Artigo acadêmico (Jornalismo)
Violência nas escolas: a abordagem jornalística de O Liberal do caso Soraya
Resumo
Em meados de junho de 2008, Soraya Barbosa Marinho, de 15 anos, foi assassinada em uma sala de aula de uma escola pública de Belém, pela colega de classe Edilene Gonçalves, de 18 anos. O episódio foi abordado em matérias, artigo e editorial pelo jornal impresso paraense O Liberal. Esse material serve como objeto de estudo para a análise do papel do jornalista como promotor do debate sobre violência nas escolas em nossa sociedade. Tendo como base os ensinamentos sobre accountability tratados na matéria Estudos de Formação de Opinião Pública, assim como a ação do projeto Observatório de Violências nas Escolas – UNAMA/Núcleo Pará, o artigo trata ainda da crescente e preocupante questão do bullying e das muitas nuances que a violência percorre até chegar às escolas, propondo medidas que, além de manter o assunto em pauta para a discussão pública, sejam viáveis para a prática, buscando ajudar a amenizá-lo e/ou dissipá-lo com a ajuda da mídia.
Palavras-chave: Accountability. Escola. Bullying. Jornalismo. Violência.
1 PROPOSIÇÃO
“Ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida.”
Cartola
Falar da violência nas escolas da rede pública de Belém é falar da violência cotidiana das crianças e adolescentes que nelas estudam.
É falar de uma agressão global. De uma agressão traduzida pela fome, pelos preconceitos sociais, raciais e/ou sexuais, pelo ato aparentemente banal de apelidar jocosamente o colega de estudos – o chamado bullying.
Podemos citar uma aluna de 5ª série, de 15 anos, que nunca menstruou porque é subnutrida e não tem o que expelir; ou um aluno de 6º série, de 14 anos, que implora que a pedagoga da escola não chame o pai – alcoólatra e violento – para conversar sobre o desempenho escolar não muito exemplar do menino; ou uma aluna de 8ª série que também tem 15 anos e, ao ter uma gravidez psicológica, a mãe, ao invés de levá-la ao médico, a fez ingerir um remédio fortemente abortivo que fez a menina passar mal e, só aí, ser encaminhada ao hospital, onde foi constatada a falta de necessidade daquela medicação – e, mais que isso, a absoluta ignorância geradora desse ato; ou ainda um aluno de 8ª série também, de 16 anos, que diz detestar crianças e não desejar ter filhos, por ser caçula de uma família de pais e irmãos que o trata como um ser indesejado. O que pode ser mais agressivo que esses quatro exemplos?
Talvez o caso de Soraya Barbosa Marinho e Edilene Gonçalves, colegas de turma na 8ª série da Escola Estadual Renato Conduru, seja.
Edilene matou Soraya em plena sala de aula no dia 17 de junho de 2008. Uma briga motivada por “picuinhas” juvenis fez com que Edilene voltasse em casa e trouxesse consigo uma faca, com a qual desferiu vários golpes em Soraya.
O deputado estadual Arnaldo Jordy (2008, p. 02), ao usar o verbo “vitimar”, definiu com exatidão o destino das duas jovens: “Em Belém, um crime brutal, cometido por uma aluna de uma escola vitimou duas jovens: a jovem que morreu aos 15 anos, cuja vida foi ceifada por um ato estúpido e inesperado, e a jovem que matou aos 18 anos, cuja vida está interrompida pela prisão.”
O histórico das duas estudantes – relembrado por colegas, parentes e professores – apontava uma rixa muito mais antiga. Provocação, xingamento, falta de respeito: as duas já tinham passado pelo atendimento pedagógico da escola; os pais e/ou responsáveis foram acionados – aos pais de Soraya foi sugerida a procura de apoio psicológico até. Mas essas medidas não foram o suficiente para que uma não morresse e a outra não fosse presa. E mais trágico ainda: toda a ação se passou dentro de uma escola, lugar considerado seguro e pacífico, o segundo lar de nossas crianças e adolescentes, enfim.
Quando chegamos a uma situação limite como essa, o papel do jornalista vem à tona para instigar e mediar o debate público acerca do tema em questão. Pois aí tratamos de uma agressão de desfecho trágico que envolve não só os pais e a escola, como também a sociedade. Além disso, a prestação de contas à sociedade também fica em voga por envolver de uma vez só, questões relacionadas à educação, à segurança e ao adolescente.
Por esse prisma, buscamos analisar como o jornalista se comporta diante desse tipo de acontecimento. Se ele ouve os dois lados, se faz desdobramentos a partir daquele caso – afinal, um assassinato em uma escola abrange muitas outras coisas além do crime em si, como a questão do bullying, da insegurança da escola e do entorno dela, da base – ou da falta de base – psicopedagógica que as escolas estaduais oferecem hoje, da disseminação de uma cultura de paz, do papel influente que os pais e/ou responsáveis dessas crianças e adolescentes têm.
Ora, o jornalista tem sempre que ter consciência do que escreve para o próximo ler. Termos como ética, responsabilidade social, prestação de serviços sempre fizeram e farão parte do dia-a-dia do jornalista. A ele não cabe julgar e sim, mostrar todos os ângulos possíveis do caso, para que o leitor forme a própria opinião.
Em um primeiro momento, quando Blumer aborda o conceito de massa e exemplifica que pode se tratar dos “interessados pelo julgamento de um crime divulgado pela imprensa” (1978, p. 177), tendemos a classificar o leitor de jornais como parte integrante dela.
Mas na realidade, esse leitor faz parte de um público, pois, de acordo com o próprio Blumer, trata-se de:
“um grupo de pessoas que estão envolvidas em uma dada questão; que se encontram divididas em suas posições diante dessa questão; e que discutem a respeito do problema. [...] A presença de uma questão, de discussão e de uma opinião coletiva constitui a marca do público.” (BLUMER, 1978, p. 181).
Quando isso acontece, o jornalista está cumprindo adequadamente o papel dele, expondo opiniões divergentes, propondo e/ou estabelecendo o debate, interagindo com o máximo de informação possível para que o leitor tenha embasamento suficiente para tirar conclusões sobre os assuntos em questão.
Contudo, por mais que defendamos a imparcialidade, há sempre o mínimo de pessoalidade no texto de cada profissional dessa área. A ele não cabe só informar; é necessário servir à comunidade com respeito, dignidade e compromisso, passando informações corretas, abrangentes e sem manipulação, pois, nas palavras de Blumer, “a formação da opinião pública ocorre no curso da discussão” (1978, p. 184), e o jornalista, no caso, é quem lança o tema para esse debate.
“Violência nas escolas: a abordagem jornalística de O Liberal do caso Soraya” vem propor a análise do material produzido pelo jornal impresso paraense O Liberal acerca do caso das alunas da Escola Estadual Renato Conduru, apontar a questão da accountability que o caso gerou – se é que gerou –, traçar um panorama sobre os erros e acertos da abordagem em relação à violência nas escolas e apontar sugestões para que episódios como esse não se repitam em um futuro próximo.
2 PRESTANDO CONTAS
“Nem o ódio nem a bondade – só a luta.”
Jorge Amado
2.1 O que é accountability – de que forma a accountability pode ser encaixada nesse caso?
Em uma definição simples de dicionário escolar, accountability é a responsabilidade da qual se deve prestar contas.
Enquadrar o caso Soraya com o conceito de accountability é o que pretendemos, vislumbrando as maneiras e os percalços que a mídia – especificamente nesse caso a impressa – tem para promover a accountability dentro da multiplicidade – política, legal, profissional – interacional na qual ela floresce.
O viés do caso Soraya vem para observarmos como o jornalismo pode dar voz e visibilidade aos atores sociais e também instigar o debate, levando os dirigentes a se posicionarem diante do público.
É necessário destacar que nem sempre a accountability tem êxito, entretanto, quanto a isso, Maia é contundente ao afirmar que:
“mesmo quando o procedimento da accountability falha, a prática de trocar pontos de vista publicamente, para alcançar soluções corretas em circunstâncias de conflito, é importante para expandir debates públicos e abrir o caminho para a inovação institucional.” (MAIA, 2006).
Por mais que haja falhas no processo de accountability, não podemos deixá-la de lado e cessar as cobranças em cima do que acreditamos ser o melhor e mais justo para a sociedade em que vivemos – sociedade governada por pessoas por ela mesma escolhidas.
Uma das provas disso é esse artigo, nascido a partir do caso Soraya que não teve, a nosso ver, uma prestação de contas exemplar.
Infelizmente, não vivemos dias em que os governantes vêm por livre e espontânea vontade prestar contas do serviço deles à comunidade. Quando acontece algo que nos choca dentro de nosso cotidiano, “o jornalismo permite tanto confrontos diretos ou virtuais entre os atores sociais quanto uma troca de pontos de vista no espaço de visibilidade midiática.” (MAIA, 2006). Então, se o governo não se apresentar accountable, pelo menos a mídia estará cumprindo seu papel como “cão de guarda”.
A accountability é um reforço, um lembrete aos governantes de que eles devem se guiar pelas necessidades e anseios dos cidadãos neles representados. Pritchard, citado por Maia (2006), afirma que “o primeiro passo para desencadear accountability é nomear algo como um problema. O segundo passo (…) é apurar responsabilidades, identificando os responsáveis pelas falhas cometidas”. Se não nomearmos o caso Soraya como um problema, o que mais poderemos considerar como tal?
Quando Maia nos fala da accountability como controle, sendo “o uso de vários mecanismos e métodos de ‘checks and balances’, destinados a regular e supervisionar o desempenho de organizações públicas e os atos de seus agentes” (MAIA, 2006), o conceito também se aproxima efetivamente do caso Soraya, pois um episódio como esse, de violência nas escolas, mereceria perpassar por esse tipo de controle.
Mereceria, mas não mereceu, pois podemos constatar mediante as matérias do jornal O Liberal que ninguém foi cobrado efetivamente a prestar contas do ocorrido e o caso acabou virando mais um, ao invés de gerar um debate que revisse a conduta do governo em relação às escolas por ele mantidas e, com isso, evitasse futuros casos de violência da mesma natureza e com o mesmo desfecho trágico.
2.2 O caso Soraya – abordagem jornalística de O Liberal
Soraya e Edilene eram colegas de classe da 8ª série do turno vespertino da Escola Estadual Renato Conduru, no bairro de Val-de-Cans, em Belém.
Havia uma “rixa” entre as duas jovens – uma de 15 e outra de 18 anos –, que era conhecida na escola. Colegas, professores, corpo técnico e, até mesmo a família de Soraya (extra-escola) tinham conhecimento da implicância mútua que existia entre ambas.
A pedagoga da escola já tinha conversado com as estudantes e apontado à família de Soraya a necessidade de um tratamento psicológico para a menina, devido a grande timidez e dificuldade de relacionamento que a menina apresentava, apesar de ser uma aluna dedicada aos estudos.
Por outro lado, a mãe de Soraya, Solange Barbosa, ao saber do clima de animosidade existente entre a filha e Edilene, chegou a pedir a transferência de turno para Soraya, no que não foi atendida, pois a direção julgou como “picuinha juvenil” o que tinha entre elas.
No dia 17 de junho de 2008, a “picuinha juvenil” extrapolou os limites bullying – se é que há limites para isso, vide Columbine[1] – e Edilene assassinou Soraya em plena sala de aula, na frente do professor e dos colegas.
Edilene provocava Soraya e vice-versa. Mas Edilene queria ser respeitada, mesmo não respeitando a colega.
Naquele dia, após mais uma troca de farpas e agressões verbais, Edilene foi em casa buscar um livro que seria usado na aula após ao recreio, mas, ao lembrar da mais recente briga com Soraya – um pouco antes dela ir em casa –, mudou de planos.
Quando retornou à escola, Edilene não trazia consigo o livro de Estudos Amazônicos e, sim, uma faca de cortar pão. Ao entrar na sala e ver Soraya balançar a cabeça, Edilene achou que a colega estava fazendo “pouco da sua cara”. Nas palavras da própria Edilene, sem pensar e movida pelo ódio, ela desferiu duas facadas: uma no pescoço e outra nas costas de Soraya.
Foi o professor quem tirou a faca cravada nas costas da aluna. Nesse meio tempo, Edilene foi levada em estado de choque à diretoria.
Edilene revelou que a rusga entre Soraya e ela já era de dois meses, que a colega não gostava dela e que desconhecia os motivos dessa má querência. Disse ainda que ambas conversaram com a direção um tempo antes e que ficou acordado que Soraya não mexeria mais com ela – o que, de fato, vinha acontecendo até aquele dia.
O dia em que Edilene cometeu um crime do qual afirma estar arrependida. O dia em que Edilene foi recolhida ao Centro de Recuperação Feminino e colocada à disposição da Justiça. O dia em que Edilene não só tirou a vida da colega Soraya, mas a própria.
2.3 Análise das matérias
Por que é mais fácil noticiar, debater e questionar exaustivamente casos de outras regiões do país – mais precisamente no sudeste – do que percorrer o mesmo caminho analítico com os casos que acontecem no Pará, estado onde vivemos?
Em que os destinos do menino João Hélio[2] e da adolescente Eloá[3], por exemplo, são mais importantes do que os da menina Marielma[4], e das jovens Soraya e Edilene? Por que a repercussão de uma chacina contra os meninos da Candelária[5], no Rio de Janeiro, é maior que a tragédia de meninos emasculados no Pará[6]? Afinal, todos não são crianças e adolescentes brasileiros?
O caso das alunas Soraya e Edilene foi (pouco) desdobrado pelo jornal O Liberal. Três matérias grandes foram feitas nos dois dias seguintes (18/06 e 19/06) ao assassinato de Soraya. Quatro dias depois (21/06), um artigo do deputado estadual Arnaldo Jordy abordou esse tema. Dois meses depois (16/08), o assunto voltou à tona no editorial de O Liberal, que tratava da questão do bullying. Mais três matérias grandes citaram o caso das alunas da Escola Renato Conduru (19/08, 02/09 e 10/09), pois tratavam também de casos de violência nas escolas.
Nas matérias que abordaram especificamente o caso das meninas, foram ouvidos: familiares da vítima – pais, tias, avós –; Manoel Martins, pastor que ministrou o culto do velório de Soraya; Helena Lima, gestora do pólo 1, do qual a escola Renato Conduru, onde o crime aconteceu, faz parte; alunos e mães de alunos da escola Renato Conduru; policiais – Ana Rita Reis, a delegada que preside o caso e o major Janderson Viana, comandante da Companhia Independente de Policiamento Escolar (Cipoe) –; Regina Barata, Bernardete Ten Caten, deputadas da Assembléia Legislativa do Pará; Fernando Conduru, pedagogo que tem o trabalho voltado para estudantes adolescentes em situação de risco; e Reinaldo Pontes, pesquisador do projeto Observatório de Violências nas Escolas.
É pontual perceber nas matérias relacionadas ao caso que todos os parentes de Soraya foram ouvidos, contudo ninguém da parte de Edilene foi. Em uma pesquisa feita por nós, em função do presente artigo, com alguns professores da escola Renato Conduru, checamos que a família de Edilene é desestruturada – com caso de condenação do irmão da jovem, por exemplo –, que a menina recebeu a visita da diretora da escola e foi encontrada por ela ainda com o uniforme do colégio e assim permaneceu por semanas até que a família foi visitá-la. Nenhum desses vieses foi abordado pelo jornal O Liberal.
A diretora da escola, assim como professores e funcionários, também não foi ouvida. Sabemos de uma conversa entre ela e as meninas de acordo com a entrevista dada pela delegada do caso, Ana Rita Reis, onde relatou:
“falei com a pedagoga (…) e ela confirmou que teve uma reunião com as alunas. A pedagoga também disse que, na época, aconselhou à mãe de Soraya que procurasse um atendimento psicológico para a filha. De acordo com ela, Soraya, apesar de estudiosa, era muito quieta e tinha dificuldade de relacionamento com os colegas de classe.” (ASSASSINA…, 2008).
Todavia o professor Augusto, de Estudos Amazônicos, que estava presente na sala de aula no momento do crime, foi ignorado pela imprensa, tendo falado apenas com a polícia, juntamente com a vice-diretora da escola, professora Fayal – informação também apurada por nós.
Também não foi detalhada a relação das adolescentes. Apuramos entre os professores que o clima de animosidade entre ambas começou a partir da Semana de Arte da escola, onde as duas meninas ficaram no mesmo grupo de estudo e Soraya, que era muito dedicada aos estudos, ficou chateada porque Edilene, que não era assim tão estudiosa, não cumpriu sua parte no trabalho, que era a confecção de cartazes.
Quanto ao depoimento na polícia, além de só a fala de Edilene vir à tona, por conta dos relatos da delegada Ana Rita Reis, os advogados das partes não chegaram a ser entrevistados a respeito do encaminhamento do processo.
Representantes do Estado acima da gestora do pólo – a secretária de Educação ou mesmo a própria governadora – também não foram ouvidos para falar não só da violência nas escolas como dos fatores dentro e fora dela que favorecem a cultura da mesma – bullying, a falta de uma equipe psicopedagógica, o número insatisfatório de policiais – de acordo com a declaração do comandante Viana, “a Cipoe possui um efetivo de 132 homens (…). O efetivo ideal seria o de um batalhão, que fica em torno de mil PMs.” (ASSASSINA…, 2008).
A gestora do pólo 1 se limitou a lamentar o ocorrido e declarar que “foi tudo inusitado (…). Foi um caso isolado, que não tinha como prever.” (ASSASSINA…, 2008). Mas como inesperado, se as meninas já tinham uma “rixa” antiga e se o suporte psicopedagógico da escola era ineficiente?
Era ineficiente porque, segundo nossa pesquisa feita com professores da escola Renato Conduru, hoje em dia trata-se de uma “outra” escola: dois policiais dentro e dois policiais fora da escola constantemente; mudança da pedagoga e do secretariado; presença marcante da direção e vice-direção.
2.4 Sugestões
Não caberia na pauta de O Liberal questionar por que só depois de uma tragédia é que a escola obteve mudanças, que ainda não são as ideais, visto que os psicólogos da Secretaria de Educação do Estado do Pará passaram um mês dentro da escola e depois saíram sem deixar alguém fixo lá dentro? Por que as outras escolas não recebem esse mesmo direcionamento ainda? Por que o jornal não indaga aos representantes do governo da sociedade paraense se uma linha preventiva não seria melhor que uma conduta de remediação?
Louvável foi a procura do jornal por cientistas sociais que pesquisam a violência escolar em nossa sociedade. É através da fala – baseada na pesquisa “Diagnóstico da qualidade das relações sociais na comunidade escolar em escolas da rede estadual de ensino na Região Metropolitana de Belém” – do professor Reinaldo Pontes, que a coordena, que sabemos, por exemplo, que
“Em muitas escolas o professor está só, mas tem que dar conta de uma sala de aula cheia e em condições precárias de trabalho, o que dificulta a percepção do que ocorre em volta dos alunos. Em outras escolas existe somente o pedagogo, que não tem como abraçar todos os campos da assistência que esses alunos e suas famílias necessitam, porque a base de todas essas relações está também na família (…). Pode ser que elas ocorram, torcemos por isso, diante dos novos concursos que estão sendo realizados, mas os passos para isso ainda estão lentos.” (EDILENE…, 2008).
Entretanto, é inadmissível que um dos clichês mais batidos do jornalismo – o de sempre ouvir o outro lado da história – tenha passado despercebido pelo jornal O Liberal no caso Soraya.
Além disso, cinco meses depois do assassinato da adolescente pela colega de turma, não sabemos mais pelo jornal como o processo vem se desenrolando. Só vemos o caso ser citado quando algum outro episódio de violência nas escolas acontece em um exemplo típico de que o caso passou da indignação à estatística.
Isso demonstra que não é só a estrutura da escola que precisa ser revista, mas a do jornal também. Propomos então a formação de grupos de análise – formados por todas as camadas da sociedade – não só da situação das escolas, mas da conduta admitida pelos jornalistas, que são os possíveis fios condutores da accountability. Para que por mais que a violência nos acometa – urbana, escolar, familiar –, tenhamos os jornalistas dos jornais que compramos trabalhando a nosso favor, questionando amplamente o que nos questionamos muitas vezes internamente e fazendo esses questionamentos serem ouvidos pelos governantes que, apesar de escolhidos por nós, não têm um contato tão terra-a-terra como o jornal tem conosco, todos os dias, em nossas mãos.
3 EPÍLOGO
“No tempo do nosso tempo, eu não sabia que muitos anos antes, um Príncipe Idiota ajoelhado diante de um altar perguntava aos ícones, com os olhos cheios d’água:
‘POR QUE CONTAM COISAS AS CRIANCINHAS?’
A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.”
José Mauro de Vasconcelos
A atuação do jornalismo de O Liberal foi analisada a partir das matérias relacionadas ao caso Soraya.
De acordo com os preceitos da accountability, o jornal representou de forma muito tímida o que a sociedade espera de um veículo de comunicação como forma de cobrar dos governantes ações que mantenham a ordem e a segurança do lugar em que vivemos.
O jornal peca pela abordagem unilateral, pelo breve interesse e longo desinteresse, quando se trata de um assunto próximo da nossa realidade – caminho inverso que percorre quando o que está em voga são as tragédias alheias. É como se a pauta nacional e/ou internacional “vendesse” mais do que a pauta local, regional, a pauta que serve à comunidade para a qual ele escreve.
Muito falamos na violência urbana em toda a complexidade em que ela se apresenta, mas não podemos esquecer que a violência nas escolas deriva justamente dela, num exercício de fora pra dentro. Com um agravante a mais: o inusitado que é se pensar em violência nas escolas já que, intrinsecamente, a escola é um lugar seguro, onde confiamos em deixar nossos filhos, uma espécie de segundo lar enfim.
Mais grave ainda é, diante de uma situação de violência e de um governo que não se preocupa em dar maiores explicações, os cidadãos não poderem contar nem ao menos com o jornalismo local, seja para dar informações completas e precisas, seja para promover o debate necessário em situações limites como a de uma jovem assassinando outra dentro de uma sala de aula.
Em um primeiro momento, pode parecer irônico que um crime que tira a vida de duas adolescentes aconteça dentro da escola. Contudo, este é um quadro sintomático da urgência com a qual a situação das escolas estaduais do Pará precisa ser revista e do quanto é importante que o jornalismo local cumpra o seu papel, promovendo não só o debate, mas cobrando respostas efetivas dos nossos governantes.
Ainda há tempo.
REFERÊNCIAS
ALUNO esfaqueado na escola: crime aconteceu em frente ao portão de entrada do Colégio Estadual Paes de Carvalho, onde agressor e vítima estudam. O Liberal, Belém, 19 ago. 2008. Caderno Polícia, p. 03.
ALVES, Francisco. A próxima vítima. Disponível em: <http://terra.com.br/istoe/1926/entrevista/1926_vermelhas_02.htm> Acesso em: 26 nov. 2008.
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record, 1982.
ASSASSINA diz que não era respeitada: Edilene Gonçalves revelou que vinha sendo perturbada por Soraya Marinho. O Liberal, Belém, 18 jun. 2008. Caderno Polícia, p. 04-05.
CARTOLA. O mundo é um moinho. In: CARTOLA. Cartola. Rio de Janeiro: Discus Marcus Pereira, 1976. Faixa 1. 1
Disco de vinil.
CHACINA da Candelária. Wikipédia. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org/wiki/Chacina_da_Candel%C3%A1ria> Acesso em: 26 nov. 2008.
BLUMER, Herbert. A massa, o público e a opinião pública. In: COHN, Gabriel. (Org.) Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978. p. 177-186.
DICIONÁRIO Oxford Escolar: para estudantes brasileiros de inglês. Oxford: Oxford University Press, 2007.
EDILENE matou movida pelo ódio: estudante levou faca escondida na cintura para matar a colega Soraya Marinho. O Liberal, Belém, 19 jun. 2008. Caderno Polícia, p. 02-03.
ENTENDA o caso João Hélio. O Dia Online. Disponível em: <www.odia.terra.com.br/rio/htm/entenda_o_caso_joao_helio_149430.asp> Acesso em: 26 nov. 2008.
ESCOLAS vivem com medo da violência: assaltos, invasões e até morte viraram realidade para alunos da rede pública. O Liberal, Belém, 02 set. 2008. Caderno Atualidades, p. 04.
HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: entre a facticidade e a validade, v. 2. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro:1997.
JORDY, Arnaldo. Das sombras para a escuridão? O Liberal, Belém, 21 jun. 2008. Caderno Atualidades, p. 02.
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[1] No dia 20 de abril de 1999, os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold invadiram o Instituto Columbine, onde estudavam e assassinaram 12 colegas e um professor, além de ferir mais 23 pessoas. Em seguida, os jovens de, respectivamente, 18 e 17 anos, se mataram. Uma das possíveis motivações para o massacre arquitetado pelos rapazes está no fato de serem ótimos alunos, de boas famílias, mas ridicularizados pelos colegas e sem popularidade entre eles.
[2] No dia 07 de fevereiro de 2007, no Rio de Janeiro, o menino João Hélio de seis anos foi morto por dois ladrões que roubaram o carro da mãe dele. Preso ao cinto de segurança do carro, o menino foi arrastado pelas ruas por sete quilômetros, durante 15 minutos.
[3] Em Santo André, a estudante de 15 anos Eloá Pimentel foi mantida refém por 100 horas no apartamento onde morava com a família, pelo ex-namorado Lindemberg Alves, de 22 anos. Motivado por ciúme, Lindemberg acabou dando um desfecho trágico ao seqüestro, assassinando a ex-namorada no dia 17 de outubro de 2008, depois de quatro dias de cativeiro.
[4] Marielma de Jesus Sampaio tinha 11 anos quando saiu de Vigia, interior do Pará, rumo a Belém, para servir de babá na casa de Ronivaldo Furtado e Roberta Sandreli Rolim. Quatro meses após a mudança, sem que a promessa do casal à família de Marielma tivesse sido cumprida – a menina estudaria na capital –, ela foi espancada, torturada e assassinada por Ronivaldo e Roberta.
[5] Na madrugada de 23 de julho de 1993, seis menores e dois maiores sem-teto foram exterminados por policiais militares próximo à Igreja da Candelária, no centro histórico do Rio de Janeiro.
[6] Entre 1989 e 1993, dezenove meninos, entre oito e 13 anos, foram seqüestrados, em Altamira, no Pará. Nove deles foram seviciados, torturados e emasculados – desses nove, seis morreram; cinco meninos conseguiram fugir dos seqüestradores; e os outros cinco continuam desaparecidos.
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oi.. não vou dizer que li todo o teu artigo, até porque no meio dele me lembrei de um caso que aconteceu aqui na minha cidade e vi comentar… achei que esse caso que podia ser utilizado como exemplo também, foi bem menos trágico e aconteceu numa escola privada, mas de certa forma trouxe (por um tempo) a preocupação do bullying para a mídia e, principalmente, para os pais…
de todo modo parabéns pela nota e bom final de ano !!!
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