Agridoce

porque eu sou um agridoce de menina…

Por Luciana | 11/03/2011, 15h29

Oi.

Eu parei no meio de um texto sobre a Lívia, mulher do Guma, de Mar morto, pra escrever pra você.

Você sabe, né, que tô escrevendo um trabalho sobre umas personagens femininas do Jorge Amado?

Eu de vez em quando falo com as pessoas que me cercam sobre esse trabalho e elas sorriem sem entender.

Lembrei que você entenderia porque você leu esses livros todos que tô analisando. Você viajava pro meio do mato e levava os livros da nossa coleção.

Os mesmos livros, agora surrados, que tenho ao meu redor nesse momento. Eles estão todos rabiscados, cheios de anotações e de páginas viciadas. Desculpe, tudo culpa minha.

Eu podia agora te mandar meus textos pra ver o que você acha e a gente ia poder conversar. Eu acho que você já estaria aposentado e teria tempo.

No final, a Lívia vira mestre de saveiro, lembra?

Tá difícil aqui.  

Beijo,

Ah, Jorge, amado…

Por Luciana | 01/01/2011, 10h10

Cidade da Bahia: onde o impossível é o mais provável.

Fui a Salvador em agosto. Estudar, acredita? Liguei duas semanas antes pra Fundação Casa de Jorge Amado e pedi que eles separassem o material que tivessem acerca das mulheres amadianas da chamada fase social do autor.

Pois bem.

Cheguei, atravessei léguas do aeroporto até o hotel, deixei a bagagem, tomei um banho e fui para o Pelourinho.

(E revi o mar de Salvador em plena Praça Castro Alves, aquela que é do povo como o céu é do avião).

Fui para o Pelourinho de relógio, de escapulário, de bolsa, de máquina fotográfica, de Lua sorrindo. Nada aconteceu. Muito aconteceu.

Aconteceu que foi só colocar os pés naquele lugar e os versos de O que será, do Chico Buarque, começaram a dançar na minha cabeça.

Aconteceu que uma baiana amarrou uma fitinha azul no meu braço e me concedeu três pedidos – e repeti os pedidos feitos em 2005, em uma fitinha vermelha que só arrebentou dois anos depois…

Aconteceu que assim que entrei na Fundação Casa de Jorge Amado comecei a chorar. O mesmo choro de agora, leitor, ao escrever essas linhas da minha emoção.

Entrar ali naquela casa é, além de reencontrar Jorge e os personagens dele que eu tanto amo, reencontrar minha professora de Literatura do colégio, da faculdade, da vida; reencontrar a mim em tantas fases, fixada a tantos livros e aventuras desenhadas nesse cenário.

Quis ficar. Olhei ao redor e quase peço por favor um trabalho ali. Poucas vezes estive em lugares onde genuinamente desejei trabalhar como ali.

Enfim.

Me encaminhei pra sala de pesquisa que eles mantêm e logo me entregaram os livros que acharam que tinha a ver e selecionaram pra minha pesquisa.

Aí veio a parte mais linda e surpreendente de todas: em meio aos livros e recortes de jornais e revistas estava o livrinho querido que a UNAMA publicou há uns anos com o meu TCC sobre… Jorge Amado.

De acordo com a mocinha que me atendeu, foi o trabalho que melhor falava da menina Dora, de Capitães da areia, que ele encontraram.

Eu sorri e disse que aquele trabalho eu não precisava ler porque eu tinha escrito. E contei como ele foi parar lá: em uma feira do livro de Belém, Paloma Amado e Zélia Gattai receberam das minhas mãos aquele trabalho, para que fosse levado para a fundação – coisa que naquele momento vi que fizeram.

Subir e descer as ladeiras do Pelourinho, comprar chinelos coloridos e um vestido de chita pra fazer de conta que entrei nos livros de Jorge, estudar entre o cheiro do acarajé e o som do Olodum mirim – todo um cotidiano de dias que eu queria por anos.

No último dia, foi a voz da Nana Caymmi que entremeou meus estudos na fundação. A música vinha do rádio do dono da lojinha na lateral do prédio azul onde tudo que se respira é Jorge Amado. E Nana cantava aquela música que diz “quem te implora é a outra Maria / a Maria qualquer, a Maria aprendiz / eu também quero ser / quem não quer? / quero ser feliz”. Era tão eu essa música naquele momento: aprendiz e feliz.

Quando me despedi da mocinha da biblioteca ela me disse que eu não esquecesse de enviar a minha dissertação para eles quando ficasse pronta. Eu respondi que pretendia ir entregar pessoalmente dali a um ano e meio.

Saí da fundação e onde fui? Procurar alguém que jogasse búzios pra mim, ora!

E a dona menina mãe de santo falou, entre outras coisas, que eu sou filha de Oxossi e que certas coisas iam acontecer em breve e – diante do meu olhar incrédulo – que eu voltaria em breve para contar a ela que as tais coisas tinham acontecido mesmo. Fiquei balançada quando ela falou isso porque tinha acabado de dizer na fundação que voltaria logo, logo a Salvador…

Enfim.

Ela falou também que meus olhos são tristes. Eu sorri e confirmei, citando Vinicius de Moraes e Roberto Carlos: ‘é claro que te amo e tenho tudo para ser feliz, mas acontece que sou triste’ e ‘minha alegria é triste’, respectivamente.

Alberto Costa e Silva, no Seminário Acadêmico Internacional Jorge Amado – ao qual eu tive o prazer de ir em maio de 2010 – declarou que “o real se mescla ao maravilhoso; na verdade, o real É maravilhoso e esse é o grande assunto de Jorge Amado”.

Eu não sou nem quero ser feliz todo dia, toda hora. Mas eu acredito muito nesse lance do real ser maravilhoso. Depois que o Costa e Silva verbalizou isto, eu entendi que pra mim também o real só faz sentido se for maravilhoso.

Vai ver que é daí que vem esse amor por Jorge Amado.

Das bobagens mais ternas

Por Luciana | 26/07/2010, 10h00

A Suely Maria é a minha orientadora. A conheci por sugestão – mais que certeira – da Miriam – uma das moças mais delicadas que conheço na vida.

A Miriam falou pra mim que a Suely era a professora que sabia TUDO de feminino e que seria uma boa conversar com ela sobre meu projeto.

Quando disse que a Miriam tinha dado a indicação e repeti o lance de saber TUDO de feminino, ela deu um sorriso mineiro e disse que então não precisava eu estudar mais nada de feminino já que ela já sabia de tudo sobre!

Ela é uma querida.

Disse que meu projeto sobre as figuras femininas amadianas a interessava e que aceitava me orientar. Só pediu que eu me inscrevesse na turma da aula de metalinguagem poética que ela ia ministrar, para que nos conhecêssemos melhor.

Pois bem.

Em Beagá, quando uma mulher é muito fina, educada, delicada, eles dizem que ela é uma dama. Posso dizer depois de dois, três meses que a Suely é definitiva e absolutamente uma dama. E fiquei muito fã dela nesse tempinho, apesar de saber que ela nunca vai ler esse texto, afinal, não entende nada, nadinha de mexer com Internet.

Bem, esse preâmbulo todo sobre a Suely é pra contar de um momento de agora a pouco.

Em uma das ultimas aulas que tivemos, analisamos uns poemas da Adélia Prado. Um chamado Clareira marcou em particular:

Seria tão bom, como já foi,
As comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
Pitando e rapando a goela. Os meninos
Farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida, ou inventei?
Eu gosto de metafísica, só pra depois
Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
Falar as falas certas: a de Lurdes casou,
A das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
As santas missões vêm aí, vigiai e orai
Que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
Quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
Pra eu sobreviver.

 

A Suely ilustrou bem a percepção que tinha do poema. Lembrou de quando o filho dela foi morar na França e uma vizinha sabiamente a aconselhou: quando escrever para ele – sim, ela escreve cartas até hoje pro filho – conte só bobagens.

Ora, como assim só bobagens? – ela indagou, intrigada.

Bobagens: quem casou, quem formou, quem fez, aconteceu… Conte só bobagens porque é disso que sentimos saudade quando estamos longe.

Ouvi essas palavras na sala de aula e meus olhos encheram. Era aquilo mesmo. Morro de saudade das bobagens que converso com minha mãe, à mesa da cozinha; deitadas juntas na cama; de frente pro rio, na praia; no carro, no rumo da venta.

Lembrei ainda agora do poema – e, por conseguinte, da Suely, aquela querida – porque estávamos, minha mãe e eu, comendo ludicamente o melhor caranguejo do mundo – o dela – na cozinha de casa, contando bobagens uma pra outra. Do meu curso, do trabalho dela, da minha casa, das minhas tias, do nosso cotidiano amorosamente entrecortado.

A clareira da Adélia inundou a cozinha aqui de casa e eu me vi com minha mãe sendo poesia.

Manaus – ir ou não ir

Por Luciana | 24/07/2010, 10h10

A pauta frequente da minha mãe ultimamente tem sido ir a Manaus. Depois de 23 anos, minha mãe quer fazer uma viagem familiar a Manaus.

Depois de desconversar de todas as formas e de sugerir milhares de outros destinos, tive que dar minha verdadeira opinião quando vi meu irmão topar a viagem numa boa, sem maiores questionamentos.

Abri sinceramente que não quero ir.

Se a Eva ler isso aqui, vai ficar magoada. Fabrizio idem. Mas não quero ir.

Vamos sofrer.

Foi na mesa da cozinha de casa que falei calmamente: não quero ir a Manaus porque vamos sofrer.

Minha mãe e meu irmão se entreolharam e riram. Disseram que não vão sofrer coisa nenhuma, que vão de boa, mas ninguém me pega pra essa viagem.

Minha mãe quer passar uma semana, dez dias por lá. Quer rever pessoas e lugares que fazem parte do nosso passado – aquele passado em que fomos mais felizes – e consequentemente do passado do meu pai – aquele cara que não está mais com a gente.

Vamos sofrer.

Tenho uma amiga em Beagá, a Anita, que me disse dia desses que teve uma época em que a casa dela era tudo o que ela queria ter. Era ela, o marido, os três filhos, o cachorro. Eram felizes.

Hoje, não que não sejam felizes, mas a casa está vazia. Os filhos não moram mais lá, o cachorro está cego e doente e, por ela, se mudaria com o marido pra um kitnet e gastaria a grana da casa em viagens – sendo feliz como acha que deve ser agora, aos 50 anos.

Pois bem. Essa sensação de “tudo o que queria ter” minha mãe deixou em Manaus. Ela nunca vai admitir, mas é como vejo e sinto. E não será voltando lá que vamos reencontrar isso.

Acho que essa sensação só conseguimos de volta de relance, vendo fotos antigas.

Tem uma foto que adoro da minha mãe. Na nossa casinha branca, a primeira que eles compraram. Ela está deitada no chão da varanda, de olhos fechados, sorrindo, curtindo aquela casa que era tudo o que ela queria ter, se deixando fotografar pelo cara que ela gostava.

Postei essa foto um tempo desses no Facebook e a legenda é “plena”. É dessa minha mãe que quero lembrar em Manaus, não dela chorando, com o nariz vermelhinho na ponta, triste porque não somos mais quem éramos.

Constatando

Por Luciana | 22/07/2010, 10h00

Quando meu pai morreu, a partir da morte dele, coloquei na cabeça que nada mais conseguiria me afetar.

Nenhuma perda poderia ser pior que aquela.

Muita coisa que eu perdi eu dei com os ombros e pensei facilmente (comodamente): Dane-se, meu pai já morreu e nada pode ser pior do que isso.

O grande erro é a comparação.

Nada realmente pode ser pior do que isso. Mas, que diabos, há que se admitir as perdas além dessa também.

Porque senão a gente endurece demais, sem direito a sofrer.

E eu quero ter direito a sofrer tanto quanto o direito a ser feliz. Direito às emoções que tiver que viver.

Essa constatação que pode parecer banal, é um grande começo aqui dentro.

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