Mais um dos textos que estou devendo e que hoje rolou.
Esse texto é pra você que jura que eu odeio a, b ou c.
Há duas semanas foi preso o único ser nessa vida que eu realmente odeio e ele atende pelo nome de Rafael Lobato.
O Rafael Lobato há dez anos tirou a vida de uma das pessoas mais queridas pra mim, o Yuri.
O Yuri tinha 16 anos, teria 26 agora. Nos conhecíamos de um clube de jogos em rede e ele era o único que tinha paciência pra jogar Diablo II comigo.
Parênteses aqui: (Nas palavras do presidente do clube, o clube não era de jogos, era de amigos. Os jogos eram só um pretexto pra que aqueles amigos se reunissem todos os finais de semana em uma casa cor-de-rosa por fora e azul por dentro… uma das casas mais queridas pra mim nessa vida)
Eu de vez em quando paro e penso como o Yuri seria agora. Se ainda jogaria, se ainda andaria de patins que nem louco pelas ruas, se ainda jogaria RPG, se já teria se formado, se teria se formado em que, se teria conquistado a garota por quem ele era apaixonado… Se, se, se.
Foragido da polícia, o Rafael finalmente foi encontrado no Ceará e retornou ao presídio em Belém.
No dia que soube da prisão dele liguei pro presidente do clube – das pessoas mais queridas do mundo todo – e dei a boa nova. Falei que a minha vontade era ligar pra todos, era falar com todos do clube. Ele disse que pelo menos com o Marco eu deveria falar e disse que tentaria arranjar o número do telefone dele. Mas não conseguiu.
O Marco era meu namorado na época em que conheci o Yuri, praticamente conheci os dois juntos. Eram muito amigos também, a ponto de, no inicinho do nosso namoro, o Marco perguntar ao Yuri o que ele achava de mim.
A resposta do Yuri é o elogio mais querido que já fizeram a mim: “A Luluca? A Luluca é o Beatles, Marco!”
Não sou muito de sair, mas no dia seguinte da notícia da prisão saí com duas amigas. Ao entrar na boate, a primeira pessoa com quem dei de cara foi com meu ex-namorado.
Encontrei o Marco na pista e nos abraçamos e gritamos um no ouvido do outro que aquele desgraçado finalmente está preso, e que isso não traz o Yuri de volta, mas dá um alívio que há dez anos esperamos. Sem contar o cala-boca enorme que deve ter sido na mãe dele, a senhora debochada e cretina que riu do país inteiro no Linha Direta sobre o caso.
Portanto, você que jura que eu lhe odeio, eu não lhe odeio não. A única pessoa que odeio é essa, que tirou a vida toda que o meu amigo ainda tinha pra viver.
Muito provavelmente, você que jura que eu lhe odeio, eu só não gosto de você…