Oi pai, tudo jóia? Aqui comigo tá tudo certo. Esse ano aconteceu umas coisas boas: passei as férias em Ilhéus, estou pensando em voltar a escrever pra valer e os amigos se multiplicaram.
Uma vez, um conhecido perguntou o que eu faria se tivesse uma máquina do tempo e eu disse que voltaria até você, nem que fosse por cinco minutos. Sabe o que ele disse? Que estava falando dos grandes acontecimentos! E eu peguei e ri na cara dele porque afinal ele não sabe nada de nós dois, nem nunca passou um dia dos pais sozinho.
Se bem que, afirmar isso seria bobagem minha porque você sempre está comigo mesmo, desde que eu aprendi a te renascer no meu coração. E sei que nem eu nem o meu irmão somos iguais a você, mas com certeza você faz parte disso tudo que somos.
O emprego, os problemas, as conquistas já vieram aos poucos, mas talvez eu ainda seja a mesma garota que você conheceu. Com o cabelo mais curto, ainda desafinada, um livro de poemas bobos e uma felicidade mais consciente sobre os acontecimentos.
São tantas as notícias – aquilo tudo que me faz rir ou chorar. Contar que continua a chover toda tarde na tua cidade, que agora é mais difícil de acompanhar as novelas, que parei de roer as unhas, que minha cor favorita não é mais verde e sim, azul, e que o meu brigadeiro continua a ser o melhor da galáxia!
Eu quero conhecer a Grécia, morar em Beagá, ter calma. Às vezes acho que brigaríamos demais hoje, todavia te quereria do mesmo jeito.
Morro de saudade e não quero mais escrever! Quero você como se tivesse cinco anos de idade e pouco importa a racionalidade cinza do computador – nossa ternura é branca, pai.
E não culpo ninguém, não sou rebelde, não dou tanto trabalho à mamãe. Seria hipócrita se dissesse que sobrevivo. Não! Eu vivo, vivo, vivo plenamente.
Sei que você está em qualquer lugar melhor que aqui, e se demoro tanto assim é porque vaso ruim não quebra fácil e, além do mais, falta aprender a dirigir, fazer um curso de fotografia, passear pelo Cairo, ser adulta enfim.
Hoje era pra ser o dia da nossa tragédia, contudo resolvi te escrever e encher você de beijo e abraço e amor, sendo mais feliz do que nos outros anos.
Eu te amo. Você é o meu paizinho e eu te amo. Vê se me escreve também. A gente ainda mora na rua da poesia e esse ano as flores da varanda estão mais bonitas.
PS – Essa carta foi escrita no dia dos pais de 2005. Para o meu pai, claro. Algumas coisas mudaram, mas a saudade continua igual.
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Que saudade bonita!
Dona Lu…Doce como sempre.
Beijos carioca pra você.
Felicidades…
[...] Quatorze do oitavo de dois mil e cinco aqui – Agridoce [...]
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