porque eu sou um agridoce de menina…

Terça agora, eu estava com uma daquelas frases de efeito no MSN: “Um minuto de silêncio para Michel Melamed“.

Michel Melamed está dando vida a Dom Casmurro e Bento Santiago (ele denominou assim no blog dele e quem sou eu pra dizer o contrário?) e eu estou simplesmente encantada com ele.

Sexta passada já tinha visto uma entrevista dele e da Maria Fernanda Cândido (horrorosamente linda) no Programa do Jô e mais do que as belas chamadas para a microssérie, o papo dos dois me convenceu a ver Capitu.

Na boa, a microssérie tinha mais era que chamar Dom Casmurro mesmo porque aquele lance do narrador passear pela cena foi exatamente o que me pegou.

Enfim.

Conversando com uma amiga, ela falou que já conhece o Melamed há tempos, dos trabalhos como poeta e ator de teatro – ele também tinha um programa na TVE, coisa que fiquei sabendo pelo blog dele e que a Carol que faz Jornalismo comigo confirmou.

Minha amiga então me mostrou um poema dele que, coincidentemente, chama-se P/ Luciana. Ou seja, foi escrito para uma moça com o mesmo nome que o meu.

Leia:

“no nosso último jantar

sentamos à mesa e comemos em silêncio (o próprio)

bebemos vinho e não brindamos

só se brinda quando existem planos

naquela noite, naquela mesa

nosso último jantar era a única certeza

alguém que porventura bisbilhotasse nossa janela

veria talheres e copos flutuando sobre as velas

no nosso último jantar

sentamos à mesa e comemos transparentes

alguém que porventura bisbilhotasse nossa janela

veria a comida sendo digerida dentro da gente

no nosso último jantar

sentamos à mesa e carcomemo-nos

alguém que porventura bisbilhotasse nossa janela

nos veria por muito pouco tempo.”

É um poema melancólico, dentro do que convencionei chamar de melancólico: tudo aquilo que é triste e lindo ao mesmo tempo.

Foi quando lembrei de um texto antigo meu, sobre separação. Eu tinha me separado do melhor rapaz do meu mundo e acreditava que seria pra sempre – ainda bem que existe uma palavra bonita no dicionário chamada reencontro…

Enfim. O texto de três anos atrás. Com um poema também, só que do Affonso Romano.

***

Mesmo quando não há mais nada a ver, mesmo quando um já não gosta do outro, separação é algo difícil. É não ter muita coragem pra tirar aquela foto do porta-retrato; é ter que, inevitavelmente, ver o que é realmente seu e o que é realmente dele; é ter que explicar para os amigos o que você ainda não consegue direito entender. É quando você se pergunta o que fazer com aquela “nossa” música; com aquele apelido bobo e lindamente íntimo; com todos aqueles planos e sonhos de que tudo-vai-se-ajeitar-se-deus-quiser.

Uma vez eu vi um casal de novela se separando e ele levando debaixo do braço o álbum de figurinhas do filho, explicando cheio de dedos que só guardaria com mais zelo, mas que era do filho. E ela disse: “Leva, o álbum sempre foi mais seu do que dele”. Ela dizer isso me soou como uma prova de intimidade tremenda que, ironicamente, estava se dissipando naquele momento.

Em um antigo dia dos namorados comprei dois CDs iguais, um para mim e um para meu namorado na época. Eu não sabia, mas aquilo era um sinal de que caminhávamos para uma separação. Quando ele soube, disse entristecido: “Mas para que dois, se eu te emprestaria o meu, e depois ficaríamos juntos até que fosse teu também?” E doeu ter premeditado involuntariamente o nosso desenlace.

Quando de fato nos separamos – a separação mais comovente do mundo – doeu menos. Um de nós disse: “Espera aí, não vamos chorar não. Tem um poema do Affonso Romano, chamado Separação, que eu quero ler pra você agora. Ele é melancólico, mas a gente sempre leu poemas um pro outro e sempre cantou desafinado um pro outro, então vamos terminar assim.” E assim foi.

Depois de tempos sem nos falar, contei pra ele o que um ex mais recente tinha feito: devolvido todas as cartas, cartões, poemas de pé quebrado, livros, CDs, roupas e tudo mais. Uma das piores sensações: um amor devolvido como quem diz “não tem espaço mais lá em casa nem pra recordar o que vivemos”.

Meu ex do poema do Affonso Romano, num lance de jogo do contente comigo, disse que jamais faria isso! Que se mudou recentemente, mas que preservou todas as minhas cartas e poemas e cartões, porque aposta que um dia serei uma escritora muito famosa e que o espólio dele valerá milhões! Ai, ai.

Enfim. Um pouco de Affonso Romano, um pouco de mim, um pouco de você, um pouco de cada uma das pessoas incríveis (e das não tão incríveis assim) das quais já tivemos ou teremos que nos separar.

***
“Desmontar a casa
E o amor. Despregar
Os sentimentos
Das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
Após a tempestade
Das conversas.
O amor não resistiu
Às balas, pragas, flores
E corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros,
Discos e remorsos.
Esperar o infernal
Juízo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
Ante os destroços junto à porta:
- Pareciam se amar tanto!
Houve um tempo:
Uma casa de campo,
Fotos em Veneza,
Um tempo em que sorridente
O amor aglutinava festas e jantares.
Amou-se um certo modo de despir-se
De pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
Modo de botar a mesa. Amou-se
Um certo modo de amar.
No entanto, o amor bate em retirada
Com suas roupas amassadas, tropas de insultos
Malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
No quarto dos filhos
Outra derrota à vista:
Bonecos e brinquedos pendem
Numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora
Envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo.
Um corpo sai porta afora
Com pedaços de passado na cabeça
E um impreciso futuro.
No peito o coração pesa

Mais que uma mala de chumbo.”

Luciana
  1. claudia lyra Said,

    Ah, Lu… separação… que coisa…
    Você tem razão quando pergunta o que se faz com toda aquela intimidade adquirida. O que se pode fazer com os apelidinhos, com o jeito de olhar, com a maneira de se abraçar por trás quando o outro está sentado na frente do computador?
    Eu ainda não sei, Lu…

  2. Ma Said,

    Achei interessante a re-leitura de Dom Casmurro, mas confesso que achei-a um tanto quanto psicodélica…

    Já separação… é sempre triste… Esse ano, uma amiga separou-se de um namorado (que eu achava muito legal, mas ela não) e eu fiquei triste… vê se pode?!

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