Ah, Jorge, amado…
Por Luciana | 01/01/2011, 10h10
Cidade da Bahia: onde o impossível é o mais provável.
Fui a Salvador em agosto. Estudar, acredita? Liguei duas semanas antes pra Fundação Casa de Jorge Amado e pedi que eles separassem o material que tivessem acerca das mulheres amadianas da chamada fase social do autor.
Pois bem.
Cheguei, atravessei léguas do aeroporto até o hotel, deixei a bagagem, tomei um banho e fui para o Pelourinho.
(E revi o mar de Salvador em plena Praça Castro Alves, aquela que é do povo como o céu é do avião).
Fui para o Pelourinho de relógio, de escapulário, de bolsa, de máquina fotográfica, de Lua sorrindo. Nada aconteceu. Muito aconteceu.
Aconteceu que foi só colocar os pés naquele lugar e os versos de O que será, do Chico Buarque, começaram a dançar na minha cabeça.
Aconteceu que uma baiana amarrou uma fitinha azul no meu braço e me concedeu três pedidos – e repeti os pedidos feitos em 2005, em uma fitinha vermelha que só arrebentou dois anos depois…
Aconteceu que assim que entrei na Fundação Casa de Jorge Amado comecei a chorar. O mesmo choro de agora, leitor, ao escrever essas linhas da minha emoção.
Entrar ali naquela casa é, além de reencontrar Jorge e os personagens dele que eu tanto amo, reencontrar minha professora de Literatura do colégio, da faculdade, da vida; reencontrar a mim em tantas fases, fixada a tantos livros e aventuras desenhadas nesse cenário.
Quis ficar. Olhei ao redor e quase peço por favor um trabalho ali. Poucas vezes estive em lugares onde genuinamente desejei trabalhar como ali.
Enfim.
Me encaminhei pra sala de pesquisa que eles mantêm e logo me entregaram os livros que acharam que tinha a ver e selecionaram pra minha pesquisa.
Aí veio a parte mais linda e surpreendente de todas: em meio aos livros e recortes de jornais e revistas estava o livrinho querido que a UNAMA publicou há uns anos com o meu TCC sobre… Jorge Amado.
De acordo com a mocinha que me atendeu, foi o trabalho que melhor falava da menina Dora, de Capitães da areia, que ele encontraram.
Eu sorri e disse que aquele trabalho eu não precisava ler porque eu tinha escrito. E contei como ele foi parar lá: em uma feira do livro de Belém, Paloma Amado e Zélia Gattai receberam das minhas mãos aquele trabalho, para que fosse levado para a fundação – coisa que naquele momento vi que fizeram.
Subir e descer as ladeiras do Pelourinho, comprar chinelos coloridos e um vestido de chita pra fazer de conta que entrei nos livros de Jorge, estudar entre o cheiro do acarajé e o som do Olodum mirim – todo um cotidiano de dias que eu queria por anos.
No último dia, foi a voz da Nana Caymmi que entremeou meus estudos na fundação. A música vinha do rádio do dono da lojinha na lateral do prédio azul onde tudo que se respira é Jorge Amado. E Nana cantava aquela música que diz “quem te implora é a outra Maria / a Maria qualquer, a Maria aprendiz / eu também quero ser / quem não quer? / quero ser feliz”. Era tão eu essa música naquele momento: aprendiz e feliz.
Quando me despedi da mocinha da biblioteca ela me disse que eu não esquecesse de enviar a minha dissertação para eles quando ficasse pronta. Eu respondi que pretendia ir entregar pessoalmente dali a um ano e meio.
Saí da fundação e onde fui? Procurar alguém que jogasse búzios pra mim, ora!
E a dona menina mãe de santo falou, entre outras coisas, que eu sou filha de Oxossi e que certas coisas iam acontecer em breve e – diante do meu olhar incrédulo – que eu voltaria em breve para contar a ela que as tais coisas tinham acontecido mesmo. Fiquei balançada quando ela falou isso porque tinha acabado de dizer na fundação que voltaria logo, logo a Salvador…
Enfim.
Ela falou também que meus olhos são tristes. Eu sorri e confirmei, citando Vinicius de Moraes e Roberto Carlos: ‘é claro que te amo e tenho tudo para ser feliz, mas acontece que sou triste’ e ‘minha alegria é triste’, respectivamente.
Alberto Costa e Silva, no Seminário Acadêmico Internacional Jorge Amado – ao qual eu tive o prazer de ir em maio de 2010 – declarou que “o real se mescla ao maravilhoso; na verdade, o real É maravilhoso e esse é o grande assunto de Jorge Amado”.
Eu não sou nem quero ser feliz todo dia, toda hora. Mas eu acredito muito nesse lance do real ser maravilhoso. Depois que o Costa e Silva verbalizou isto, eu entendi que pra mim também o real só faz sentido se for maravilhoso.
Vai ver que é daí que vem esse amor por Jorge Amado.


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2008 - 2013 
2 comentários em “Ah, Jorge, amado…”
Achei fantástico ver que as personagens de Jorge Amado dão nomes para as ruas de Salvador, achei demais.
Andando pelo Pelourinho, entrei em um lugar porque vi uma escada de madeira, antiga, muito linda. Haiva uma plaquinha que dizia “Aqui morou Jorge Amado quando estudante, enquanto escrevia Suor”.
Quase infartei.
Era A escada de Suor.
Tudo é divino, maravilhoso,
nada é secreto, nada é misterioso.
O mundo é uma coisa muito boa.
E eu consegui misturar Caetano, Belchior e Eva no mesmo comentário, pra voce, por sua causa.
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