perceber que não adiantava mais nada. Disse que esperou passar bastante tempo pra contar para os pais para que não tivesse possibilidade de aborto. Contou também que o pai dela disse que ou sai ela ou sai ele de casa e não se falam mais e que o namorado tem 20 anos, vai assumir a criança e quer que ela vá morar com ele. Detalhe: esse rapaz de 20 anos também é meu aluno. Só que da 5ª série.

O que me partiu ao meio diante desses dois relatos tão próximos de mim foi a sensação de ter chegado tarde demais. Me senti impotente e arrasada por minhas alunas adolescentes terem passado ou estarem passando por problemas tão adultos, das piores maneiras possíveis, e eu não poder fazer nada para ajudá-las.

Eu, como diria Rubem Alves, não sou da turma do otimismo; eu sou da turma da esperança – que é algo muito mais além. E é dentro dessa esperança que desejo profundamente ter tocado essas pessoas tão do meu convívio, e que eles tenham a consciência de que sou um canal aberto para a conversa. Não só aquela conversa gramatical ou literária, mas aquela conversa capaz de mudar o rumo das coisas.

PS – Ultimamente sinto uma vontade enorme de escrever sobre meus alunos. Uma vontade tão grande quanto a preocupação e o carinho.

O jogo do eu ou De vez em quando até que eu sou altruísta

Por Luciana | 11/11/2008, 13h14

Há três anos, na Primavera dos Livros, a Patrícia comprou e me deu de presente um livrinho curioso chamado O jogo do eu.

É curioso porque o teor do livro vem em cartas dentro de uma caixinha.

Cada uma dessas cartas apresenta uma “tarefinha” como: abrace pelo menos três pessoas hoje, resgate seus sonhos de adolescente, conte piadas, procure um lugar apropriado e grite, dê um beijo apaixonado em alguém (essa vou cumprir daqui a nove dias…).

Sempre encarei O jogo do eu como uma espécie de propagador de uma corrente do bem.

Dia desses, organizando a estante, abri a caixinha e a primeira cartinha que veio foi: livre-se de algo. Nela dizia:

“Procure entre suas coisas pessoais algo que possa ser jogado fora ou dado. Aquilo que ‘um dia pode ser que eu precise’ por exemplo. Escolha o objeto e livre-se dele hoje mesmo!”.

Foi quando decidi dar 17 livros meus para 17 alunos meus.

(Minha turma mais querida – e que as outras não saibam disso! – é a minha turma de 2º ano do Ensino Médio, que tem 17 alunos apenas que aprendem Literatura comigo. As outras turmas aprendem o velho e bom Português…)

Bem, falando assim parece fácil, dar 17 livros para os alunos mais queridos – pelo menos desse ano, sim?

Ledo engano, leitor. Foi um suplício!

Fiquei acarinhando os livros antes, como se fosse algo muito precioso do qual eu abriria mão.

Mas no fundo isso é ilusão. O que há de precioso naqueles livros eu já tinha guardado pra sempre, pois já tinha lido todos eles. E, a partir daquele momento, eles enriqueceriam a vida dos meus alunos um pouco mais. Muito mais até do que todas as aulas barrocas, árcades, românticas que já dei.

Eu recomendei os livros – o meu Macunaíma, o meu Tom Sawyer, os meus contos do Machado, o meu Guarani, os poemas do Castro Alves, etc. -, disse para terem zelo e para depois emprestarem uns aos outros, como em uma espécie de clube do livro. Foi quando uma aluna perguntou quando tinham que devolvê-los a mim.

Quando eu disse que estava dando os livros, meus alunos ficaram bem felizes, sabe? E esse momento precioso eu, além de guardar, resolvi que, assim que voltasse a escrever, compartilharia com você, leitor que me lê.

PS – Vamos ver até quando vou conseguir escrever todo dia. :P

PS2 – Ainda não tem “feed por e-mail” aqui. Mas terá. É que a equipe de layoutistas de uma pessoa só mexe em blog no final de semana. ;)

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